Therese Vondergeist lamuriou através da parede de pedra e colocou sua mão etérea sobre a lâmina que ameaçava a sua filha. Ninguém havia percebido, a não ser a sua própria filha com seu dom especial para ver fantasmas.

-Mãe...-Spectra sussurrou, a palavra saindo instintivamente dos seus lábios.

Dartian, o futuro assassino da garota, ergueu uma sobrancelha e esperou algo mais consistente ser dito. O metal frio apertou a garganta dela e o ar ficou difícil de descer para os pulmões, a pele alva de Spectra estava por um triz.

-É bom me dar um motivo para não matá-la, estranha.

-Você está ameaçando a pessoa errada enquanto o assassino do seu pai está passeando lá fora. – Spectra tentou mexer o pescoço para trás, mas Dartian seguia seus movimentos. – Rindo da sua ignorância. — ela engoliu em seco.

-Como ousa?

Vlad segurou o ombro do rapaz a tempo, mas ele sabia que era difícil conter os ânimos do jovem. A mãe de Spectra chorava cada vez mais alto e seu pranto parecia em vão, jamais seria ouvida por aquele grupo de homens insanos, mas talvez chorando ela fizesse sua filha desafiar menos uma pessoa enfurecida.

-Lorde Tepes, ela é a única pessoa aqui que não conhecemos. De quem é que poderíamos suspeitar? – Dartian segurou Spectra pela gola do seu vestido moderno e pouco campestre, contrastando com as vestes de Draculaura e Alina.

-Dartian! Olhe o estado de Draculaura! Não quero traumatizar minha filha para saciar sua sede de vingança. –Vlad, deu sua mão para Draculaura erguer-se do chão onde ficou atônita enquanto tudo isso se passava. A garota segurou fracamente e se levantou olhando para o chão o tempo todo.

-Eu nunca vi este homem antes.- Spectra apontou para o corpo, tentava não olhar sua mãe sobrevoando a sua frente. Aquela não era a hora de se juntar a sua família morta, tinha que manter a calma e pensar em algo. O choro de Therese era como o tictac de um relógio, uma lamúria por segundo no seu ouvido. – Eu cheguei aqui há pouco tempo e...

-Mentirosa. –Alina, que abraçava o cadáver do marido e chorava, pôs se de pé com uma voz firme e cortante. – Lorde Tepes, ela mencionou o nome de Lurch antes de acharmos seu corpo aqui. Ela me disse...tenho uma pista de onde ele está, Alina. – a vingativa viúva imitou a voz de Spectra e andou até fincar seus olhos nos de Spectra.

-Nos dê permissão para honrar Lurch, Lorde Tepes. Deixe-nos matá-la. – Dartian pediu.

-Mesmo que não tenha sido ela, ela sabe quem foi...ela sabe...-Alina completou.

Vlad Tepes suspirou. Não era a morte que o incomodava, era a injustiça. Mas a vida estava repleta delas para que conflitos maiores não surgissem:

-Matem-na.

Vlad virou-se de costas levando Draculaura consigo e começou a andar com passos lentos para fora do lugar. Seus homens, a exceção de Dartian, fizeram o mesmo. A espada do jovem cavaleiro recuou para trás, para ganhar força suficiente para separar o corpo da cabeça de Spectra.

-NÃÃÃÃO! – Draculaura correu na direção de Dartian. Não sabia bem o que ia fazer. Tudo o que ela sabia era que Valentine era o culpado de tudo. Ela não conseguia dedurar o garoto que amava, mas não poderia ser tão covarde e correr o risco de ver sangue novamente em um espaço tão curto de tempo.

Surpreendentemente, a arma se voltou para baixo e Spectra se viu livre para escapar. Mas aquilo não foi obra de Draculaura. Dartian embainhou a espada na cintura, mais desajeitado do que um escudeiro com mal de Parkinson.

-Ninguém vai matar a minha filha. – Dartian pegou Spectra pelo braço e a abraçou com força. – Ela é uma menina de ouro.

Foi quando todos perceberam que a voz de Dartian, outrora grave, estava fina como a voz que Alina gostava de fazer quando imitava Spectra.

-Dartian? – Alina estranhou.

-Sim...mãe.

-O que houve com você, meu filho? O que ela fez com você?

Dartian soltou Spectra com um empurrão. A garota virou-se na direção da parede para não rir de alívio por ter sido salva. Se não ia morrer de verdade, estava torcendo para não morrer de vergonha quando Dartian começasse a falar.

-Nada. Apenas percebi que vamos matar uma pessoa tão jovem por nada e que preza tanto a família dela.

- O que você sabe sobre a família dela? – Alina fez uma careta de incrédula.

- O que importa é que não foi Spectra a assassina, Alina. Está óbvio que não. –Draculaura falou.

-Isso! – Dartian levou as mãos para cima, tentando manter a voz rouca e grave de antes. Era como assistir um péssimo ator em um papel dramático. – Deixem-na em paz. Agora eu percebi que a conhecia de algum lugar e tenho certeza que não foi ela! Ela? Jamais! Essa garota nunca quis dissecar sapos na escola de freiras onde estudava! Como pode querer matar alguém?

-Eu tinha cinco anos...-Spectra sorriu sem graça.

Dartian começou a mover a cabeça para cima e para baixo e seus olhos começaram a revirar. Ele gritou como um animal ferido.

-Meu filho, você está bem? – Alina tentou segurá-lo.

-MATEM! – ele gritou. – Não! Matem a minha sede! – ele gritou com a voz fina.

-Matem de vergonha...-Spectra falou para ela mesma enquanto andava cada vez mais para longe da confusão. Queria aproveitar aquilo para correr para a saída, se fosse preciso.

-Ela matou meu paaaai! – ele deu um tapa no próprio rosto e caiu ajoelhado. – Mãe...

Alina se ajoelhou diante do filho.

- O assassino do meu pai me fez querer matá-la para despistar todo mundo... Spectra vai nos ajudar. Agora, eu vou desmaiar. – era a voz fina do rapaz anunciando.

O corpo de Dartian caiu duro no chão.

-Mas que merda é essa? – um guarda de Vlad Tepes deixou escapar logo depois do desmaio do garoto.

Spectra viu o espírito de Therese tomar impulso para fora do corpo de Dartian e sorrir triunfante. A possessão havia dado certo e sua filha estava sã e salva.