Mob
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Espero que gostem! ^-^
Naquela noite, eu havia sido posto para dormir no mesmo quarto que outra pessoa. Leonard só havia me dito que eu teria um companheiro de quarto, e nada mais. Suspeitei que ele fosse me colocar com algum brutamonte para evitar que eu fugisse — embora ele não soubesse que eu tinha outros planos agora — e o denunciasse à polícia. Haviam se passado 12 horas desde o meu desaparecimento e provavelmente meus pais já estavam preocupados. Eu pensava se Leonard já havia pedido alguma recompensa em troca do meu corpo — vivo ou morto, eu não sabia — ou estava esperando mais algum tempo para causar pânico.
Mas isso não mudaria nada. Eu me sentia um lixo, sendo usado por todos. Meu antigo amigo estava me usando para se livrar dos problemas, minha família sempre me usara apenas para ser o sucessor da família e fora eles, a única pessoa que me restava era Alex. Meu único amigo. Claro, eu havia conhecido pessoas novas na máfia, mas aquilo não queria dizer nada. Eu não confiava neles. Estava inseguro, irritado e com medo. Arrumei minha cama, escolhendo a mais alta de um beliche que se encontrava encostado na parede do quarto. As paredes eram pintadas de azul e um armário desarrumado estava na parede oposta, com uma porta quebrada. Havia também uma escrivaninha pequena, onde um computador velho estava ligado perto de vários papéis jogados e amassados. Eu observava tudo da minha cama, com os pés balançando para fora dela. Eu tinha aproveitado o tempo sozinho ali — antes do meu colega chegar e atrapalhar minha amada paz — para tomar um banho e arrumar as roupas que Leonard havia me dado no armário. Foi quando a porta do quarto se abriu e uma garota entrou.– Você é o Victor? — perguntou ela, sorrindo maliciosamente enquanto me olhava de cima a baixo. Corei. — É mesmo uma gracinha. Entendo.– Você não tem que entender nada! O que você entendeu? Quem é você? — perguntei, nervoso e envergonhado. Ela jogou seus cabelos castanhos tingidos de roxo nas pontas por cima do ombro e andou até a escrivaninha, sentando-se.– Ei, calma. Meu nome é Rebecca, mas meus amigos me chamam de Becca, ou seja: pode me chamar assim. — esclareceu ela, girando na cadeira de rodinhas e se virando para mim. — Eu não preciso te dizer o que entendi, só digo que você é lindinho. – Porque se sentou? Esse quarto não é meu, melhor sair daí antes que o dono apareça! — reclamei, tentando me livrar dela. Por algum motivo, eu sentia que ela era problema. Rebecca riu, mostrando suas covinhas. – Eu sou a dona, lerdo. — respondeu ela, se virando para o computador e passando a digitar. Desci da cama, pulando sem usar a escada. Andei até parar ao lado dela e tentei espiar o que ela escrevia, porém ela minimizou a página antes que eu pudesse ler.– Duas regras, Victor. Primeira: nunca veja as minhas coisas sem minha permissão, e segunda; nunca deixe sua toalha molhada em cima da cama. Causa mofo. — disse ela, levantando dois dedos da mão e balançando suas unhas pretas em frente aos meus olhos. Bufei. — Só precisa seguir essas regras para conviver comigo em paz.– Desculpe. — murmurei, emburrado. — Só fiquei curioso. Tem muito papel amassado aqui. O que anda fazendo?– Ah. Você é gay? — perguntou ela, repentinamente. Engasguei. Ela sorriu, enquanto eu sentia meu rosto esquentar. — É. 100% gay. Vou te contar, vem cá. Ela fez um gesto para que eu me aproximasse. Me irritei por ela saber sem eu nem sequer ter respondido, mas ainda assim me abaixei para ler o que ela me mostrava. – Eu escrevo uma fanfic. Sabe o que é isso? — perguntou ela, enquanto me estendia um papel. Assenti, enquanto desamassava-o e lia o rascunho de um provável capítulo da história dela. — pois bem. Só que é uma fic gay. – Isso não é contra a lei? — perguntei, chocado, enquanto lia as cenas quentes que ela tinha escrito. Senti um arrepio descer pela minha espinha. " É assim que é? " pensei.– Claro que não. É normal pessoas escreverem coisas assim. — explicou ela, mostrando uma lista enorme de fanfics gays que existiam. Engoli em seco. Eu precisava apagar o meu fogo, ou ele ficaria alto demais depois de ler aquelas coisas. Rebecca desligou o computador. — Eu estava com um bloqueio criativo, mas agora, com um colega de quarto gay, devo conseguir algo. Me conte como é. Pisquei.– Como é o que? — perguntei, sentindo que o rumo daquela conversa não levaria a algo bom.– Como foi sua primeira vez! Preciso de detalhes! — esclareceu ela, impaciente. Comecei a me desesperar. Como eu diria que era virgem? Um garoto com 19 anos, virgem. Eu não podia. Era uma questão de orgulho. – Ah, é óbvio que doeu. Mas...foi bom...no fim. — menti, sem dar os detalhes que ela pediu. O olhar dela apenas ficou mais faminto.– Qual foi o nome? — perguntou ela, insistindo no assunto. Corei, me sentindo um idiota por levar aquilo tão longe. — o nome do sortudo! – A-ah, o nome. Rafael. Sim, é. Eu nunca me esqueci... — falei, soando bem convincente. Talvez. Rebecca anotou tudo em um bloco de notas. Me preparei para arranjar uma desculpa para ir dormir, quando Leonard entrou no quarto.– Leonard! — exclamou Rebecca, acenando para ele, que a ignorou e andou em minha direção.– Rafael, hm? — perguntou ele, rindo, enquanto eu podia ver em seus olhos que ele queimava de raiva. Meu lábio tremeu.
– Ah, Deus. Você ouviu tudo? — perguntei, brincando com meus dedos. Minha mão estava suada. Rebecca sorria de orelha à orelha. Me irritei. — É, Rafael. Porque? – Não te disseram que mentir é feio, Victor? — rebateu ele, dando um passo a frente e chegando mais alguns centímetros perto de mim. Mas não me deixei intimidar.– Eu NÃO sou virgem, Leonard! E isso não é da sua conta! — esbravejei, encarando-o fundo nos olhos. Ele sorriu, me olhando de cima abaixo. – Você é. — afirmou ele.– Não sou! — gritei, dando mais um passo à frente para empurrá-lo, quando ele segurou meu pulso e, antes que eu pudesse sequer processar o que havia acontecido, eu estava preso entre Leonard e a parede. E ele estava me beijando. Me recusei a mover a boca, enquanto ele desceu suas mãos até minha cintura e se atreveu a passar uma por baixo da minha blusa, tocando meu abdômen.– Seu-- Eu abri a boca para xingá-lo, e ele aproveitou minha distração para passar sua língua entre meus lábios e invadir minha boca. Senti minhas pernas perderem a firmeza e fui obrigado a me apoiar nele para não cair. Senti ele morder de leve meu lábio inferior, enquanto derrubava totalmente meu muro de resistência imaginário. Deixei que minhas mão subissem para seus braços e manti elas ali, como não sabia o que fazer com elas. Minha boca se abriu por vontade própria contra a dele, que continuou me beijando intensamente. E então, tão repentinamente quanto começou, o beijo acabou. Leonard se afastou de mim e sorriu maliciosamente.– Sim, você é virgem. — disse ele, agora sem que eu pudesse negar. Depois de reagir daquele jeito com apenas um beijo, eu não podia mentir mais. Estava na cara. Rebecca nem piscava, anotando várias coisas em seu bloco de notas e então fechando-o com um estalo.– Que noite interessante tivemos hoje, Brasil! — comentou ela, como se estivesse narrando algo. Queria me enfiar em algum buraco, mas ao mesmo tempo queria ficar ali e arrancar satisfações de Leonard.– Só vim para dizer que amanhã teremos treino logo depois do almoço. É só vir me procurar no meu quarto. Não se atrase, Victor. — explicou ele, se virando e saindo do quarto. Fiquei parado que nem um idiota, sem saber o que fazer. – E aí? Eu entendo que não goste de falar que é virgem, mas podia ter dito a verdade pra mim. — falou Rebecca, procurando algo no armário. Abri a boca, fechando-a logo depois. Não tinha o que falar. Resolvi ficar quieto. Meus lábios formigavam. — vou me trocar. Ela entrou no banheiro, carregando o que parecia ser um pijama rosa. Não esperei que ela saísse. Corri para fora do quarto e segui até o final do corredor, sem raciocinar o que eu pretendia fazer. Pensar sempre me fazia desistir. Abri a última porta, da qual eu havia saído mais cedo quando acordara naquele lugar.– Leonard! — gritei, sem paciência. Ele estava sentado na cama, sem camisa. Ignorei aquele detalhe. Seus olhos se voltaram para mim sem interesse algum. — como pôde?! Acha que pode sair beijando quem quiser? E como eu fico?– Qual é o problema? Não foi nada demais. Só um beijo. Não é como se eu gostasse de você. — respondeu ele, parecendo entediado. — Desculpe se te deixei magoado, romeu. Mas não sou gay. Aquilo me atingiu como uma facada. O pedido de desculpas nem sequer soara como um. Era isso. Eu sabia que nunca tinha considerado Leonard apenas como um amigo, nem que fosse um pouco, eu sempre tinha gostado dele de um modo mais...profundo. E agora ele me beijava e depois falava isso. Senti como se tivessem me rasgado em dois. Assenti, dando um passo para trás. Claro que não. Claro que ele não gostava de mim. Ele me odiava. Sim. Eu assenti, encarando o chão. Leonard apenas me encarava, como se eu fosse algo insignificante. Voltei a olhá-lo.–Só um beijo. É óbvio. Como eu não percebi? — falei, andando até ele e reparando em uma cicatriz que cortava uma enorme tatuagem de duas asas de anjo em suas costas. Desviei o olhar daquilo e voltei-o para seu rosto. Ouvi um estalo alto, quando minha mão foi direto contra o rosto dele, que virou para o lado, vermelho. Ardeu.– Seu canalha! — gritei, sem me importar em ser discreto. Engoli o choro. Aquilo era uma piada. De mal gosto. Muito mal gosto. Desde pequeno eu sempre soube que Leonard era especial para mim, e com minha boa educação, já soube logo cedo como seria minha orientação sexual, baseado em meus sentimentos por ele. Mas com meu cargo e meu status à manter, ser gay não era algo que eu podia me dar ao luxo de demonstrar ser. Porém, depois daquele dia em que meu pai cometeu atrocidades com a família de Leonard, eu fora obrigado a deixar meus sentimentos por ele de lado, escondê-los no fundo do meu coração. Mas esconder não significava que eles haviam desaparecido. Eles sempre estiveram lá, esperando o momento de voltarem a me dominar. E foi o que aconteceu. Quando Leonard me beijara, todos esses sentimentos se libertaram e eu, por um momento, senti que podia ser quem eu era e estava completo. Mas claro. Ele só estava me beijando. Nada demais. Ele me odiava. Não esperei por uma reação dele. Me virei e corri para fora do quarto, batendo a porta. Entrei no dormitório de Rebecca e me deparei com ela sentada em frente ao computador, escrevendo. – Ei... — começou ela, ao me ver entrando. Provavelmente eu estava um trapo, vermelho e com os olhos ardendo pelas lágrimas presas ali. Mas me recusei a soltá-las em frente à qualquer um. Ignorei ela e entrei no banheiro, trancando a porta antes de me atirar no chão e encostar a cabeça nos ladrilhos frios. " Como sou um idiota...acreditei...por um momento....heh....sou um iludido... " pensei, rindo de mim mesmo, enquanto as lágrimas agora corriam soltas pelo meu rosto. Senti o gosto salgado de uma delas ao lamber meus lábios secos. Eu planejava sair de lá com Leonard. Com meu amigo de volta. Mas meus planos haviam mudado. Eu saíria de lá sem ele. E na primeira oportunidade. Eu havia cansado de chorar por ele. Sofrer por ele. Ser acusado por ele. Ser USADO por ele. Agora eu iria usar ele. Para sair de lá. " Continue rindo de mim, Leonard. Quem ri por último, ri melhor. " pensei, antes de sair do banheiro como se nada houvesse acontecido. Rebecca se limitou a me olhar com dúvidas. Ignorei ela e me deitei, dando-lhe boa noite. Dormi, e sonhei com minha fuga.
Notas finais
Então, ainda tem muita coisa pra acontecer, portanto não fiquem com muita raiva do Leonard, ele é um cara legal....e o Victor ainda vai mudar muito de opinião em relação à tudo. Espero que tenham gostado!!!
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