Morel não esperava aquela ligação, na verdade ele sequer reconheceu o número e provavelmente iria ignorar se não fosse o habito de sempre atender.

“Quem fala?”

“Morel? Aqui é o Killua.”

Ele realmente não esperava aquela ligação, Killua havia diminuído o contato com eles gradualmente até o ponto em que se encontrava atualmente – inexistente.

Os poucos que ele e os outros sabiam eram por meio de Ikalgo que por acaso se encontrou com o rapaz. Ainda assim era pouca coisa e como sempre – para preocupação de todos – estava diretamente ligada com Gon.

“Killua! Como você está?”

“Estou bem, finalmente em paz... acho.”

Morel podia sentir uma incerteza na voz do rapaz.

“Não querendo ser rude, mas sendo bem direto. Está acontecendo alguma coisa? Você simplesmente cortou a comunicação conosco, algo deve ter ocorrido para retomar tudo assim tão de repente.”

Houve um silencio desconcertante e por um breve instante Morel temeu ter falado demais, questionado demais, afinal, Killua é um rapaz muito forte, muito determinado, mas muito emotivo.

“É o Gon...”

Sabia!

“O que tem ele?”

“Ele veio me visitar... nos visitar...foi bem de repente, sem avisos, não que eu ligue, mas ele está estranho.”

“Estranho como? Desde quando?”

“Eu notei algo errado enquanto conversamos no telefone e acabei citando Ikalgo, ele começou a falar umas coisas estranhas, mas é o Gon, ele tem seus momentos de birra, nada demais e eu resolvi ignorar...”

Morel já tinha noção do que Killua estava dizendo, Ikalgo mesmo havia entrado em contato com ele e com Leorio os informando sobre o teor estranho das conversas entre Gon e Killua, e ele mesmo já havia presenciado o como Gon tinha controle das ações de Killua — e desconfiava que o rapaz sabia disso.

“E?”

“Bem, ele veio me visitar...”

Morel não forçou nada, ele permaneceu em silencio esperando Killua lhe contar o que queria no ritmo que melhor achasse.

“...Até ai tudo bem, mas então ele passou a agir estranho, a exigir respostas, querer saber com quem ando e falo, ele já me... de noite ele...”

“Killua!? O que exatamente está acontecendo aí?”

Morel podia ouvir a respiração rápida, podia notar que o rapaz estava tentando não chorar.

“Ele sempre é tão animado, sempre me acompanhou, me salvou, me mostrou uma vida que eu não conhecia, e eu... eu estou duvidando dele, como é que posso fazer isso com ele?”

“O que você quer me dizer? Você precisa de alguma coisa?”

“Morel... eu... Gon, ele já intimidou duas pessoas, está tendo um comportamento bizarro com todos que se aproximam. Morel... eu vi aqueles mesmos olhos vazios direcionados a mim! Uma aura horrível que mal me deixava respirar...”

Aquilo era exatamente o que Leorio tanto temia e que havia tão claramente sido explicado para ele, mas ele ainda assim não entendia como aquilo estava acontecendo, todos sabiam que Gon era um bom menino, um bom rapaz, o que estava acontecendo, aonde as coisas começaram a ficar assim?

“Você não quer vir para cá?”

“Eu já estou indo, querendo ou não.”

“Como assim?”

“Eu já não tenho mais escolha, estarei ai amanhã, no máximo um dia depois.”

“O que aconteceu?”

“Alluka. Ou melhor Nanika.”

“Como? Você nos disse que Nanika não fazia pedidos para membros da família.”

“E ela não faz, isso significa que alguém lhe deu um comando, alguém de quem ela gosta.”

“Não me diga que você acha que foi o Gon?”

“Quem mais poderia ter sido, ele quer ir para YorkShin e ele quer que eu vá junto.”

Morel ficou preocupado – aquilo era grave, usar Nanika era perigoso e Gon devia saber dos riscos – aquilo em nada era diferente de apontar uma arma para Killua e ameaça-lo de morte caso não obedecesse.

Antes que ele pudesse dizer algo, ele ouviu uma voz familiar no fundo.

“Killua, voltei! Oh! Com quem você está conversando?”

“Que bom! Trouxe o que eu te pedi?...”

“Sim.”

“Obrigado, Gon.”

“E então, você não me respondeu. Com quem está falando?”

Após um breve silêncio...

“Com Morel.”

“Killua, você está bem? O que está acontecendo aí?”

“Killua está ótimo. Aqui é o Gon. E você Morel, como está?”

“Ah- aah, Gon! Como vai? Eu estou ótimo. Fiquei sabendo que vocês vão vir para YorkShin, fico feliz eu vou estar por lá também.”

“É mesmo? Que coisa, queríamos que fosse surpresa! Mas pelo visto Killua não se conteve né? Parece eu quando era mais novo. Hahaha”

As risadas e a voz aparentemente feliz e animada não o enganavam, pelo visto Gon não contava que Killua fosse informar alguém.

“Bem, já que foi dito, nós vemos amanhã no máximo depois.”

“Sim, estou ansioso.”

“Eu também, eu quero tanto rever todos, até lá então.”

“Espera, Gon. Eu queria falar com o Kill—“

E a ligação foi cortada na cara dele.

Morel não demorou nem um segundo sequer antes de pegar o telefone e ligar.

“Leorio, tenho novidades e preciso de você. Me encontre em YorkShin, amanhã.”

—--------------------------------------------------------

“Gon! Eu estava conversando com o Morel!”

Gon olhou para o telefone e depois para Killua, logo em seguida guardou o telefone de Killua consigo.

“Ei! É o meu telefone, devolve!”

“Não vou devolver! Você foi e saiu contando pra ele que nós íamos para YorkShin!”

“Ué, não estamos indo lá rever todos, e eu não posso avisa-los?”

“Não pode não. Eu que vou avisa-los, eu queria um dia só com você, mas agora você estragou tudo, vamos chegar lá e todos vão estar esperando, tumultuando tudo, tomando o nosso tempo.”

“Gon...!” Você quer um dia só comigo? De verdade? “Por que não me disse?”

“Era um segredo, uma surpresa pra você.”

Eu estraguei tudo? De repente ele só estava estressado arrumando as coisas. Por que não confiei mais nele? Já sei, vou recompensa-lo!

“Gon...Gon, me desculpa.”

Killua disse se aproximando, com o rosto vermelho e sem saber ao certo o que dizer ou fazer. Meio que sem jeito Killua abraçou levemente Gon, que após um momento de choque, retornou o abraço com bastante força.

Gon não disse nada, mas ele gostará daquela iniciativa de Killua, gostou de tê-lo tão perto de si, de sentir seu corpo, seu calor, seu cheiro. Tudo em Killua era encantador e ele sabia que era errado querer tudo aquilo só para ele, porém não fora ele que tirará Killua da escuridão? Não fora ele que trouxe a luz para Killua? Que permitiu que o mundo conhecesse aquele rapaz tão belo e de um coração mais belo ainda?

Ninguém conheceria o Killua de hoje, nem mesmo o próprio Killua, se não fosse ele.

Sendo assim, mesmo que fosse egoísmo, era justo querer Killua para ele.

Não era?

Gon afastou Killua delicadamente e falou com ele sinceramente.

“Não tem porque se desculpar. Eu que exagerei, tenho certeza que quando chegarmos lá vamos arranjar um tempo só para nós. Sem contar que você indo junto comigo, é como se fosse nos velhos tempos e isso já me deixa muito feliz.”

Gon pegou o telefone que tomará de Killua e esticou sua mão, devolvendo-o para Killua.

“Toma. Me desculpa por ser um babaca.”

Killua pegou o telefone de volta, seus olhos enormes e meio sem reação ele olhou novamente para Gon, desta vez em admiração.

“Você não precisava fazer aquilo para que eu o seguisse, você sabe disso, não sabe?”

“Eu sei, mas não sei dizer o porquê agi assim. Na verdade eu estava com medo, com medo de ficar sozinho novamente. Eu não sei o que faria sem você. Você é bom demais para mim, Killua.”

“Para com isso! Você tem muita cara de pau para ficar falando assim. Não fica com vergonha não?”

Killua disse desviando o olhar e coçando a cabeça, Gon sorriu para a cena e logo em seguida riu – aquilo era tão nostálgico, tão familiar.

“Claro que não, por que teria vergonha de dizer a verdade?”

“Baaaka!”

Killua disse dando um soquinho do ombro de Gon.

“Killua, por que não saímos para tomar um sorvete antes de buscar a Alluka?”

Killua sorriu com uma serenidade que o tornava mais belo ainda aos olhos de Gon.

“Claro. Vou lhe mostrar um lugar fantástico!”