Notas iniciais
Desvaneio meu enquanto ouvia a música tema do ballet. Recomendo que ouçam enquanto leem: https://www.youtube.com/watch?v=Yql9X6J1UeA

Verona, século 15.

Um lobo uivou ao horizonte.

Enquanto a lua cheia iluminava o balcão a menina estava enrolada nos lençóis. Ele não aparecera naquela noite e ela não sabia o motivo.

Enquanto ela revirava na cama ele estava no morro, junto ao grande lobo cinzento. Suas asas abertas eram muito mais reconfortantes do que quando ele precisava escondê-las. Mas era necessário. Ela era a única a saber e seus pais já não o aprovavam, se o descobrissem ele não teria para onde fugir.

A fogueira seria seu destino, mesmo que o mais ardente fogo não o machucasse.

Mas o fato de ter que se distanciar dela lhe era como um soco nas costelas e ele sabia que ela ficaria arrasada.

Era um mal necessário.

O lobo uivou mais uma vez, fazendo vapor sair de sua boca.

"Vós não estás a me ajudar, sabia?" — ele reclamou. O animal o olhou desentendido.

Tantos séculos que ele já vivera completamente sozinho, obrigado a vagar pelo mundo.

Até que ele a viu, contemplando o céu estrelado no balcão. A garota mais linda. Não se importava com a idade, com a sua família, com nada. Era dela que ele precisava.

Passou a visitá-la todas as noites, exceto aquela.

Ela estava planejando algo. Uma fuga.

Iriam fugir para se casar.

Um novo uivado.

"Sei o que estás a pensar, que isso não dará certo. É o que estou a pensar também. Entretanto, quem sabe?"

O lobo o olhou.

"Ele sabe, porém não divirá comigo."

Ela acordou no meio da noite, arfando.

Um pesadelo, com seu amado. Ela havia encontrado-o deitado ao seu lado. Morto.

Demorou a se convencer de que era apenas um sonho e mesmo assim não conseguiu voltar a dormir.

Ouviu pedras batendo na janela de seu balcão e decidiu verificar. Seu amado estava lá.

Passaram toda a noite a conversar e ele contou sobre o plano de se casar.

Seria no dia seguinte.

Ela forjou a própria morte para fugir. Algo muito convincente.

Até demais.

Ele se matou com veneno, para assim se juntar a sua amada.

"Doce punhal, repousa tua lâmina fria em meu peito."

Um uivo de lamento pode ser ouvido ao horizonte.

Notas finais
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