Mistletoe
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Querida amiga secreta, espero que goste desse pequeno clichê de Natal! ♥
Aquela era a última semana antes do recesso de Natal e toda a empresa estava decorada como a casa do bom velhinho — uma enorme árvore com bolas vermelhas e douradas na entrada e uma pomposa estrela brilhante no topo, embrulhos coloridos espalhados por todos os cantos, pisca piscas nas janelas e visgos em cima das portas; sob a mesa de cada funcionário, uma minúscula árvore de Natal feita de suculentas em um cachepô e uma touquinha colada no canto da tela do computador.
Definitivamente a Lovegood Corp. poderia ser facilmente eleita a empresa com o maior espirito natalino em toda Londres, o que animava os funcionários, encantava os clientes e garantia uma boa grana extra para a empresa de energia da cidade.
Ao meu lado, Cresselia, que havia entrado há pouco na empresa e estava encantada com toda a tradição de Natal, perguntou:
— É assim todos os anos aqui?
— Pelo menos nos últimos cinco em que estive aqui. — Brinquei. — A Srta. Lovegood é apaixonada por essa data e faz questão que toda a empresa também entre no clima.
— Posso dizer que já estou pra lá de envolvida com o Natal! — Retrucou ela, rindo. — E por falar nisso, como estão os preparativos? Ansiosa pelo recesso?
— Bastante! É tradição da família Weasley comemorar o Natal beeeeem juntinha! E como somos uma boa tropa, fazemos um amigo secreto para não precisarmos dar presentes para todos, se não não sobra dinheiro pra fazer a ceia! — Falei, rindo e dando uma piscadinha. Cresselia gargalhou antes de perguntar novamente:
— E quem você tirou? Espero que tenha sido aquele seu primo maravilhoso e tudo de bom que te deu carona na semana passada! Aí é só colocar um laço na minha cabeça e me entregar de presente pra ele.
Dessa vez eu quem gargalhei alto.
— JaySix? Não, não foi dessa vez, Cress. Tirei a vovó Molly. O que é ótimo, porém é extremamente difícil. O que dar para uma mulher que já tem tudo? Não consigo pensar em uma única coisa que aquela mulher não tenha!
— Talvez não se trate do que ela precisa… — Comentou ela, pensativa.
Nosso assunto foi interrompido pelo telefone tocando, provavelmente mais algum pedido urgente da produção, que havia calculado errado as demandas e, às vésperas do Natal, ainda tinham uma grande quantidade de produtos a ser entregues.
Foi somente no final do dia, após uma grande pilha de pedidos de compras para negociar e um pequeno imprevisto com a entrega de uma de nossas matérias primas mais importantes, que finalmente consegui pegar o celular e ver um considerável número de ligações perdidas da minha nada ansiosa mãe.
— “Oi filha, como estão as coisas? Muito corrido aí no trabalho?”— Uma versão muito animada de Hermione Granger falou do outro lado da linha.
— Tudo certo, mamãe, só a correria normal do fim do ano.. E por aí? O papai melhorou da coluna? — Perguntei, lembrando que o senhor Homem de Ferro, também conhecido como Ronald Weasley que, por ventura, também era o meu pai, havia caído novamente da escada na última semana.
— “Você conhece aquele cabeça dura, não é? Resolveu ajudar seu tio Harry na decoração da casa da vovó e deu mau jeito de novo … Desse jeito, não sei se vai sobreviver até o Natal!”— Brincou ela, enquanto um sonoro “Eu ouvi isso!” ralhou de algum canto da casa, nos fazendo rir mais ainda. — “Agora deixa eu te contar uma novidade … Mas é segredo de estado, hein?”
— Nossa, o que será? Bem que eu estranhei a senhorita tão feliz assim, dona Hermione… — Comentei, ainda rindo. — Anda, diga…
— “Seu irmão vai pedir a mão da Lysander em casamento na noite de Natal!!!”— Ela quase gritou de emoção. — “Meu menininho está crescendo!”
— Sério? — Perguntei, num tom que nem eu mesma consegui entender qual era.
— “Pois é! Dá pra acreditar?”
— Nem um pouco …
— Dá pra acreditar? — Perguntei para Albus, algumas horas mais tarde, enquanto praticamente devorava meu donut com cobertura de morango e contava a novidade super secreta do meu irmão.
— Claro que dá. — Respondeu ele, tranquilo como sempre. Albus sendo Albus.
Respirei fundo, revirando os olhos, enquanto ele continuou, como se fosse óbvio:
— Nossas famílias são praticamente vizinhas desde que nos entendemos por gente. Eles são melhores amigos desde, sei lá, desde que saíram das fraldas. Começaram a namorar no ensino médio e foram para a faculdade juntos. Não vejo por que o espanto…
— Sei lá, Al… É tão estranho ver meu irmão mais novo se casando. Ele tem cinco anos a menos do que eu, porra. E ele só teve a mesma namorada desde sempre! Nem brigar eles brigaram! Percebe como isso é estranho? Sabe quando você come sempre o mesmo sabor de donut e acha que aquele é o seu preferido, mas na verdade é por que você nunca experimentou outros para ter certeza? — Desabafei tudo de uma vez só, colocando o último pedaço do donut inteiro na minha boca, enquanto meu primo me olhava, pensativo.
— Talvez o Hugo não precise experimentar todos os … donuts. E que comparação mais ridícula!
— Pelo menos você entendeu o meu ponto! — Rebati.
— Certo. Mas nós não somos iguais, Rose. — Começou ele, filosófico. — Hugo está se casando com a primeira namorada, e tá tudo bem. Eu demorei cinco anos para aceitar minha homossexualidade e mais sete para assumi-la aos meus pais, e tá tudo bem também. Você já saiu com vários caras, mas sempre os rejeita por que tem medo do compromisso, talvez não esteja tão bem assim, mas faz parte. Cada um tem o seu próprio tempo.
— Eu não tenho medo de compromisso! — Rebati.
Albus me olhou daquele jeito reprovador de quem não acredita nem um pouco.
— Então me diga Rose, qual foi a última vez que você apresentou algum dos seus namorados para a família?
Revirei os olhos, sem responder, e ele continuou:
— Nenhuma, não é mesmo? — Ele respirou fundo antes de continuar. — Rose, esse desespero pelo Hugo estar se casando diz mais sobre você mesma do que sobre ele. E, na minha opinião, você deveria deixar o seu irmão ser feliz e tentar dar oportunidade para que alguém te faça feliz também.
Respirei fundo, ciente de que aquele velho assunto iria vir à tona novamente, e respondi:
— Não é assim tão fácil, como você faz parecer. Lembra do Jared, que não cortava as unhas dos pés? A primeira vez que fomos à praia foi desastrosa, dava para cavar um buraco até a China em menos de dois minutos de ele as usasse como pás. Ou do Chris, que era cheiroso, simpático, maaaas … Era viciado em jogos de fliperama. Eu passei o dia dos namorados vendo ele disputar com um menino de sete anos a maior pontuação do Donkey Kong!! Ou então o Mike, que não era viciado em jogos de fliperama e cortava as unhas dos pés, porém tinha o estranho hábito de chamar todos no diminutivo e me fazer conversar com o cachorrinho dele no telefone: “Hey Rosinha, diga um oizinho ao Spikey! Fala com a titia Rosinha, amiguinho!”.— Despejei. — Em sã consciência, você apresentaria algum deles para a nossa família?
Albus tentou se manter sério, porém deixou uma risada escapar enquanto eu fazia das minhas desventuras amorosas um show de stand up gratuíto.
— Você é ridícula, Rose. Quem no mundo seria capaz de atrair tantos desastres amorosos como você? — Apesar da crítica implícita, Albus falava com um tom carinhoso na voz. — Eu ainda acho que você se sabota, e procura o lado negativo das pessoas. Você tentou, em algum momento, pedir ao Jared para cortar as unhas, ou ao Chris para fazerem um programa diferente ou, quem sabe, tentar jogar com ele e se divertir?
— Não vai defender o Mike?
— Não, esse não tem o meu perdão. — Ele riu e eu o acompanhei. — Foi realmente um grande dedo podre você tê-lo encontrado no Tinder.
— Finalmente algo no qual concordamos!! — Respondi, ainda rindo.
— Sabe Rose, você é divertida, inteligente, se dá bem com boa parte das pessoas ao redor e pede desculpa até se esbarrar em um cachorro na rua. Eu não consigo entender como consegue se meter nesses enroscos… Talvez você esteja sabotando sua felicidade por medo de compromisso… Quem sabe, se você levar um amigo na festa de Natal… Só um amigo, possa começar a construir a ideia de alguém ao seu lado.
— Hey, você pode parar de me analisar? Achei que psicólogos não podiam analisar a própria família.
— Não estou falando como psicólogo, Rose… Estou falando como seu melhor amigo que te conhece desde que você arrancava as próprias fraldas e corria pelada pela casa da vovó com o tio Rony atrás. — Ele riu da lembrança. — E, afinal, talvez seja hora de tentar algo novo, prima …
— Em todo caso, eu não tenho um amigo que eu possa levar para a festa de Natal na casa da vovó. Todos os meus colegas de trabalho já têm seus compromissos e meus outros amigos são meus primos, o que não conta. — Me defendi, achando genial que, dessa vez, Albus não pudesse rebater.
— Se você quiser, posso te apresentar um amigo meu. Trabalhamos no mesmo prédio, ele é fisioterapeuta e, acredito eu, que vocês teriam muita coisa em comum.
— Obrigada Al, mas eu dispenso o encontro às cegas… Quem sabe numa outra oportunidade…
Meu primo me olhou novamente e respirou fundo, terminando seu café antes de partirmos para as compras de Natal.
Entrei em meu apartamento quando já passava das nove horas da noite, depois de uma longa caminhada em busca dos presentes de Natal. Todos os anos, eu e Albus comprávamos nossos presentes de amigo secreto juntos e, ironicamente, nunca havíamos nos tirado. Neste ano ele havia tirado Lylu e comprado um lindo kit de pincéis de maquiagem e uma maleta grande, pois a garota já estava com mais de cem mil seguidores na sua rede social, mandando muito bem como influencer de beleza, saúde e bem-estar.
Tirei os sapatos de salto, que já estavam matando os meus pés, tomei uma ducha rápida e me servi de uma generosa taça de vinho, aproveitando o silêncio depois daquele dia pra lá de longo.
Foi ali, no meio da cozinha, com a taça de vinho pela metade e vestindo somente uma camiseta velha do meu irmão que alcançava quase o meu joelho, que comecei a pensar no que Albus havia dito… Será que realmente eu era tão exigente a ponto de achar que nenhum homem poderia ser ideal para mim? Será que, internamente, eu sentia inveja de Hugo ter encontrado tão facilmente seu amor para a vida toda e eu continuar pulando de galho em galho? …
Olhei para a taça de vinho novamente, culpando-a e culpando Albus por esses pensamentos aleatórios que começaram a surgir. Não tem nada de errado não ter apresentado ninguém para a família até agora, afinal, para que criar laços com alguém que eu sei que não vai dar em nada? E também, eu só estava me preocupando com o meu irmãozinho, que mal tem nisso?
Deixei a taça sob a bancada, abandonando-a junto com aqueles pensamentos confusos, e fui dormir. Nada melhor do que uma boa noite de sono.
Acordei na manhã seguinte com uma leve dor de cabeça, culpando o vinho, e o Hugo por ter essa ideia precoce em pleno Natal, minha época preferida do ano, e a minha mãe por ficar tão feliz e não tentar colocar juízo na cabeça dura do meu irmão, e ao meu pai por não dizer nada sobre isso, e ao Albus por achar isso algo normal, e ao Tinder por não me apresentar pessoas decentes e… Ok, talvez esta lista de culpados já esteja bem extensa.
Vesti uma calça jeans quentinha e confortável, uma blusa grossa de lã creme e minhas botas de salto preferidas de inverno, que alongavam minhas pernas e eram confortáveis como pantufas. Peguei meu sobretudo antes de sair e dei uma última olhada no espelho, aquele dia seria melhor.
Como um dia típico de inverno, Londres nunca me decepcionava. A neve cobria toda a estreita rua do prédio e, àquela hora, algumas pessoas também começavam a sair de suas casas em direção ao trabalho.
No caminho até o metrô, parei na padaria do Bo, um senhor de mais de setenta anos que fazia os cafés mais deliciosos de toda a Londres.
— Ei Rose, um café forte sem açúcar? — Perguntou ele, já me entregando meu pedido antes que eu pudesse sequer responder.
— Você é o melhor, Bo! — Respondi, já sentindo aquele cheirinho delicioso e o calor nas mãos por segurar aquele café quentinho.
— É bondade sua! — Ele respondeu.
Antes que eu pudesse me despedir, o sininho da porta tocou, anunciando a entrada de um novo cliente. Olhei para trás e uma senhora sorridente acenou para Bo e, pelo canto do olho, pude ver suas bochechas corarem.
— Essa é a minha deixa. — Brinquei, e Bo piscou para mim, com as bochechas ainda rosadas.
Aquele dia parecia atipicamente pacato, dada a proximidade do Natal. Na rua, um casal andava de mãos dadas, olhares apaixonados. Provavelmente turistas se encantando com minha querida Londres. Na entrada do prédio, Finn, o porteiro dos dias ímpares, sorria gentilmente para uma mulher de meia idade, provavelmente cliente de uma das diversas empresas que dividiam o espaço. No elevador, um casal conversava animadamente sobre o plano para o recesso de fim de ano, um resort no Caribe (boa escolha!).
Aparentemente tudo girava em torno de olhares, planos e flertes. Yay, Rose. Hoje será um ótimo dia!, pensei.
— E o mais legal… — Ouvi Cress conversando com uma das estagiárias do Departamento de Marketing, sua voz algumas oitavas acima por conta da animação. — Ele já me perguntou se tenho planos para o Natal!!
Sentei na minha mesa, flertando descaradamente com a pilha de pedidos de compras e desejando um longo dia dedicado somente a nós duas e às negociações intermináveis para finalizá-las.
— Rose, você não vai acreditar! — Cress sentou ao meu lado e, ciente do assunto, coloquei meu melhor sorriso no rosto e tentei não mandar à merda cada detalhe romântico do seu encontro da noite anterior.
— Sabe quando a gente está procurando um modelo de carro para comprar e, misteriosamente, começamos a ver milhões de carros do mesmo modelo na rua? — Perguntei para Albus no final do dia, enquanto tomávamos uma taça de vinho sentados no tapete da sala de estar do meu apartamento.
— Isso se chama prestar atenção, Rose. Geralmente acontece quando nos focamos em algo. No seu caso, você está vendo casais felizes, não é lindo? — Ironizou ele, fazendo uma carinha de anjo que eu, particularmente, tive vontade de socar até quebrar todos os dentes (com carinho, claro).
— Você me ajuda tanto, às vezes. — Reclamei.
— Eu sou sincero, chuchu.
Revirei os olhos, virando a taça de vinho por completo. Albus, esperto que só, esperou até que o álcool fizesse efeito, antes de propor:
— Você precisa se dar a oportunidade de conhecer pessoas, já te disse isso. E se, só dessa vez, você me ouvisse e tentasse conhecer alguém novo? Como um amigo? Se não der certo, eu prometo que te dou espaço para ter todos os dates ruins que quiser.
Respirei fundo antes de responder:
— Só um café, ok? — Os olhos de Albus brilharam. — Essa é sua única oportunidade. Se der errado, pelo menos você não poderá dizer que eu nunca te dei ouvidos.
— Você não vai se arrepender, Rose. — Respondeu ele, já digitando algo no celular rapidamente.
[Albus]: Você saberá quando ele chegar.
Li e reli aquela mensagem diversas vezes, ainda incomodada com o suspense idiota do meu primo mais idiota ainda. Sentada em uma das mesas próximas à janela na cafeteria do Bo, um lugar seguro e confortável para mim,beberiquei mais um gole do meu café extra forte enquanto esperava. Do lado de fora, a neve caía preguiçosa e, àquele horário, poucas pessoas circulavam pela rua.
— Rose? — Ouvi uma voz grave, que me despertou dos meus devaneios. — Sou Leo, Albus deve ter falado sobre mim.
O homem à minha frente, vestido com roupas brancas de quem acabou de sair do trabalho, tinha a aparência de um corredor profissional, pernas esguias, braços fortes, porém não muito exagerados, cabelos castanhos e um sorriso largo, o tipo preferido de Albus.
— Ah, claro! — Respondi, sorrindo de volta. Conforme prometido, eu daria uma chance ao indicado de Al. — Falou sim!
— Trabalhamos no mesmo prédio há alguns meses, Albus é um cara bem legal! — Justificou-se ele. — Vocês são primos, certo?
— Isso! Nossa família é beeeem grande. — Ri. — Eu e Albus dividimos até as fraldas, por assim dizer. Somos melhores amigos desde que me entendo por gente.
— Que legal! É difícil ter uma amizade assim… Mas me conta mais sobre você!
— Bom… Eu trabalho no Departamento de Compras da Lovegood Corp., conhece? A empresa alimentícia que faz balas, doces e tal…
— Sei!! Dos Feijõezinhos de Todos os Sabores, não é? — Ele se entusiasmou. — Eu ainda não superei o de meleca, foi o pior que já experimentei na vida!
— É por que você nunca deu a sorte grande de tirar um de gorfo de nenê! Sério, é a pior ideia que eles já tiveram! — Respondi, rindo.
— Eca, quem faria algo assim? — Falou ele, revirando os olhos com nojo.
— Aparentemente, nós faríamos! — Rebati, não muito contente.
— Bom, ainda bem que minha maior preocupação são exercícios para os velhotes! — Ironizou ele.
Salvo pelo gongo de uma resposta que talvez eu pudesse me arrepender mais tarde, o celular de Leo tocou e ele pediu licença, se afastando da mesa para atendê-lo. Enquanto esperava, considerei se Albus realmente achava que eu e Leo combinaríamos ou se estava apenas aproveitando a oportunidade para criar mais uma história de encontros que terminaram mal para o stand up da vida amorosa de Rose Weasley. Afinal, por mais que Leo não parecesse tão ruim, sabia que com certeza ele não era a pessoa que eu apresentaria para a família … Imagine só, JaySix fazendo alguma palhaçada e Leo revirando os olhos com nojinho? Ou ele chamando vovô e vovó de “velhotes”? Papai daria um chute na bunda dele no mesmo minuto!
— Ei Rose! — Chamou ele, aproximando-se da mesa novamente. — Meu primo acabou de me ligar, aparentemente o carro dele deu problema no caminho para Londres, preciso ajudá-lo.
— Tudo bem, sem problemas. — Essa desculpa foi melhor do que eu esperava, pensei.
— Hã… — Leo gaguejou e, instantaneamente, percebi que alguma coisa ia sobrar para mim. — Na verdade, ele está sem a habilitação e, por isso, pensei se você poderia ir comigo para trazer o carro de volta. Se algum policial aparecer, ele pode ter o carro guinchado.
Respirei fundo antes de responder. Ótimo, era tudo o que eu queria para o meu fim de tarde, ter que buscar um desconhecido para que ele não tivesse o carro guinchado. Onde Albus foi me enfiar?
— Claro. — Respondi, tentando não esboçar minha reação descontente.
Saímos da cafeteria do Bo e logo pegamos a rodovia, a neve parecia ter diminuído ao longo da estrada, me deixando mais tranquila quanto ao retorno. Leo não falou muito ao longo do caminho, apenas me pediu para colocar o GPS e informar vez ou outra caso precisássemos fazer um desvio.
Quase meia hora depois, estacionamos no acostamento em um trecho pouco movimentado da rodovia, onde um carro escuro também estava parado. Leo saiu rapidamente do carro, indo em direção ao outro um pouco mais a frente e abrindo o capô. Logo em seguida, voltou para o carro em que estávamos e pegou uma maleta pequena no porta-malas.
Fiquei observando do banco do passageiro, com frio demais para sair do carro e não encontrando uma utilidade real para mim naquele momento. Assim que Leo abriu a maleta de ferramentas, um indivíduo saiu do outro carro. À distância e com as pesadas roupas de inverno, não consegui identificar qualquer detalhe, salvo seu sobretudo preto e o gorro cinza.
Não demorou muito para Leo voltar novamente para o carro em que eu estava, um sorriso triunfante nos lábios.
— Era só um cabo que deu mau contato, mas consegui consertar. — Falou ele, abrindo a porta do carro. — Tudo bem para você dirigir o outro carro de volta para Londres?
Bom, se tinha algum problema, agora não fazia muita diferença, não é mesmo?, pensei e apenas sorri para Leo, antes de responder:
— Não, tudo bem.
— Obrigado mesmo, Rose! — Foi a última coisa que ele me disse, enquanto eu saía do carro.
Caminhei até o outro carro, um pouco constrangida em dirigir o carro de um completo desconhecido. Segurei na maçaneta, vendo o carro de Leo já acelerar na rodovia. Ok, agora não tinha mais qualquer chance de voltar atrás.
Entrei, fechando a porta e sentindo o calor do aquecedor ligado. Olhei para o lado, pronta para dar um oi e partir para a estrada quando meu sorriso congelou na metade, naquele momento embaraçoso em que você está prestes a seguir sua vida e aceitar a derrota do fim de um encontro ridículo quando um deus grego se materializa ao seu lado.
— Oi, eu sou Scorpius. — Ele se apresentou, sorrindo timidamente para mim. Seus olhos tinham uma cor de tempestade, um misto de cinza e azul difícil de descrever. Os cabelos, agora sem touca, pareciam um pouco compridos demais, caindo nos olhos, num tom de loiro muito claro. — Desculpa atrapalhar o café de vocês, mas estou me mudando para Londres e nesse vai e vem de mudança, acabei esquecendo minha carteira na casa dos meus pais, em Oxford.
— Sem problemas. — Respondi, fazendo uma pausa longa demais até lembrar de me apresentar. — Eu sou Rose.
— Leo não me falou que estava em um encontro, se não jamais teria atrapalhado. — Adicionou ele, meio constrangido.
— Fica tranquilo, não é nada que já não estivesse fadado a dar errado. — Soltei sem pensar que eu estava falando do primo dele. — É… Desculpa. — Adicionei. — Mas não ia dar certo, só isso.
Scorpius riu, divertido.
— Bom, então de nada por ter te tirado dessa noite super divertida. — Ele ironizou, me fazendo rir também. — Pode ir para a sua casa, eu sigo de lá. Acho que a chance de ser pego sem habilitação na cidade é menor do que na rodovia.
Concordei e comecei a dirigir, a velocidade um pouco abaixo do ideal, dada a neve que caía. Não demorou muito para Scorpius se voltar para mim:
— Então Rose, gosta de neve?
Olhei de relance para ele, que parecia realmente interessado.
— O inverno é minha estação preferida. — Respondi. — E você?
— Sim e não. — Ele respondeu, divertido. — Adoro a neve pelos esportes que podemos praticar e pela missão impossível de montar um boneco de neve decente todos os anos. Mas não gosto do infinito de roupas que não deixam eu me mover direito.
— Justo. — Respondi. — Até por que não existem rinques de patinação no verão, certo? — Ironizei, rindo.
— Não é a mesma coisa, você tem que admitir!
— Funciona.
— Nem sempre o que funciona é o ideal. — Ele rebateu. — Vai me dizer que um prato de salada e um hamburguer funcionam da mesma forma para matar a fome?
— Não tem nada a ver!
— Como eu disse, nem sempre o que funciona é o ideal. — Respondeu ele, triunfante.
Revirei os olhos, rindo.
— Qual sua sobremesa preferida?
— Pudim.
— Que coisa de vó! — Ele riu. — Mas não posso julgar, minha mãe faz um manjar delicioso que, com certeza, está no top 3.
Ri com a espontaneidade de Scorpius que, passado o constrangimento inicial da situação esquisita que nos conhecemos, parecia confortável como se fossemos amigos de longa data.
— Você sempre faz essas perguntas inusitadas para desconhecidos?
— A melhor forma de conhecer uma pessoa é avaliando seus gostos. — Respondeu ele, simplesmente.
— Válido.
— Não me interessa se você é bancária, professora ou uma espiã se você não gostar de cachorros, neve e comida de vó.
E a partir daquela resposta, começamos um jogo de perguntas e respostas infinito até a minha casa, no qual descobri que Scorpius tinha uma tatuagem com a pata do seu primeiro cachorro, que havia falecido quando ele fez 18 anos, descobri que ele tinha pânico de lagartixas e que preferia batata rústica às “finas e sem graças” batatas fritas. Descobri que ele tinha um esqueleto no sótão, literalmente, que usava para assustar as crianças da vizinhança no Halloween e que ele era péssimo em lembrar de letras de música. Ah, e descobri também que ele cortava as unhas, gostava de video games quando estava sozinho e nada de diminutivos, ponto para Scorpius.
— Chegamos. — Anunciei, encostando em frente ao meu prédio.
— Já? — Perguntou ele. — Eu ainda nem descobri se você já tentou atravessar a faixa de pedestres da Abbey Road para imitar os Rolling Stones.
— São os Beatles, e sim. — Respondi, gargalhando. — Mas, como esperado, não deu certo.
— Ok, falha minha.
— Hey, o que vai fazer no Natal? — Perguntei, sem pensar, já saindo do carro.
— Provavelmente, colocar a casa em ordem.
— Quer ir a um jantar de família beeeeem chato e cheio de gente falando alto?
— Me parece um ótimo programa. Te pego às 19h? — Ele respondeu, piscando e soltando um sorriso torto enquanto assumia o volante.
— Parece um bom plano. — Respondi, sorrindo e acenando.
— Obrigado por hoje, Rose. Principalmente por não ter nos matado no caminho de volta. — Scorpius disse, já ligando o carro. — Até dia 24.
Eu tinha um encontro. Eu tive um encontro. Eu teria um encontro com toda a família Weasley reunida. E eu não pensei por dois segundos antes de convidar aquele estranho que me fez gargalhar enquanto dirigia por uma estrada cheia de neve no fim da tarde. O que eu estava pensando?
Passei os dois dias entre o ocorrido e a véspera de Natal meio aérea. Talvez Scorpius tivesse apenas sido educado em aceitar meu convite e, pensando melhor, não aparecesse na data. É … Talvez fosse isso. Ou talvez os pais dele tenham ligado e convidado ele para a ceia de Natal da sua própria família e, como esquecemos totalmente de trocar telefones, ele não conseguiu me avisar. Era outra opção.
Por via das dúvidas, contei a Albus sobre o encontro desastroso e o primo extremamente divertido e autêntico que aparecera pelo caminho. Albus parecia uma criança em manhã de Natal com a notícia, feliz por eu ter saído da minha zona de conforto e arriscado uma vez na vida. O problema é que eu estava arriscando com um completo desconhecido que eu não sabia nada além do nome e gostos pessoais sobre a vida. O que ele faz? Não sei. Quantos anos ele tem? Não tenho ideia. Ele é um serial killer que está se mudando para Londres para disfarçar um crime horrendo que cometeu no interior da Inglaterra? Talvez, nunca se sabe.
E apesar de todas as minhas neuras, Albus se manteve otimista com o ocorrido, me tranquilizando e falando que tudo daria certo, independente se eu e Scorpius casássemos e tivéssemos um time de futebol como vovó Molly ou se fosse apenas um “ferigato” (feriado + gato, date que levamos apenas para não ficarmos de vela para a família nos feriados).
Na manhã do dia 24, fiz o possível para manter minha mente ocupada e bem longe dos pensamentos da festa daquela noite, onde Scorpius, o divertido desconhecido, e toda a família Weasley estariam reunidos.
Por isso, saí para correr, preparei um banquete de café da manhã só pra mim, embrulhei o presente que comprara para vovó Molly, um colar delicado com o símbolo do infinito incrustado com pequenas pedrinhas vermelhas, sua cor preferida, representando os infinitos Weasleys que ela era capaz de cuidar com tanto carinho.
Feito isso, limpei o apartamento e preparei meu prato preferido para o almoço, parmeggiana. Só o trabalho em fazê-la e o de limpar a cozinha depois me ocuparam boa parte da tarde. E, foi só quando terminei de arrumar tudo, percebi que já estava atrasada para me arrumar para o Natal.
Coloquei um vestido reto, marsala, que ia até pouco acima do joelho e uma sandália preta de tiras. Deixei meu cabelo solto, com os cachos nas pontas lhe garantindo um volume adicional. Usei os brincos de pérola que mamãe havia me dado no último ano, discretos e delicados, e passei uma maquiagem leve.
Estava vestindo meu sobretudo quando a campainha tocou, fazendo meu coração já dar uma pirueta antes de voltar a bater. Talvez Hugo não fosse o único ansioso por aquela noite.
— Hey! — Cumprimentei o loiro, que estava encostado despretensiosamente na porta do carro. Scorpius vestia um jeans escuro e uma camisa verde musco, com um casaco preto por cima.
— Achou que eu não viria? — Brincou ele.
— Tive minhas dúvidas. — Respondi e ambos rimos.
— Já pesquisei no google mais cem perguntas diferentes para essa noite!
— Eu deveria ficar preocupada?
— Só um pouco.
Chegamos na casa da vovó e do vovô Weasley ainda rindo das perguntas ridículas que Scorpius encontrara na internet, o que contribuiu para que eu ficasse bem mais tranquila em relação àquela noite.
Quando entramos, boa parte dos Weasley já estavam reunidos na enorme sala de estar, conversando sobre diversos assuntos misturados, filhos, viagens, o último jogo de futebol que assistiram, etc. Porém, assim que pisamos na sala e cumprimentamos Albus, encostado à parede, as conversas começaram a diminuir e quase cessaram.
— Oi filha, tudo bem? — Minha mãe me abraçou, olhando nada discretamente para Scorpius ao meu lado.
— Oi mãe! Tudo certo e com você? — Respondi, abraçando-a de volta, tentando disfarçar a estranheza do momento.
— E quem é esse? — Ela perguntou, sorrindo para Scorpius.
— É o novo namorado da Rose, tia. — Albus respondeu, me fazendo quase engasgar. Scorpius soltou um risinho ao meu lado, relaxado.
— Muito prazer, senhora Weasley. Rose me falou muito a seu respeito. — Scorpius cumprimentou.
— Ah é? — Mamãe parecia radiante. — Espero que ela tenha falado bem!
— Com toda a certeza. Soube que, depois da vovó Molly, a senhora faz o segundo melhor pudim de toda a Londres! — Brincou ele e, naquele segundo, Scorpius já tinha ganhado mamãe e vovó em uma única fala.
Olhei para Albus de cara feia e ele piscou para mim, me lançando um sorrisinho maroto que me fez querer enfiar a cara dele na lareira acesa (novamente, com carinho).
E, depois daqueles primeiros pontos com mamãe e vovó, foi questão de minutos até Scorpius ter ganhado tia Gina, Lylu, JaySix e até mesmo papai, que estava encantado por Scorpius conhecer sobre baseball, seu esporte preferido.
Óbvio que, enquanto Scorpius ganhava a família toda, minhas primas vieram perguntar como eu estava namorando e sequer havia falado para elas, além de quererem detalhes e o endereço de onde elas poderiam encontrar um igual. Para ser sincera, por mais que todos os outros Natais tenham sido encantados ao lado da minha família, aquele era o primeiro que, de fato, eu tinha alguma novidade além de bolinhos cortesia da Lovegood Corp. ou algum imprevisto no trabalho que me fazia atrasar para a ceia.
— Você vai ter que nos contar tudo depois!! — Vic falou, quando eu não soube muito bem o que responder.
— Como se conheceram? — Lylu estava animada.
— Ele já disse que te ama? — Foi a vez de Domi, que quase fez com que eu me engasgasse com a bebida.
— Ok meninas, posso roubar minha namorada um segundo? — Scorpius me salvou do interrogatório, fazendo a palavra "namorada" ecoar diversas vezes na minha cabeça, me causando uma sensação diferente.
— Meu Deus, Scorpius. Me desculpa por tudo isso!! Albus não tem noção nenhuma de nada! — Disse, envergonhada.
— Você tá brincando, Rose? — Respondeu Scorpius, divertido. — Esse está sendo o melhor Natal que eu me lembro! Nunca vi uma família tão divertida quanto a sua. Estou me divertindo à beça, fique tranquila. A propósito: nos conhecemos quando meu carro quebrou na estrada e você me ajudou, certo?
Por mais que eu estivesse constrangida com a situação, não consegui não rir.
— Certo. E desde quando namoramos? — Perguntei.
— Há algumas semanas. E nosso primeiro beijo foi debaixo de um visco de Natal. — Ele piscou pra mim.
— Tá brincando que te perguntaram isso? — Perguntei, sentindo minhas bochechas corarem violentamente.
— Não. — Ele riu, divertido. — Mas com certeza suas primas te perguntarão.
— É sério, vou entender se nunca mais quiser olhar na minha cara! — Respondi, colocando as mãos no rosto.
— Hey! — Falou ele, tirando minhas mãos do rosto e dando um beijo singelo na minha testa. — Já temos planos para o Dia dos Namorados, amorzinho!
— Você ainda me mata! — Respondi, sorrindo. — Posso saber o que é?
— Surpresa. — Respondeu ele, misteriosamente.
Mas antes que pudesse insistir mais no assunto, fomos tirados do nosso momento quando vovô Arthur, papai e tio Harry chamaram Scorpius para ver algumas coleções de baseball de infância, me dando alguns minutos com Albus, que já estava preparado sair correndo.
— Eu te mato. — Disse, encostando ao seu lado.
— Você jamais traria alguém pelo qual não estivesse interessada, Rose. Eu te fiz um favor. — Respondeu ele, simplesmente. — E, além do mais, todos adoraram Scorpius.
— E se eu não adorar no futuro?
— Você adora agora, dá pra ver nos seus olhos. Ninguém sabe sobre o futuro. Se arrisque uma vez. É Natal!
E, como se estivessem sincronizados com Albus, tio Fred e tio George chamaram todos para o lado de fora para ver os fogos, pois faltava alguns minutos apenas para a meia-noite.
— Quando você disse que sua família era grande, eu não sabia que ela ocupava meia Londres. — Brincou Scorpius, atrás de mim.
— Os cabelos ruivos se multiplicam com facilidade! — Brinquei e ele riu.
— Dez … Nove …- Começaram a contagem regressiva.
— Sabe o que eu me dei conta? — Scorpius perguntou.
— Oito… Sete...
— O que? — Perguntei.
— Seis… Cinco...
— Que eu não posso mentir para a sua família. — Respondeu ele, me assustando.
— Quatro… Três…
— Se nosso primeiro beijo foi debaixo de um visco… — Começou ele.
— Dois… Um…
— Temos que garantir que seja verdade. — Disse Scorpius, olhando para cima e me fazendo olhar também. Estávamos parados debaixo do visco de Natal da varanda.
— Feliz Natal!! — Todos disseram e, pelo canto do olho, pude ver Hugo se ajoelhando em frente à Lysander.
Mas aquele era o meu momento. Para mim e Scorpius, aquele era o nosso momento.
Ele se aproximou de mim, segurando minha cintura delicadamente e tomando meus lábios para si, carinhoso, gentil, único.
Sim, era Natal. Sim, eu havia levado alguém para casa. E sim, Albus tinha raz: Eu estava me arriscando, não sabia o que seria do futuro, mas realmente valia à pena sair da zona de conforto para viver algo novo.
Notas finais
Fiz com carinho, mudei de ideia dez milhões de vezes mas, no fim, um clichê é sempre um clichê para o meu pobre coração romântico.
Espero que compartilhe desse momento.
Feliz Natal! ♥
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