Mistress of Discord
2 Amantes nunca perguntam o por quê - II
Notas iniciais
Belíssimo era o corpo de Brittany,e aprendi isso despindo-me de meus jeans e camisa surrada.Ela sorria — ela nunca parava de sorrir,aparentemente — entre beijos e mordidas.Era como se visse alguma coisa engraçada naquilo. O beijo dela era forte,não gentil — mas isso era apenas uma anotação de rodapé.As marcas circulares de nossos copos estavam ainda molhadas na mesinha da sala dos Evans quando alguma peça íntima voara para algum lugar.Meus pés se encontravam atrás de Brittany,minhas coxas em suas laterais. Era tudo muito perdido,na verdade.Mãos, línguas,toques.Apertando-a abaixo das costas,ela apertando-me acima das costelas.Mas não,ela não se deixara soltar qualquer ruído.Sem gemidos,sem palavras sob respiração ofegante.Havia apenas ela e seu peito rápido.Primeira vez era aquela que podia eu,se quisesse,contar as sardas naquele nariz levemente queimado pelo sol.Ela era pálida — podia eu saber ao olhar para os pulsos e ver seus serelepes riscos azuis debaixo da tez.Queria traça-los e copia-los num papel branco. Os toques da Evans desceram devagar, rudes,dolorosos.Havia generoso tempo em que ela havia deixado minha boca,partindo para minha garganta com mordidas e beijos.Os dedos meus agarraram na ponta do sofá e os dela em minhas coxas,suas unhas quase perfurando-me até as fibras dos músculos. Estava aproveitando a língua em meu pescoço e a imagem de Brittany em minhas pálpebras fechadas quando esta,de súbito,descera a mão dentre minhas coxas.Gemi ao sentir unhas nas paredes internas,puxando-a para mais perto e mordendo-a o ombro avermelhado pelo sol.
— Brittany— disse em choro com deleite.Minhas mãos foram dos ombros dela à seu rosto fino,acariciando as bochechas e puxando-a para meus lábios,mas o toque nunca me cumprimentou.Senti os dedos longos da loira apertarem-me a mandíbula, afundando fortemente minhas bochechas e fazendo meus lábios moldarem-se num bico. Ela agia forte e decidida,quase imprudente.O contato dela contra meu corpo era a junção de dor e prazer,levando-me a pensar o que faria eu se minha pele ficasse marcada. Ainda sem soltar-me do rosto,aproximou os olhos dos meus.As pupilas da mãe estavam dilatadas,com leves pinceladas de azul ao redor.
— Stilzwijgen— o que fosse aquilo,era uma ordem,pois o maxilar de Brittany era duro e impiedoso,e seu tom era friamente seco.Pensei em responder algo,mas optei pela quietude de minhas fala.Ela desceu,abandonando no caminho beijos e lambidas por meu seio,costelas,barriga.A ternura de sua boca era igual à latejante do meu sexo,e as temperaturas colidiram-se junto de um longo e rouco gemido involuntário saído de minha garganta.
— Pare! — sibilei eu após ouvir na casa uma porta batendo e vozes divertindo-se.Fechei em imediato as pernas,colando os joelhos um no outro.Ela,por outro lado,mordiscara minha perna com os olhos intensamente parados nos meus.Não se movera para buscar as roupas.Fizera aquilo — passara o nariz ao longo de minha pele,sorrindo numa linha quase fantasmagórica.
— Abra — sussurrou.
—Você é louca?— acusei.-Me solte.
— Está ouvindo isso? — olhou para o teto,sem soltar as unhas de minhas pernas.-São meus filhos subindo para os quartos.Eles vão ficar nos computadores pelo menos por uma hora,depois vão descer e perguntar o que tem para janta.
— Brittany…
— Eles não vão descer — repetiu num riso.-Agora abra,Santana.
— Não acho que isso é uma boa ideia.
— Você não tem que achar nada,kanker— levantei as sobrancelhas na possibilidade daquilo ser uma ofensa. A atitude apenas não combinava com Brittany,e eu me encontrava começando a arrepender-me de ter voltado naquela casa.- Abra.
A entonação me assustara,e me vi separando as pernas com aversão.Olhei-a naquelas pupilas dilatadas e pensei que Brittany pudesse ver o quão desconfortável estava eu,porém,o que ela fez fora apenas beijar abaixo de meu umbigo. Desceu, desceu,desceu… Minha cabeça jogou-se para trás numa ação espontânea ao beiços tocarem-me,e meus dedos do pé contorceram-se para baixo.De repente voltei a fechar os olhos e a sentir um vergonhoso prazer acumular-se por todo meu corpo.Meu peito suou,minhas pernas contraíram-se aos lados da cabeleira loira e minhas mão agarraram o sofá como se este fosse sumir daquele plano. Surgiram atrás de minhas pálpebras cerradas pontos coloridos enquanto meu queixo afastava-se de meu peito e minha garganta coçava para gritar.Ela vibrou,e antes que pudesse grunhir,engasguei com dois dedos da Evans quase tocando o final de minha língua.Esbugalhei os olhos,e antes que pudesse reclamar ou gritar a ela se ela queria me matar,uma explosão irrompeu-se de onde a língua dela circulava e espalhou se por minhas coxas,pernas ,corpo,fazendo tudo esticar-se numa demorada e lenta convulsão de bem-estar e gozo. Tossi e Brittany arrancou de minha boca seus dedos,que por acaso haviam sido úteis para o abafo de sons indesejáveis.Meu corpo ainda doía de cansaço e ardia com mordidas quando ela traçou minha boca com um dedo.- Chupe — ordenou,o humor dos olhos dilatados sem chegar na boca. Virei o rosto em negação,mas ela repetiu a ação de mais cedo e apertou-me as bochechas até partir meus lábios.- Cuidado com os dentes — avisou num tom de ameaça quando senti suas unhas em minha língua e meu próprio gosto nas curvas leves de seus dedos. Passei a língua,nossos olhos ligados, e logo depois ela recompusera-se ainda em cima de mim,os cabelos um tanto desgrenhados.Com o indicador senti a maciez do peito dela,logo abaixo da corrente de ouro com pingente da cruz,mas antes de chegar num dos seios,estalou com a própria mão pálida um golpe feroz em minha bochecha.Minha mesma mão que antes acariciava-a agora segurava a pele machucada e em chamas.Olhei-a absurdamente confusa,como se ela fosse um quebra-cabeça com cada peça de um conjunto diferente.Esta era Brittany — numa hora simpática,numa hora agressiva,numa hora gentil.No dia anterior havia feito sentir-me especial,e hoje sentia-me eu descartável.
— Santana — sorriu.-Quer outra taça de vinho?
Brittany estava indiscutivelmente certa — já vestidas estávamos na cozinha,ela de cotovelos apoiados no balcão e eu de pé,um tanto constrangida e acanhada.Bebia ela a quarta taça de vinho branco,e eu a terceira.Olhava-me ela impetuosamente, mesmo entre as bebericadas e sorrisos.Como havia ela dito antes,seus filhos desciam as escadas com passos rudes contra os degraus de madeira e gritavam perguntas sobre o jantar.Ao entrarem na cozinha,pararam a caminhada bruscamente,alterando olhares sobressaltados entre eu e a mãe deles.
— Mãe? — indagou Daniella.-Aconteceu alguma coisa?
— Me fale você,filha.Alguma coisa aconteceu? — revidou acidamente a Evans.Quis rir,pois lembrei-me brevemente de minha mãe.-Srta.Lopez estava falando de vocês agora mesmo — quis contestar,mas cortei-me ao ver os olhares de desprezo que ambos dos irmãos de repente lançaram a mim.- Nem venham com isso,vocês sabem muito bem o que fizeram.
Brittany e eu não havíamos falado nem uma só vez do desempenho escolar de Daniella e Sebastian,e achei interessante saber que a mãe já sentia que os filhos estavam prestes a admitir algo.Olhei a loira com divertimento,e tudo que ela respondeu foi uma curvatura discreta do canto da boca.
— Eu pulei detenção para ir no cinema — expôs o garoto de boca grande e bochechas avermelhadas.-Desculpe, mas era a última vez que iria passar aquele filme e não podia per-
—Oh,idioot.E você,Daniella?O que tem a dizer sobre você?
— Eu não fiz nada! — exclamou.-Os professores implicam comigo,a sala inteira pode estar conversando e eles vão chamar a minha atenção!Digo,isso é perseguição!
— Pobrezinha — revirou os olhos a mãe.-Se virem para comer,delinquents.
Os gêmeos se entreolharam e,então,deixaram a cozinha. Indiferente e pacífico voltara o rosto de Brittany para mim.Ela bebericara da taça e apoiara o cotovelo novamente no balcão.Ofereci a ela olhos espantados.
—Kanker,o que está olhando?
— Nada.
— Está com pena deles?Quer cuidar deles e ver depois de três dias se eles são tão bonzinhos quanto pensa?
— Brittany,eu não disse nad-
— Mas está me olhando como se eu tivesse acabado de espanca-los — bufara.-Inacreditável.
— Brittany — fortemente repeti.-Não estou julgando.Acho esperto o que fez.
Olhou-me neutra antes de beber mais vinho.Desviou os olhos por um segundo e,quando voltou,parecia que os segundos anteriores não haviam existido.
— O vinho acabou — gesticulou para a garrafa de rótulo francês.-Espero que tenha vinho na sua casa.
— Jezus Christus,você tem mais flores que minha grootmoeder— disse a mulher balançando na cadeira de madeira.Tínhamos já instalado-nos com vinho tinto e duas taças no jardim de frente de minha casa,onde canteiros de rosas e vasos com orquídeas predominavam a vista.Adoradora era eu das plantas e botânica,e amava ver meras folhas verdes originarem pétalas coloridas e cheirosas.A cadeira sustentada por correntes onde ambas de nós sentava-mos era abaixo dos galhos de uma umbellularia,e as folhas destas eram capazes de cobrir meus pés se afundasse-os o suficiente. Gostara eu do olhar que a mãe mandava aos canteiros meus — era duro,mas o sorriso pequeno em sua boca era contraditório.Talvez ela gostasse da sensação que as cores traziam à ela. Paz, alegria. Bebi de meu vinho,acompanhando Brittany,e suspirei alto ao levantar o queixo para encarar o topo da arvore acima de nós.
— Chamam essa árvore de madeira de pimenta — comentei,usando os pés para calmamente balançar o assento.-Ou arvore da dor de cabeça,pois suas folhas foram usadas para curar isso,dor de dente e de orelha.O que é engraçado,pois o óleo em suas folhas também pode causar dores de cabeça.
— Você estudou isso?
— Talvez — retorqui com um sorriso.-Quando comprei esse terreno,ninguém olhava para essa árvore,o que era triste,pois ela é comum lá por Califórnia.Digo,como ela veio parar aqui?
— Então você aprecia ela por causa disso,do mistério de saber como ela chegou aqui.
— Aprecio-a pelo fato de estar grande e forte,mesmo longe de seu habitat.É como se ela fosse uma guerreira deslocada,ela não pertence aqui,mas continua crescendo — Brittany agora bebia o vinho olhando a árvore,as folhas e os poucos frutos.Talvez ela tivesse gostado dela,simpatizado-a que nem eu. Encarei a loira e seus olhos eram que nem o céu acima da árvore.Porém,eu sempre tinha a sensação de que se olhos fossem paisagens,os de Brittany seriam um céu tempestuoso e imprevisível — assim como ela.
— Daqui a pouco preciso ir — esclareceu terminando seu vinho.- Sam chegará logo.
— Oh — assenti para a rua vazia.-Sim, claro.
— E preciso comprar mais vinho — bufou cansada,passando os dedos na testa com fios loiros.
— Pode levar este,se quiser — entreguei-a a garrafa de vinho tinto.- Quer dizer,se você tiver gostado dele.
— Werkelijk?— abriu um sorriso,e eu apenas retribuí o gesto.-Dank je,Santana — pela voz (e pela mão que levava o vinho para baixo de seus braços),presumi que Brittany havia aceitado e gostado de tal coisa.Sorri pequeno,vendo-a entregar-me minha taça e se levantar do banco.- Tot ziens,professora — piscou-me um olho.-Boa noite.
Uma das últimas aulas minhas do dia resumiram-se em olhares de ódio de Daniella e Sebastian em minha direção.Era,em fato,a primeira vez que havia eu visto os dois cochicharem juntos — finalmente pareciam agir como se conhecessem um ao outro.
Oras,se soubessem que minha última preocupação era discutir sobre eles com Brittany.Não,queria eu pergunta-la que língua era aquela que sempre falava,o que se passava pela mente dela,por que ela parecia não importar-se de trair a confiança do marido.Porém,amantes não devem perguntar o porquê.
Engoli seco diante de toda sala,vendo-me,de súbito,como uma amante.
Não,nunca pensei que seria esta versão de mim — a outra que era destruidora de famílias.Não estar num romance,não estar num relacionamento saudável; estar num caso junto de alguém de família.
De repente senti-me mal e pensei que fosse sair da sala,mas então tracei em uma folha de minha mesa um olho e tive certeza daquilo — aquele era o olho igual a um céu tempestuoso.
A escola chegara ao fim,mas eu decidira ficar na sala onde tudo era tranquilo e silencioso.Sem alunos,sem professores.Somente eu e minha caneta — e o rosto de Brittany no papel branco.Atrás dos cabelos dela fiz algo,e desse algo saiu um galho,um tronco,uma folha.A umbellularia de minha casa estava então desenhada,e Brittany sentava-se sozinha em meu balanço de madeira com uma taça de vinho em mãos.
O desenho foi escondido embaixo de um livro quando ouvi pela porta alguém entrar.Sorri para Holly Holliday e ela me cumprimentou com uma piscadela.
— São quatro horas e você ainda está aqui — explanou.- Vou pedir para Figgins lhe dar um aumento.
— Idem — ri pelo nariz.-O que faz aqui?
— Tinha uma hora marcada para falar com um aluno — deu os ombros.-Mas aparentemente ninguém se importa em cumprir horários com a orientadora.
— Desculpe — consolei-a.- Se melhorar seu humor,posso ser uma paciente.
— Sério? — a loira sorriu até formarem-se rugas em suas bochechas.-Pensei que nunca fosse pedir.Então,Santana,o que te aflige? — ri com o tom de deboche da mulher.
— Doutora — suspirei com drama zombeteiro,mas por um milésimo pensei o que impedia-me de ser sincera.Olhei Holly que sentava na ponta de minha mesa,seus braços cruzados no peito e o sorriso paciente lá estampado.- Sabe quando você passa um enorme período de tempo sem sexo?
— Não — gargalhou,e acompanhei-a por educação.-Mas por que?
— Bem, eu estava a um tempo sem... sem contato humano e isso,de repente,mudou.
— Isso é bom — falou positiva.-Não é?
— Achei que seria — admiti com minhas mãos inquietas no meu colo.-Mas algo está errado.
— O que?
— Não sei — disse.- Sabe quando você vai sair,tem essa sensação de que está esquecendo algo e não lembra o que é? — assentiu a loira.-Sinto como se essa...relação que tenho com essa pessoa é assim.Como se de repente eu fosse lembrar de algo importante e ver que estou ferrada — a orientadora me olhava calada,e senti-me constrangida.Soltei um riso sem humor.
— Bem,Santana,este não é um tipo de relação saudável — ficara ela séria,repentinamente.- Você tem que se sentir bem e saber que não está esquecendo de nada.
— Eu sei — sussurrei.- Tem vezes que fico com a sensação de que esqueci algo e,no final,não esqueci de nada.E se eu estiver errada?
— Relacionamentos são bem mais complexos que lembrar de pegar as chaves — contestou gentilmente.- Se você sente-se assim,algo não está certo.
— Sim — ri,novamente,sem humor.-Algo nunca está certo.
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