Notas iniciais
Idade dos personagens: Jack Frost, Soluço, Astrid, Heather: 15 anos. Elsa, José Bezerra: 21 anos. Anna, Rapunzel, Merida: 18 anos. Nacionalidade. Jack, britânico. Soluço, Elsa, Anna: noruegueses. Merida: escocesa. Rapunzel: alemã. Como se juntaram não importa.

Faz sol na capital, e três pares de pés correm, sendo acompanhados por suas sombras. Todos usando roupas escolares brancas e cinzas, duas com saias cinzas e um com uma calça de mesma cor.

No entanto, um dos pés corre mais rápido e mais adiante dos outros.

—Merida! Espera! – grita o grisalho ofegante, o mais novo entre os três.

Mas a ruiva não para, é a mais atlética entre os três, e tem motivos para correr tão rápido a ponto de deixar os amigos para trás.

Correm por mais algumas ruas, e minutos mais tarde, a ruiva vira numa esquina movimentada e adentra o hospital LiveGolden, o melhor da cidade.

Ela para na recepcionista que se assusta com sua chegada e com o impacto no balcão. E Merida por consequência do impacto se inclina sobre o balcão e aproxima o rosto do rosto da recepcionista. Com a camisa suada, os cabelos cacheados grudados no rosto por causa do suor e ofegante.

Os dois amigos chegam logo depois, e se apoiam nos joelhos, de cabeça baixa, mais ofegantes do que Merida e totalmente suados, tentando acompanhar o pique da amiga.

—Ele está no mesmo quarto? – pergunta Merida assustando a recepcionista.

A pobre mulher assustada sabe de quem ela fala, da mesma pessoa que ela tem visitado junto dos amigos nos últimos dias.

—Sim... – diz fazendo que sim com a cabeça.

E a ruiva volta a correr antes que a palavra termine.

—Espera não pode correr nos corredores! – grita a recepcionista inutilmente. Merida já está muito longe para ouvir qualquer coisa que ela tenha a dizer, e ainda que ouvisse, não reduziria a velocidade.

—Desculpe, ela é assim mesmo – fala Jack para a recepcionista, e logo depois volta a correr, só que mais devagar, sendo seguido pela loura de cabelos longos, tão longos que poderia fazer um turbante com o próprio.

Merida continua a correr, só que com mais velocidade, seus cabelos empurrados para trás devido ao vento e à velocidade com que corre, passando como um torpedo pelos quartos dos demais pacientes do hospital, alguns com a porta aberta.

E finalmente chega ao corredor certo, marcado pela presença de Valka e Stoico, a irmã gêmea de Soluço, Freya está em casa.

Quando Merida chega, seus pés escorregam, e ela esbarra na parede do outro lado do corredor.

—Merida?! – diz Stoico.

—Oi! – diz recuperando o fôlego, e indo desajeitada até o casal – E o Soluço?

—Continua do mesmo jeito – responde Valka, pesadamente – pediu para ficar um tempo sozinho. Então estamos aqui fora esperando ele querer nos chamar para conversar.

Instantes mais tarde chegam Jack e Rapunzel.

—E o Soluço? – pergunta Rapunzel.

—Continua na mesma – responde Merida.

—E por que estão aqui fora? – pergunta a loira questionando a falta de apoio e meio irritada por isso.

—Ele pediu para ficarmos aqui fora e deixá-lo sozinho – responde Valka.

—Mas... Mas...

—Punzie! – diz Merida, fazendo a amiga voltar a si, uma das únicas pessoas que consegue dobrar a amiga quando esta se torna inflexível.

Todos se sentam.

De um lado do corredor fica Stoico e sua esposa Valka, do outro, Jack, Merida e Rapunzel. Em um silêncio desconfortável.

O relógio de ponteiros na parede é o único som entre os cinco, e quando estes fazem um longo percurso no aparelho de marcar as horas, Merida — desde o começo impaciente e agitada — não é mais capaz de esperar.

—Dona Valka me perdoe por isso! A senhora é minha heroína, mas eu já esperei demais! – diz se levantando.

Atravessa o corredor e violenta a porta.

—Merida! Não! – os amigos tentam contê-la, mas é tarde demais.

Merida já abriu a porta.

E ao invés de puxá-la, fechá-la ou fazer qualquer coisa do tipo para preservar a privacidade do amigo, todos correm para o portal para ver o paciente que se encontra na sala.

E lá está ele, o último integrante do grupo de amigos, sentado numa cadeira perto da janela, de cabeça baixa e a perna amputada deitada sobre uma cadeira, com olhar sombrio e perdido.

Soluço estava na fazenda de seu avô, que pertenceu ao avô de seu avô e ao avô de seu avô de seu avô, e que cobre hectares de distância de uma ponta a outra.

Ele estava sobre banguela, seu cavalo, dado de presente por seu avô. Um cavalo negro, alto, musculoso e bonito.

Trotava pelos currais, quando de repente houve um incêndio a poucos metros dele, incêndio este que assustou o cavalo e derrubou Soluço no chão, que bateu a cabeça e ficou inconsciente com o incêndio por perto, e o fogo o alcançou e consumiu a parte inferior de sua perna.

Foi levado ao hospital o mais rápido possível e os médicos decidiram amputá-lo.

Quando Soluço acordou, já estava sem o pé.

E agora visivelmente, está com dificuldades para aceitar o que aconteceu.

Está no hospital há semanas e todos alunos de sua escola comentam sobre o assunto de sua amputação e de suas faltas nas aulas.

Todos mantem os olhares presos em Soluço, e se compadecem da dor dele.

Os olhos dos pais do garoto se enchem de lágrimas, como qualquer pai faria ao ver o filho num poço que fora cavado para ser mais fundo.

—Dona Valka – diz Merida voltando-se para o casal de adultos com a voz modificada, mais rouca e com a cabeça baixa – poderia nos deixar um tempo sozinhos com ele?

—Claro – ela responde no mesmo tom de voz.

O silêncio toma conta do quarto depois disso, e só o som da porta batendo é ouvido.

Quando os quatro ficam sozinhos, Jack se volta para Soluço e pergunta: “Se incomodaria se a gente...”.

Refere-se a trocar de roupa dentro do banheiro do quarto, que é o que eles tem feito nos dias em que visitaram o amigo. Levam roupas dentro das mochilas escolares e depois das aulas sempre as trocam no hospital.

E Soluço responde que sim com um balançar de cabeça e um fixo olhar frio com uma sombra no rosto.

Primeiro vão as mulheres, depois vai o Jack.

Por ser a mais apressada, deixam Merida ir na frente e ela sai usando um vestido verde escuro, com alguns enfeites característicos da Escócia, de mangas longas, apertadas nos pulsos e frouxas nos braços, que vai até seu pescoço.

É justo em seu peito da cintura para cima e frouxo e esvoaçante da cintura para baixo, sendo ambas as partes separadas por um cinto dourado, a roupa termina acima de seus tornozelos e usa botas masculinas. Seu lado feminino e seu lado masculinizado juntos, sem entrar em contradição.

A roupa não é comprada, muito pelo contrário, foi feita por Merida e sua mãe. A ruiva nunca gostou das roupas do mundo moderno e por isso cria a maioria de suas próprias roupas, sendo ela fã da era medieval com muito orgulho.

Rapunzel sai com seus longos cabelos soltos, usando uma camisa de botão branca, cujas mangas se encontram dobradas perto do cotovelo, a camisa enfiada numa saia rosa leve e esvoaçante que termina abaixo de seus joelhos, usa sapatilhas cor de rosa e tem um cordão dourado em forma de sol em seu pescoço, deitado em seu peito.

E por fim, Jack Frost sai usando um moletom azul com detalhes em branco, uma calça preta folgada e botinas pretas. E ficam no quarto.

A maioria deles se encontram desconfortáveis com a situação, pois Soluço não fala direito com os amigos há muito tempo.

Apenas Rapunzel, aquela que é sempre a mais radiante do grupo tenta alegrar o amigo, fazendo as várias coisas que sabe fazer de melhor, cantar e tocar seu violão para Soluço, ler para ele, jogar xadrez, artesanato, fazer desenhos engraçados, buscando fazê-lo sorrir.

E até funciona, mais por Soluço reconhecer o esforço da amiga e querer agradá-la do que por realmente achar graça de tudo que ela está fazendo.

Já Jack fica sentado numa cadeira, e Merida sobre a cama do quarto.

Até que chega uma figura familiar, um senhor de idade alto, de cabelos e barba grisalhos e perto dele uma menininha de oito anos.

—Jack! – grita a menina indo em direção ao irmão mais velho.

—Emma! – responde o grisalho se ajoelhando e recebendo o abraço da irmã, que se joga nele – Padre Norte!

—Bom dia Jack – diz o padre com um sorriso amigável no rosto – ela sentia sua falta, e sua mãe me pediu para trazê-la para ver você.

—Obrigado – diz ele com um sorriso no rosto.

Norte é um grande amigo dos quatro, é o pároco da Igreja de arquitetura gótica da cidade, aonde os quatro vão com suas famílias todos os domingos. Exceto por Soluço que não foi nos últimos dias, devido a sua estadia no hospital.

Norte também é o confessor dos quatro, de suas famílias e de seus amigos, foi quem mais ajudou na criação de Jack e suas irmãs após a morte de seu pai, é uma grande figura paterna para o grisalho e suas irmãs, não apenas para eles, mas também foi para os amigos dele em muitos momentos. Sendo amigo intimo da família dos quatro.

Todos se levantam em silêncio e pedem a benção do padre, que os abençoa em questão de segundos.

Logo depois segue um momento de silêncio, com Norte olhando Soluço e vice-versa, atento à amputação do mais novo, é a primeira vez que o vê depois do acidente.

—Podem nos deixar a sós? – pergunta padre Norte.

Todos saem do quarto em silêncio e de cabeça baixa, pois sabem o que vai acontecer.

Passam-se alguns segundos em silêncio.

Soluço permanece sentado perto da janela, a perna amputada deitada sobre uma cadeira e uma sombra em seu rosto inexpressivo, rosto este que agora está voltado para o homem de batina.

Padre Norte olha Soluço por alguns instantes e sente a alma gelar quando olha a perna mutilada.

Suspira condolente e pega uma cadeira no canto da sala que estava voltada para a parede, e a coloca na frente do mais novo.

—Me perdoe, não pude ter vindo aqui antes – começa o padre antes de se sentar – tive muitas coisas para resolver, e só vou poder ficar aqui alguns minutos, você sabe... Meus dias costumam ser sempre movimentados.

Padre Norte é alguém que possui o respeito e a admiração de Soluço, assim como de maioria daqueles que cercam o jovem, então ele responde: “Tudo bem padre Norte... Eu entendo.”.

—E como você se sente?

Soluço é muito acostumado a falar de seus problemas para o padre, já que como confessor sabe ouvir os problemas de suas ovelhas, e não tem direito de falar sobre isso com ninguém.

—Quando acordei já estava sem minha perna... — diz olhando a parte amputada, tocando-a com a mão direita — Numa hora eu estava em cima do Banguela e um incêndio começou do nada, na outra estava deitado numa cama de hospital... Gostaria muito de acreditar que isso é só um pesadelo, um sonho ruim e que em breve vou acordar... Mas... Eu não durmo há dias, então não dá para acreditar que é só um sonho.

O mais velho escuta atentamente, enquanto franze o cenho, cheio de compaixão e pesar pelo jovem amigo.

O rosto de Soluço muda, agora está vermelho e os músculos de seu rosto se contraem, e ele abre a boca, procurando alguma palavra para manifestar o que sente, mas não há palavras em seu vocabulário que possa se encaixar perfeitamente na descrição de seus sentimentos. Então pronuncia com voz trêmula a que chega mais perto: “Dói...”.

Norte, em silêncio, se aproxima de Soluço, colocando a cadeira mais perto dele, e deita o mais novo em seu colo, como costuma fazer com muitos que o procuram para confessar seus pecados, e o acaricia, enquanto ele começa a chorar.

Aos poucos, Soluço está aos berros na perna do idoso, e mancha sua batina com ranho e lágrimas, algo que o padre já está acostumado.

O mais velho tem seu rosto modificado pela situação, tentando não chorar com Soluço, o mais novo precisa de alguém que o pegue no colo nesse momento, e consegue segurar as lágrimas atrás dos olhos.

Do lado de fora, se escuta Soluço chorar, os médicos, médicas, enfermeiros, enfermeiras, pacientes de outros quartos, funcionários que não são diretamente relacionados à medicina – faxineiros, cozinheiros, secretários – escutam seu pranto. Inclusive, os pais e os amigos dele.

Rapunzel, a mais sensível, não consegue se conter, e abaixa o rosto, pondo as mãos sobre ele, chorosa, e Jack e Merida a consolam no mesmo instante, enquanto os mesmos ainda são empáticos com Soluço e tentam não chorar, mas empalidecem com o choro do amigo. E Stoico e Valka encontram consolo nos braços um do outro, a mulher mais sensível à situação, mas o pai também derramando algumas gotinhas de lágrimas.

Todos sabem que é doloroso ouvir alguém que ama chorar, mas é bom para Soluço, pois ele não chorou desde o ocorrido.

Depois de alguns minutos, suas lágrimas cessam, e sai da perna de Norte, com o rosto desgostoso e triste, vermelho e com lágrimas, rosto este que raramente é visto em Soluço.

Norte pega um pano vermelho e passa sobre o rosto do mais novo enquanto fala: “Agora escute Soluço, devo ser realista, não será fácil superar isso, mas não está sozinho, você tem Deus, tem sua família, tem a mim, tem a você mesmo... E tem a seus amigos!”.

O mais novo balança com a cabeça, afirmando que entendeu e aos poucos surge um sorriso em meio a dor de seu rosto.

—Agora tenho que ir – diz o padre.

—Até mais padre Norte – diz Soluço passando a mão no rosto.

Todos do lado de fora tomam a benção do padre, os adultos conversam um pouco, e no fim, Norte se volta para Jack, Merida e Rapunzel dizendo: “Ele vai precisar muito de vocês nesse momento...”.

Os jovens entram de novo no quarto e voltam a fazer o que faziam antes; Rapunzel entretem Soluço, Merida fica sentada sobre a cama, e Jack sentado numa cadeira com a irmãzinha brincando com uma boneca aos seus pés.

Diante disso os pais de Soluço olham os quatro, todos juntos, como sempre foi e como é para ser.

—Bom – diz Stoico – se vocês vão ficar aí, Valka e eu vamos embora, temos que trabalhar.

Stoico vai até o filho, dá a benção e beija sua testa, e Valka faz o mesmo, e também o abraça.

E passa-se um tempo, sendo o som do violão de Rapunzel a única coisa a ser escutada, todos na mesma posição.

E passam-se alguns minutos assim quando de repente, a porta se abre, e dela surgem duas garotas, da idade do Soluço e Jack Frost. Uma delas loira, com o cabelo preso numa trança, a outra com cabelo preto, também preso numa trança, ambas usando saias curtas e apertadas, os umbigos aparecendo e piercings reluzentes em ambos os umbigos.

A ruiva arregala os olhos com a presença de ambas, as duas garotas mais patricinhas que teve o desgosto de conhecer enquanto viva.

—Soluço! – diz a loira correndo em direção à ele, com voz exageradamente aflita.

—O que ela está fazendo aqui?! Eles já não namoram há muito tempo! – pergunta Merida, voltada para Rapunzel, sussurrando. Nunca teve um bom relacionamento, nem paciência com Astrid e sua amiga que sempre está perto dela, Heather.

A garota de cabelo preto olha a amiga loira abraçando o paciente do hospital.

—Como você se sente? Você está bem? – pergunta com voz exaltada.

No entanto, a expressão no rosto de Astrid muda quando percebe a figura que está a poucos centímetros dela, uma Merida com carranca notável, está que só surge quando a loira está por perto. E toda a aflição some, um tom de escárnio toma conta do rosto da loira que fala:

—Oi ruivo...

“Ruivo”, foi um apelido criado por Astrid e dado a Merida com a finalidade de deixá-la irritada, e que na maioria das vezes funciona muito bem, rendendo várias brigas entre elas. O apelido foi criado depois que a escocesa derrotou seu professor de artes marciais e serve para dizer que ela não é nem um pouco mulher.

E o quarto fica cheio da tensão entre elas, todos olhando ambas, até mesmo Soluço, que teme o que pode acontecer. Todos temem uma atitude impetuosa da ruiva, mas ela fecha os olhos e respira fundo antes de falar algo.

—Oi Astrid – responde a ruiva com maturidade, surpreendendo a todos com a decisão. No entanto, tudo é quebrado – como estão suas amigas do fim da rua?

Jack tampa os ouvidas da irmãzinha, assustado.

—Muito boas! – Astrid responde, já esperava uma piada deste tipo, devido às roupas que usa – Elas tem se tornado muito amigas da sua mãe.

—Aposto que é para dar um jeito em vocês e me educar como ela me educou...

—Claro! – responde a loira – À base de tapas e beijos, e castigá-las fazendo usar essas roupas ridículas, diz aí, elas não incomodam?

Merida se levanta impetuosa, a cadeira se afastando alguns centímetros dela e a ruiva sobressaltando a voz: “Escuta aqui! Pro seu governo essas roupas são muito confortáveis tá?! Muito mais do que as suas! E que moral você acha que tem pra falar sobre isso?! Não é você que vive aos tapas e beijos com todo mundo?!”.

A loira arregala os olhos e fica muda diante das palavras ruiva, e responde impetuosamente: “Pelo menos eu não me visto como velha!”.

—Pelo menos eu não me visto como meretr...

A ruiva acaba não terminando a frase, porque Jack a interrompe, colocando a mão em sua boca. Não quer que a irmãzinha ouça tal palavra, ainda que esta não venha a entender o que ela significa.

—Chega! Tá bom? Chega! – diz se levantando.

A ruiva, ainda com o calor da discussão em mente olha o amigo com os olhos arregalados e aos poucos se dá conta da causa da ação dele, e respira fundo, tirando a mão de Jack de sua boca, compreensiva, e garantindo com o olhar que pelo menos fará o esforço para não perder o controle.

A pobre irmãzinha de Jack não entende a situação, ou a atitude de Jack.

—Merida! – diz Rapunzel se levantando.

A loira de cabelos soltos deita o violão na cama de lençol branco e pega a amiga pela mão, puxando-a para fora do quarto. Antes de sair, Merida olha Jack e faz gestos indicando que é para o grisalho vigiar Soluço e as duas garotas.

Rapunzel puxa Merida até o quarto mais próximo, no fim do corredor, vazio e intocado, onde abre a porta destrancada e a tranca pelo lado de dentro.

—O que foi isso?! – pergunta Merida exaltada.

—Eu é quem pergunto! O que foi aquilo?! – rebate Rapunzel, uma das poucas pessoas capazes de conter a impulsividade de Merida em diversas situações – Está fazendo muito barulho!

—Eu?! Não era você quem estava tocando violão há a alguns segundos?!

—Está dizendo que o meu violão é mais barulhento do que você gritando?!

Numa fração de segundo Merida arregala os olhos, mas logo depois funga assumindo uma expressão desgostosa, de alguém que sabe desprezar a ofensa, deixando-a passar de raspão, no entanto, Merida não se sente ofendida, chega a ser mais um elogio, vencer uma competição de quem faz mais barulho, ela ou o violão da amiga.

—Por que está defendendo elas? Você não gosta delas, lembra que já saiu no braço com elas?

A loira arregala os olhos e abre a boca, incrédula com as palavras da amiga.

—Não! – responde com a voz exaltada – Você saiu no braço com elas! Eu fiquei no meu canto! Foi você quem literalmente me jogou em cima delas! Eu não tinha nada a ver com aquilo!

—É, mas você se saiu muito bem brigando com a Heather! – diz com um sorriso animado e nostálgico no rosto – Por sorte a janela da cozinha estava aberta e você alcançou a frigideira! Aliás deu um show com ela!

—Por que você fez aquilo? Não precisava de mim! Estava cuidando das duas muito bem sozinha!

—Ah qual é! Vai dizer que não gostou daquele dia?!

—Nós duas saímos com as roupas rasgadas, com menos fios de cabelos quando fomos na escola naquele dia e com olho roxo!

—É, mas elas saíram com tudo isso e mais! Os narizes delas estavam sangrando! Saímos vencedoras naquele dia!

—Você só diz isso porque foram necessárias cinco pessoas para tirar você de cima da Astrid! O Soluço e o Jack, professores, até o diretor apareceu!

A ruiva ri, suas risadas suaves e intensas como água.

—Pois é, aquele dia foi bem legal... – responde a ruiva com um sorriso.

—Merida... – diz a loira com tom de aviso.

—Ah qual é, vai dizer que não gostou daquele dia...

—Merida! – grita Rapunzel.

Logo depois a loira suspira de cabeça baixa e olhos fechados, cansada da discussão, percebendo que saiu do assunto inicial.

—Eu não vou falar sobre isso como você... Mas... – o sorriso desaparece do rosto de Merida – Não se trata de você e da Astrid, se trata do Soluço... Olha aonde estamos, olha o estado em que ele está... Acha mesmo que ele precisa disso agora?!

A loira é capaz de apagar o fogo dos sentimentos de Merida. Que agora carrega uma expressão de culpa. Astrid pode ter começado, mas ela poderia ter sido mais madura do que a loira.

A ruiva caminha de cabeça baixa e de rosto pesado em direção à porta, fazendo a amiga se sentir mal. Rapunzel sempre odiou tirar o sorriso do rosto das pessoas, ainda mais de seus amigos mais íntimos.

Merida estende a mão em direção à maçaneta da porta, mas é interrompida por Rapunzel que surge em sua frente com um sorriso no rosto e diz: “Tá bom! Eu admito, aquele dia foi divertido.”.

Merida olha a amiga com o rosto inexpressivo, um tanto incrédula, mas quando percebe uma sombra de verdade a face da amiga, abre um belo sorriso.

Quando ambas saem do quarto de hospital, abrindo e fechando a porta ajeitadas e caminham em direção ao quarto do amigo. Astrid e Heather saem do quarto de Soluço violentamente, arrombando a porta revoltadas, com expressão de ódio em seus rostos e fúria em seus olhos flamejantes.

Merida e Rapunzel olham a outra dupla, que se encontram alteradas, Merida agora sem qualquer intenção de brigar olha as duas, que quando percebem a presença das outras meninas, viram-se para ela, buscando algo para falar, mas a raiva é tanta que não encontram, simplesmente dão as costas e vão embora irritadas.

Merida e Rapunzel se olham curiosas, sem entender.

Quando entram no quarto encontram Jack de pé, com a cabeça voltada para cima e com a mão no nariz vermelho, a irmãzinha dele preocupada querendo ajuda-lo, mas pequena demais para alcançar-lhe o rosto.

—O que aconteceu? – pergunta Merida.

Jack e Soluço se olham, e o grisalho se senta na mesma cadeira aonde estava. É algo bem óbvio o que acabou de acontecer, Astrid – e provavelmente Heather também — num momento de chilique e fúria atacou Soluço e Jack se colocou entre elas e o amigo para protege-lo devido a situação na qual Soluço se encontra, e acabou sofrendo o que seu amigo teria sofrido se não tivesse feito o que fez. Não que Jack tenha resistido, ou que sua resistência não tenha sido forte o bastante, mas homem não bate em mulher, então Jack sequer pôde resistir. Algo que acontece com frequência, e normalmente eles são protegidos por Merida e Rapunzel. No entanto, se elas atacaram Jack por ele ter se colocado na frente de Soluço, que não tem nenhum arranhão, significa que o paciente do hospital falou algo que as desagradou, o que é bom para o quarteto. O desgosto delas é a alegria dos quatro, por mais que não fosse assim no início para Soluço.

Elas se sentam e estão prestes a voltar à mesma rotina. Mas antes de Rapunzel pegar o violão para voltar a cantar e tocar para Soluço, alguém aparece na porta. Uma mulher alta, esbelta, de cabelos platinados e muito atraente, com pele de marfim e lábios vermelhos como sangue.

Prima de Rapunzel e irmã de outra mãe de Merida.

—Elsa! – diz Merida, esquecendo-se de que Elsa em sua tenra idade, aos 21 anos é médica.

—Oi – diz sorridente, para o grupo, e caminha por entre eles indo em direção ao paciente, tendo ela muitos outros pacientes, mas reservando atenção especial à Soluço, pois também é uma amiga íntima dele.

—Então, como está meu paciente hoje? – pergunta ela sorridente – Já comeu?

Ela se aproxima e avista um prato na janela, intocado e frio e seu sorriso esmorece.

—Não está com fome? – ela pergunta olhando Soluço, que fica em silêncio.

—Elsa, quando é que eu vou poder ficar pra casa? – pergunta Soluço segundos depois, com a expressão sombria, triste e séria. E a mais velha abandona a elegância, nunca precisou disso para falar com seus amigos.

—Seu pai disse que quer que você saia daqui caminhando e psicologicamente bem, aqui no hospital podemos fazer o que estiver ao nosso alcance, mas precisamos que faça sua parte – a médica volta o olhar para um canto escuro, aonde há um prótese de metal – Você precisa caminhar com aquilo, sem isso não vai poder sair daqui...

Todos ficam em silêncio e compartilham da dor de Soluço. Ele sabe o que precisa fazer, mas não é como se ninguém nunca tivesse medo de dizer à verdade quando era o que devia fazer, e agora o paciente do hospital não consegue dar o primeiro passo.

—Lento como o Soluço é o mundo vai acabar antes disso – graceja Jack.

Todos olham o grisalho, surpresos com o que ele acaba de dizer, mas sabem que o amigo não fez por mal, sabe que fez para tentar dissipar a enorme nuvem negra que paira sobre o quarto do hospital.

Uma enfermeira aparece na porta e diz: “Doutora Elsa, temos um paciente esperando pela senhora.”.

A doutora olha o relógio, se dando conta do tempo e diz: “Vou ter que ir agora, mas qualquer coisa me chamem!”.

Ela sai pela porta e Jack fala: “Pode deixar ele vai correndo atrás de você!”.

O grisalho percebe a natureza errática de suas palavras apenas um segundo depois após pronunciá-las. E põe a mão sobre o rosto. Nunca foi bom em absorver tragédias de tal magnitude.

Vira para os amigos, as duas garotas de pé diante dele, e Soluço sentado no meio olhando-o, nem um pouco ferido com as palavras de Jack.

Mas Rapunzel e Merida estapeiam o rosto dele, cada uma bate num lado, e Merida bate mais forte. Fazendo Jack sentir-se pior, e baixar a cabeça, escondendo a vergonha. Até que uma clarão surge em sua mente, ele levanta o rosto com olhar de compreensão súbita e corre para fora da sala.

—Doutora! – ele chama, já no corredor, parado.

Elsa olha o relógio e quando vê que tem um tempo, volta seu olhar para Jack e se aproxima do rapaz com um sorriso e olhar gracioso.

—Sim Jack? – pergunta.

—Sabe as duas meninas malvadas que passaram aqui antes? – ele pergunta fazendo voz de criança assustada.

—Sei... – responde a médica com um sorriso no rosto, curiosa buscando saber aonde isso vai terminar.

—Elas me bateram...

—Jura?! – responde Elsa com olhar de espanto, mas não está surpresa, até porque não é a primeira vez que as duas garotas batem e Jack e ele não pode reagir.

—Sim... E olha o que elas fizeram! – ele fala e logo aproxima o rosto e mostra o lábio inferior, com uma ferida.

—Nossa! – responde a médica arregalando os olhos com surpresa verossímil.

—O que você me recomenda? – fala ainda fazendo a voz de menino frágil assustado.

—Uma pomada – responde simplesmente.

—Sério?! – ele diz com olhar brincalhão – Minha mãe me disse que um beijo pode curar uma ferida...

Elsa responde com um sorriso, e ambos passam uns segundos assim, se olhando quase maliciosamente. O adolescente, jovial, bonito, de estatura e altura mediana, olhando a mulher de baixo por ela ser mais alta do que ele; e a mulher, alta, bonita, esbelta, de lábios vermelhos e pele clara europeia, olhando o rapaz de cima por ser mais alta do que ele. Com menos de um metro de distância.

Seus sapatos calçados com tênis – pois costuma correr desesperadas em algumas situações em seu trabalho – dão um passo a diante, eliminando a curta distância entre eles. E Elsa dá um selinho em Jack, logo depois dá meia volta, no entanto Jack insatisfeito a segura suavemente pelo pulso, e a mais velha sorri, tanto por notar a natureza do momento, quanto por se sentir desejada pelo namorado.

Vira para ele com o rosto luminoso e sorridente, e ambos selam um beijo mais longo, molhado e saboroso, passam alguns segundos demorados assim e quando dão por si estão mordendo o lábio um do outro.

Quando se separam, Elsa toca os ombros namorado, empurrando-o dolorosamente, se separando do prazer do beijo.

—Tenho que ir agora – ela sussurra, ainda com a ressaca das sensações.

—Tá bom... – ele responde com olhar desejoso – Só não demore ok?

—Certo – ela diz balançando com a cabeça.

Ambos com os olhos, brilhantes, reluzentes, e as pupilas dilatadas.

—Doutora temos que ir – diz a enfermeira, tirando Elsa de seu mundo particular.

Elsa aos poucos se separa do namorado, mesmo não querendo, fazendo força como se os corpos de ambos fossem imãs extremamente poderosos atraídos um para o outro.

A doutora caminha pelo corredor, e quando vira, deita na parede, e demora um pouco para recompor as forças. Já Jack, fica com um sorriso bobo na cara, mesmo quando a doutora sai de sua vista, e seu corpo fica paralisado, Jack terá de esperar um pouco para recuperar a mobilidade de seus membros, pois teme que se der um passo seu corpo desaba.

Jack e Elsa sempre foram as pessoas que conseguiram tirar o fôlego um do outro.

Mas acaba que o grisalho não precisa se preocupar com como retornar para o quarto. A ruiva, com seu espírito em chamas, agarra o amigo pela gola e o puxa com violência para dentro do quarto.

E começa a gritar com amigo.

—Qual é o seu problema?! Como é que você faz isso?!

A ruiva grita irritada com o grisalho por ele trocar seu melhor amigo que se encontra num momento de necessidade para trocar beijos com sua musa pálida, também grita por causa das piadas que Jack fez anteriormente. E o amigo dela fica encolhido no chão, sentindo a agressão da voz de Merida, vez ou outra tenta falar alguma coisa, mas sempre interrompido, e nem por um momento compreendido.

No entanto, Merida para de gritar quando um homem alto, obeso, loiro e barbado, com uma prótese em uma das pernas e em um dos braços, entra no quarto.

Bocão, melhor amigo de Stoico e amigo antigo e mentor de Soluço, tendo sido ele a ensinar muitas coisas que Soluço sabe aos 15 anos.

E todos se voltam para ele. Sabendo que se existe alguém que deve falar com Soluço, esse alguém é ele, tanto por conhecer Soluço desde que engatinhava, quanto por já ter passado pela experiência que Soluço passou, duas vezes. Perdeu os membros numa guerra, aonde lutou ao lado de Stoico e foi salvo pelo mesmo, é padrinho de Soluço.

—Podem me deixar a sós com o Soluço?

Os adolescentes obedecem e saem em fila silenciosamente, fechando a porta quando o último sai, deixando ambos sozinhos.

—Me desculpe por ter demorado – diz enquanto arruma uma cadeira para sentar – mas estive ocupado, você me entende... É meu aprendiz...

Ele se senta na frente dele há poucos centímetros e Soluço o olha em silêncio.

E começa.

—Você não pode mudar o que aconteceu. Não desista, você está bem agora, o que passou, passou e...

—De onde você tirou isso tudo? – interrompe Soluço, sabendo muito bem que o mentor não é assim.

—Pesquisei antes de vir pra cá – responde simplesmente.

—Qual é! Você sabe que faz melhor do que isso...

Soluço sabe que fala a verdade, Bocão pode não saber segurar a língua em determinadas situações, mas já foi bom em aconselhar Soluço e sabe fazer ótimos discursos de funeral.

—Eu me lembro de quando perdi a minha perna e meu braço, achei que seria inútil e que não poderia fazer mais nada pelo resto da vida, mas como você mesmo já viu, eu não sou tão inútil quanto pareço e faço muitas coisas...

Soluço responde com um sorriso.

—Não será do dia para noite que vai superar isso, mas tem que aceitar o que aconteceu, se um corredor não aceitasse que tem um obstáculo no meio da pista não pularia, ao contrario acertaria ela, cairia, se machucaria e por aí vai. Da mesma forma, aceite o que aconteceu, assim poderá seguir adiante...

Soluço sorri e reflete profundamente as palavras de Bocão, acaba fazendo essa aplicabilidade em outras fazes de sua vida, e percebe que há um fundo de verdade nas palavras dele.

—Bom! – diz Bocão se levantando, assustando Soluço e fazendo-o saltar os ombros – Já fiz a minha parte, agora preciso ir. Você sabe, trabalho.

É óbvio que tais palavras não são tão agradáveis de se ouvir, mas Soluço já está acostumado com a impetuosidade nas palavras de Bocão e sabe que ele não faz por mal.

Bocão sai pela porta e dá um “oi” rápido para os amigos de Soluço.

Depois disso, tudo volta a ser como era no espaço de tempo entre a saída dos pais de Soluço e a chegada das patricinhas da escola dos quatro.

Emma adormece por não ter o que fazer e logo a irmã mais velha de Jack Frost surge para buscá-la. Rapunzel toca violão para Soluço até o anoitecer e ele poucas vezes demonstra alegria pela presença de todos.

A noite, quando Soluço ainda está acordado, perto da janela, com o rosto apoiando sobre a palma da mão aberta e o cotovelo sobre a madeira da janela, olhando a lua gigante e o céu quase limpo, mas com algumas nuvens e as luzes azuladas que adentram o quarto com as luzes apagadas. Merida está deitada sobre a cama do quarto, debaixo de seus volumosos cabelos, de costas para Rapunzel que dorme com sua consciência sempre tranquila, seu violão debaixo da cama, de seu lado. E Jack encolhido sobre a cadeira, tendo cedido o conforto da cama para as amigas.

Jack ainda está acordado, mesmo que tente dormir, não consegue.

—Soluço? – ele chama, e o amigo imediatamente vira o rosto para o grisalho, com a expressão fria, mas mais calma do que esteve durante todo o dia.

Jack arrasta a cadeira silenciosamente até o amigo e ambos conversam à luz do luar.

—Me desculpe pelas piadas que eu fiz hoje mais cedo... Sabe... É que não lido muito bem com essas situações, você me conhece.

Soluço olha o amigo inexpressivamente, não demonstrando nenhum tipo de ressentimento ou algo parecido.

E Jack continua:

—Só sei que algo muito ruim aconteceu com meu amigo... E que eu não estou conseguindo aceitar... Me perdoe...

Aos poucos um sorriso aparece no rosto de Soluço, surpreendendo Jack, e trazendo luz ao rosto de ambos.

—Você apanhou de duas patricinhas no meu lugar e ainda me pede desculpas?! Você é meu melhor amigo!

Ambos riem.

—Você se lembra daquela vez em que corremos delas e as meninas apareceram para nos salvar?

A resposta é uma risada.

E ambos ficam sussurrando lembranças divertidas de passados distantes. Merida está acordada, por mais que permaneça imóvel sobre a cama e só se mova porque seu corpo infla quando ela respira.

Jack e Soluço enquanto riem baixinho e conversam, de repente voltam o olhar para Merida por notarem algo se mexendo, mas a ruiva consegue fechar os olhos na hora. E os dois amigos apenas olham uma ruiva dormindo debaixo de seus cabelos volumosos e cacheados.

Depois de conversarem, Soluço se sente muito mais leve por dentro e as palavras de Elsa ressoam em sua mente: “Vai precisar caminhar com aquilo, sem isso não vai poder sair daqui...”.

O dia seguinte está gélido, há neblina do lado de fora do hospital, e o clima social é bem silencioso dentro do quart, mas é quebrado, pois o dia começa com Soluço caindo no chão.

Os três amigos acordam com o baque e o gemido do castanho.

—Soluço! – todos correm até o amigo sem pensar duas vezes, ainda que estejam sonolentos por não poderem dormir direito na cama de hospital e na cadeira.

O amigo está no chão, deitado de bruços, suado e lacrimejando.

—O que está fazendo? – pergunta Rapunzel.

—Dançando balé não tá vendo?! – responde Soluço em meio sua frustração. Já Rapunzel não se ofende, passa longe disso, pois sabe que o amigo está numa situação difícil. – A Elsa disse que eu precisava caminhar com minha prótese para sair daqui, é o que estou fazendo...

—Não devia ter tentado caminhar sem a nossa ajuda! – responde a loira.

Soluço suspira, não está com cabeça para discutir essa questão no momento, então só aceita a repreensão.

—Me ajudem a levantar.

Eles o fazem e começam a ajudar Soluço a caminhar. Há uma barra de metal no quarto, aonde Soluço pode se apoiar, mas não deseja fazê-lo, caminhava sem apoiar-se nela até que seus amigos decidiram ajudá-lo. Agora, Jack do lado direito de Soluço coloca o braço do amigo sobre seu pescoço, enquanto com a outra mão Soluço se apoia na barra de metal, e as duas meninas ficam uma na frente e outra atrás de Soluço para assegurar que ele não vai cair no chão, nem para frente, nem para trás.

Depois de dar voltas assim, com tudo facilitado, Soluço diz: “Parem! Fica mais fácil assim, mas eu tenho que caminhar sozinho.”.

Os amigos se olham, relutantes em deixar, mas o fazem a pedido do amigo, no entanto, Jack e Merida ficam um atrás e o outro na frente de Soluço, para que se ele cair possa haver alguém para segurá-lo, enquanto Rapunzel fica na ponta, chamando pelo amigo.

Soluço chora, fica suado e geme, porque dói e porque não caminha há muito tempo, e os amigos de Soluço são sensíveis às suas dores.

Tudo vai bem, de uma perspectiva médica, com Soluço se esforçando para conseguir caminhar, mas ainda é um percurso doloroso, até que Soluço se desequilibra, e Jack o segura para não cair.

O grisalho ajuda o amigo a se levantar, mas de repente Elsa aparece, e Jack não consegue prestar atenção em outra coisa senão em sua amada, tanto que acaba se esquecendo de Soluço e o deixa escapar de seu braço, deixando o amigo cair.

Todos se voltam para Jack, culpando-o por sua falta de atenção, já Elsa sorri, por causa da maneira boba e fofa do namorado.

O grisalho tenta socorrer Soluço, mas ele recusa, e tenta se levantar sozinho, afirmando que tem que fazer o esforço.

—Soluço! – diz Elsa sorridente por ver a atitude do amigo – Que bom que decidiu praticar andar com a prótese!

Soluço tenta caminhar, mas novamente cai, e o sorriso some do rosto de Elsa.

A médica se reúne com os amigos no canto da sala, para conversarem em segredo e pergunta: “Há quanto ele está assim? Caindo e levantando?”.

—Desde antes de acordarmos – responde Jack.

—E quando foi que acordaram?

—Há algumas horas – responde Merida.

Elsa suspira.

—Algum problema? – a loira pergunta.

—Não exatamente, é só que... Gosto de ver o Soluço nessa situação tanto quanto vocês, e eu gostaria muito de poder fazer alguma coisa.

—É, mas o que podemos fazer? – pergunta Jack,

Os quatro param pensativos, ficam em silêncio, com Soluço tentando caminhar a alguns metros deles, até que Elsa se dá conta de algo claro como água potável.

—Podemos dar-lhe um objetivo!

—Tá! Mas o que? – pergunta Merida sem se dar conta do óbvio.

E todos voltam o olhar para a ruiva. Depois de pensar mais um pouco, ela percebe que está sendo observada por todos, e passa os olhos nos três repetidas vezes sem compreender o porquê dos olhares em cima dela. Até que ela percebe e ruboriza.

—Eu?! Eu ser o objetivo do Soluço?!

—Merida você sabe que o Soluço é louco por você desde que se conheceram!

—Tá, mas...

Uma enfermeira aparece na porta do quarto. Uma mulher de idade, de óculos e roupas de enfermeira, que chama Elsa para atender um paciente recém chegado ao hospital.

—Tenho que ir, depois eu passo aqui – diz Elsa saindo do quarto e fechando a porta.

—Então Merida, o que vai ser? – pergunta Jack voltado para a ruiva e num tom e expressão brincalhona.

A ruiva responde com uma careta, mas um som vindo atrás deles desvia a atenção de todos. Soluço cai de novo, e agora está no chão, suado, com lágrimas nos olhos e frustrado, golpeando o chão, e gemendo de raiva, e os sons de seu desgosto é alto dentro do quarto.

—Você quer ver Soluço desse jeito? – pergunta Rapunzel olhando a amiga, que se compadece do sofrimento de Soluço, e Merida abre mão do orgulho.

Ela suspira e caminha até Soluço, que se levanta e volta para o ponto de partida, sem sequer imaginar o que espera por vir, afinal não ouviu a conversa dos amigos.

—Soluço! – chama Merida, de nariz empinado e com tom de autoridade, que saiu impetuosamente.

O mais novo volta o olhar cansado e sofrido para Merida enquanto se apoia na barra de metal.

A ruiva chama por Rapunzel e lhe pede a bolsinha de maquiagem, tira um produto de passar nos lábios, de bom cheiro e bom sabor.

Respira fundo, nervosa.

—Se conseguir chegar até mim, eu te dou um beijo! Na boca!

Todos arregalam os olhos diante do desafio, Jack e Rapunzel na parede e Soluço e Merida perto da barra. Todos incrédulos, até mesmo Merida. Rapunzel põe as mãos na boca e todos ruborizam.

Ficam em silêncio por alguns instantes. Esperando uma resposta de Soluço, o segundo mais incrédulo de todos, a primeira é Merida.

Soluço abaixa a cabeça, tentando absorver o choque das palavras da ruiva. Eergue o braço e chama pelo grisalho, que o atende imediatamente, corre até ele, passa por baixo da barra e deixa que o amigo se apoie nele, enquanto segura o pulso do amigo, o pulso do braço que está sobre seu pescoço, e sente o peso de Soluço.

Merida passa o produto de beleza nos lábios e olha Soluço de cima, com o rosto sereno e confiante, escondendo seu desconforto com a situação. Jack e Soluço se sentem pequenos diante da ruiva e sua beleza, e ambos ruborizam juntos diante de tal visão.

Rapunzel se sente desconfortável, mas admira a determinação de Merida, afinal, a ruiva odeia usar maquiagens, a beleza de seu rosto é algo totalmente natural, diferente de várias alunas de sua escola e de pessoas que conhece.

Jack abandona o amigo e volta para a parede, ao lado da loira, ainda abalado por Merida, nunca imaginando que ela poderia agir de tal maneira.

Soluço fica novamente de pé, apoiado na perna de carne e na barra de metal, olhando Merida, cujo sorriso já não está mais em seu rosto, mas ela ainda demonstra simpatia, e Soluço começa a caminhar.

O caminho se torna mais longo, mas Soluço vai mais depressa, tendo em vista que seu sonho está a alguns metros de distância de se realizar, ele chega a tropeçar algumas vezes, mas não se deixa cair no chão.

Merida ruboriza quando olha sua determinação, mas fica feliz ao se sentir desejada.

Soluço alcança Merida, mas tropeça no último instante, a ruiva segura o amigo nos braços, sentindo nitidamente o suor de seu esforço. Soluço fica de cabeça baixa por alguns instantes e fica à graça dos braços atléticos e femininos de Merida. Ele levanta a cabeça, se apoiando nos pés e ainda com o corpo curvo, olha Merida acima dele e seu rosto lindo a alguns centímetros. Uma expressão fechada está no rosto da ruiva, mas o rubor de suas bochechas deixa claro que não é por não estar feliz em ter que beijar Soluço.

Jack e Rapunzel olham a cena, os dois amigos com uma envolvente história de amor, prestes a selarem os lábios, ansiosos pelo acontecimento como se assistissem a uma novela romântica, e estão ruborizados.

Merida passa os olhos rapidamente no rosto jovem de Soluço e aos poucos fecha os olhos, aproximando lentamente seu rosto do dele para beijá-lo. O amigo fica pasmo com o rosto de Merida se aproximando, ruboriza e aguarda o beijo ansiosamente, mas de repente algo começa sugar sua alegria e a expressão de seu rosto muda, fazendo-o virar o rosto, fugindo do beijo.

A ruiva, ao olhar o rosto do amigo, com expressão fechada o chama: “Soluço?”.

—Agradeço por tudo isso Merida, mas não quero obrigar você a fazer algo que não queira.

E todos os outros na sala são pegos de surpresa, incrédulos ao ver que Soluço recusou um beijo de Merida, chegando a ficarem decepcionados, inclusive a ruiva que fica muda diante da situação e olha seus amigos, tão perdidos e sem resposta quanto ela.

Soluço força um sorriso e dá meia volta, indo à outra ponta da barra, ainda mancando.

E continuam, Merida permanece na ponta da barra e espera por Soluço, enquanto o clima desagradável permanece na sala, mas ninguém toca no assunto, e Soluço é o único que não percebe, está mais preocupado a recuperar o dom de caminhar.

A manhã passa, todos comem algo oferecido pelo hospital como café da manhã, e quando chega o almoço, Stoico manda comida para os quatro.

Todos comem em silêncio.

Merida come rapidamente, esfarelando seu vestido, quando termina, se levanta apressada e deixa os restos para os amigos se livrarem.

Logo depois sai pela porta, procurando sua irmã de outra mãe. Caminha por vários andares do prédio até que a encontra, andando calmamente pelos corredores, por estar em horário de almoço.

Ao ver a ruiva indo depressa em sua direção, com o rosto que a doutora conhece, o rosto de alguém que quer conversar, ela responde com um sorriso e fala: “Oi Merida! O que faz aqui?”.

No entanto a ruiva não responde sua pergunta e quando finalmente se encontra com ela, faz um movimento rápido e a pega pelo braço e pela perna, colocando-a sobre as costas.

—Ei! O que está fazendo?! Me coloca no chão!

Mas Merida não obedece, continua a carregar a doutora em direção a uma sala do canto do corredor, sabendo que estas salas sempre estão vazias. Os demais médicos, médicas, enfermeiros e enfermeiras olham a platinada que a princípio se debate, mas logo depois aceita.

Ao passar por um grupo de médicos, amigos dela, Elsa diz: “Tá tudo bem, ela é minha amiga...”.

Merida abre a porta, entra no quarto, – quarto bem semelhante ao que havia entrado com Rapunzel — tranca-o e só depois coloca Elsa no chão.

—O que deu você?! – grita Elsa, não muito alto, mas expondo o desgosto.

—Ah, dá um tempo, você fazia isso quando éramos pequenas lembra?! Até hoje de vez em quando você faz.

—Não é isso! Estou em área de trabalho!

—Enfim, não importa, preciso falar com você.

O rosto de Elsa muda no mesmo instante em que nota a expressão no rosto de Merida e o tom de sua voz. Uma mudança repentina que raramente é visto nela.

—O que houve? – pergunta Elsa preocupada.

—Senta aí – responde a ruiva empurrando Elsa em direção a uma cama com lençol e almofada brancos.

—Seguimos o seu conselho, e servi de meta para Soluço.

—Sério! – responde uma Elsa sorridente – E deu certo?

Merida baixa a cabeça e a coça, sem saber por onde começar, então decide ir em ordem cronológica.

—Fiz um desafio ao Soluço, de que o beijaria se ele conseguisse chegar até mim.

—Na boca?

—Sim...

A médica se levanta, de olhos arregalados e surpreendida.

—Como assim você ia beijá-lo na boca? Perdeu o juízo?! Nem namorados vocês são! Por que você vai à Igreja? Não quer arranjar marido algum dia?

—Elsa calma! – fala Merida levantando as mãos, com as palmas abertas e os dedos contraídos, um dos raros momento em que Elsa consegue subjugar a ruiva violenta – Dá pra me escutar!

Depois de uma bronca de alguns segundos, Elsa fazendo o papel novamente de irmã mais velha de Merida. A platinada se senta.

—O Soluço conseguiu chegar até mim, mas não aconteceu nada. Não nos beijamos!

—Não? O que aconteceu?

—Quando eu ia beijá-lo o Soluço fugiu de mim... Devia ter visto.

—Você sabe por que ele fez isso?

—Ele só falou que não queria que eu fizesse algo que eu não queria fazer...

Merida sente a dor escura em seu peito, a que tira toda a luz e o viço da vida, como a luz elétrica de um quarto, que num instante fica visível e a luz cai ou estraga, transformando um lugar iluminado e seguro, num lugar escuro e solitário, e Merida sente a solidão misturada com outros sentimentos.

—Talvez devesse demonstrar interesse pelo Soluço...

—Como assim?! – responde Merida franzindo o cenho, sabendo que a conversa irá tomar um rumo que ela não quer.

—Merida, o Soluço sempre teve interesse por você, e eu me lembro de que um dia você já me falou que havia se apaixonado por ele.

—Tá, mas isso foi antes, antes da Astrid!

Elsa levanta o rosto revirando os olhos com um sorriso com certo tom de escárnio. O velho discurso de Merida, aquele que ela sempre usa para fugir desse assunto, para fugir de seus verdadeiros sentimentos, dos verdadeiros sentimentos que ela tem por Soluço.

—Merida, você não vai vir com essa de novo...

—Vou sim, como posso perdoá-lo depois do que ele fez? Ele parou de falar comigo quando namorou com a Astrid!

Elsa lança um olhar de repreensão, assumindo novamente o papel de irmã mais velha.

—Primeiro, isso mal durou um mês, segundo, isso foi há dois anos, e terceiro, Soluço terminou com Astrid por sua causa, lembra disso?

Merida vira de costas, ainda sentada, inquieta, escondendo o rosto, a cabeça baixa e os cabelos caídos, ela reconhece o rumo dessa conversa, sabe que Elsa vai lembrá-la de um dos piores momentos da vida dela, momento de certa forma vergonhoso e que ela quer esquecer, que todos querem esquecer, na verdade que todos já esqueceram, mas Elsa pretende desenterrar o passado para puxar a orelha de Merida mais uma vez.

A doutora pega o celular, grande e fino, com capa rosa e um acessório do formato de um floco de neve branco pendurado por uma correntinha e procura por um vídeo na internet.

—Merida... Lembra disso?

A ruiva olha o vídeo, sua vergonha personificada, um vídeo com milhares de visualizações de pessoas que sabem o que aconteceu, que não sabem o que aconteceu e que mesmo assim riram sem saber da gravidade daquela situação, de pessoas que ainda veem e riem de algo que não se deve rir.

Mas é apenas uma pequena parte final de uma longa história. De alguém que surgiu na vida dos quatro e seus amigos e fez uma grande tempestade, deixando até algumas cicatrizes.

Hans. Ele apareceu como um amigo de José Bezerra, que já tentou um relacionamento impossível com Elsa, mas ficou com Rapunzel. Hans, era bonito, atlético, talentoso, tinha bom papo e aos poucos recebeu fama em toda a escola, ganhando assim a afeição de todos, apenas Jack, que desde o começo reconhecia o lobo por baixo da pele de ovelha de Hans, não lhe teve afeto.

Filho caçula de dezenas de irmãos, e com a herança de seu pai sendo dividida pela idade dos filhos, Hans ficaria com a menor parte da herança – por maior que a fortuna fosse, e sua parte também – o que ele queria de verdade era uma namorada rica, com quem pudesse se casar e ser rico, e Anna, Elsa e Merida estavam disponíveis.

Tentou flertar com todas, até com Rapunzel, que já era namorada de José na época, e que não desconfiou porque depois que Hans abriu mão de tentar seduzi-la, pediu desculpas de maneira muito convincente, assumindo o papel de um bobo que se apaixonou pela namorada do melhor amigo.

Merida não consentiu com os gracejos e cortejos de Hans, e ele abriu mão dela também, e Anna era a mais ingênua e inocente, e mais desesperada por amor, e ela acreditou na lábia de Hans, eles namoraram por um tempo, mas devido a imaturidade de Anna, Hans acabou troncando-a por Elsa, que por mais prudente que fosse, acabou caindo na armadilha e namorou com ele, Anna sofreu com isso, mas amava tanto Elsa, quanto Hans, e por mais doloroso que fosse, também ficou feliz com o ocorrido, e Jack, que enxergava o lado sombrio por baixo da máscara de Hans ficou de coração partido.

O plano de Hans era engravidar Elsa e para assumir o filho, casar-se com ela. Mas o que ele não esperava era que Elsa tivesse uma boa formação na infância, inclusive religiosa, mesmo depois da morte dos pais dela, foi “criada”, junto com sua irmã, por Norte, tanto que foi o padre que apresentou Jack e Elsa um ao outro, e Elsa guarda a castidade para o casamento.

Sua religião ajudou-a muito em sua profissão, sempre reza antes de fazer cirurgias e carrega um terço no pulso, que só tira para tomar banho e fazer cirurgias, e quando algum paciente morre, é uma base aonde ela se segura, junto de Jack e seus amigos.

Isso jogou um banho de água fria nos planos de Hans, e ele terminou com ela em consequência disso, não queria esperar tanto, afinal, Elsa é mais prudente do que Anna.

E depois, Hans continuou sendo o amigo de todos, poucos sabiam sua verdadeira face, e por isso ele continuou na vida dos jovens por muito tempo. Costumava ficar aos beijos com as garotas da escola, até mesmo com Astrid, que namorava Soluço na época, também Cassandra, amiga de Rapunzel, que se dá muito bem Merida, acabou caindo por ele, talvez por ter um fraco por canalhas.

Causou confusões em que ficou totalmente ileso, brigas entre os amigos, entre muitas outras coisas, tratou-os feito marionetes, até Jack em algumas ocasiões. Isto é, até certo momento. Certo dia, Jack, quando o grupo estava todo reunido, denunciou todos os males de Hans na frente de todos e o insultou de diversas formas, mas ele foi visto apenas como o garoto bobo que não gostou de outra pessoa ter roubado os holofotes para si, e que ainda estava ressentido por ele ter namorado com Elsa por um tempo. Ninguém acreditou nele, e Jack pôde ver o sorriso maquiavélico no rosto de Hans.

Mais tarde, no mesmo dia, Jack novamente abordou Hans e fez o mesmo que anteriormente, acusou-o de seus males, e o insultou de tal maneira que somente o grisalho poderia fazer, e aconteceu o que Jack já esperava que acontecesse, Hans perdeu a cabeça e o agrediu fisicamente e verbalmente, de tal maneira que ninguém imaginava que Hans seria capaz, Jack sacrificou seu corpo para expor a verdade, e mais do que isso, Hans assumiu seus crimes em voz alta, afinal, ninguém acreditaria em Jack se ele dissesse de novo. Mas talvez ele não tivesse feito aquilo se tivesse parado para pensar, se tivesse percebido que era um plano de Jack, se tivesse percebido a câmera escondida, no ângulo perfeito, captando cada ato e palavra dele, em cima de uma lata de lixo, escondida por sacos pretos de lixo.

No dia seguinte, Jack colocou a filmagem no projetor da escola, no pátio, aonde todos puderam ver, ele ainda estava com as feridas do dia anterior. Todos viram incrédulos o lado de Hans que Jack sempre denunciou, mas ninguém jamais acreditou, e agora, a farsa, a pele de cordeiro, a máscara havia caído diante de todos e a podridão de Hans ficou visível para todos.

Jack estava no palco enquanto o vídeo passava, e Hans apareceu atrás dele e o empurrou, fazendo-o cair e se machucar caindo quase de um metro. Hans tirou o vídeo a força, separando os fios da tomada, e todos o olharam, todos que um dia o enxergaram como um sujeito admirável, interessante e digno de aplausos olhavam-no perplexo, sem acreditar, ainda mais Elsa, que um dia amara Hans de verdade. O lobo ficou no palco, paralisado diante de todos aqueles olhos, assustado e envergonhado, como nunca ninguém jamais viu, afinal, sempre demonstrou confiança e segurança, algo que o ajudava a ter tanto sucesso.

A única reação de Hans, foi vingança, saltou do palco e correu até Jack que continuava caído e sentindo as dores causadas por Hans, mas Merida apareceu para proteger o amigo, e em alguns golpes de artes marciais, derrubou Hans e o deixou inconsciente com rapidez e facilidade.

Elsa pegou Jack e o levou para o hospital aonde trabalhava, e cuidou de cada ferida, sentia vergonha pois várias vezes Jack alertou Elsa sobre o verdadeiro Hans e ela não acreditou, chegando a brigar com ele, enquanto o grisalho, o tempo inteiro a amou de forma incondicional, e sentia nas mãos belas e sensíveis que Jack estava certo, e se sentia culpada, como se fosse ela a responsável por aquelas feridas, e talvez fosse.

Ela chorou no peito nu de Jack quando terminou de cuidar dele, mas Jack a beijou enquanto lágrimas escorriam de seu rosto, e a partir daí começaram a namorar, mas a princípio em segredo, alguns poucos amigos descobriram que a Elsa de 19 anos namorava com Jack de 13 anos, e quando o mais novo completou 14, eles assumiram o relacionamento e padre Norte – que sempre torceu para que ficassem juntos – ficou feliz e disse uma frase que Elsa jamais esqueceria: “Como disse Santo Afonso de Logório, Deus não permitiria o mal se não pudesse tirar desse mal um bem infinitamente maior.”.

Enquanto isso, Hans foi banido do grupo de amigos, expulso da escola e sua imagem foi difamada, e aí chegou a história do vídeo de Merida.

Soluço estava namorando com Astrid, e a loira pediu que ele não falasse mais com Merida, e cego de amor, ele o fez, e Merida se irritou com ele. E foi no baile da escola, aonde Elsa esteve de plantão no hospital, e Jack foi sozinho, e Astrid foi num vestido justo, curto e vermelho, tendo como seu par, Soluço, que sequer sabia que sua namorada já o havia traído. E Rapunzel estava com Flynn, enquanto Anna começava seu namoro com Kristoff.

Merida não se lembra de muita coisa, mesmo que quisesse se lembrar, apenas lembra que a partir de um certo momento todas as coisas começaram a ficar confusas, as luzes giravam, e as batidas das músicas junto das vozes da maioria das pessoas ao seu redor estavam indiscerníveis.

Algumas poucas coisas que a ruiva se lembra foi a diferença semelhante entre Deus e Lúcifer, ela estava agitada e demonstrava uma animação que não se encontrava nela, ela dançava sem parar e com movimentos estranhos, e ela se lembra que a maioria daqueles que estavam ao redor dela, gritavam seu nome a excitavam para dançar mais, sem saber a gravidade do que ocorria, já seus amigos, que a conheciam e amavam e sabiam que aquele comportamento não era normal para ela – nem para qualquer pessoa sã – socorreram-na para saber se ela estava bem.

Sua dança alucinante tomou proporções tão absurdas que até mesmo o DJ da festa parou de tocar a música e todos olharam a ruiva, até mesmo Astrid, encarando-a e enxergando uma louca. Primeiro Rapunzel tentou trazê-la de volta a razão com palavras, mas ela apenas ignorou a amiga e a empurrou, depois foi Jack, que notou que não podia dialogar com a amiga e tentou segurá-la a força – ele não é muito forte, nem tem muitos músculos, aliás, sua estatura não se difere muito da de Soluço -, mas quando a ruiva sentiu a pressão em seu pulso, ela reagiu com uma cotovelada no nariz do grisalho, que o fez cambalear para trás e cair com sangue no rosto.

Instantes depois da ruiva dançar, ela caiu, inconsciente, todos os seus amigos na festa gritaram seu nome, e Soluço que antes segurava a mão de Astrid, soltou-a e imediatamente colocou Merida nas costas e correu com ela, e todos na escola viram aquele como o maior feito de força de Soluço, afinal, Merida desde aquela época já tinha mais músculos – que não tiravam seu ar feminino — e altura do que Soluço.

Foram para o hospital no carro de José desesperadamente, abandonando completamente a festa e deixando a preocupação no ar. No hospital, descobriram que Merida havia ingerido Afetamina e teve uma overdose. E decidiram ficar no hospital até que Merida recebesse alta.

Mas minutos depois de Merida acordar, apareceu uma Astrid raivosa, com a maquiagem borrada, seus cabelos bagunçados, vestido sujo e rangendo os dentes, pois havia começado a chover, e Soluço havia deixado ela sozinha no baile.

A loira gritou com o namorado, totalmente furiosa, mesmo os funcionários do hospital não a fizeram parar, ela também não deixou que Soluço se justificasse, ainda que não tivesse nada a justificar.

E na sala do hospital, com todos olhando, inclusive Merida, Astrid forçou Soluço a tomar uma decisão, a mesma decisão que o fez namorar com Astrid, a de Soluço dar as costas para Merida e não falar mais com ela, nem dirigir a palavra a ela. Mas daquela vez, Soluço tomou a decisão correta. E Astrid ficou indignada, a ponto de dar um soco no rosto do ex-namorado, e ficaram Jack e Soluço, sentados um do lado do outro, com a mão no nariz, com algodão estancando o sangue.

E Merida se surpreendeu, não esperava tal atitude de Soluço, nem a dele carrega-la com a força dos braços para dentro do carro, quanto a dele renunciar definitivamente Astrid como namorada, apenas para ficar com ela naquele momento. O que concertou por completo a amizade deles, por mais que algumas coisa ainda precisassem ser colocadas no lugar.

O que aconteceu foi que Hans permaneceu na cidade depois de ser expulso, e ele quis se vingar de todos. Comprou um saquinho de drogas e tentou prejudicar a todos, colocando as pílulas na comida a ser servida e conseguiu fazer Merida comer, mas não foi capaz de fazer o mesmo com os outros, mas ficou satisfeito em se vingar de Merida, pois ela o havia derrotado na frente de todos da escola.

Posteriormente descobriram e Hans foi preso e continua na cadeia.

Aonde há desgraça no mundo moderno, também sempre há alguém que filme, e foi o que aconteceu, assim que Merida ficou como louca, alguém puxou o celular e filmou-a dançando, desmaiando e também Soluço que correu com Merida nas costas, e o aluno que filmou o ocorrido acabou voltando o celular para Astrid, que estava sozinha, e com expressão incrédula e irritada, foi aonde o vídeo terminou.

Merida olha o fim do vídeo, e divide seus sentimentos, parte de si envergonha pelo ocorrido, por mais que não seja ela a culpada, mas no fundo uma felicidade que não quer aceitar, a de Soluço abandonando Astrid para socorrê-la.

Elsa guarda o celular e olha a amiga, sabendo o quão difícil é para ela olhar o vídeo e se lembrar do ocorrido, por mais que ela não se lembre muito daquela noite.

A platinada suspira e diz: “Merida, você sabe que é tão irmã pra mim quanto Anna, então sabe que quando digo isso não é para te ofender, mas... Você deve muito mais a Soluço hoje do que ele deve a você.”.

As palavras atingem o centro do coração de Merida, quebrando a tranca de uma cela que há muito tempo guarda sentimentos em forma de monstros.

—Agora eu preciso ir – diz Elsa se levantando da cama e indo em direção a porta – por favor, pense no que estou te dizendo, você não quer ter problemas com o Soluço pelo resto da vida, e com certeza não quer ficar sozinha pra sempre. Fique um tempo aqui, pense sobre isso e depois saia.

Elsa sai do quarto, deixando uma Merida sensibilizada sentada sobre a cama, sozinha, com a cabeça baixa e pensativa.

Merida segue o conselho de Elsa, fica no quarto algumas horas, pensando, procurando respostas para suas dúvidas e tomando a dolorosa atitude de ser verdadeira consigo mesma. Se lembra de muitos momentos que ela passou com Soluço, lembra das vezes em que ela sofreu e ele a consolou, que ele já declarou seu amor por ela, que ela mais errou do que acertou e ele sempre perdoou os erros dela de maneira imediata, e mais tarde percebe lágrimas em seus olhos, quando escurece, ela percebe que passou tempo demais pensando.

Decide sair do quarto e caminha calma e lentamente em direção ao quarto de Soluço, passando por entre vários empregados agitados e que correm de um lado para o outro.

Ao entrar novamente no quarto, ela encontra Jack e Rapunzel novamente tentando ajudar Soluço a caminhar, mas ele continua a cair. Percebe que sua ausência não mudou nada enquanto ela esteve fora, e percebe que ninguém a procurou, mas se lembra que sempre que fica extremamente frustrada e chateada a ponto de se isolar dos outros, seus amigos tomam a sábia decisão de deixá-la sozinha até que se acalme.

Todos a olham em silêncio, no quarto pálido, pois o sol já se põe. Merida apenas segue alguns passos adiante até chegar a ponta da barra, e ordena que Soluço vá para o outro lado.

Ele obedece, já sem se lembrar da proposta de algumas horas antes.

Soluço volta a caminhar, menos lamuriante do que estava anteriormente, e Merida ainda reflete um pouco, como Elsa mandou, depois levanta o rosto, decidida.

Soluço caminha apoiado na barra, dá alguns pulinhos com a perna de carne, até que finalmente cai de novo nos braços de Merida.

Dessa vez ela o agarra, e aproxima seus lábios vermelhos e femininos dos lábios de Soluço, que tenta fugir, mas Merida não deixa, e aproxima o rosto do dele até selar um beijo.

Jack, Rapunzel e Soluço, se surpreendem, todos com os olhos arregalados, e Jack e Rapunzel com a boca aberta. A loira põe as mãos na boca e ela e Jack se olham.

Soluço que antes se debatia um pouco, entra em estado de assombro, mas ainda desfruta do beijo, e Merida isola sua mente da situação, só existe Soluço e ela.

Quando ela se separa, seu rosto não mostra um traço sequer do que se esperaria de Merida, um olhar ranzinza de alguém que cumpriu uma promessa por cumprir. Mas um olhar mais sereno e de nova descoberta.

Todos ficam em silêncio diante da situação e quando menos esperam, Soluço e Merida estão ajoelhados de frente um para o outro, enquanto Jack e Rapunzel ainda olham incrédulos.

Merida deve explicações para as mentes totalmente caóticas.

—Podem nos deixar a sós, só eu e o Soluço? – pergunta Merida.

E os dois amigos saem silenciosamente do quarto, os únicos sons sendo de seus passos e da porta.

—Pode me explicar o que foi isso? – pergunta Soluço.

A ruiva suspira baixando a cabeça e olha o amigo.

—Desde que nos conhecemos, você foi um ótimo amigo, você cometeu alguns erros, eu cometi outros, mas você sempre esteve do meu lado quando precisei, e cuidou de mim nessas horas complicadas – Merida novamente suspira e percebe que está chorando – você foi um ótimo amigo! – exclama ela chorosa – E eu fui uma péssima amiga... Se você tiver desistido de ser meu namorado, eu vou entender! Mas por favor, me perdoe... Todas as nossas complicações foram culpa minha!

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A medida que Soluço escuta, seu rosto muda, vai de uma expressão séria e duvidosa a uma expressão de compaixão, empatia e lá no fundo felicidade, gradativamente.

Merida fica de cabeça baixa e se entrega às lágrimas diante de Soluço, deixando-as escorrer pelo rosto.

Já o amigo, apenas a olha, com olhar de compaixão e toca-lhe o queixo, levantando seu rosto, enquanto Merida fecha os olhos, não querendo ver a expressão no rosto dele – que espera ser uma expressão raivosa – mas o garoto na sala rouba-lhe um beijo, como ela o fez, e mais algumas lágrimas rolam do rosto de Merida enquanto ela o assente.

Depois se separam, aos poucos ficando sorridentes, ruborizados, e novamente Merida investe em Soluço, e ambos selam um beijo longo e saboroso. Não há mais nada que precise ser dito.

Ainda trocam alguns selinhos e Soluço com a testa colada na dela e acariciando lhe os cabelos atrás da orelha da ruiva, pergunta: “Então... Estamos namorando?!”.

A ruiva sorri e responde: “Sim, estamos...”.

Depois de alguns instantes se olhando, desfrutando da felicidade do momento, Merida pega a perna de Soluço, tira a prótese e beija aonde a perna acaba e diz: “De fato, Deus não permitiria um grande mal se desse mal não pudesse tirar um bem maior.”.

Passados alguns instantes, Merida diz: “Agora podem entrar!”.

Jack e Rapunzel entram sorridentes, mas tentando disfarçar, e Merida diz: “A gente sabe que estavam ouvindo atrás da porta.”.

—Desculpa, não resistimos! – diz Rapunzel que logo corre para abraçar ambos e parabeniza-los pela declaração.

Jack também vai e ficam nesse instante de sorrisos, agradecimentos, recheada com comentários de Jack: “Finalmente hein Meri, desencalhou!”.

Elsa entra no quarto, os jovens a explicam o que acaba de acontecer e Elsa abraça Merida e Soluço, feliz.

—Que bom que me escutou!

Os dias passam e Soluço logo consegue caminhar com a prótese, e se esquece de tudo o que passou, pois seus amigos tomam toda a sua atenção.

No fim de tudo, Jack, Soluço, Merida e Rapunzel ficam na frente do hospital, voltados para o horizonte banhado em ouro devido ao por do sol.

—Pessoal, obrigado por tudo o que fizeram por mim nesses últimos dias, não sei aonde estaria sem vocês agora.

—Relaxa! – responde Jack – É pra isso que servem os amigos.

—Você é importante pra gente – diz Merida segurando a mão de Soluço, ainda tentando aprender o que é namoro.

—Nunca deixaríamos você Soluço – diz Rapunzel.

E ficam um tempo em silêncio.

—Certo! – diz Merida correndo e se voltando para os amigos – O último que chegar no cinema é mulher do padre!

Todos começam a correr e Jack diz: “Ei! Você tá trapaceando! Não vale!”.

—Merida qual é! Eu acabei de perder uma perna!

—Merida! – grita Rapunzel.

E todos correm debaixo do por do sol.

“A amizade é a mais verdadeira realização da pessoa” Santa Teresa D´Ávila.

Notas finais
Obrigado aos que leram! Comentem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!