Monólogo
1 Monólogo, por David Desrosiers
“E todo grande amor só é bem grande se for triste; por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer.” É incrível o modo trágico como algumas belas estórias de amor se desenrolam. É tão clichê quanto finais felizes em estórias de princesas e príncipes. Tão ou mais clichê quanto “e viveram felizes para sempre” ou “era uma vez...” As tragédias estão na ponta do lápis de todos os grandes autores. É apenas uma obrigação ter aquele fator culminante que fode com tudo. É tudo tão belo e claro, no começo. Mas, como num dia nublado, o céu azul torna-se cinza e tudo que se consegue ver são carregadas e poderosas nuvens cheias de água, prontas para se derramarem sobre as cabeças desprotegidas. Assim como a chuva, a tragédia vem ao acaso, quando menos se espera. E é tão rídiculo o modo como é óbvio, para quem está lendo ou assistindo, que algo de ruim vai acontecer, que chega a ser cansativo. O espectador apenas sabe que algo vai acontecer, por que tem que acontecer. Estórias de amor, não são estórias de amor sem vilões e vilãs, sem monstros e ogros malvados.
Mas, o quão injusto é isso? Tanto quanto é óbvio. Quão terrível uma pessoa é por achar graça em ler ou assistir tragédias? Há quem se diga amante dos grandes dramas das ficções — mas, vamos concordar, a vida já é um grande drama. As tragédias, as ruindades e desencontros são apreciados pela maioria. Todos estão torcendo para os mocinhos ficarem juntos, mas... E se não houvesse alguém para perturbá-los? E se eles apenas se conhecessem e ficassem juntos, felizes para sempre? O quão monótono seria isso? Muito. É completamente contraditório torcer pelo casal e, ao mesmo tempo, achar interessante que tenha algo para fazê-los se separar, brigar. As pessoas são absurdamente complexas e eu tenho medo de entendê-las; embora eu seja uma pessoa e me enquadre em ‘absurdamente complexas’. Mas... Quem foi que disse que eu me entendo? Oh, não! Eu tenho uma teoria: as pessoas são carentes. A maioria delas, ao menos. Têm necessidade de demonstrações de afeto, amor de verdade. Incondicional. As pessoas gostam de sentir isso. Sentir até onde um amor pode ir. Quero dizer, seria bonito se os mocinhos não tivessem empedimentos e ficassem felizes e juntos sempre; mas, por mais que eles verbalizassem os sentimentos que sentem um pelo outro, não haveriam provas. Digo, não provas o suficiente para os espectadores.Tragédias em romances são reafirmações. Reafirmação, em gestos, de palavras. É uma teoria boba, eu sei. Mas é assim que eu me sinto em relação aos amores dos livros e novelas. Não seria legal imaginar que as pessoas gostam das tragédias apenas pelo simples prazer de ver outras pessoas sofrerem. Isso seria cruel e doloroso demais.”Porque semana que vem pode nem chegar.”Nunca se sabe o que pode acontecer. Você pode acordar cedo, para ir trabalhar, como faz todos os dias e levar um tiro. Ou sofrer um acidente de carro ou apenas sentir uma dor no peito e cair fulminantemente no chão. A vida é a coisa mais imprevisível que já inventaram — eu sei, isso soa completamente estranho. A maioria das pessoas me dizem que eu penso demais. Eu não estou dizendo que conheço muitas pessoas ou que dou liberdade a tantas para me dizerem isso, mas as que me conhecem o suficiente e que são realmente próxima a mim, dizem isso. Além de metódico e paranóico. É absolutamente errôneo me caracterizar com tais adjetivos. Quero dizer, eu não posso saber o que vai acontecer e quando vai acontecer, exatamente. Mas eu posso supor o que vai acontecer e, talvez, quando vai acontecer. Está explicitamente claro que as pessoas não estão preparadas para enfrentar certas coisas, como perdas e acidentes trágicos. Elas não estão preparadas, porque simplesmente não imaginam que algo pode acontecer. Se comparado às grandes estórias de amor, o contexto é rigorosamente igual. Digo, os mocinhos dos livros e das novelas também não estão preparados para as tramas que os vilões estão fazendo contra eles; então, quando acontece, é como se o mundo desabasse sobre suas cabeças.O mesmo acontece com a vida real. As pessoas acordam todos os dias e simplesmente preferem não pensar na infinidade de coisas ruins que pode acontecer naquele dia. Elas se resumem a repassar a rotina que farão e nada mais. Elas se esquecem que não é só na televisão e nas folhas dos livros que há vilões. O mundo real está cheio de vilões. Vilões de verdade. Que machucam e que não estão programados a fazer o que o autor escreveu — por que não há um autor; ou talvez haja, depende do que você acredita.Essa, talvez, seja a única diferença entre grandes estórias fictícias e a vida real. Os atores estão protegidos pelas câmeras e pelo texto que eles decoram antes do ‘gravando’. Aquela arma não pode atingi-los, embora nossos olhos vejam isso. Aquele tapa não lhes marca a face. Aquelas lágrimas são reais, mas não são verdadeiras. Há uma infinidade de teorias para isso, mas não é como se eu tivesse mesmo espectadores para tanta loucura. O que eu estou querendo dizer, é que eu penso nessa infinidade de coisas. Eu gosto de supor o que pode acontecer no meu dia, comigo e com as pessoas que gosto. Eu não gosto de ser pego de surpresa por coisas desagradáveis — e nem agradáveis, devo confessar. Isso não me torna metódico, paranóico... Torna? E sobre pensar demais... Tsc, o que seria de um homem se não pudesse pensar? Os pensamentos movem as coisas, fazem acontecer. Eu não seria nada, se não pudesse pensar.
“Quem me dera ao menos uma vez...”Eu devo estar parecendo um louco, dizendo todas essas coisas. Uma das minhas principais características é a necessidade de expor as coisas que sinto e penso. Embora a parte do sentir não se encaixe muito a mim, mas isso não importa, agora. Todas as palavras têm um propósito. Todas as ações têm um propósito. O termo “sem querer”, muitas vezes, é usando de forma hipócrita. Qual a diferença de ‘eu te amo’ para ‘eu te odeio’ ? Afinal, ambos são sentimentos, certo? As duas frases têm como propósito demonstrar um sentimento, seja ele verdadeiro ou não. O que difere é a categoria do sentimento: ruim ou bom. Você não gosta daquele cara que trabalha na bancada ao lado. Então ele perdeu alguns papéis importantes. Você o viu colocando tais papéis em uma gaveta qualquer, mas você apenas assiste o desespero da procura dele. Você é até capaz de sorrir discretamente ao ver tal cena. Qual o propósito disso? Ora, você não gosta do cara e ele vai se foder caso não ache os tais papéis. E você não é babá de ninguém, para ter que lembrá-lo onde guardou as coisas, certo? Qual o propósito disso? Deveria ser anti-humano. Não é preciso entender. A maioria das coisas na vida não foram feitas para serem entendidas e sim para serem aceitas. Eu sei, é estupidamente injusto isso! Quero dizer, como você pode aceitar alguma coisa que você sequer entende? É revoltante! Mas, ironicamente, essa é a pergunta errada. O fato de certas coisas terem sido feitas para serem aceitas e não entendidas, nunca será entendido. Compreende? É um ciclo interminável de perguntas. E todas elas voltam para o princípio de que você deve apenas concordar.FIM.
Notas finais
Um momento de surto, alok.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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