Monarquia
8 O Rei ou um pai.
Notas iniciais
FELICITY
Em um segundo assisti o rosto de Oliver passar por todas as expressões possíveis. Ele me olhou como se temesse que o fizesse entrar em combustão com a força do meu pensamento. Algo que se tivesse mesmo o poder de fazer, Tommy teria virado churrasquinho a anos. Cruzo meus braços sobre o peito e semicerro meus olhos para ele que engole em seco.
—Por que não me falou? –resolvo quebrar o silencio, por que pelo que percebi, ele não tinha pressa em fazer isso.
—Eu não sabia que era você! –sussurra olhando para os lados, então me puxa para um corredor mais escondido, onde não ficássemos no meio de tantos guardas.
Na parede do corredor havia uma pintura de um anjo, Oliver a empurra para o lado abrindo uma pequena passagem. Nós brincávamos nessas partes ocultas do castelo quando crianças, elas levam para os abrigos. Não gosto de lembrar da última vez em que estive em uma dessas, mas não fazia ideia de como esses túneis eram estreitos, ou do quanto Oliver cresceu nesses anos, ficou diferente, fisicamente falando... Paramos um de frente para o outro, era impossível não nos tocarmos naquele túnel apertado.
—Quando as pessoas entram nesses lugares nos filmes, elas geralmente tem velas, ou castiçais. –solto nervosa com a aproximação, só conseguia pensar no quanto o cheiro dele é bom, Oliver dá uma risada nervosa. Ele se esforça para pegar algo em seu bolso, e de repente tínhamos luz.
—Eles não tinham celulares nos filmes. –brinca, e posso ver com facilidade seu rosto, os olhos brilhavam como nunca, meu coração parece ter acelerado com a visão.
—Por que não me disse que era você depois de te contar toda a história? –só então percebo que realmente contei toda a história, incluindo a parte de como meu Arqueiro misterioso beijava bem. Passo minha mão por meus cabelos nervosa, o que foi uma proeza naquele lugar apertado. –Ah Deus, contei TODA a história! –penso alto.
—Fiquei sem reação, o que esperava que eu dissesse? –pergunta segurando meus ombros, por simplesmente não ter lugar para suas mãos. –Então Felicity, sabe esse cara da sua história, esse que você jura ter sido a única loucura da sua vida? Na verdade, é uma história engraçada. –finge uma risada cheia de sarcasmo voltando a ficar sério em seguida. -Por que eu sou ele! –diz com ironia para que percebesse que era realmente algo impossível de se debater.
—Como não percebi? –olho em seus olhos azuis sentindo meu coração apertar, não sei dizer se estava frustrada, confusa, ou com vontade de chorar. –Conheço você minha vida toda...
—Me perguntei a mesma coisa. –Oliver me olha da mesma forma, e de repente seus lábios se tornaram interessantes demais, ele tem uma pinta próxima a seu lábio inferior, sempre amei essa pinta, e com a barba dele ralinha como estava, ela fica ainda mais atraente. –Eu procurei aquela garota... –sua voz me traz de volta a realidade e me obrigo a me recompor, tentando me afastar o máximo possível da bendita pinta. –Quer dizer, procurei por você. Tem noção do quanto isso é frustrante? –ele parecia cansado, confuso, senti vontade de o abraçar, o que seria muito fácil, já que quase não existe distância entre nós.
—Eu estou lidando ainda com o fato de termos nos pegado. –e mais uma vez sou traída por minha boca sem freio.
—Não foi nosso primeiro beijo. –revida, e seus olhos se prendem em meu rosto, eu o vejo umedecer os lábios, e aquilo me faz salivar, sem falar das borboletas intrometidas que dançavam Uptown Funk em meu estômago, a música é boa, mas meu estômago bem que poderia ser mais romântico, não que esteja querendo romance por assim dizer...
—Um selinho estalado não conta Oliver, eu era a sua amiga e você quis me ajudar. –dou de ombros. Oliver abre um pequeno sorriso.
—Não foi isso que aconteceu, e acho que já somos grandinhos o bastante para assumir para nós mesmos. –seu rosto se enche de determinação, e ele olha para o alto suspirando antes de voltar a me encara. -Eu te amava Felicity, antes de entender o que era isso, nenhum de nós sabia, e também como saberíamos? Pessoas costumam conhecer a pessoa certa na faculdade ou depois dos trinta, mas não quando se é apenas uma criança. E eu deixei de ser no dia em que você se foi, e sei que deve ter sido ainda mais difícil para você, nada do que eu diga vai ser o bastante para que saiba o quanto sinto por ter sido o motivo de sua vida ter mudado...
—Você não foi o motivo! –o interrompo indignada, por apesar de todas as vezes que o disse que não era sua culpa ele continuar insistindo nisso. –Meu pai o salvou Oliver, e se eu estivesse lá, ele me salvaria. –toco em seus ombros, tentando fazer com que ele me olhasse nos olhos. –Por que ele te amava, como me amava. E sabia o quanto você é importante para mim. –seus olhos se focam nos meus por um segundo.
—Eu sei, e isso só torna tudo ainda pior. –então ele parece tirar toda máscara que sua educação o ensinou a usar, vejo o quanto ele parecia quebrado, e como estava perdido diante de tudo que vem acontecendo.
—Eu te perdoo. –seguro seu rosto para que me olhe. Não tinha o que perdoar no meu ponto de vista, mas era o que ele precisava ouvir para se permitir seguir em frente. Oliver sorri com os olhos brilhando e segura minha mão direita que estava em seu rosto, a levando a seus lábios.
—Obrigado. –sua voz é cheia de sinceridade, e toda aquela vulnerabilidade diante dos meus olhos acabaria me fazendo perder o pouco de controle que ainda me resta, então busco em minha mente as nossas prioridades no momento. Ele ainda é o príncipe e eu a filha do guarda costas, ou a chefe de inteligência, o que é ainda pior.
—Acho melhor você ir procurar seus pais, a essa altura já devem saber da chegada de Thea. –faço um carinho com minha mão esquerda que ainda estava em seu rosto, e o vejo fechar os olhos apreciando o toque.
—Tem razão, vou ir vê-la. –diz tirando minha outra mão de sua face. –Obrigado por tudo mais uma vez.
—Não agradeça, só cuide dela. –precisamos quase nos abraçar para conseguir sair dali, minha vontade era de o segurar por mais um momento e parar de pensar tanto, mas isso seria egoísta demais agora. Mas espera... Ele disse que me ama?
Nove anos atrás...
—Não sei por que Oliver precisa passar o dia todo treinando isso de arco e flechas, estamos nas férias de verão, ele deveria estar aqui brincando com a gente. –reclamo com Thea.
Nós estávamos sentadas em um banco brincando de bonecas, e observando Oliver treinar com o arco cerimonial. Ele teria que usá-lo em seu aniversário em uma espécie de rito de passagem, e aquilo estava acabando com nossa diversão nas férias, bom, como a minha e de Thea, por que ele parecia estar adorando todo aquele treino.
—Podemos fazer coisas de garotas agora que Ollie está ocupado. –propõe se levantando decidida.
—Que seriam? –questiono desinteressada ainda olhando para Oliver acertar em cheio o alvo.
—Eu tive uma ideia! –ela me arrasta com ela para dentro do castelo.
Thea e eu organizamos um desfile, o que foi muito divertido, meus pais e os pais de Thea concordaram em assistir. Então arrumamos uma das muitas salas do castelo, pedindo ajuda a Maria, nós a enchemos de flores e colocamos quatro cadeiras para nossos convidados. Foi muito divertido, nossos pais batiam palmas sempre que aparecíamos com um novo look, e nos sentimos como super modelos.
À noite eu precisei voltar ao quarto de Thea, pois esqueci Edwiges lá. Quando estava novamente a caminho de casa, vejo Oliver sentado em um banco perto da minha entrada no jardim. A me ver ele escorrega para a outra ponta me dando espaço para me sentar a seu lado, o que eu faço com um largo sorriso.
—Como foi o desfile? –pergunta observando as flores.
—Foi legal, a rainha disse que nós somos as jovens mais promissoras de toda Starlling! –conto orgulhosa e Oliver sorri. –Nós vimos que você já consegue acertar o alvo sem dificuldades.
—É... –diz pensativo. –Meu treinador disse que sou muito bom. –dá de ombros como se aquilo não fosse importante.
—Por que não está feliz? Agora que sabe fazer isso, vamos poder brincar juntos de novo! –Oliver se vira em minha direção com um sorriso triste nos lábios.
—Ele disse que vou repetir esse ritual mais duas vezes além do meu aniversário. –conta desanimado.
—Qual o problema, não gosta de fazer isso? –pergunto confusa.
—Não é esse o problema, eu gosto de usar o arco. –Oliver suspira olhando para o céu. –Vou fazer isso no dia em que for coroado como rei, e quando anunciar meu noivado. –sua última palavra me provoca uma careta.
—Mas você só tem treze anos, quase quatorze.
—Eu nem gosto de conversar com garotas. –acrescenta com a mesma careta do que eu.
—Está conversando comigo. –falo quase ofendida e ele se vira para mim com um sorriso zombeteiro.
—Você é diferente Felicity! –diz como se isso fosse explicação de tudo.
Agora...
OLIVER
Tento colocar meus pensamentos em ordem enquanto sigo o caminho oposto de Felicity. Thea, era nela que precisava pensar nesse momento, não no que acabei de dizer, apesar de tudo, me sinto mais leve por ter colocado isso para fora de alguma forma. Vou em direção ao escritório de meu pai, era melhor resolver isso diretamente com ele, se o Rei fosse a favor da estadia da princesa, não existiria nada que a tiraria do castelo.
—Alteza! –a voz de Diggle me desperta de meus pensamentos. Ele caminhava apressado em minha direção.
—Dig, estamos a sós, poderia me chamar de Oliver? –peço com seriedade olhando para frente.
—Eu chamei, gritei na verdade, mas você não ouviu. –respiro fundo e paro a seu lado o olhando.
—O que aconteceu? –Dig me estende um tablet, com o que parecia a ficha de um guarda. –Quem é esse?
—Roy Harper. –conta. –O próximo John Diggle.
Isso era uma expressão que os chefes da guarda usavam para anunciar o mais promissor dos novatos, o que eles pessoalmente treinariam para ser seu sucessor. John Diggle foi o próximo Alfred Smoak, e aparentemente o Sr. Harper seria o próximo John Diggle. Olho para meu amigo sem conseguir esconder minha surpresa.
—Pensei que não pensaria nisso nos próximos dois anos. –comento lendo a ficha do garoto.
—Já estou pensando desde o dia em que assumi, Roy é um bom garoto, e agora é bom deixar claro quem ele será, pois quero que ele assuma a segurança de Thea, claro, se concordar.
—Claro. –devolvo a ele o tablet. –Se é bom o suficiente para você, será bom para ela.
—Sim senhor. –responde começando a se afastar.
—E John! –chamo. –Preciso de alguém cuidando da segurança de Felicity também. –mordo meus lábios. –Algo me diz que ela pode estar correndo risco desde que voltou.
—Ted Grant vem fazendo isso. De forma discreta. –posso ver em suas expressão que ele temia o mesmo que eu.
—Obrigado.
—Ela é minha garota. –responde se virando novamente e segue seu caminho.
Bato uma vez na porta do escritório, assim que recebo permissão para entrar vejo meu pai, alisando alguma coisa no computador, enquanto conferia com algo em suas mãos e por fim assinava colocando em uma pilha imensa a seu lado. Isso é o que me aguarda em alguns anos, só de ver a cena dele enterrado em burocracia tenho vontade de abdicar do trono no mesmo instante. Mesmo já estando familiarizado com o trabalho, com certeza não é minha coisa preferida no mundo.
—Filho! –diz com um sorriso em seu rosto bondoso, largando imediatamente os papeis. –Veio me propor mais algum projeto filantrópico que não poderemos arcar no momento? Por que sinceramente, não quero brigar com você hoje. –ele tira os óculos de leitura e esfrega os olhos.
—Não. –sorrio para ele me sentando a sua frente. –Tenho uma coisa da qual não vai gostar, e talvez fique muito bravo, mas não vou voltar atrás no que fiz.
—Tudo bem, determinação, gosto disso. –fala me olhando interessado.
—Thea. –sua feição se enche de preocupação.
—Ela está bem?
—Sim. –conto o fazendo respirar aliviado. –Agora, mas não estava.
—Pare de enrolar Oliver, e conte logo o que aconteceu.
—Descobriram nos Laboratórios Star que a receita com a qual a mantinham internada, era falsa. –Meu pai perde toda a expressão. –Ela não tinha nada, da mesma forma que nunca tentou se matar.
—Tem essa receita? –pergunta alarmado.
—Sim. –dou à volta ao redor da mesa, para usar seu computador, onde abro o e-mail, com todas as provas e as avaliações reais do quadro de Thea. –o rosto de meu pais se enche de fúria por um segundo.
—Tentaram matar minha filha. –não sei se falava para mim, mas com esse tom de voz eu preferia que não fosse. –Temos que tirá-la de lá agora Oliver, peça ao Sr. Lance para preparar meu jato...
—Pai! –chamo quando ele começa a se levantar atordoado. –Eu já fiz tudo isso, Thea está aqui no castelo agora, com um dos homens de confiança do Sr. Diggle guardando a porta de seu quarto.
Seu olhar era puro pavor, muito pior do que o dia em que pensou que ela tentara se matar, por que agora não era algo que uma clínica resolveria, ela pode não estar segura debaixo do próprio teto. Ele sai a passos largos sem dizer mais nenhuma palavra, e me apresso em o seguir em direção a Thea. O Sr. Harper estava a postos em frente ao quarto dela, e só saiu de frente da porta a me ver logo atrás de meu pai. Provavelmente ordens de Diggle para mantê-la a salvo da rainha.
Thea estava sentada na janela, olhando para o antigo quarto de Felicity. Ela se vira em nossa direção e seus olhos se enchem de lágrimas ao ver nosso pai a sua frente. Ele abre seus braços para ela que corre se jogando neles. Os olho abraçados, chorando, meu pai acariciava seus cabelos e beijava sua face.
—Me perdoa minha filha, me perdoa. –repetia sem parar.
—Está tudo bem pai, eu estou bem.
Nós nos sentamos no sofá com Thea entre nós dois e contamos o que aconteceu em Central City. –Oficialmente não podemos liberar proteção para a Srta. Smoak, mas seria bom que alguém cuidasse dela. –diz preocupado.
—Já cuidei disso. –informo e o mínimo sorriso surge em seus lábios.
—Claro que cuidou. –comenta trocando olhares com Thea.
—Vocês dois parem! –tento parecer bravo, mas não consigo.
—Fico pensando no quanto vocês dois perdem por ter essas responsabilidades, por viverem essa vida. –olhamos para ele e percebemos o quanto parecia estar cansado. –Minha filha sendo ameaçada de morte, meu filho que encontrou o amor da vida dele na infância, e que abdicaria disso pelo trono. Nada me parece certo, nenhum pai quer ver os filhos sacrificarem tanto.
—Não é algo que possamos mudar. –Thea comenta deitando a cabeça no ombro dele e segura minha mão. –O trono antes do coração. –recita cheia de rancor.
—Talvez não. –Nosso pai se levanta e parece ter uma grande ideia. –Talvez eu devesse apenas acabar com tudo isso...
—Espera! –Thea e eu nos levantamos no momento em que entendemos onde ele quer chegar. –Quer abolir a monarquia?
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