Era uma masmorra úmida e escura, como toda a prisão deveria ser. Mas para Draculaura, no entanto, era apenas um lugar utilizado por seu pai para empilhar objetos velhos da família. Ela tinha certeza disso, pois passara anos da sua vida perambulando ali e revirando baús com roupas antigas.

Naquele momento, estava ofegando e se recompondo do susto que tomou com Spectra. Ela levou a mão até a testa e balançou a cabeça.

-Como sou boba...é claro que aquele morcego não era Valentine...

Suspirou.

A masmorra era composta de um longo corredor escuro com celas. Na primeira cela, a menos assustadora e velha, Vlad colocou todas as vestes antigas e objetos do clã Tepes. Assim, sua filha ficaria sempre em um lugar seguro. Ela tinha acabado de completar dez anos depois desta decisão do seu pai e, desde então, desistira de visitar as masmorras. Não tinha graça ser vigiada enquanto explorava coisas novas. Mesmo que essas coisas novas fossem vestidos de um lugar exótico chamado Scaris.

Fazia muito tempo que não pisava ali, mas ainda sentia o cheiro de mofo misturado com o perfume que colocara nas roupas durante sua infância. Abriu um baú e retirou um lindo vestido feito apenas de renda branca e um forro preto embaixo. Lala vestiu-se com ele e logo suas preocupações sumiram enquanto ela rodopiava em frente a um velho espelho empoeirado. Claro que todos os problemas voltariam logo mais para preocupá-la. Mas agora era só ela e os tesouros dos mortos da sua família.

Draculaura perdeu a noção do tempo. Vestiu-se com o vestido de renda, um capuz de seda cor de rosa, luvas de veludo negro e um brinco de cada tipo da coleção da sua bisavó. Estava procurando o espartilho ideal quando ouviu passos.

-Não se preocupe, Alina...ou Spectra...tanto faz... – ela jogou algumas plumas encardidas no chão enquanto procurava.

Os passos continuavam e ninguém respondeu. Era como se alguém arrastasse seus pés pelo corredor, mancando.

-Desculpe...se for Spectra. – Draculaura parou de mexer nas roupas um instante. – Desculpe mesmo.

Um vulto escuro passou atrás da menina e fez os passos pararem.

Valentine segurou os dois braços do homem e o fez parar de caminhar. Seu vulto era silencioso e, se ele quisesse, sem dúvidas também era mortal:

-Você não precisa dela, ouviu?- ele sussurrou para um homem doentio, com a pele do rosto colada ao crânio como um cadáver. – Tem o suficiente aqui.

-É diferente...o gosto que tem...o cheiro. — o homem arfava e sua voz era gutural. Seus olhos estavam fundos nas órbitas dos olhos, opacos e sem vida. – O cheiro dela parecia delicioso.

-Não. Ela não é para você. – Valentine falou firme e tentou fazê-lo se calar. Uma ponta de ciúmes transpareceu nos dentes cerrados dele enquanto falava. Ele ouviu Draculaura perguntar quem estava ali.

O homem mordeu vigorosamente a mão de Valentine que tapava sua boca. Suas dentadas eram famintas e queriam tirar sangue. Estava com sede.

Valentine não se abalou e continuou arrastando-o. Era como se não sentisse a dor mesmo com dentes pontiagudos lhe rasgando e uma besta se embriagando do seu sangue. Ele arrastou aquele monstro até a cela mais distante de onde Draculaura estava. Sim, ele faria de tudo para protegê-la.

-O que deu em você? – ele resmungou, jogando o corpo do monstro na cela e chutando-o na barriga. Finalmente, distante, poderia extravasar sua dor e fúria. Segurou a mão ensanguentada. Ele estava mais transtornado do que dolorido.

A criatura lambia os próprios lábios outrora rachados de sede. Era uma sensação inexplicável se sentir saciado. Queria mais. Queria viver bêbado de sangue.

O homem doentio segurou-se na perna de Valentine e tentou mordê-lo. O garoto chutou- o com violência repetidas vezes. Era repugnante alimentar um monstro como aquele.

-Você quer sangue, não é? – ele andou até o fim da cela e jogou um dos barris de sangue das masmorras no chão, furioso. – Eu vou te dar sangue, sua besta.

Valentine tremia e tinha uma expressão de ódio e desespero no rosto. Fez um furo no barril com uma faca e despejou litros de sangue na cabeça da criatura que sorriu maravilhada. O monstro levantou o rosto e esfregou as bochechas com o líquido vermelho. Lambia seus dedos e abria a boca para se deliciar com a chuva de sangue. Até que o sangue do barril acabou.

-Abra outro! Abra outro! – insistiu, seu olhar era insano.

Valentine o chutou no estômago e o fez cuspir sangue. Mas pouco importava, o homem ria e sentia tanta dor quanto Valentine. Vários chutes se seguiram até que as grades de ferro daquela cela se abriram e o garoto sentiu um golpe certeiro nas suas costas. Pelo cheiro doce, era Draculaura. Não pelo cheiro doce do seu perfume, mas do seu sangue.

-Valentine?! – ela não podia acreditar. – O que...o que está fazendo? – ela olhou para o menino ajoelhado, atordoado com o golpe. – Eu pensei que...Lurch?! – ela olhou para o homem lavado de sangue. – Oh...eu...eu...- ela levou as pequenas mãos até a boca e engoliu um choro que logo chegaria. – Você fez isso com ele, Valentine?

Valentine se recobrou e colocou-se de pé. Logo empurrou Draculaura para fora daquela cela com sua mão ensanguentada, sem dar respostas. Seu lindo vestido de renda branca tinha uma marca de mão sangrenta. Lurch lambia a própria pele morta e olhava para Draculaura como se ela fosse uma presa. O garoto fechou a grade com o monstro e ele próprio no interior da cela.

-Ele está doente, meu bem. Lurch está muito mal. – ele segurou nas barras de ferro e sorriu sem graça, para tentar acalmá-la.

Lurch puxou Valentine pela perna e mordeu seu tornozelo, fazendo-o cair. O garoto contorceu o rosto de fúria. Sem pensar muito, pegou a faca que utilizou para abrir o barril e fincou com força no peito de Lurch. Parecia não ter sido com força suficiente. Lurch ria.

-Pare! Vai matá-lo! O que deu em você? – Draculaura passou as mãos pelos cabelos e tentava não desmoronar ali.

Mais uma facada.

E outra e mais outra fazendo o sangue esguichar de dentro do doentio Lurch.

Finalmente ele ficou imóvel e a lâmina entrou inteira em seu coração. Valentine saiu da cela cambaleando. Era só um garoto, apesar de tudo. No seu rosto, suor e respingos do sangue de Lurch.

-Draculaura…ele estava doente. Você precisar acreditar em mim.

-O que… ele tinha?

-Eu não sei. – mentiu Valentine. – Tudo o que eu sei é que todos neste castelo ficarão doentes...Muito doentes. Mortos.

Draculaura não soube o que dizer.

-Você precisa fugir comigo.

Valentine segurou os ombros de Draculaura com força. Há instantes atrás ele era o amor da sua vida, mas não podia ignorar tudo o que viu ali. O que ela deveria fazer?