Mona Lisa
12 Abandone a Esperança
Notas iniciais
●๋•..●๋•
“Sim, é verdade:
Ninguém ainda sabe o gosto da felicidade;
Não é possível que eu ainda sinta meu coração palpitar com carinho
Mesmo querendo destruir aqueles que estão em meu caminho
E ganhar de vez essa luta inútil,
Esbanjar meu poder
Para satisfazer meu ego fútil.
Porque eu adoro vê-los queimar
Talvez o ódio deles me faça sentir mais poderoso
Saber que eu, Deus, estou aqui em cima
E Eles, humanos, em um grande buraco
Um poço.
Então, por que sinto que falta algo?
Por que não satisfaço-me com o mundo?
De todos os anjos, sou eu, que está na colina mais bela e mais alta.
Não é possível que eu ainda me renda a sentimentos tão humanos
Tarde demais:
Sim, eu também sinto sua falta...”
Miguel
— Me acompanha, querida? — Perguntou com uma falsa doçura na voz.
— Por que não o faria, caro irmão? — Responde-lhe com um sorriso. Como é ingênua! — Me dá licença, Miguel? — Alice me olha de forma suplicante, aguardando o meu consentimento.
— Claro. — É só o que consigo balbuciar. Vejo-os desaparecerem diante dos meus olhos. Angústia: é o que sinto neste momento. Isso não deveria estar acontecendo. Ela não deveria ser tão linda. E ele não deveria ser tão estúpido.
Bastardo! Maldito, maldito, maldito! Por essas e outras razões o odeio! Sempre se intrometendo, fazendo o que não deve, manipulando, iludindo, persuadindo...
— Hã... Oi! — Mas o que?! Ah, se não é o caçula dos Winchesters, o receptáculo do ser que mais desprezo! Que conveniência. Sam encontra-se parado na minha frente. O rapaz está me fitando de uma maneira estranha. Anda, garoto, diga logo o que deseja e saía de uma vez daqui! — Eu... Queria conversar. Pode ser? — Não, não pode não; era só o que restava: ficar as voltas com uma anedota! Por que não deixei Lucífer me matar? Talvez assim poupasse-me de tamanho sofrimento e humlihação...
— E que assunto quer tratar comigo? — Indago, de modo desconfiado. O mesmo parece apreensivo. Diante do silêncio do mesmo, prossigo- Se diz respeito à um plano insano, que certamente foi elaborado por um de nossos irmãos, na expectativa de capturar "Deus"...
— Não. — Fala ligeiro — Não é isso, é só que... — Estou curioso: por que todo este receio? — A única razão pra estar ao lado de Lucífer é porque ele está te chantageando, não é?! — Outra vez essa falta de ar: ele também sabia! — Você gosta dela. — Não havia sido uma questão, mas sim uma constatação. Suspiro. Que mais me acontecerá agora, Senhor?!
— Como sabe? — Adquiro uma coragem deliberada para admitir. Ainda sinto minhas mãos trêmulas.
— Eu vi o jeito como olhou pra ela. Você a ama. — Continuou, de uma maneira extremamente compreensiva, que me surpreendeu — Não devia ter medo.
— Está tão óbvio assim? — O mesmo assente, num menear de cabeça afirmativo. Droga! — Ela gosta dele. — Disse, após tomar fôlego, para encarar a realidade. Ambos sabíamos a quem eu me referia: Lucífer. Estava claro de mais pra mim que a menina era apaixonada por ele. Por isso não enxerga o quanto este é repulsivo. Se ao menos soubesse a verdade...
— É, mas não é a mesma coisa. — Retruca. Deixo escapar um muxoxo — O que? É melhor continuar vivendo outros mil anos sem saber ou enfrentar isso de uma vez? O que o seu irmão está fazendo é errado. Ele está ferindo muitas pessoas; e uma delas é a Alice. — Sam estava certo: permito que ela se afunde nesta ilusão; embora não seja a minha intenção, mais cedo ou mais tarde, terei de magoá-la. Isso me machuca.
— Não é tão simples. Acha mesmo que um anjo poderia amar?! Que meus irmãos permitiriam? Imagine o que aconteceria se soubessem!
— Que se dane, Miguel! — Vocifera, visivelmente exaltado com minha atitude — Não sei se o Apocalipse já passou ou ainda está por vir, mas você está sendo perseguido por um anjo que pensa que pode ser Deus e a mercê do Satã; que importa?
— Você não entende. — Digo, balançando a cabeça em uma negação constante.
— Não, você é que não entende. — Para por uns poucos minutos, se recompondo. Respira fundo. Me limito a observá-lo, franzindo a testa — Eu devia ter uns doze ou treze anos, quando conheci uma garota. Éramos da mesma turma. Não sei explicar, mas gostava dela; só que nunca disse nada. Três semanas depois, fomos embora. Fiquei sem dormir por uns dois dias, pensando no que teria acontecido se fosse um pouco mais corajoso. Quer dizer, meu pai caçava monstros e eu tinha vergonha de falar com uma menina? Qual é! — Riu — Anos depois, veio a Jéssica. Não pensei duas vezes: e jamais me arrependi.
— Sabe, eu... Eu tenho estado aqui há um longo tempo. E me recordo de muitas coisas: lembro de Caim e Abel; Davi e Golias; Sodoma e Gomorra; sou considerado o anjo mais sábio dentre todos os outros; razão pela qual me chamam Príncipe, desde a partida de Lucífer. Por isso, não necessito de seus conselhos! — Disse ríspido — Não seja pretensioso. — Dou por terminada aquela conversa, distanciando-me. Por que daria ouvidos à um mero mortal, que julga conhecer mais sobre este mundo do que eu, ser mais célebre e puro, um anjo do Senhor!
— Então não seja tão arrogante. — Escuto-o murmurar — Eu não quis parecer orgulhoso. Lamento se tentei ajudar. — Sarcástico e rude desta forma até parece-se com ele; mas ele não é Lucífer. Assim como não sou Adam Milligan. É, considerando melhor, talvez eu tenha sido um pouco preciptado.
— Não sou seu irmão mais novo, Samuel. Sou um arcanjo. — Me volto para o mesmo outra vez e nos miramos profundamente — Entretanto, agradeço por... isso. — Falo, pouco constrangido. Afinal, ele não tinha culpa.
— Quem sabe o Dean e eu não sejamos tão ruins quanto você pensa. — Sorri.
— Hm. — De jeito nenhum! Preciso andar por aí. Mal caminho um pouco, já sumo, levantando voo.
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Castiel
Então era isso? Miguel é apaixonado por Alice? Quer dizer que as últimas horas no encalço dos mesmos me serviram de algo, afinal; nem o mais poderoso dos arcanjos notou minha presença, enquanto os observava. Mais uma vez, fiquei invisível aos olhos deles — como o verdadeiro Deus.
— Sammy! — Dean. Vem à passos largos na direção do irmão. Bobby está logo atrás. O rapaz, que antes encarava um ponto vazio no horizonte se volta para os mesmos, que chegam depressa — O que aconteceu aqui? — Seu irmão pergunta. Pelo visto, está um pouco aflito.
— Nada, nós só... conversamos um pouco. — Diz, com naturalidade. Talvez pensasse se devesse contar aos outros dois ou não.
— E... ? — O loiro insiste. Sem outra alternativa, Sam concorda. Singer, assim como eu, apenas assiste a cena, esperando o momento certo para falar.
— Bobby tinha razão: o Miguel gosta mesmo dela. — Suspira.
— Ótimo, agora temos uma garantia de que pelo menos ele vai cumprir com o acordo, porque senão...
— Não, Dean. — O irmão corta-o rapidamente — Ele gosta mesmo dela. Isso não seria nada honesto.
— Fala sério, rapaz: quer mesmo dar o benefício da dúvida pra esse aí? Depois de tudo? — Assim como Dean, Singer também não entende aquela atitude inusitada.
— E o que ele fez, Bobby?! Quando Miguel estava aqui, as coisas não estavam tão ruins. — Diz meio que refletindo.
— Ah, não, é? — O mais velho ri, nervoso. Uma discussão estava por vir — O que me diz de Uriel, Anna, Zachariah ou outros anjos corruptos, Lilith, os sessenta e seis selos, Lucífer e os quatro cavaleiros do APOCALIPSE?! TODOS os nossos amigos morreram: Ellen, Jo, Gabriel e até o Cass e o Bobby, além de você! E mais todas as tragédias que aconteceram naquele ano? ISSO NÃO PARECE RUIM PRA VOCÊ?! — Brada, exasperado.
— E depois disso, Dean? — Este retruca, também exaltado — As armas do Céu sendo afanadas, trocadas por almas de crianças, Raphael e Cass numa batalha sangrenta lá em cima, trabalhando com Crowley, monstros e todo tipo de aberrações formando seus próprios exércitos, o Purgatório, Eva: uma bagunça. Porque nós interferimos. Talvez a Destino tivesse razão: as coisas estão muito piores agora. - Os três calaram-se, cada qual perdido em seu próprio devaneio — Pelo menos Miguel não é como Lucífer; ele só está fazendo o que acha que é certo. — Continuou, alguns instantes mais tarde, já mais calmo.
- 'Tá, então o que a gente faz? — O loiro cedera, afinal. Sam sorri. Bobby apenas balança a cabeça, revirando os olhos. Haviam chegado num consenso.
— Ajudamos ele. — Responde.
— Tudo bem, mas não diga que eu não avisei quando ele tomar um fora... — Diz dando de ombros e andando em direção a casa. O sigo. Quando a porta bate, subitamente, vira-se; pergunto-me se teria percebido minha presença. Mas logo em seguida, vejo que olhava para o diário de John. Há quanto tempo não precisavam dele? Tinham crescido. Bobby era um enciclopédia ambulante para os caçadores. Com curiosidade, reparo que o mesmo tira uma velha fotografia, em preto e branco, de dentro de uma das páginas deste.
É a que tiramos naquela noite, quando pensamos que iríamos morrer; nossa "última noite na Terra". Achei que houvessem queimado, como fizeram com todas as outras: as que recuperaram da velha casa no Kansas, as do pai no acampamento de caçadores, todas as demais... Não, de algum jeito, ele havia guardado-as. Estavam todas ali. Mas a única que ele tem em mãos é esta: "Abandone a esperança", era o que tinha escrito no verso.
— Jo, Ellen... — Ouço-o murmurar, de repente — Vocês não sabem o quanto sinto saudades. E você, Cass, seu filho da mãe! — Riu baixinho. Outra vez surpreendi-me, pensando que o mesmo possuía ciência de que eu estava ali; porém, continuava falando com o retrato — Sabe que é meu melhor amigo; apesar de tudo. Cara, me deixou mesmo na mão! Acho que nunca mais vai ser como antes, né? Sinto sua falta também: você aparecendo do nada, assustando todo mundo... Ajudando a gente. Lucífer e Miguel, e essa Guerra toda, por causa de uma garotinha, dá pra acreditar?! Não mesmo. — Suspira — E agora, talvez eu precise te matar. Desculpa, mas você não me escuta; volta pro nosso lado, amigão. Ainda dá tempo: não é tarde demais! — A cada palavra sinto uma sensação estranha. É como se estivesse fazendo algo muito errado e vivesse na culpa; remorso? Isso não é possível. Deus nunca erra... Não é?
Ser Deus é saber distinguir momentos dos quais eles necessitam de minha interferência ou auxílio; bom, esse é um destes instantes.
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