Monocromático
2 Capítulo II - Final
Notas iniciais
“Isso não iria prestar”
Foi o que Yuu pensou ao ver o seu esquadrão e o de Guren avançando, o último já armado.
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— MIKA! — Yuu gritara ao se colocar a frente do loiro quando viu que a espada de Guren estava a pouca distância de seu peito. A lâmina teria perfurado ambos, entretanto os instintos do loiro interviram rapidamente e, tomando Yuu em seus braços como fizera em Shinjuku, saltou ao menos dez metros de distância.
Os orbes azuis percorreram apressados pelo local, calculando uma rota de fuga, mas sua linha de pensamento fora interrompida pelo soldado de roupas pretas e vermelhas mais uma vez. Este já não vinha mais sozinho, agora também estava acompanhado de um rapaz de cabelos rosados do esquadrão de Yuu, também armado com duas lâminas médias.
O vampiro não podia fazer muito além de desviar dos golpes que lhe eram dirigidos, mas não poderia ficar muito tempo assim, estava começando a ficar cercado e sem saída, porque o resto dos humanos estava começando a se posicionar. Se continuasse assim, iria acabar sendo morto ali mesmo.
Tomando impulso, correu em direção ao rapaz de cabelos da cor de cerejeira, conseguiu passar dos ataques de suas lâminas por um fio e, quando já estava a alguns passos de distância o ouviu praguejar. Escutou a garota da foice correndo em sua direção, mas antes que sua arma chegasse ao encontro de seu corpo, saltou em direção a um amontoado de entulhos, lá desviou de flechas amaldiçoadas de um baixinho e saltou a tempo de fugir de um ataque de uma garota loira com uma espécie de machado enorme. Saltou por cima da cabeça da humana em direção a um prédio de dois andares.
— Oe! Mika! — Yuu queixou-se em seus braços. Ah, sim, Mika estava ignorando os protestos do moreno o combate inteiro. — Está tudo bem, me solta, eles não vão nos machucar.
Mikaela decidiu ignorar o rapaz mais uma vez. Ele sabia onde Yuu queria chegar, ele sabia muito bem e a resposta seria não. Os humanos não iriam deixa-lo viver, pois Mika era um vampiro, ou quase isso. Ele era um predador, um monstro. E a única humanidade que restara estava se retorcendo em seus braços, literalmente.
— Mika! — Yuu gritou, mas calou-se logo em seguida com a esquiva repentina do vampiro. Ele estava tão concentrado no loiro que não percebera o ataque vindo, dessa vez era Mito, uma das garotas do esquadrão de Guren, ela não possuía armas, lutava através de um feitiço que aumentava absurdamente sua força, fazendo com que conseguisse batalhar apenas com os punhos.
Vendo que estava sem muitas saídas, Mikaela fez o mais sensato.
Fugiu.
Yuu não gostou nem um pouco da proposta, mas não teve como negá-la. Ele tentou conversar e pedir para que o “amigo” parasse e voltasse para lá, mas nada parecia chegar aos seus ouvidos e logo soube que estava apenas gastando sua saliva. Mika não iria ouvi-lo. Fechou os olhos para se acalmar, rezando em silêncio para que seus amigos estivessem bem.
Quando o vampiro finalmente decidiu que já estavam longe e seguros o suficiente, parou em cima de um prédio de sete andares, mas, antes de colocar Yūichirō no chão, prestou o máximo de atenção que seus sentidos lhe permitiam para ter certeza absoluta que não havia nenhuma alma viva por perto.
— Mika, o que deu em você? Porque não me ouviu lá atrás? Agora eles pensam que você é um deles. — Yuu reclamou quando finalmente estava no solo. Seus olhos esverdeados nunca deixando o loiro.
— Mas eu sou Yuu! — Mika gritou, assustando o menor. — Olhe para mim e diga o que você. Você acha mesmo que seus “amigos” iam me deixar viver só porque você confia em mim? O quão tolo você se tornou depois de tantos anos?
O loiro estava ficando alterado. Pensou antes que iria conseguir se controlar com o sangue de Krull, mas sua garganta já estava começando a ficar seca devido à falta de alimento. Amaldiçoou-se mentalmente por ter se tornado tão tentado por esse líquido tão proibido.
— Isso não é verdade. Se você tivesse me dado a chance para conversar com eles...
— Eles teriam me matado, ou me transformado em uma dessas armas repugnantes que vocês usam. — esbravejou.
Ele sentiu seu autocontrole começar a se dissipar. Deu as costas para Yuu e segurou sua cabeça com ambas as mãos, se concentrando ao máximo para não dar ouvidos aos impulsos causados pela fome.
— Mika? — Yuu chamou, preocupado. — Você não parece bem... O que você não me contou que eu preciso saber?
Mika estava ficando encurralado. Não saberia como mentir o fato de que nunca havia se alimentado do sangue humano, sabia que o outro ia vir com uma proposta idiota e ignorante. Por mais que amasse Yuu com todas as forças de sua essência, não podia negar que as vezes ele era meio... Infantil.
Exausto, Mika sentou-se recostado a uma mureta que havia ali no alto do prédio, segurando seu peito em quanto arfava.
— Mika? — Yuu chamou mais uma vez. — Me conte o que está de errado.
Os olhos azuis se encontraram com os esmeraldinos. Jamais entendeu como verde podia ser a cor mais bonita no mundo e, toda vez que olhava naqueles olhos, entendia o porquê, entendia também o porquê de seu mundo se encher de cor toda vez que os fitava.
— Yuu-chan, eu... Eu nunca bebi sangue humano. — disse seco, observando os mesmos olhos verdes ampliarem em espanto.
— Então como... Como você... — as palavras morreram em sua garganta. Mika deixou soltar um pequeno sorriso entristecido em quanto retirava do meio de suas roupas um frasco com um conteúdo avermelhado.
— Esse é o sangue da terceira progenitora do Japão, Krull Tepes. Foi ela que me transformou em vampiro. Eu nunca concordei com isso, então ela me oferecia seu sangue e, em troca, eu tinha que lhe dar minha lealdade. Infelizmente o sangue de um vampiro não sacia em tudo a fome de alguém, ele até pode adiantar por algum tempo, mas depois a necessidade volta mais forte e mais voraz.
O moreno estava em choque. Mika estava sofrendo muito mais do que pensou e tudo isso era culpa exclusivamente dele, se ele pudesse...
— Beba meu sangue então. — disse se aproximando do loiro e agarrando-lhe os ombros, fazendo com que os orbes azuis ampliassem de espanto.
— Não, sem jeito.
— Eu não posso mais te deixar sofrendo, Mika. Durante todos esses anos você tem passado por isso e... E agora, se eu puder dar um jeito nisso, eu vou dar.
— Não, eu não vou beber o seu sangue nem de ninguém. — teimou.
— Vai sim! Não fode e me ouve, Mika! Eu não vou deixar você morrer mais uma vez, não vou suportar que isso aconteça. Agora que nós finalmente nos encontramos, não vou te deixar, nunca mais.
— Yuu... — Mika sentiu seus olhos arderem com as palavras de Yuu. Tanto tempo que esperara para que ele dissesse aquelas palavras.
Não conseguiu se conter e, assim que tomou uma respiração, puxou o moreno e colou seus lábios com os dele em um beijo casto. Sentiu-o aumentar o aperto em seus ombros, mas isso não chegou nunca a machucar e, assim, enlaçou a cintura do menor com seus braços, apertando-o contra seu peito.
Assim que se separaram, Yuu fitou os olhos azuis que tanto admirara.
— Então agora você...
— Não, eu não vou beber o seu sangue, Yuu-chan. — o vampiro disse, convicto de si, fazendo um nervo aparecer na testa de outro.
— Como assim “não vai”? Por quê? — implorou pela resposta, mas ela não veio de imediato. No fundo daquelas piscinas de azul pode ver a hesitação pura tomando-lhe conta.
— O que você acha que vai restar para mim quando eu me tornar um vampiro completo, Yuu-chan? Eu não vou poder envelhecer contigo, nem morrer ao seu lado. Você vai querer seguir com sua vida enquanto eu serei eterno e com cara de um mero garoto de dezesseis anos.
— Isso não é verdade, eu nunca iria te abandonar, eu te amo, Mika. — disse, corando em um tom de vermelho escuro. O vampiro achou a cena uma graça, entretanto a tristeza ainda pairava sobre si. Vendo que o humano ainda o observava e, provavelmente, pediria novamente para sugar seu sangue, depositou sua mão direita sob sua bochecha salpicada de vermelho.
— Por isso mesmo, Yuu-chan. Eu jamais me perdoaria se você desistisse de toda uma vida por minha causa. — disse em um sussurro e voz rouca, colando sua testa ternamente na dele.
— Nós podemos achar uma cura e te transformar em humano de volta. — Yuu murmurou de volta, com a voz tão baixa quanto a de Mika, pois temia que um som alto fosse o suficiente para quebrar aquele momento.
O loiro deu uma leve risada da ingenuidade do amigo.
— Mesmo que existisse, poderia passar anos, talvez décadas ou séculos para ser encontrada, Yuu-chan. — disse, fechando os olhos e aproveitando o cheiro que o seu Yuu exalava.
Surpreendentemente, foi Yuu quem selou o beijo dessa vez. Não era mais um beijo tão terno quanto o anterior, na verdade era tão necessitado e luxurioso quanto o que tiveram ainda antes do conflito com os humanos.
A língua de Yuu adentrou pela boca de Mikaela, vasculhando-a até que o vampiro finalmente entrou no jogo.
Por incrível que pareça para Mika, Yūichirō não era difícil de dominar, talvez houvesse alguma resistência no início, mas o loiro soube muito bem como reprimi-la. O moreno estava ficando tão ativo que já se encontrava sentado no colo de Mika, com as pernas apoiadas uma de cada lado em seu corpo e uma mão vasculhava por dentro de seu uniforme branco.
Para Mika, aquilo estava sendo o paraíso. Poderia muito bem se acostumar com aquilo e aquele mesmo calor subindo pelo estômago, fazendo com que apertasse a área das nádegas de Yuu e o mesmo soltar algo semelhante a um gemido ou engasgue, dando chance para que o loiro apenas aprofundasse o beijo.
Então aconteceu uma coisa que o vampiro jamais esperava e, provavelmente, iria sofrer de remorso pelo descuido pelo resto da eternidade. Tinha de ter achado estranho o fato de Yūichirō estar sendo tão devasso. Pois ele se desvencilhou do abraço sem mais nem menos e tomou alguns passos de distância e, em suas mãos, havia um frasco com aquele mesmo líquido vermelho.
— Oe, Yuu-chan, NÃO... — Mika saltou em sua direção, mas fora tarde de mais e tudo o que fez foi assistir o sangue da terceira progenitora sendo ingerido pelo rapaz, que logo que começou a sentir os efeitos, soltando o vidro que logo fora de encontro ao chão, quebrando-se em vários cacos. O loiro tomou o menor em seus braços. — OE, YUU!
Alguns minutos se passaram e Mika já estava vendo as mudanças acontecerem. As pupilas de Yuu haviam tomado alguns traços felinos, assim como no lugar de seus caninos havia agora duas presas afiadas.
Para o loiro, Yūichirō jamais deixara de ser bonito, na verdade, aquela aparência deixava-o com um ar mais perigoso e intimidador e isso estava deixando Mika um pouco excitado, mas não era hora para pensar em tais coisas indecentes.
— Yuu-chan? Você está bem? — pediu com preocupação em sua voz.
— Hai. — a voz de Yuu soou em seus ouvidos ao mesmo tempo em que ele tentava se recompor.
— Por quê? — exigiu com a voz embargada ao segurar os pulsos de Yuu com urgência. — Yuu-chan, você não ouviu nada do que eu disse?
Mika chorou, afundando seu rosto no peito do moreno, que sorriu com carinho, desvencilhando suas mãos do aperto do loiro para lhe evolver em um abraço.
— Ei, Mika, se existe uma cura para isso, vamos encontra-la juntos. Se você tem medo que eu envelheça, então, até a descobrirmos, vou ficar ao seu lado. Meus amigos vão ficar bem até lá. — sua voz soou a mais calma que ele conseguiu produzir, tão baixa quanto um cochicho e tão carinhosa quanto um beijo. — Apenas não chore. Nada disso é sua culpa, acho que já esta na hora de nós dois pararmos de colocar todos os problemas em cima dos nossos ombros, não é?
Sentiu Mika levantar seu rosto, lhe direcionando aqueles mesmos orbes azuis que tanto amava. Tentou limpar as lágrimas que já se cessaram e isso retirou um pequeno sorriso dos lábios finos de Mikaela.
— Eu te amo, Yuu-chan.
Yūichirō sorriu de volta.
— Também te amo, Mika.
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