O dia amanheceu cinzento em Clarence. As ruas que foram palco para os inúmeros participantes do grandioso Festival das Vinhas agora estavam vazias e sujas. Só havia algumas pessoas aqui e ali, que, ou retomavam seus afazeres cotidianos ou iam em direção a Blackfell Hollow para voltar para suas devidas casas. Algumas pouquíssimas tratavam de limpar as ruas, aproveitando para por a conversa em dia. Infelizmente, o hábito festeiro da cidade fazia com que fossem poucos os que tivessem responsabilidades maiores, como a de manter o lugar limpo. Esse era um dos motivos pelos quais Clarence, para muitos, era sinônimo de boemia e desleixo.

Sr. Laynon abriu a porta da relojoaria para observar o movimento, como era de costume. Cumprimentou alguns conhecidos e passou a refletir sobre o céu branco e frio: “Ainda bem que o clima não atrapalhou o festival”, pensou. E depois seus pensamentos pairaram sobre outros assuntos corriqueiros enquanto o homem esperava algum novo acontecimento chamar sua atenção. E este logo veio na forma de um viajante que subia calmamente a Avenida Athalie.

O relojoeiro, assim como o resto dos moradores da cidade, estava habituado a ver os mais diferentes tipos de pessoas, e por isso não se impressionava com facilidade. O que chamava a atenção naquele homem, entretanto, não era sua aparência em si, mas sim o enorme objeto que carregava pendurado nas costas. O vendedor não pôde distinguir com clareza o que era aquilo, já que estava em uma espécie de bolsa, mas a ponta que ficava visível remetia a extremidade de alguma arma de fogo poderosa. Sr. Laynon pareceu se aborrecer com isso. Não gostava de se envolver em problemas... Mas, tampouco se contentaria em ficar sem saber mais sobre o novo visitante.

E foi essa curiosidade que o manteve parado na porta da loja, mesmo estando extremamente preocupado com o bem-estar de seu estabelecimento e de si próprio. Descontava a ansiedade em seu velho companheiro relógio de bolso, que tinha a tampa aberta e fechada a todo o momento.

O relojoeiro não era o único a observar o viajante — os poucos transeuntes que estavam nas ruas também cochichavam ao passar por ele, mas este raramente percebia, ou se notava fazia questão de fingir que não, pois não se dava ao trabalho de desviar os olhos para qualquer pessoa no lugar. Tinha subido a rua com uma das mãos segurando a alça da bolsa no ombro, enquanto olhava indiferentemente para as lojas e tragava seu cigarro de vez em quando com a mais genuína tranquilidade.

Entretanto, toda sua indiferença rapidamente se desfez quando pareceu finalmente perceber o curioso relojoeiro que ainda o fitava. Sr. Laynon teria ficado ainda mais atordoado com essa troca de olhares, pois acabara até se esquecido de seu velho tique: levou um susto tão grande que simplesmente não conseguiu se mexer. A situação só veio a piorar quando o viajante virou-se em sua direção. Porque tinha que falar justo com ele? Ainda tentou se convencer de que não era nada demais, mas tudo que pôde fazer foi esperar imóvel, o homem parar na sua frente e perguntar:

– Será que poderia me dar uma informação? – ele pareceu sorrir, mas Sr. Laynon não conseguia acreditar nisso. Podia pressentir o problema de longe. E o que ele, um simples relojoeiro, poderia fazer?

– C... Claro, — respondeu assustado, costumava falar mais do que de costume quando estava nervoso – O que o senhor quer saber? É uma pena que não tenha vindo ontem para cá, o Festival das Vinhas foi realmente incrível, apareceram muitos artistas novos esse ano, e...

– Queria saber se você não tem um relógio de pêndulo antigo em sua loja. Um quebrado, possivelmente? – o viajante interrompeu do jeito mais educado que pôde.

– Err... Não, não. – respondeu Laynon. Pensar não estava sendo uma tarefa fácil, por isso havia simplesmente se esquecido do relógio sem ponteiros que doara ao temido Lorde Alistair. Tentou corrigir a fala ao se lembrar da transação do dia anterior, estava receoso de que o homem perdesse a paciência com ele:

– Ah não, espere! Vendi um relógio de pêndulo á Lorde Alistair noite passada. – depois tentou explicar – Mas é que ontem foi um dia tão movimentado, quase me esqueci. Não é todo dia em que se reúnem tantas pessoas na nossa humilde Clarence. Você vê, o próximo evento será mais ou menos daqui um mês, embora nas noites de sábado...

– Lorde Alistair, você disse? Ele mora por aqui? – interrompeu novamente o visitante

– Um pouco a oeste da cidade se não me engano, num castelo. Deve ser fácil achá-lo... – respondeu. Conforme os pensamentos voltavam para seus lugares o tique do relojoeiro voltava também, demonstrando que o período de estática estava passando. Pareceu-lhe que essa resposta tinha feito o homem decidir ir embora, e isso o deixou um pouco mais calmo.

– Obrigado. – respondeu o viajante, enquanto tragava o cigarro mais uma vez e se virava para retomar a caminhada pela avenida.

Sr. Laynon só recuperou o fôlego por completo quando o estranho já havia sumido de vista. Estava aliviado, assim como as pessoas ao redor, que agora podiam retomar suas tarefas que estiveram paradas durante todo o peculiar diálogo do relojoeiro. Algumas mais interessadas foram perguntar sobre o teor da conversa á Sr. Laynon, e pareceram ainda mais preocupadas ao saberem que falaram de Lorde Alistair, e que, em se tratando dele, Clarence com certeza teria problemas mais cedo do que se esperava.

Mas a cidade era como uma criança alegre e brincalhona, e nem o tempo acinzentado, nem o curioso viajante e nem mesmo Lorde Alistair poderiam destruir o bom-humor natural do lugar. Ao meio dia já havia uma quantidade considerável de pessoas nas ruas, que muito provavelmente acabavam de acordar, mas que agora coloriam o clima com seu movimento. Alguns homens iam caçar no bosque da saída oeste, e comentavam uma coisa ou outra sobre o velho castelo.

A estação de trem estava mais movimentada do que o normal, com apitos soando de hora em hora e com trens partindo a todo o momento para levar de volta os visitantes que vieram para o festival, embora muitos deles ainda fossem continuar na cidade durante toda a semana.

Uma enorme locomotiva parou em Blackfell Hollow desembarcando um grande número de passageiros. Desceu deste trem um grupo de pessoas com roupas escuras muito parecidas, e um homem alto que parecia guiar os demais. Ele vestia um casaco comprido de gola peluda e usava uma cartola que só o fazia parecer ainda maior. Ao chegar à estação se limitou a correr com os olhos por sobre o lugar e partiu andando sem se dar ao trabalho de virar o rosto para seus companheiros de viagem, ou para qualquer outra coisa em Blackfell Hollow.

Um rapaz de cabelos castanhos, sentado em um dos bancos de madeira da estação brincava com um baralho de cartas azuis. De vez em quando olhava para os trens que chegavam, mas nenhum parecia ser o que ele esperava, por isso continuava entretido com as cartas. Ao seu lado estavam jogados um casaco escuro e uma maleta, da qual acabara de tirar o baralho.

Parou por um momento para observar o grupo incomum descer do trem e depois que sumiram de vista, sorriu e começou a mexer nas cartas novamente. Desta vez movia as mãos com enorme rapidez, e após uns quatro ou cinco gestos, as cartas desapareciam e em seu lugar surgia uma perfeita dobradura de estrela dourada. Ele sorriu, era seu truque preferido.

...

Mais tarde, no outro lado da cidade Alistair se perdia em meio a enorme bagunça que fizera procurando um livro sobre o funcionamento de objetos mecânicos. Desde a noite passada, o relógio de pêndulo não saíra da marca de uma hora, e quando Alistair tentou remover o ponteiro maior que havia colocado, este pareceu tão ser imóvel quanto o pequeno, como se nunca tivesse estado longe dali. Os ponteiros tampouco se moviam a força para qualquer direção, e mesmo depois de encaixar de volta a lingueta no relógio, dar corda não surtia efeito algum.

Todos esses acontecimentos fizeram com que Alistair duvidasse do próprio conhecimento sobre relógios e outros objetos de engenharia, e por isso virava o castelo de ponta cabeça em busca da solução para esse dilema moral. Felizmente, ou neste caso, infelizmente, a biblioteca do castelo era vasta, com mais de três andares de estantes com livros. No meio de tantos encadernados seria impossível encontrar um livro específico se a biblioteca não estivesse em ordem. E era esse o problema de Alistair: a biblioteca não estava, nem nunca estivera completamente organizada.

A verdade é que um dos hobbies favoritos de Alistair era a leitura, principalmente porque tinha tempo de sobra para isso. Mas por ser completamente distraído, nunca colocava um livro que acabara de ler no lugar de onde havia tirado, e esse hábito com o tempo foi transformando a bela biblioteca em um completo caos literário. E agora por conta de suas buscas desesperadas havia livros acumulados por todas as partes: abertos, amontoados, jogados no chão, em cima de mesas e em baixo de estantes.

Alistair se enfiava no meio das prateleiras para tirar os exemplares esquecidos e, se depois de analisados eram recusados, podiam ser arremessados na pilha que havia se formado no centro da sala.

“Relógio, relógios... deveria estar na letra R...” pensava enquanto olhava a capa de um exemplar verde-musgo de título “Minas de ouro”. Talvez estivesse na letra M, de ‘mecânica’ então. Voltou algumas prateleiras para trás, mas tudo que pode encontrar foi um livro sobre a construção de violinos e outros títulos aleatórios que eram completamente irrelevantes em sua busca. Cansado, jogou-se de costas contra o lado liso de uma das prateleiras e escorregou até sentar-se em outra pilha de livros menor.

“Maldição” reclamou, agora todo aquele seu ânimo que havia se mantido desde de manhã havia dado lugar ao mais profundo desapontamento. Estava indignado por não ter conseguido consertar o relógio e por ser incapaz de entender o motivo. Não encontrar o livro só contribuiu para deixa-lo ainda mais deprimido.

Estava disposto a ficar lá sentando e dormir pelo resto da vida quando a campainha, que por muitos anos estivera silenciada, tocou. O barulho ressoou por todo o castelo, e Alistair não pôde deixar de se sentir surpreso. Esquecendo todo o conflito interno que vivia, levantou-se com ânimo renovado e saiu rapidamente pela porta dupla da biblioteca ainda pisando em alguns livros largados pelo chão.

No caminho, procurou encontrar o próprio reflexo para garantir que estava apresentável, e assim que colocou o cabelo de volta no lugar, dobrou as mangas ainda inexplicavelmente brancas, e tirou o pó das calças, diminuiu o passo, e quem o visse agora teria certeza de que estivera esperando alguma visita durante toda a manhã.