Monocromático

1 a água dos teus cabelos


Ele molhava os cabelos e a água escorria azul cobalto.

...

O quarto era monocromático, mas deveria ser colorido. Eu costumava sentar em uma poltrona de veludo cor de vinho que tinha num canto, riscando meu bloco de notas com um lápis velho e acabado, enquanto ele ficava na minha frente, movendo-se silenciosamente por meio de gestos sutis.

— Não, não, simplesmente não! — Amassou o pincel contra a tela, fechando os olhos. — Não dá mais.

— Ora, era uma bela pintura. — observei. — Não seja tão perfeccionista, afinal nem mesmo a arte é algo perfeito.

Ele tinha o terrível costume de achar que tudo se resolvia à força, mas tinha mãos delicadas como uma pluma, que nunca encontraram a guerra. Em uma batalha, jamais haveria de empunhar uma espada, uma pistola ou uma adaga, já que o pincel sempre coubera a ele como a melhor arma que um dia pousou sobre a terra.

— Ah, e você, Sr.Estou-Sentado-Com-Meu-Bloquinho-Refletindo-Sobre-A-Vida sabe muito de arte, não sabe? — sorriu de canto maldosamente. — Francamente!

Balancei a cabeça em descrença, sorrindo. Cian era um carinha terrivelmente estressado e explosivo, um tanto detestável. Ele jogou o pincel sobre as tintas, caçando um pedaço de pano preto no canto do quarto e logo cobrindo a tela — e que bela pintura era, tão colorida e viva, um completo contraste com o que viria a ser o preto e branco que sempre reinava naquele ambiente.

— Pirralho rabugento. — resmunguei.

Uma veia saltou em sua testa.

— Disse algo por acaso?

— Definitivamente não.

...

Você só passa a conhecer uma pessoa no momento em que começa a viver com ela, e eu só passei a conhecer o preto e branco da vida de Cian quando me mudei para sua casa.

Os corredores tinham paredes brancas, mas ele os preenchia de telas cobertas por um lençol negro — de acordo com aquele peculiar rapaz, nenhuma tela era bela o suficiente para ser exposta, mas os corredores em si eram sem graça e pouco interessantes, então enfeitá-los com telas cobertas parecia uma estranha boa opção —, e tudo em si era muito perdidamente monocromático, agridoce e trágico. Eu não ousava dizer nada, claro, mas depois de um tempo as outras cores passaram a fazer falta. Os cabelos dele, negros como ébano, assim como os olhos, tão escuros que podia-se ver a si mesmo quando os olhasse — como um espelho que reflete você e todo monocromático que reina sobre sua aura, mas que você nunca percebeu —, e a pele, branca como a tela que ele pintava sempre de cores vibrantes, mas que nunca se satisfazia e no fim sempre haveria um lençol negro a cobrindo.

— Você está viajando de novo — ele suspirou — Não sei como ainda aguento você.

Eu não sei como aguento você. — retruquei. — É uma criancinha detestável.

Cian era três anos mais novo, infantil na mesma medida que era estressado. Olhando-o de perfil, com aqueles olhos negros fervendo em raiva momentânea e o rosto corado nas bochechas, ele parecia uma graça. Então sorri. Se tirassem sua personalidade explosiva, Cian seria uma pessoa adorável.

— Você... Você é um velho babaca! — Pegou o pincel em cima da mesa, sujo de tinta laranja, e o pressionou contra meu rosto muito antes que eu pudesse fazer algo.

Fiquei sem reação por um momento, sentindo a pele gelada no lugar onde a tinta havia tocado, e Cian sorria como uma criança que acabara de fazer travessura, os dentes não tão brancos, mas ainda assim expressando um sorriso de aura majestosa, em uma linha torta orgulhosa.

— Cian... — comecei, levantando-me da poltrona. — Seu vermezinho mimado!

Mas ele já havia corrido em disparada pelo apartamento, se escondendo no mesmo canto remoto de sempre — que eu, infelizmente, ainda não havia descoberto.

...

— Levante sua bunda velha daí e vá comprar doce de pêssego.

Levantei os olhos do livro que segurava, fitando-o com um olhar que dizia claramente “Eu estou no meu momento de descanso, dê as costas e volte a cobrir quadros com lençóis.”, porém Cian era terrível em qualquer coisa que se relacionasse a humanos, expressões ou mau humor. Ele continuou lá, de brações cruzados, esperando que eu levantasse e fosse comprar o doce de pêssego caseiro que Sra. Honda fazia, duas quadras dali.

— Estou ocupado agora, e você tem pernas, pode ir lá.

— Que bastardo ingrato é você! — Descruzou os braços, forçando o rosto a suavizar — Por favor, Phil. Aproveite e compre seu jornal.

Abaixei o livro de vez, suspirando ao encontrar aquela feição pidona de olhos brilhantes. Pivete manipulador!

— Tá, tá, mas vai ficar me devendo, é bom que saiba disso. — Levantei-me, resmungando baixo como um velho.

As ruas daquele bairro francês eram especialmente mansas naquela hora do dia. Às 7 horas da manhã, horário em que senhoras e crianças saíam de casa para comprar pão na padaria mais próxima. O mercado da Sra. Honda era especialmente quieto naquele horário, então foi de grande espanto quando cheguei perto e vi um movimento ali maior que o de costume.

— Uma coisa terrível terem atirado na mulher. Atos de um covarde. — disse com indignação Anthony, um velho senhor que eu sempre encontrava próximo ao mercado de pulgas.

— O que há? — perguntei, me aproximando.

Era 29 de Junho de 1914 e havia acabado de chegar a notícia de que o herdeiro do trono austro-húngaro fora assassinado.

...

— Ninguém vai entrar em guerra por causa de um país balcânico insignificante, Phil. — Cian comentou naquele mesmo dia, sentado no sofá ao meu lado. Tinha uma colher em mãos, saboreando o doce de pêssego do pote.

— Talvez você tenha razão. — Tomei a colher e o pote de suas mãos, comendo um pouco. — O que pretende pintar hoje?

— Qualquer coisa, sabemos que não vai ficar bom.

— Sabe, sempre fiquei curioso a respeito do seu quarto de pintura, não acha que está na hora de limpar e jogar fora as tralhas? Para quê tanto livro de Artes?

— Sou um artista, imbecil. — Tomou o pote das minhas mãos — É preciso saber um pouco da história da arte.

Soltei uma risada alta.

— Você nunca leu nenhum, Cian. Estão todos empoeirados e totalmente abandonados.

— Cale a boca. — levantou-se rápido, deixando o pote de doce em cima da mesa. — Eu já li sim vários deles!

— Tudo bem então.

Mais tarde, quando já era noite, flagrei Cian sentando na sua inutilizada mesa de estudos, esfolheando sem interesse um grande livro sobre Artes. Sabia que ele só fazia aquilo para me contrariar, o que tornava a situação ainda mais engraçada. A cabeça dele tombava para frente e para trás de cansaço. Deveria estar entediado até a última célula do corpo.

Andei a passos leves até a sua mesa de tintas, apanhando um recipiente de um azul qualquer — havia mais tons de azul do que de qualquer outra cor ali, e logo me perguntei se azul era sua cor favorita — e virando-me na direção dele.

Em dois instantes eu tinha mãos sujas de tinta, e o rosto de Cian entre elas.

— Que diabos, seu... — esfreguei as mãos na sua boca, gargalhando, enquanto ele, raivoso, me empurrava de encontro ao chão — Você me paga, americano de merda.

— Ah, cale a boca. — ergui-me do chão pelos cotovelos, sorrindo — Aposto que você fica uma graça de boca fechada.

— Aposto que você fica uma graça enquanto eu te bato e...

Tomei seu rosto com minhas mãos e calei seus lábios com os meus. No começo ele ainda resistia, tentando me acertar com seus socos já não tão fortes, mas logo depois ele largou a pose de resistência. Senti suas mãos em meu pescoço, subindo até minha nuca. Sorri, virando-me de modo que ficasse por cima de seu corpo, sem jamais desgrudar seus lábios dos meus.

Ah, definitivamente não daria para esquecer aqueles lábios. Tinha um gosto sutil e singular de pêssego, com um toque de nostalgia. Tudo nele parecia tão histórico, tão artístico. Desabotoei sua blusa, deixando meus beijos escaparem por toda a região. Com a boca entreaberta, sua voz era música aos meus ouvidos, era seu prazer reagindo a minha luxúria.

Mal tive tempo de notar, logo então estávamos nus. Cian deitou-se no chão, e eu me inclinei sobre seu corpo.

O ar era suor e paixão.

...

Mas tempos de paz duravam pouco, e a Grande Guerra logo veio.

Eu sabia (percebia) o quão inquieto estava aquele rapaz monocromático. Levantava pela manhã muito antes que de costume, vestindo-se o mais depressa que podia para comprar o jornal do dia. Ele não era um grande leitor, mas sua tensão a respeito da guerra era grande demais. Andava dormindo pouco também, as olheiras em seus olhos eram a prova.

Eu percebia sua mudança, e percebia o quanto ele me percebia.

— Você vai, não é? — me perguntou certa manhã. O dia certamente estava bonito demais para aquele momento terrível, azul e cheio de nuvens brancas, com um sol amarelo tão redondo que parecia o desenho de uma criança.

Do outro lado da mesa, passando doce de pêssego em uma torrada, os olhos negros se estreitaram.

— Sim. — respondi — Você sabe que sim.

Após um longo suspiro, alguns goles de café e outro momento de silêncio, voltou a falar:

— Não deveria. Guerras são desculpas para assassinos matarem e para tolos acreditarem. — suspirou — Você não é um assassino, tampouco um tolo.

— O meu país precisa de mim, precisa de força.

— Seu país é a América, pare de agir como um francês quando não o é.

— Por quanto tempo acha que a América ficará fora da guerra? — aquela conversa era inevitável, mas já não podia adiá-la. Sentia um gosto amargo na boca — Não há espaço para pacifistas, Cian. A guerra acontece, pessoas morrem, e lutarei pela França.

— Não sou pacifista, apenas não sou tolo.

— Cian...

— Phil — levantou-se, senti o peso dos seus olhos no meu, eram chumbo — Se você vai à guerra, então apenas vá.

Levantei-me também.

— Não posso apenas ir, tenho você.

— Então não vá, simples. — Cian andou em minha direção. — Guerra é morte, Phil. Não sou pacifista, apenas amo a vida.

(De que cor será a morte?)

— E eu amo você.

(Imagino se é tão monocromática e trágica quanto este rapaz...)

Com um suspiro, o rapaz de olhos negros me levantou um último olhar.

— Adeus, Phil.

(...se for, não tenho nada contra conhecê-la)

...

A guerra era mesmo sombria. Tinha cheiro, gosto e forma de morte. Pólvora. Suor. Sangue. Concreto úmido. A vida era engraçada, parecia tão duradoura e finita, como uma ilusão. A guerra fazia da morte algo mais real, mais físico. Podia quase tocá-la. E de fato, cheguei perto o bastante para vê-la, às vezes para sentir seu fedor nas minhas roupas.

Outra coisa engraçada eram as bombas.

Essas sim, quando explodiam, eram monocromáticas.

...

As cartas de Cian eram curtas, parecia não haver significado em suas poucas palavras, e talvez esse fosse seu objetivo. Eu sabia que não, sabia que aquele jovem francês me amava o suficiente para me esperar.

(“Não esperarei por você.”)

A guerra é morte.

(“Não esperarei um homem morto”)

Ignorei suas palavras. Ele era teimoso e eu o amava. Eu esperaria por ele, mesmo que ele não fizesse o mesmo.

Esperaria por nós dois.

...

Não morri, mas Cian não deixou de estar certo: guerra era morte. Ou pelo menos um caminho mais curto até ela, como um atalho. Acabei não olhando a morte cara a cara, embora tenha conhecido quem o fez. Mesmo assim, acabei conhecendo bem seus rastros: pegadas na terra, uma garrafa de rum vazia. Cheguei a ver suas costas, indo para longe logo após uma bomba explodir perto o suficiente, e, certa vez, vislumbrei seus cabelos vermelhos (não como sangue, algo como uma rosa) virando a esquina de um comércio. Foi quando descobri que a morte não era monocromática e que era hora de voltar para casa.

A pequena cidade francesa continuava a mesma. O ar tinha cheiro de chuva e tinta recém pintada, com um leve aroma de pão fresco e café moído. Me senti em casa.

Aparentemente, Cian usara o tempo em que estive longe para pintar. A porta da frente, antes de madeira vernizada normal, havia sido tingida de verde brilhante, com o número 246 de ferro pregado logo acima. Não sabia bem como o faria, mas levantei os pulsos, toquei a porta.

(“Quando tudo isso acabar — se acabar — não me procure. Não procure por algo que deixou para trás”)

Minhas batidas ecoaram pela casa e logo pude ouvir passos no corredor, se aproximando cada vez mais. A maçaneta se moveu, e logo a porta se abriu. Levantei os olhos, abri os lábios. O encarei.

Os olhos negros alargaram-se ao me reconhecer, vi suas mãos apertando a maçaneta com força.

— Você voltou. — murmurou ele.

Tinha cabelos maiores agora, na altura da nuca, a barba por fazer, mas ainda assim, era ele mesmo. Os mesmos olhos, a mesma pele, a mesma voz e os mesmos lábios.

— Olá, Cian.

A mesma arte.

...

Os quadros no corredor estavam descobertos, e a casa toda parecia diferente. As paredes, antes brancas, foram pintadas de várias cores. A casa ganhara vida.

— Nunca pensei que viveria para ver seus quadros expostos. — disse-lhe.

— Nunca pensei que iria viver para qualquer coisa.

— Você é muito negativo — o encarei — e eu sou muito sortudo.

Entramos na cozinha e Cian se pôs a beber chá. Parecia nervoso, porém não me ofereceu nada. Não esperei que o fizesse, era teimoso demais.

— Você ainda vai voltar para a guerra? — ele olhou para seus próprios dedos sobre a mesa, batendo-os levemente na xícara — Digo, está apenas dando um tempo ou vai se afastar de vez?

Sentei-me numa cadeira próxima, esticando as pernas e me atrevendo a tocar em suas mãos. Ele não recuou, mesmo quando sentiu meu polegar o acariciar.

— E se eu lhe disser que pretendo voltar?

Ele puxou as mãos, levando-as ao colo. Sorri mentalmente ao ver seu corpo enrijecer, a raiva impressa na sua ruga na testa.

— Então eu chutaria sua bunda velha da minha casa, para sempre. Se você voltasse, atiraria em sua perna e deixaria você sangrando na rua, para ver até onde sua sorte vai.

Não aguentei e acabei rindo. Ele estava furioso, mas ainda assim me atrevi a rir, alto o suficiente para fazê-lo se acalmar, soltando ar dos pulmões.

— E se eu lhe disser que vou ficar?

Os olhos de azeviche me fitaram receosos, me estudando antes de falar. Fitei-o de volta, na mesma intensidade, lembrando então no quão bonito era aquele rosto. Dois anos, não pude esquecer, mas olhando-o de perto novamente, soube que era real. Cian era lindo.

— Então eu diria para fazer o que quiser.

— Eu quero te beijar. Agora.

Cian riu, levantando-se. Eu praticamente pulei para fora da cadeira, com pernas robóticas. Avancei em sua direção, sem me aguentar. Puxei seu rosto sem suavidade, sem qualquer cerimônia pela qual estive planejando no caminho todo até ali. Sua boca se chocou contra a minha, mas não foi gosto de pêssego que senti, e sim de chá de morango, quente, mas nostálgico. Seus lábios ainda eram artísticos, e seu pescoço levaria à loucura qualquer desenhista. Seu corpo entre os lençóis, seus pés frios tocando minha perna de noite.

Ele era meu.

...

— Cian?

— Sim?

Senti um beijo em meu ombro. Tudo estava escuro lá fora e ali dentro, o toque de recolher fora dado. Virei-me em sua direção, envolvendo seu corpo com meus braços. Estava quente.

— Lembra-se quando transamos no chão, antes da guerra? — pergunto e posso senti-lo assentir. Passeio com os dedos em sua costa — Lembra de como seu rosto estava sujo de tinta azul, que passei enquanto você fingia estudar Artes?

— Eu não fingia estudar! — defendeu-se, rindo — Mas sim, me lembro. O que tem?

— Na manhã seguinte, quando foi tomar banho. Você não soube, mas o observei pela porta. A água aos seus pés estava azul cobalto, Cian. Você molhava os cabelos e a água escorria azul cobalto.

— E o que que tem?

No escuro, sorri.

— Era lindo.

Notas finais
Então, ficou bom? Particularmente, estou feliz com o resultado. De início meu plano era algo trágico, triste e melancólico, mas depois de meses com essa one pausada, decidi fazer algo mais happy end. Muita infelicidade nas histórias do meu perfil.
Poderiam opinar na qualidade dessa one? Estou tanto tempo sem escrever que me sinto enferrujada, talvez esteja uma droga e eu ache bom.
De todo modo, obrigada por lerem. Até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!