Montre - A Sinfonia do Tempo
10 Chave
“Hoje é o aniversário da Rainha e por isso estão preparando um grande festival em sua homenagem. Também apresentarão uma peça especial, então o Teatro estará lotado. A Rosa Escarlate é um dos grupos contratados para garantir a segurança do evento...”.
– A o quê? – interrompeu Alistair.
– A Rosa Escarlate — continuou Garret, que apesar da dificuldade da situação, sempre ficava feliz ao encontrar uma oportunidade para expor seus conhecimentos – É o nome atribuído a um grupo de “mercenários reais”, por assim dizer, formado por membros da antiga Guarda de Chamberlain. Eles são os privilegiados da Rainha, mas não trabalham para ela oficialmente, costumam aceitar outros serviços desde que sejam bem pagos. Ainda agem a favor do Duque quando é necessário, mas viver seguindo um homem que é considerado morto não é lá uma atividade muito lucrativa...
– E qual o tamanho desse grupo? – perguntou Lilet, imaginando que talvez aquelas pessoas pudessem não estar sob as ordens de Victor.
A resposta confirmou seu pensamento:
– Deve haver uma centena deles – disse Garrett – e estão divididos entre dois comandantes principais: Victor de Constance, como devem ter ouvido falar, e por uma mulher que eu desconheço. Provavelmente os que estão aqui hoje são vindos de sua parte, já que os assuntos políticos costumam ficar aos cuidados dela.
‘Ou seja’, pensou Lilet, “com sorte talvez ainda não tenham sido informados por Victor de nossa chegada. É possível que consigamos passar por eles sem sermos notados...”. Mas também estava certa de que uma casa ambulante chamaria a atenção. Ia falar sobre isso quando Alistair interrompeu outra vez:
– Bem, de qualquer maneira, acho melhor darmos meia volta, não temos nada para fazer nessa cidade... – disse ele, que também tinha ponderado sobre o assunto — Deveríamos voltar até Lady Catherine para perguntar sobre Astaroth. Eles pareciam se conhecer, e pelo visto não teremos sucesso sem ele.
– De mais a mais, ainda temos chances de encontrar alguma coisa na antiga mansão do Duque, se for necessário... – completou Crawford, que aprovara a ideia.
Iam entrar em acordo quando Garrett exclamou:
– Ah! Agora me lembro! Esperem até ouvir isso! – disse entusiasmado – Soube, há alguns dias, que haveria um grande leilão antes da apresentação da peça de teatro, para entreter os convidados durante a espera. Entretanto, as pessoas que comentavam sobre o assunto estavam descontentes com algumas das peças que seriam leiloadas: um antigo pote quebrado, que eles julgavam ter pouco valor, um espelho velho, e o pior de todos: um pedaço de ponteiro que alegavam ser mágico. Achavam que ninguém cairia nessa história de magia...
– O ponteiro que falta no relógio! – disse Lilet em voz alta para si mesma, mas depois se dirigiu aos colegas – Não acho que possamos deixar que caia nas mãos de Victor! Quem sabe o que qualquer parte desse relógio pode fazer!
Alistair concordou com a cabeça, embora não tivesse tanta certeza sobre a ideia de entrar em uma cidade guardada pela Rosa Escarlate (ou que quer que fosse) simplesmente para procurar um ponteiro de relógio.
– Realmente – disse Crawford, pensativo – Mas há uma porção de problemas com isso. Como acha que conseguiremos entrar em um evento desses para começar?
– Não se preocupem – disse Garrett, enquanto vasculhava uma de suas malas – Posso dar um jeito nisso para pagar a carona que me deram – e sorriu, tinha achado o que queria.
...
Sr. Laynon tinha pegado no sono, mas acordou de sobressalto devido a um súbito ruído vindo da janela.
– Ordens de Victor! – disse a voz do outro lado – Me ajude abrir, está emperrada.
O relojoeiro, como não quisesse causar nenhum problema que pudesse acarretar em mais tempo trancafiado, obedeceu sem nem mesmo pensar sobre o assunto. Quando a janela se abriu, Sr. Laynon pôde identificar uma figura conhecida:
– Ora, não sabia que trabalhava para Victor – disse ele – Me desculpe se causei algum infortúnio a vocês, não foi minha intenção... – acrescentou, tentando parecer o mais resignado possível, mas foi interrompido:
– Não se preocupe com isso – respondeu o homem – você tomou a melhor decisão que poderia ter tomado dando aquele relógio a Alistair. Mas vamos, antes que percebam que estou aqui... – disse, olhando para os lados para garantir que não estavam sendo vistos.
– Está me pedindo para fugir? – perguntou Sr. Laynon assustado. Agora percebia que o jovem não deveria trabalhar mesmo para a Guarda. Pensou então, que seria melhor se ficasse e esperasse como tinha sido dito para que fizesse, ao invés de sair às escondidas. Mesmo se fugisse Victor o acharia – Agradeço sua boa vontade para me ajudar, mas acho que seria melhor para minha própria saúde ficar aqui – disse então.
– Bem, sabe que logo descobrirão que mentiu – o homem deu de ombros – e mesmo que não descubram, você ainda terá problemas por ter perdido o relógio de vista, então acho melhor repensar suas opções...
– Menti? – foi só o que o relojeiro conseguiu dizer.
– Sobre Howell ter perguntado sobre o relógio em sua loja. Victor não vai gostar disso – disse o rapaz tentando parecer sério, embora estivesse sorrindo.
– Como sabe de uma coisa dessas? – disse Sr. Laynon, que não conseguia pensar direito.
– Porque, Howell sou eu – respondeu – e não me lembro de tê-lo visto antes de hoje.
O relojoeiro estava confuso como nunca estivera antes na vida: jurava estar vendo a pessoa com quem falara no dia seguinte ao Festival. Mas, mesmo assim, decidiu sair, visto que os argumentos a favor disso eram no mínimo bons.
...
– Quer dizer que a pessoa que falou comigo antes não era você? – perguntou Laynon, se ajustando no banco da carruagem. Pela janela podia identificar a fumacenta Cidade Central: estava bem longe de Clarence, para seu desgosto.
– Sim – respondeu Howell, que apoiava o cotovelo no beiral da janela.
– Poderia jurar que são a mesma pessoa... Então ele é seu irmão gêmeo? Que coisa... – pensou um pouco – E pensar que eu inventei esse nome e quase acertei – e riu.
Podia não parecer, mas Sr. Laynon, embora fosse um homem acomodado, ainda tinha dentro de si certo orgulho aventureiro que o fazia se sentir bem ao saber que conseguira fugir de pessoas tão importantes.
– Ouça bem — disse Howell então – vou deixa-lo em Neor, uma cidadezinha próxima daqui. Depois de uma semana poderá pegar um trem de volta para Clarence e esquecer todos esses problemas, não vão mais incomodá-lo.
Howell Blackwood, o primeiro Século, havia explicado de uma forma bem simplificada que não se tratava dele na loja, mas sim de seu irmão gêmeo, Oliver Blackwood, que parecia estar se divertindo ao tentar imita-lo nos últimos dias. Também disse para Sr. Laynon que era fácil notar a diferença, mesmo se estivessem vestidos iguais, já que Oliver usava o tapa olho do lado direito. Isso não pareceu exatamente simples para o relojoeiro, mas ele achou que tinha conseguido assimilar as partes mais importantes.
– O que você vai fazer? – perguntou então, motivado por seu costumeiro interesse nos assuntos alheios.
– Vou ver o que Oliver quer – respondeu Howell sorrindo – parece que está me convidando para procura-lo.
...
Os quatro viajantes acabavam de entrar na belíssima sala de teatro adornada em vermelho e dourado. Pessoas bem vestidas andavam de um lado para o outro, e eles próprios não deixavam a desejar. Lilet havia encontrado um bonito vestido preto que usava juntamente com um enfeite de rosas, itens que contrastavam bem com seus cabelos loiros. Alistair estava em um casaco azul-marinho e prateado que encontrara em uma das lojas mais caras da cidade. Lorde Crawford nem parecia o mesmo, de sobrecasaca preta e os cabelos penteados para trás. E por último, Garrett, que também estava bem diferente depois de tomado um banho e ter se vestido com suas melhores roupas — que contavam com uma camisa branca e um colete cinza como peças mais sofisticadas. Estavam se misturando perfeitamente bem.
Tinham deixado a oficina estacionada em um declive onde não fosse possível vê-la sem se aproximar, e depois, com a ajuda de Garrett, que já era conhecido por todos, conseguiram passar sem chamar mais atenção. Levaram algum tempo para construir a indumentária, mas logo se apresentaram no Teatro Nacional, prontos para fazer parte do leilão. Entretanto, até ali, não tinham encontrado a sala onde era dito acontecer o evento.
O dinheiro arrecadado para as roupas e a participação no leilão, tinha vindo em sua maioria, do próprio Crawford, que não era lorde sem motivo. Mas Alistair, Lilet e Garrett também contribuíram com o que tinham. Logo, estavam dispostos a gastar o que fosse necessário para tirar o ponteiro das vistas de Victor e encontrar rapidamente um meio para destruir o relógio.
– Não tem mesmo ideia de qual sala é a do leilão? – perguntou Lilet ao velho mecânico, embora já soubesse a resposta.
– Bem, como já disse, existem várias salas leiloando objetos hoje, teríamos que olhar em cada uma delas... – respondeu Garrett, suspirando. Era certo que teriam muito trabalho procurando por um objeto tão pequeno em um lugar gigantesco como aquele – Entretanto – acrescentou ele – acho que poderíamos pular as salas principais, já que provavelmente o ponteiro não será leiloado junto com peças importantes...
– Acho que conseguiríamos mais nos separando – sugeriu Alistair, de maneira distraída. Fazia muito tempo que não entrava naquele lugar e muita coisa estava diferente. Ainda assim, não podia deixar de admirar a construção grandiosa do Teatro, e por isso, sem perceber, dava apenas meia atenção aos colegas.
Apesar disso, sua ideia pareceu ter sido bem aceita, e logo cada membro do grupo seguia para uma direção diferente. Caso encontrassem o ponteiro estavam livres para gastar o que fosse necessário para consegui-lo.
Alistair ficou com a área sul — provavelmente a parte mais movimentada do lugar. Havia longos corredores decorados, escadarias e salas abertas, e era até mesmo complicado entender em quais delas estavam ocorrendo os leilões. Felizmente Alistair tinha experiência com esse tipo de assunto e não demorou a identificar um grande salão onde deixavam os itens do leilão principal à mostra. Deviam estar bem confiantes de que não sofreriam nenhum tipo de perda, pois só havia alguns poucos guardas de uniforme preto e vermelho de olho em todos aqueles objetos.
Lorde Alistair estava avisado que não deveria procurar nas salas maiores, mas como uma coroa chamasse sua atenção em uma das prateleiras, resolveu dar uma pequena avaliada nas coisas que estavam dispostas na sala. Nunca tinha visto um leilão como aquele, com uma variedade tão grande de objetos a venda — ficou encantado com alguns quadros e se perguntou por que alguém compraria um antigo galho seco de carvalho. Então, pensando na inutilidade daquilo, lembrou-se que o ponteiro também era algo relativamente inútil e talvez estivesse afinal, na sala principal.
Agora com mais atenção, olhou melhor os objetos dispostos. Viu vasos enormes, espelhos, estátuas e livros, mas nem sinal do que procurava. Já tinha desistido e estava saindo da sala quando notou uma estante de vidro onde ficavam os objetos menores e resolveu averiguar. Não foi fácil identificar o ponteiro brilhante, quase escondido atrás de um antigo pente de cabelos. Por pouco não o teria visto.
“Ótimo” pensou ele, sorrindo para si mesmo. Agora só precisava compra-lo. Como não conhecesse o funcionamento do Leilão Real resolveu perguntar para um dos guardas, que em resposta indicou um homem bem vestido, em pé ao lado de uma mesa, conversando com algumas mulheres de aparência aristocrática.
– Esse é um leilão restrito – foi o que o homem respondeu quando Alistair perguntou como deveria proceder para participar. Entretanto, vendo que o Lorde tinha ares de nobreza, pensou que talvez pudesse ser vantajoso ganhar a amizade de alguém importante. Para confirmar sua teoria, perguntou em seguida – Como é seu nome, senhor?
– Sou Alistair Delacoroix, mas me chamam de Lorde Alistair. – respondeu inocentemente. Entretanto, a parte do “lorde” fora o suficiente para o homem dispensar as mulheres que estavam com ele e oferecer uma proposta:
– Bem, veja só – disse — Como vejo que o senhor é um homem de bem, posso oferecer um lugar que foi abandonado pelo dono. Mas entenda que se ele aparecer, o senhor terá de sair...
– Não vejo problemas nisso... – respondeu Alistair – Qual será o preço?
O homem pediu uma quantia que, com certeza, seria mais que o dobro do que uma pessoa pagaria por uma entrada normal. Mas Alistair pareceu não se assustar, então ele prosseguiu:
– Existe um ‘porém’: só é permitida a entrada de pessoas acompanhadas nesse leilão. Para que sempre exista uma testemunha, compreende? – disse ele, enquanto tirava uma plaquinha com um número e a entregava para Alistair – A rainha sabe que as pessoas podem não se conter nesses eventos e perder fortunas, por isso criou essa regra, de forma que ninguém possa causar problemas mais tarde alegando qualquer coisa como não ter estado em seu perfeito juízo...
– Tudo bem – respondeu Alistair trocando o dinheiro pela placa – Estarei aqui. A que horas é mesmo o leilão?
– Daqui quinze minutos.
...
Lilet tinha ficado com a parte leste do Teatro, e depois de entrar em algumas alas, decidira parar em uma das portas para observar o que acontecia do lado de fora. Havia dois guardas de preto e vermelho conversando sobre qualquer coisa quando um terceiro chegou:
– Victor de Constance está vindo com alguns homens – disse o rapaz, que parecia ser jovem demais para um mercenário – Logo estarão na entrada da cidade, fiquem a postos.
“Perfeito” pensou Lilet. Nem ficara para ouvir o resto da conversa: saíra em disparada para avisar os companheiros que teriam de abandonar o lugar o mais rápido possível, ou com certeza seriam pegos. Atravessou alguns corredores e esbarrou em duas ou três pessoas. Onde eles poderiam estar? Seria dificílimo encontrar alguém em lugar grande e cheio como aquele. Lilet logo se arrependeu de ter concordado com a ideia de se separarem.
A pianista teve que parar de correr quando chegou a um grande salão de festas abarrotado de pessoas. Estava se dirigindo para as escadas quando deu de encontro com alguém. A batida dessa vez quase a derrubou e estava pronta para dizer alguma coisa mal educada (afinal quem anda tão depressa em meio a tanta gente?), quando percebeu que tinha esbarrado em Alistair:
– Ah, ótimo! – disse ele, segurando-a pelo braço e a fazendo andar antes que Lilet pudesse dizer alguma coisa. – Encontrei o ponteiro, mas temos que estar naquele leilão em cinco minutos – disse ele, apertando o passo.
– Não temos tempo para isso, Victor estará aqui em vinte. Isso se demorar... – protestou ela — Temos que avisar os outros, antes que... – mas se interrompeu, pois avistara no topo da escadaria uma figura conhecida, com um cigarro nas mãos e procurando ler alguma coisa em um mural – Veja, é Crawford! Vamos avisá-lo!
Alistair estava com pressa:
– Ei! Lorde Crawford! Aqui em baixo! – gritou, fazendo com que todos se virassem para olhar para ele. Crawford fez uma careta de desaprovação, mas vendo que Lilet também acenava, decidiu descer um pouco mais rápido. No mínimo, faria com fizessem silêncio.
– O que pensam que estão fazendo? – disse Crawford, cerrando os dentes – A ideia não era passarmos despercebidos?
– Não tínhamos tempo para subir lá, e assim o caminho ficou livre para você descer... – Alistair deu de ombros.
Lilet contou sobre Victor, e Crawford concordou em sair do lugar o mais rápido possível, mas Alistair ainda insistia no leilão que começaria em poucos minutos. Vendo que estavam perdendo tempo na discussão, o inventor decidiu:
– Faça o que quiser, mas esteja naquela praça em quinze minutos! – disse, apontando para o centro da cidade – ou então, vamos sem você.
Lilet aceitou ir junto com Alistair com a condição de poder sair quando quisesse, e Crawford foi procurar por Garrett. Sentaram-se nas cadeiras destinadas a eles quase ao mesmo tempo em que o leilão começava.
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