“...Quando te xingo
Com palavras obscenas
Como jurasse
As juras mais serenas...”

Ela sabia que no fundo ele não queria dizer aquilo, que tudo que ele dizia tinha algo por detrás, que os nãos eram muito além disso, muitas vezes eram um grande e gordo “sim” ou um pedido silencioso de socorro.

Tudo entre eles não passava de uma dança, um minueto ensaiado, com passos decorados e uma música marcada de fundo... Se bem que na maioria das vezes em sua cabeça martelava um Heavy Metal ao invés das calmíssimas músicas de minueto.

As ofensas, os berros, as discordâncias eram, na verdade, o jeito estranho e distorcido deles afirmarem diariamente que se amavam. Pelo menos a todos à sua volta.

“...Quando me vingo
Dos males que me fazes
Com frases
De maldade e veneno...”

Era um jogo perverso, sem um pingo de escrúpulos. Eles se machucavam, se feriam, sangravam internamente nessa brincadeira. Ela sentia todas as extremidades do seu corpo frias, tremia, cada vez que ele jogava contra sua face toda a verdade que ela queria deixar bem guardada, obrigado.

Então ela rebatia da forma que podia, como ele tinha um muro a sua volta, seu coração era protegido por paredes sólidas e geladas, ela rebatia fisicamente, com troca dos vicodins por laxantes, tirar sua bengala...

Sentia-se uma criança, odiava faze-lo, mas era divertido para manter o Status Quo.

Só que ela não admitiria jamais como doía nela também, como cada troca de farpas atingiam-lhe em cheio, como ela perdia um pouco do amor próprio cada vez que o amor por ele aumentava.

E ele jamais admitiria como lhe incomodava alguém que o conhecia tão bem, como doía ver sua alma revirar-se com algumas palavras tortas de uma mulher, como suas paredes sólidas viravam de papel com apenas um sorriso dela.

Essa é a vida de Lisa Cuddy e Gregory House.

“...Sinto meu amor
Que o amor é isso
Essas coisas
Muito fora de juízo...”

“Esse é o único eu que você vai ter” essas palavras dele repassavam em sua cabeça enquanto tentava dormir em sua cama espaçosa, Rachel chorou no quarto ao lado e ela se levantou andando languidamente, sentindo o corpo pesado.

Ao chega no quarto de sua filha descobrira o porquê dela estar chorando, House se encontrava cutucando o bebê.

- Tentando bater de frente com os iguais de maturidade?

Ele parou e olhou para ela tentando lembrar-se exatamente quando a conheceu. Ela vestia apenas lingerie e não se importava, ele já a vira com menos.

- Só vim entender o porquê de você se importar se eu sou feliz ou não.

Silêncio, ar pesado e um céu estrelado de memórias inundava o quarto de bebê.

- Eu prometi pra mim mesma que ao menos um de nós dois seria feliz, ingênua não?

- Você não está feliz? O maior sonho da sua vida não era ser mãe?

Droga, ele chegou naquele ponto sensível.

- Era um dos meus maiores sonhos sim e eu estou feliz.

- Oh, você está se contradizendo... Já sei falta alguém para se casar e viver feliz para sempre não é?

- Falando assim até parece que eu acredito em contos de fada.

- Quer que eu cante a música do bicho papão pra você dormir?

- Quer um antidepressivo pra você sorrir?- silêncio.

E ficaram ali se encarando enquanto o choro do bebê foi substituído por risadinhas e leves gargalhadas. Aparentemente a voz dos dois acalmou-a.

- GAH coisa chata essa risada. – falou House desconfortável, mas no fundo apreciando o som.

No fundo eles se amavam, mas não diziam. Era como ele havia dito para ela na análise de desempenho do que ela gostava, fugia, do que precisava, não tinha a menor idéia. Não que ele fosse muito diferente, a diferença era que ele sabia muito bem o que precisava e tudo o que ambos precisavam resumia-se àquele quarto.

O amor é realmente algo sem nenhuma lógica, eles brigavam, se machucavam, à vista de muitos se odiavam, mas isso era capa, era máscara que eles não precisavam. Fora da vista de todos Cuddy conseguia dizer coisas que deixavam House sem resposta e House às vezes conseguia ser humano.

O amor não muda as pessoas, ele simplesmente mostra quem elas são.

- Eu acho que te amo. – ela falou num sussurro, e quando viu já estava perdida nos braços dele, mais uma vez.

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