Moira
8 Fios Que Se Rompem (Parte 2)
Notas iniciais
Um pouco depois do início do jantar não me surpreendi quando meu avô anunciou, com a mesma naturalidade de quem comentava sobre o clima, que eu iria à festa da colheita com meu noivo na noite seguinte.
Eu já esperava por aquilo, ele jamais recusaria um pedido vindo de Peeta. Meu avô precisava que aquele casamento acontecesse o mais rápido possível e o festival seria a oportunidade perfeita para mostrar à cidade inteira que o compromisso entre nossas famílias era real. Principalmente para as famílias mais antigas.
Não era segredo entre as famílias influentes o acordo de noivado que meu avô havia feito com os Mellark anos atrás, embora quase nunca se falasse sobre aquilo abertamente. Ainda assim, pelo que ouvi dos empregados durante a semana, muita gente parecia acreditar que o casamento jamais aconteceria de verdade.
Peeta passou anos longe da cidade, tempo demais para um compromisso daquele tipo continuar existindo sem levantar dúvidas. E meu avô odiava dúvidas e a aparição pública acabaria com isso. Enquanto Prim comentava animada sobre as barracas e apresentações que aconteceriam na praça principal, permaneci mexendo distraidamente na comida do prato.
Era estranho pensar que vinte e dois anos atrás meu avô dificilmente aceitaria um noivado como aquele. Assim como muitos homens mais velhos de Thalessi, ele cresceu acreditando que uniões entre famílias gregas e estrangeiras nunca eram realmente uma boa ideia. O que era minimamente irônico, já que hospitalidade sempre foi praticamente uma obrigação moral ali.
Em Thalessi, assim como em grande parte da Grécia, receber bem um visitante fazia parte da honra da casa. A mesa cheia, o vinho servido antes mesmo da conversa começar, a insistência quase ofensiva para que alguém aceitasse comida.
Desde pequena ouvi histórias sobre a antiga xenia. A ideia de que viajantes estavam sob proteção divina e que os deuses podiam cruzar o mundo disfarçados de estrangeiros e bater à porta de qualquer casa.
Ofender um visitante era quase ofender os próprios deuses. E gregos evitavam ofender os deuses da mesma forma que eram apegados demais aos próprios costumes e desconfiados de mudanças.
Ainda assim, existia uma diferença silenciosa entre acolher alguém por uma noite e permitir que essa pessoa se tornasse parte da família. Porque para homens como meu avô sangue importava. Nome importava e o costume importava ainda mais.
Segundo eles, misturar culturas significava assistir aos próprios costumes desaparecerem aos poucos dentro de casa. Os filhos cresceriam entre línguas diferentes, hábitos diferentes e acabariam sem realmente pertencer a lugar nenhum.
E filhos sempre eram o assunto mais delicado, porque filhos significavam continuidade e legado. Os mais velhos costumavam dizer que estrangeiros nunca permaneciam de verdade. Mais cedo ou mais tarde iam embora levando os filhos junto, deixando para trás sobrenomes esquecidos e casas vazias.
Meu avô pensava exatamente assim, embora, hipocrisia à parte, também valorizasse dinheiro quase tanto quanto tradição e costume.
E os Mellark, pelo que soube, tinham muito dinheiro.
Mesmo carregando o desconforto silencioso de parte das famílias mais antigas. Pelo que ouvi, o pai de Peeta vinha de uma família completamente grega e originalmente de Thalessi, mas a mãe dele tinha ascendência estrangeira, algo que décadas atrás teria sido motivo suficiente para afastar qualquer possibilidade de união entre famílias como a nossa.
Ainda assim, os Mellark tinham negócios crescendo em várias regiões e havia algo que famílias tradicionais valorizavam quase tanto quanto sobrenomes antigos, influência.
Porque no fim das contas dinheiro também movia a cidade, mantinha restaurantes abertos durante o inverno, movimentava o turismo no verão e sustentava tradições que a cidade sozinha já não conseguia preservar com a mesma força de antes.
Nesse caso era conveniente dizer que os Mellark eram gregos com raízes fortes, que preservavam os costumes e nunca realmente tinham deixado o país. Diferente do meu pai ou até mesmo de Gale, cujas famílias haviam partido do próprio país anos atrás e que, segundo gente como meu avô, jamais entenderiam completamente nossos costumes.
Porque estrangeiros sempre iam embora em algum momento, era nisso que eles acreditavam. E foi com essa convicção que, anos atrás, meu avô fez algo raro em um lugar onde famílias tendiam a ser muito apegadas aos filhos. Ele renegou minha mãe no instante em que ela se recusou a se casar com o filho mais velho da família Undersee.
Um sobrenome tão antigo quanto o dos Snow e com influência política suficiente para controlar boa parte da região. Obviamente a fuga da minha mãe e o casamento dela com meu pai o obrigaram a rever parte das próprias exigências sobre o “noivo ideal” para as netas.
Ainda assim, meu avô continuava obcecado pela ideia de me ver carregando um sobrenome importante da região. Algo com peso e com significado.
Diferente de Everdeen, que para famílias como a dele não significava absolutamente nada. Então, no fim das contas, conseguir me casar com alguém rico e influente já era grandioso o suficiente, mesmo que a família em questão tivesse expandido as próprias raízes para além da Grécia.
No dia seguinte, no horário combinado, Prim e eu já estávamos prontas para ir à festa. Segundo meu avô, não seria apropriado que eu passasse tantas horas sozinha com meu noivo. O que, na minha opinião, não fazia sentido algum considerando que a festa aconteceria no centro da cidade, cercada por centenas de pessoas.
Ainda assim, fiquei feliz por poder levar Prim, a presença dela deixava tudo mais fácil.
Peeta apareceu exatamente no horário combinado com meu avô. Vestia jeans escuros, camiseta clara e uma jaqueta leve. De um jeito estranho, as roupas informais faziam ele parecer mais jovem. Menos distante da imagem polida que eu tinha criado na cabeça.
Ele cumprimentou meu avô com educação, conversou rapidamente com Prim e em nenhum momento pareceu incomodado com a ideia dela passar um tempo conosco. Na verdade, sorriu quando ela começou a falar sobre as barracas de doces da festa antes mesmo de sairmos da mansão.
Chegamos à cidade pouco depois do pôr do sol e, por um instante, tive a sensação de estar olhando para uma cidade completamente diferente da que via todos os dias. A praça principal estava irreconhecível.
Cordões de luzes douradas atravessavam as ruas de pedra de um lado ao outro, iluminando as fachadas claras das construções antigas enquanto pequenos balcões estavam cobertos por vasos de oliveiras e flores secas. O cheiro de vinho, pão fresco, castanhas assadas e ervas se misturava ao ar ligeiramente frio do início da noite.
As ruas estavam lotadas, famílias inteiras caminhavam entre as barracas montadas ao redor da praça, turistas tiravam fotos próximos à fonte e grupos de jovens ocupavam praticamente todos os espaços livres com risadas altas demais.
Perto da igreja, músicos tocavam bouzouki em meio à roda de pessoas que assistiam animadas, barris enormes decorados com ramos de videira cercavam a área onde aconteceria a tradicional pisa das uvas mais tarde.
Tudo parecia vivo e barulhento.
Prim soltou minha mão no instante em que nos aproximamos.
“Olha isso!” Ela girou devagar observando as luzes acima de nós. “Está muito mais bonito esse ano.” Peeta sorriu ao ver a reação dela.
“Você fala isso todo ano ou realmente está mais bonito?”
“Os dois.” Ela respondeu imediatamente. “Mas esse ano colocaram mais luzes na praça. E olha só…” Ela começou a correr na nossa frente, mas antes que pudesse ir muito longe e eu conseguisse reagir Peeta foi mais rápido e se colocou em sua frente com cuidado.
“Ei, vamos ver o máximo de coisas possível, mas vamos combinar de não correr?” O tom dele continuava leve. “Está muito cheio e eu realmente odiaria ter que voltar pra sua casa dizendo que te perdi no meio da multidão. Seu avô me caçaria vivo.” Prim riu imediatamente.
“Desculpa.”
“Ótimo.” Ele apontou para a praça movimentada ao redor. “Então me diga onde devemos ir primeiro.”
O jeito como ele falou com ela chamou minha atenção quase na mesma hora, como se ele estivesse acostumado a lidar com crianças, mas sem tratá-las como incapazes de entender as coisas. Não havia impaciência, nem aquele tom cuidadoso demais que muitos adultos usavam com Prim.
Ele falou com respeito e ela ouviu. Caminhamos em direção à multidão enquanto eu observava as pessoas passando por nós, tentando ignorar a sensação estranha crescendo lentamente no meu peito.
Eu conhecia aquela festa desde criança, sempre as mesmas músicas, as mesmas barracas. Muitos rostos conhecidos circulando entre conversas educadas.
Mas daquela vez parecia diferente, parte disso vinha do simples fato de que, pela primeira vez em anos, eu não estava ali ao lado do meu avô. Normalmente aparecíamos por poucos minutos apenas para representar a vinícola diante da cidade. Era sempre rápido. Meu avô cumprimentava as pessoas certas, assistíamos parte da pisa das uvas e íamos embora antes que qualquer conversa realmente começasse.
Mas existia outra diferença naquela noite. Pela primeira vez, eu sentia os olhares.
Muitos deles e não demorou para os cumprimentos começarem.
Homens mais velhos apertavam a mão de Peeta enquanto lançavam olhares discretos na minha direção. Mulheres sorriam antes de comentarem o quanto eu tinha crescido ou como minha mãe era bonita quando tinha minha idade. E em todas aquelas conversas existia algo silencioso sendo observado.
O anel na minha mão e o homem ao meu lado. O futuro sendo oficialmente exibido diante da cidade inteira, mas tentei ignorar aquilo e focar no fato de que Prim estava feliz. Ela observava tudo com um entusiasmo quase contagiante, parando diante das barracas, olhando as luzes atravessando a praça, os doces expostos nas vitrines improvisadas e os músicos espalhados pelas ruas como se estivesse descobrindo aquela festa pela primeira vez.
E talvez estivesse mesmo, embora meu avô tratasse Prim muito melhor do que tratava a mim, ela também não tinha exatamente uma infância normal. Nós duas estávamos sendo preparadas para nos tornar damas e esposas. A diferença era que minha irmã acreditava que aquilo era o certo. Ela realmente achava que nosso avô estava fazendo o melhor por nós.
Talvez porque nunca tivesse conhecido outra realidade além daquela casa. Queria que ela tivesse tido tempo suficiente para se lembrar dos nossos pais. Do amor entre eles e das coisas simples. Que tivesse tido a oportunidade de correr em uma praça, brincar com outras crianças e voltar pra casa suja de terra sem ninguém se preocupar com postura ou reputação.
Mas eu havia falhado nisso também.
Então vê-la andando no meio da multidão daquela forma, livre por algumas horas, sem estar apenas ao lado do meu avô cumprimentando pessoas importantes, trouxe uma sensação boa. Peeta mantinha uma conversa leve conosco enquanto caminhávamos pela praça e parecia verdadeiramente feliz por estar ali.
“Eu não vinha nessa festa há uns oito anos”, comentou depois que saímos de uma das barracas onde ele e Prim haviam tentado ganhar pequenos chaveiros de madeira em um jogo ridiculamente difícil. “E devo dizer que festas da colheita em cidades maiores não são nem metade disso. Minha mãe adorava me trazer aqui quando eu era pequeno.” Ele observou rapidamente o movimento da praça antes de apontar para outra barraca mais adiante. “O que acham de tentarmos as argolas?”
Concordei com um pequeno sorriso enquanto seguíamos até o local indicado. Descobri rapidamente que Peeta era razoável no jogo. Eu, por outro lado, tinha uma pontaria muito melhor do que imaginava. Boa o suficiente para ganhar um urso de pelúcia para Prim depois de acertar três argolas seguidas nas garrafas de vinho mais distantes.
Minha irmã, em compensação, não acertou praticamente nenhuma. O que rendeu algumas provocações imediatas vindas de Peeta.
“Impressionante”, comentou com falsa seriedade enquanto ela errava mais uma vez. “Acho que nunca vi alguém lançar uma argola tão longe do alvo.”
“Foi o vento.”
“Prim, que vento?”
“Então o alvo estava torto.” Acabei rindo junto deles enquanto os dois começavam uma discussão completamente séria sobre sabotagem em jogos de festival. Pouco depois fomos até uma das barracas de bebidas montadas próximas à praça principal. Peeta voltou segurando dois copos de suco de uva.
“Obrigada”, agradeci quando ele me entregou o meu.
“Ela parece estar se divertindo.” Ele inclinou levemente a cabeça na direção de Prim, distraída observando uma barraca de artesanato cheia de pulseiras de olho grego e pequenas miniaturas pintadas à mão.
“Ela está.”
“E você?” Ele me olhou de lado. “Está se divertindo?”
A pergunta me pegou desprevenida. Porque fazia muito tempo que ninguém parecia realmente interessado em saber aquilo. E eu sinceramente não sabia responder e por sorte, não precisei.
“Então era aqui que vocês estavam.” A voz animada surgiu atrás de nós antes mesmo que eu pudesse pensar em alguma resposta. Effie apareceu sorrindo enquanto atravessava a multidão ao lado do marido. “Katniss, querida, você está linda.” Ela beijou meu rosto como se nos conhecêssemos há anos e fiquei sem reação. Haymitch apertou minha mão logo depois.
“É bom revê-la.”
“Senhor e Senhora Mellark.” Falei o mais educada possível antes de chamar Prim para perto. Ela imediatamente se aproximou ao vê-los e os cumprimentou da forma extremamente polida que meu avô ensinou desde que ela aprendeu a falar. Effie sorriu na mesma hora.
“Ah, nada disso.” Abanou a mão no ar. “Vocês podem me chamar de Effie. Senhora Mellark faz eu me sentir pelo menos dez anos mais velha.” Prim olhou para mim antes de assentir.
“Tudo bem… Effie.”
“Melhor.” Ela sorriu satisfeita antes de apontar para o marido. “E pode chamar esse aqui de Haymitch também. Apesar da cara fechada, ele não é tão assustador quanto parece.” Ela riu baixo. “Embora já tenha idade suficiente pra ser chamado de senhor há algum tempo.” Observei Haymitch esperando algum tipo de reclamação, mas ele apenas tomou um gole da bebida que carregava sem demonstrar reação alguma. Como se já estivesse acostumado com a esposa falando daquela forma. “Aliás…” Effie voltou imediatamente a atenção para o filho. “Peeta, vocês já conversaram sobre a data?” Ele fechou os olhos por um segundo.
“Mãe.”
“O quê? Eu só fiz uma pergunta.”
“Estamos no meio da praça.”
“E você acha que organizar um casamento acontece como em um passo de mágica?” Ela voltou a olhar pra mim sem perder o entusiasmo. “Seu avô deixou bem claro que prefere uma cerimônia rápida. E honestamente? Depois de um noivado tão longo, as pessoas começam a achar que a família do noivo está enrolando.”
“Effie, querida…” Haymitch comentou calmo.
“Sem contar toda a burocracia da igreja.” Ela ignorou completamente o marido. “Documentos, reuniões, reserva da data, escolha da recepção…”
“Mãe, respira.”
“Querida, ele está ajudando com os negócios. Não vai ter tempo pra pensar nessas coisas agora.”
“Como se homens realmente ajudassem nessa parte.” Effie revirou os olhos. “Se comprar o terno e aparecer no dia certo já está ótimo pra maioria deles.” Então segurou meu braço com carinho. “Porque no fim sobra tudo pra noiva.” O sorriso dela suavizou. “Então quero que saiba que pode contar comigo pro que precisar. Vai ser um prazer ajudar.”
“Obrigada”, agradeci, sabendo que geralmente a noiva planejava praticamente tudo do casamento ao lado da mãe. E como a minha estava reclusa em uma clínica, eu sabia que ela estava tentando ser gentil. Prestativa até demais para alguém que mal me conhecia.
Prim acabou se aproximando novamente e logo começou uma conversa animada com Effie sobre estilistas que faziam vestidos na cidade enquanto Haymitch comentava algo baixo com o filho que não consegui ouvir, mas que fez Peeta sorrir discretamente.
“Effie, o que acha de irmos procurar algum doce?” Haymitch perguntou depois de alguns minutos.
“Uma ótima ideia, querido.” Ela abriu um sorriso imediato antes de olhar para Prim. “O que acha de vir conosco? Haymitch sempre pede exatamente a mesma coisa. Preciso de alguém com coragem pra experimentar doces novos comigo.” Prim olhou imediatamente na minha direção, sem saber se devia aceitar ou não. Antes mesmo que eu respondesse, Effie segurou a mão dela com naturalidade. “Prometo devolver sua irmã inteira em alguns minutos.”
“Tudo bem”, concordei por fim. Ela pareceu satisfeita imediatamente.
“Perfeito. Vamos descobrir qual barraca tem os melhores loukoumades da praça.” Então apontou para Peeta antes de começar a se afastar com Prim. “E vocês dois tentem não parecer dois parceiros de negócio enquanto estão sozinhos.”
“Mãe.” Ela ignorou completamente o protesto do filho.
“Você precisa conhecer o Denis”, ouvi ela comentar enquanto se afastavam pela multidão. “Geralmente ele é quem me acompanha na minha missão anual de experimentar doces, mas esse ano ele foi pra festa de Sérvia.” Prim riu baixo em resposta e os três desapareceram lentamente entre as pessoas.
“Não se preocupe”, Peeta comentou ao meu lado com tranquilidade. “Ela vai cuidar bem da Prim. Talvez sua irmã volte com açúcar suficiente pra ficar acordada até amanhã, mas inteira.”
“Sinto muito.” Passei os dedos pelo copo entre minhas mãos. “Eu sei que você provavelmente não esperava passar a festa acompanhado da minha irmã. E isso provavelmente acabou atrapalhando seus planos…”
“Katniss.” Ele me olhou de lado como se aquilo fosse a coisa mais absurda que eu poderia ter dito. Então colocou uma das mãos no bolso da calça, em um gesto que parecia mais hábito do que nervosismo. “Meus planos eram passar um tempo com você.” O tom dele continuava calmo. “E é exatamente isso que estamos fazendo. Além disso, acho que sua irmã está gostando da festa.”
Olhei na direção em que Prim havia desaparecido com os pais dele no meio da multidão. Provavelmente ela estava mesmo e assenti devagar sem saber exatamente o que responder.
Por alguns segundos restou apenas o barulho da festa ao nosso redor e começamos a caminhar novamente, conversando pelo caminho. Não longe o suficiente para parecermos estranhos, mas também não perto o bastante para transmitir intimidade.
As horas estavam passando rápido. E eu sabia que em algum momento precisaria voltar para casa, ainda assim me permiti aproveitar o ar frio da noite e a falsa sensação de liberdade longe da mansão por mais alguns minutos.
Prim não demorou muito para reaparecer ao nosso lado carregando um pequeno saco de papel cheio de doces e um sorriso enorme no rosto.
“Podemos ir ver Deméter?” Olhei imediatamente para o céu escuro acima da praça.
“Está ficando tarde, Prim.”
“Por favor.” Ela segurou o saco contra o peito. “Vovô sempre passa lá antes de ir embora.” A festa da colheita representava um agradecimento pelo fim da vindima e pela prosperidade daquele ano e, claro, em uma cidade como a nossa existia sempre algum lembrete silencioso da antiga deusa da agricultura.
Todos os anos os organizadores montavam uma imagem de Deméter próxima à entrada da cidade. Quase como uma homenagem às antigas crenças que ninguém admitia levar realmente a sério, mas também não ousava abandonar completamente.
Meu avô passava por lá todos os anos e ela adorava aquilo. Peeta olhou rapidamente o relógio antes de erguer os ombros.
“Acho que ainda temos tempo.”
Então seguimos caminhando para longe da praça principal enquanto os pais dele vinham um pouco mais atrás, conversando entre si. Conforme nos afastávamos do centro da festa, o barulho da música diminuía aos poucos, dando espaço ao som distante dos ônibus chegando e partindo da pequena rodoviária.
Com o festival acontecendo, os horários funcionavam quase a noite inteira. Moradores viajavam entre cidades vizinhas para acompanhar diferentes festas da colheita enquanto turistas lotavam a região naquela época do ano. Não demorou muito até avistarmos a estrutura montada na pequena praça em frente à rodoviária, próxima à entrada da cidade.
A imagem de Deméter havia sido colocada sobre uma base de pedra cercada por barris antigos, ramos de videira e pequenos feixes de trigo seco presos por fitas douradas. Luzes amareladas iluminavam a estátua fazendo a deusa parecer quase viva no meio da noite. Aos pés dela haviam deixado cestos com uvas, romãs abertas, flores e garrafas de vinho produzidas pelas vinícolas locais.
O lugar estava cheio, turistas tiravam fotos enquanto moradores mais velhos passavam devagar diante da imagem, alguns fazendo discretamente o sinal da cruz como se preferissem não arriscar ofender nem os santos, nem os antigos deuses.
Prim sorriu imediatamente ao ver a decoração.
“Esse ano ficou mais bonita.” Ela sorriu observando a decoração iluminada. “A professora contou a história dela ontem na escola, mas eu já conhecia. Katniss me contou faz tempo. É uma das histórias favoritas da mamãe.” Fiquei em silêncio enquanto ela começava a explicar animada a Peeta as partes de que mais gostava da lenda mais conhecida da deusa.
A forma como Perséfone colhia flores antes de ser levada. O inverno surgindo quando Deméter perdeu a filha. E o acordo que criou as estações.
Observei a imagem da deusa, talvez a representação mais conhecida do amor materno entre os antigos deuses, enquanto ouvia a voz da minha irmã se misturar ao barulho distante da festa. Se fechasse os olhos por um instante, quase conseguiria ouvir minha mãe contando aquela mesma história para mim. Lembrei da voz calma dela explicando como a dor de Deméter fez a terra parar de produzir.
Como os campos secaram, como o frio chegou antes do tempo. E de como Zeus precisou interferir negociando com Hades para que Perséfone pudesse retornar parte do ano.
“Foi assim que surgiram as estações”, minha mãe costumava dizer. “Primavera e verão quando mãe e filha estão juntas. Outono e inverno quando são separadas novamente.” Engoli em seco sem conseguir desviar os olhos da imagem iluminada diante de nós.
“Assim como Deméter está sempre esperando a filha voltar”, ouvi uma mulher comentar baixinho perto dali. “Vou ficar esperando você voltar do mesmo jeito.”
“Pensa pelo lado bom, mãe.” A voz masculina respondeu em tom leve. “Pelo menos não é Hades me levando pro submundo. É Poseidon me levando pro mar.” A voz e a risada fizeram meu corpo inteiro gelar. Conhecia aquela voz.
Virei o rosto rápido e encontrei Gale a poucos metros. Ele estava ao lado da mãe e dos irmãos, com uma mochila jogada sobre um dos ombros e um sorriso cansado, mas sincero, no rosto. Como alguém que já havia feito uma escolha, alguém que já estava indo embora.
Por um instante senti como se todo o sangue do meu corpo tivesse parado de circular.
O som das pessoas ao meu redor pareceu distante e abafado.
Meu peito apertou tão forte que tive a sensação absurda de que não conseguiria respirar.
“Katniss?” A voz de Peeta surgiu ao meu lado. “Você está bem?” Quase tive vontade de rir da pergunta. Não, eu não estava bem. Meu namorado estava indo embora sem sequer se despedir de mim. Indo embora enquanto eu usava o anel de outro homem diante da cidade inteira. “Você ficou pálida.” A voz de Peeta parecia cada vez mais distante enquanto eu continuava olhando para Gale.
Então, como se sentisse meu olhar sobre ele, Gale virou o rosto na nossa direção. E o choque na expressão dele foi imediato. Os olhos escuros passaram por mim. Por Peeta parado ao meu lado.
“Desculpa.” Ele não disse em voz alta. Mas consegui entender perfeitamente o movimento calmo dos lábios dele mesmo à distância, mesmo sem som. E eu estômago revirou.
“Katniss?” Prim entrou no meu campo de visão, me olhando preocupada agora.
Tentei responder.
Não consegui.
“Peeta, querido…” A voz de Effie surgiu imediatamente, mais séria do que eu havia ouvido até então. “Tira ela daqui um instante. Tem gente demais em volta.” No segundo seguinte senti a mão de Peeta tocar minha cintura com cuidado.
Foi a primeira vez que ele me tocou de fato. Um toque firme o suficiente para me manter de pé enquanto me conduzia para longe da aglomeração. As luzes começaram a ficar borradas conforme nos dirigíamos até um banco um pouco mais afastado da movimentação ele se ajoelhou na minha frente.
“Ei.” A voz dele saiu baixa. “Respira.” Assenti sem realmente conseguir. Ele se afastou por alguns segundos e voltou logo depois com uma garrafa de água gelada. “Bebe devagar.” Segurei a garrafa com mãos trêmulas. “Está se sentindo melhor?”
Afirmei com a cabeça mesmo sendo mentira e ao longe vi a família Hawthorne atravessar em direção à rodoviária. Gale não olhou pra trás outra vez.
“Obrigada.” Minha voz saiu baixa depois de um gole de água. “Acho que minha pressão caiu.” Peeta continuou me observando por alguns segundos longos demais.
Como se soubesse que aquilo não era verdade.
“Talvez seja melhor eu te levar pra casa.”
“Não.” Respondi rápido demais. Respirei fundo tentando me recompor. “Eu já estou melhor.” Mas não estava.
Porque a partida de Gale significava alguma coisa.
Significava que ele tinha feito uma escolha e que não voltaria nos próximos meses.
Que não existiria fuga e nem outra chance para nós.
E pela primeira vez desde que aquele noivado começou, a verdade pareceu completamente impossível de evitar.
Eu não tinha outra escolha.
Eu teria que me casar com Peeta Mellark.


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