Mistakes
6 Capítulo 05 ― Somebody That I Used To Know
Notas iniciais
Mistakes
Autora: Iamela Freitas
― Capítulo 05: Somebody That I Used To Know ―
― Anos atrás ―
Percy voltou ao hospital à noite acompanhado por sua mãe. Ocupou a cadeira ao lado de Nico, que batia o pé no chão, impaciente por notícias. Não demorou para Bianca se reunir a eles.
― E então? ― Nico perguntou assim que a irmã se aproximou.
― Estão levando ele pro quarto, mas ele ainda não acordou. ― Ela disse com um sorriso discreto. ― O quadro é estável. ― Os garotos deixaram um suspiro de alívio escapar.
― Ei ― Percy lembrou de repente. ― Cadê o Leo?
― Ele tá lá fora, esperando a Piper. ― Bianca respondeu, se sentando ao lado de Nico. ― Ela estava por perto e resolveu passar aqui antes de ir pra casa, parecia tão preocupada ao telefone...
Percy olhou discretamente para o amigo sentado ao seu lado, mas o di Ângelo apenas sacudiu a cabeça negativamente de um modo sutil, olhando fixamente para o teto, então ele resolveu deixar pra lá.
― Thalia chega de madrugada, não é? ― Nico perguntou e Bianca assentiu. Estava prestes a falar alguma coisa, mas foi interrompida pela chegada de Leo e Piper, que trazia os olhos um pouco inchados. Percy sorriu de forma solidária pra ela, que correspondeu timidamente.
Nico verificou o relógio e esfregou um olho.
― Vamos, vamos pra casa, Nico, você precisa comer e dormir. ― Bianca intimou, não deixando margem para discussão. ― Leo, Piper, posso dar carona pra vocês.
― Eu vou ficar mais um pouco, Bianca, Silena disse que ia me encontrar aqui. ― Piper sorriu, já se sentando ao lado de Percy.
Bianca já abria a boca para argumentar, mas Percy a interrompeu.
― Qualquer coisa eu levo a Pips pra casa, eu vou ficar mais um tempo, ver se a minha mãe não vai precisar de nada, ela vai passar a noite aqui.
A mais velha do grupo exibiu uma expressão contrariada, mas aquiesceu. Leo lançou um último sorriso cansado para Piper antes de seguir Bianca. Nico ainda hesitou, mas também se foi após o chamado insistente da irmã mais velha.
― Ele realmente está bem, Percy? ― Piper perguntou depois de alguns minutos em silêncio. Era evidente sua preocupação, e ele não pode evitar sentir um pouco de pena.
― Jason é cabeça dura, não é uma batida dessas que vai quebrar aquele crânio. ― Disse por fim, com um sorriso. ― É mais fácil Thalia mata-lo quando ela chegar.
― Thalia?
― Não te disseram? Thalia tá voltando por causa do acidente.
― Oh meu Deus, Annabeth deve tá pirando! ― Piper se levantou, como se fosse correr até a casa da amiga, mas parou. ― É meio egoísta da minha parte tá preocupada com a Annabeth enquanto Thalia só está voltando por causa do irmão hospitalizado?
Percy riu.
― Não, está tudo bem. Na verdade, eu também estava pensando nisso. Eu gosto da Thalia, mas não quero que Annabeth deixe de sair com a gente. É como se eu tivesse que escolher entre uma das duas.
― Percy... ― A garota hesitou por um instante, e isso o fez olhar de novo pra ela. ― Você gosta da Annabeth?
Ele arregalou os olhos.
― Que? Não! ― Atropelava as próprias palavras. ― Quero dizer, a Annabeth é linda, é esperta, gosta de baseball e dos Yankees e é super legal, mas... quero dizer... ela tem namorado, e gosta muito dele, embora esse idiota não mereça, e tipo, eu não vou me meter e nem correr o risco de magoar ela ou algo do tipo e... Ah, qual é, eu conheço a Annabeth a tão pouco tempo!
― Você definitivamente tem uma queda por ela. ― Piper enfatizou, e não deixou que Percy a contradissesse. ― É só uma paixonite, Percy, não precisa arrancar os cabelos por isso, não tem nada de errado.
― Não tem nada de errado simplesmente porque não tem nada.
A garota apenas revirou os olhos em resposta.
― Piper, por que resolveu ficar? Sério, o Jason está bem e tipo... de qualquer maneira não é como se a gente pudesse fazer alguma coisa. Temos que confiar nos médicos e tal. ― Percy perguntou meio envergonhado.
― Eu... gosto dele. ― Piper sorriu discretamente. ― Percy, posso perguntar uma coisa? O que o Jason tem com a Reyna? Sério, pode responder a verdade, sem medo de me magoar ou algo do tipo.
― Eles namoraram por uns dois meses. ― Foi a resposta depois uma pausa. ― E quando terminaram, foi uma briga feia mesmo. Até levei um susto quando ele me disse que a Reyna ia com a gente pro jogo, mas ele me garantiu que não tinha voltado com ela, só que eles tinham feito as pazes.
― Ah. ― Foi a única reação da garota, que cruzou os braços e permaneceu um tempo em silêncio. ― Você acha que eu tenho chance com ele?
― Acho que você tem que perguntar isso pra ele. ― Respondeu incomodado, querendo mudar de assunto. ― Olha, você parece ser uma pessoa legal, então não fica esperando muito pelo Jason, tá? Eu não posso saber o que se passa na cabeça dele, mas... quando ele quer alguma coisa, ele teima e vai atrás, Pips.
Piper assentiu com pesar.
― Obrigada, Percy. Sabe, eu estou começando a torcer pra você e a Annabeth ficarem juntos.
― Você cismou com isso, não foi? ― Ele olhou para o outro lado para disfarçar o rosto vermelho.
–x-
Thalia chegou em Nova York um pouco depois das cinco da manhã, foi direto para o hospital e não saiu de perto do irmão nem por um minuto. Sally, cansada, só ficou o suficiente para explicar tudo e foi pra casa dormir um pouco. A garota estava agora sentada na cadeira ao lado da cama hospitalar quando ele começou a acordar lentamente.
― Jason? ― Chamou baixinho, se levantando e se debruçando sobre a cama.
Ele demorou alguns minutos para ficar totalmente desperto, e nesse meio tempo uma enfermeira entrou para verificar seu estado e prometeu que o médico estaria ali em breve. Quando ela se retirou do quarto, o garoto finalmente focalizou a irmã.
― Thalia? ― Perguntou com a voz um pouco enrolada. ― O que está fazendo aqui?
― Vim ensinar meu irmão idiota a atravessar a rua. ― Thalia deu bronca, mas o tom era aliviado.
― Estraguei sua viagem, não foi?
Thalia não era conhecida por ser carinhosa, e por isso Jason se surpreendeu quando ela lhe deu um beijo na testa.
― Não, eu já estava querendo voltar, eu sei que você não vive sem mim.
― Eu já cresci, Thalia. Não precisa mais ficar se preocupando tanto.
― Já percebeu onde nós estamos e por que?
― Ah, cala a boca.
–x-
Annabeth estava em uma batalha mental. Não fazia ideia de como contar sobre a volta de Thalia para Luke, mas sabia que tinha ser ela a dizer. Queria ver com seus próprios olhos a reação dele, saber qual seria a primeira coisa que ele diria. E lá estava ele, sentado na sua cozinha, comendo um lanche reforçado antes de ir estudar, falando sobre alguma coisa que ela não conseguia prestar atenção.
― Ei, tá tudo bem? ― Ela percebeu que Luke sacudia seu braço e olhava preocupado pra ela.
― Sim, está. ― Hesitou. ― Estou preocupada com Jason. Ele foi atropelado ontem, foi hospitalizado e tudo.
― Ele está muito mal?
― Parece que não, mas vou saber direito quando eu der uma passada lá mais tarde. ― Deu uma pausa calculada. ― A essa altura Thalia já deve ter chegado.
Luke imediatamente soltou o braço de Annabeth, pegou o copo de suco e bebeu um pouco, tendo assim uma desculpa para não responder imediatamente.
― Então ela está vindo? ― Disse por fim, sem olhar pra namorada.
― É, está.
Os dois não voltaram a se falar até o momento em que Luke disse que ia estudar na casa de Ethan. Ele se despediu a beijando no rosto.
–x-
Nico chegou no hospital logo de manhã cedo, tinha saído de casa antes de Bianca acordar e sabia que levaria uma bronca. Entrou no quarto de Jason e encontrou Thalia quase caindo de sono em uma cadeira próxima a cama.
― Thalia. ― Chamou tocando no ombro dela.
― Nico? ― Thalia se virou surpresa pra ele, mas sorriu discretamente. Nenhum dos dois gostava de muito drama, então o abraço de boas vindas não existiu, não sentiam necessidade. ― Não esperava ninguém tão cedo por aqui.
― Não quer ir dormir um pouco? Bianca ou Percy podem vir aqui pegar você e te levar em casa.
― Eu dormir um pouco no avião, só preciso esticar as pernas e tomar café. Você fica aqui com ele? ― Nico apenas assentiu como resposta. ― Ele acorda praticamente de duas em duas horas, então se ele acordar é só chamar a enfermeira, ok?
Nico assentiu mais uma vez e quando Thalia saiu, ocupou a cadeira ao lado da cama. Os minutos passavam e o garoto ficou quieto ali, remoendo a sua culpa. Lembrava do momento que lançou o frisbee longe demais, e que isso provocara o acidente. Tinha sido incrivelmente estúpido e agora Jason estava internado. Estava tão imerso em seus pensamentos que nem percebeu que estava sendo observado até que ouviu seu nome.
― Nico... ― Era Jason chamando em um sussurro.
Ele apenas agitou a cabeça negativamente e sem perceber já estava engolindo o choro. O que Nico odiava mais que tudo era chorar, seja por qualquer motivo.
― Nico, não me faça levantar. Não foi culpa sua. ― Jason continuava, com a voz arrastada. ― Você tem que parar de se culpar por tudo. O acidente nem foi muito sério...
― Você poderia ter tido um traumatismo craniano, Jason! ― Nico retrucou irritado.
― Mas não tive. A prova é que estou aqui falando com você.
― Mas a culpa ainda é minha.
Nico ouviu o suspiro irritado de Jason, mas ainda assim, não ousou encará-lo. Porém, pela visão periférica, viu sua expressão triste e preocupada.
― Desculpe.
Jason não respondeu. Apenas esticou seu braço com um pouco de esforço até segurar e apertar a mão do primo, que correspondeu ao aperto.
–x-
Luke, depois de algumas ligações para conhecidos em comum, acabou por descobrir qual era o hospital onde Jason estava. Sentia-se culpado por Annabeth, mas ele precisava falar com Thalia. Nem tinha certeza se ela estava mesmo ali, mas precisava tentar.
Procurava por ela na sala de espera e recepção, não querendo ir até o quarto de Jason. A conversa prometia ser difícil e ele não queria perturbar alguém hospitalizado. Já estava quase desistindo, até que quando saiu da cafeteria, a viu andando na direção oposta. Luke não ia admitir, mas tinha imaginado o reencontro dos dois algumas vezes, e em todas, ela parecia ao menos um pouco culpada. E em nenhuma ela sorria amigavelmente, como ela estava fazendo agora, ao perceber sua presença.
― Thalia...
― Ei, Luke. Como vão as coisas? ― Ela se aproximou.
― Como assim, como vão as coisas? ― Perguntou incrédulo, se aproximando da garota, que olhava pra ele confusa. ― Você some esse tempo todo e é só isso que você tem a dizer?
― E eu deveria... dizer o que? ― Parecia genuinamente confusa.
― Thalia, um dia estava tudo bem entre a gente e no outro você chega dizendo que ia pra Londres e que era melhor a gente terminar!
― Ah, qual é, Luke, não banque o rei do drama, tá? Eu deveria esperar uma crise nossa pra fazer qualquer coisa? E era você que vivia dizendo que não acreditava em relacionamentos a distância. Achei que era o que você queria. ― Retrucou de braços cruzados, sem se alterar. ― Eu não ia me impedir de realizar meus projetos por causa de ninguém. Eu te dei a escolha, você que preferiu terminar por que não confiava em mim e nem tente negar!
― Você decidiu ir pra outro país sem nem perguntar o que eu pensava disso! Só deu a notícia e perguntou se deveríamos tentar manter o relacionamento a distância ou não!
― Luke, eu gostava muito de você, de verdade, e eu não queria terminar, mas... desistir de qualquer coisa por um namorado é coisa de gente romântica que não pensa no futuro, e eu não sou assim.
Ele colocou as mãos nos bolsos e olhou rancoroso para a garota.
― Pelo visto você já seguiu em frente. Aposto que até deixou namorado em Londres.
― Luke, isso não te interessa, mas não, não tem namorado nenhum, mas sim, eu saudavelmente, como qualquer pessoa que termina um namoro, fui seguindo em frente. Você também tem que aprender a se desapegar.
― Eu ainda estou apaixonado por você e você sabe disso!
Thalia estava prestes a falar alguma coisa, mas alguém atrás de Luke chamou sua atenção. Deixou um sorriso surgir em sua face enquanto chamava:
― Annabeth?
Luke arregalou os olhos e se virou para a namorada, que se aproximou com um semblante resignado.
― Eu sempre soube, Luke. ― Annabeth disse com um sorriso triste. ― No fundo eu sempre soube. Você não precisava ter feito tudo isso, sabia? Eu quis uma chance com você, mas eu não estava implorando por isso. Se você tivesse sido honesto comigo desde o início, eu teria entendido.
― Eu não queria te magoar, Annie.
― Então por que mentiu pra mim? ― Ela se exasperou. ― Você sempre ficava tão distante de mim, e eu ficava imaginando se tinha feito algo errado. Isso cansa, Luke.
― Aqui não é lugar pra falarmos sobre isso. Vamos pra outro lugar, tá?
― Eu acho que eu perdi alguma coisa. ― Thalia se intrometeu. ― Vocês estão saindo agora?
Annabeth olhou para Luke e ele percebeu que deveria dizer alguma coisa. Era o mínimo que podia fazer.
― Annabeth e eu estamos namorando. ― Ele tentou dizer em um tom neutro, mas tinha quase certeza que parecera muito nervoso.
― Quando você ficou tão idiota, Luke? ― Thalia perguntou em tom de censura. ― Você ao menos pensou na Annie antes de vir aqui fazer essa cena ridícula?
― Não aja como se você não tivesse culpa! ― Annabeth retrucou irritada.
― O que foi que eu fiz? ― A Grace estava genuinamente confusa e surpresa.
― Luke nunca parou de pensar em você nem por um minuto, quer que eu fique bem com isso?
― E que culpa eu tenho? Eu não controlo os pensamentos de ninguém!
― Se você tivesse terminado com ele direito...
― Como é que se termina com alguém direito?
― ...ele não teria ficado com essas dúvidas na cabeça!
― Ei, não coloque a culpa do fracasso do seu namoro em cima de mim! Qual é, cresce! Eu voltei porque meu irmão precisa de mim. E mesmo se não fosse por isso, não tenho a menor intenção de voltar com o Luke. ― Thalia disse com certa raiva. ― Se você é insegura, lide com isso sozinha, não coloque a culpa em mim e nem em ninguém! ― Se virou para Luke. ― É melhor não aparecer na minha frente por um tempo, tipo, pra sempre. E vê se para de ser imbecil e enxerga o quanto você magoou a Annie. ― E saiu rumo aos elevadores pisando duro.
Annabeth a seguiu com o olhar, tentando conter a raiva. Sentiu Luke tocar seu ombro e repeliu o toque com fúria.
― Chega, pra mim este é o ponto final. ― Sua mágoa era evidente. ― Eu me esforcei ao máximo, Luke! Todo mundo viu. Minhas amigas nem sabem por que eu ainda insistia, elas viram desde o começo que não ia dar certo, mas eu fui teimosa. Agora chega, não é? E eu estou com tanta raiva que não quero ver você tão cedo! Agora somos só conhecidos, nem amigos somos mais.
― Annabeth, se você me deixar explicar...
― Explicar o que? Eu já fui compreensiva até demais! Adeus, Luke!
Ela nem esperou para ver a reação do seu, agora, ex-namorado. Apenas se virou e foi em direção a saída. Olhava para o chão, para que ninguém pudesse notar que ela estava quase chorando. Só não contava esbarrar com alguém. Ergueu a cabeça para poder pedir desculpas, e então se deparou com o rosto surpreso de Percy.
― Annabeth? ― E só então ele percebeu os olhos vermelhos e se alarmou. ― O que aconteceu?
Ela não conseguiu responder. Ao invés disso, aconteceu um rápido entendimento entre os dois, através daquela troca de olhares. Ela viu Percy se acalmar e encará-la de forma solidária e triste, antes de ser abraçada por ele.
― Vai ficar tudo bem. ― Ele sussurrou, acariciando o cabelo loiro. ― Eu vou te tirar daqui, tudo bem?
Annabeth apenas assentiu e devolveu o abraço. Nunca gostara de parecer fraca, seu orgulho nunca permitiu. Porém, só por um momento, resolveu confiar e abaixar a guarda. E ela sabia que estava tudo bem. Era Percy, afinal.
― Dias de hoje ―
Encontrou Audrey sentada no sofá, com os olhos vermelhos e inchados. Percy sorriu sem jeito para sua filha. Tinha esperado quinze anos por aquele momento, e não sabia o que dizer. Se sentou ao lado dela, mas antes que conseguisse pensar como iniciar aquela conversa delicada, o silêncio foi quebrado.
― Mamãe me contou. ― Ela disse de repente, cruzando os braços. ― Quando você estava aqui, por que não me disse?
― Não queria que achasse que estou tentando jogar você contra sua mãe. E também, um cara aparecendo do nada dizendo que é seu pai... Se você tiver herdado o temperamento de Annabeth, o mínimo que aconteceria é você chamar a polícia.
Audrey soltou uma risada curta, mas logo voltou a ficar séria.
― Eu não sei o que dizer. ― Confessou. ― Nunca pensei que algo assim fosse acontecer. Quero dizer... teve uma época que eu desconfiei, já que só eu tenho olhos verdes, mas mamãe disse que eu tinha puxado ao meu avô que eu não conhecia. Eu acreditei e parei de perguntar, já que ela nunca parecia feliz falando do resto da família.
― Annabeth sempre tem um plano pra tudo, afinal. ― Percy ergueu a mão para fazer um carinho no rosto de Audrey, mas desistiu. ― Eu também não sei o que dizer agora. Eu tenho tanto pra te perguntar, sobre como você cresceu, sobre como você é, o que você quer... e não sei o que te perguntar primeiro. Só tem uma coisa que agora me vem a mente. Sabe, Audrey, quando a sua mãe me contou que estava grávida, eu fiquei em choque. Estou falando sério, cogitaram me levar pra um hospital. ― Os dois riram brevemente. ― Mas quando a ficha caiu, eu... só sabia que eu queria. Não tinha ideia se seria um bom pai, ou se ia conseguir estar pronto pra isso naqueles meses que faltavam pra você nascer. Mas eu queria você, de verdade.
Audrey assentiu, os olhos marejando outra vez, e deu um sorriso tímido.
― Como convenceu sua mãe a deixar você fazer isso? ― Perguntou fazendo um carinho no cabelo azul dela.
― Não convenci. Ela quase enfartou quando me viu assim. ― Riu junto com o pai. ― Fiz isso pra não ter que me mudar de novo. Todo ano nos mudávamos pra uma cidade diferente, eu não aguentava mais. ― Fez uma pequena pausa. ― Onde você mora?
― Estou de mudança pra Nova York. Estava morando em Atlanta, mas agora que eu sei que você está aqui... A maior parte da família está aqui, aliás.
― Sério? ― Audrey pareceu genuinamente surpresa. ― Eu tenho uma família inteira em Nova York? Tipo, eu já sabia que tinha mãe, descobri agora o pai, e tem mais gente?
Percy riu e se afastou para olhar o rosto estupefato da filha.
― Minha mãe e alguns dos meus primos moram aqui. Já o pai da sua mãe, junto com a madrasta e irmãos dela se mudaram a pouco tempo pra São Francisco.
― Eu morei em São Francisco! Duas vezes, uma quando eu tinha quatro anos e outra aos onze. ― Dizia enquanto os dois se sentavam no sofá.
― Onde você nasceu?
― Los Angeles. Ficamos uns anos lá enquanto... Luke e mamãe se formavam na Universidade.― Tinha se controlado para não chamar Luke de pai na frente de Percy e ele sabia disso, mas não comentou. ― Depois São Francisco, ficamos por um ano até que... Luke conseguiu um emprego em Toronto. Foi lá que eu aprendi a patinar no gelo. ― Os olhos dela brilharam. ― Espera aí, vou pegar uma coisa no meu quarto!
Levantou-se apressada e correu para o quarto, enquanto Percy a seguia com o olhar, surpreso. Ela voltou com um álbum azul-claro e uma medalha.
― Ganhei essa aos sete anos. ― Disse exibindo a medalha. ― É só o terceiro lugar, mas...
― Só? ― Percy a interrompeu. ― Eu nem sei colocar patins e descubro que minha filha é uma patinadora profissional! ― Os dois riram.
― Aqui, estou te dando isso de presente. ― Ela entregou o álbum. ― Tem fotos principalmente das minhas apresentações durante a infância. Quando voltei para os Estados Unidos, foi difícil manter um bom ritmo de treinamento, com a minha mãe me arrastando pra todo lado, sem falar que ela cismou em voltar pra Califórnia, lugar onde o verão é totalmente superestimado.
― Você prefere o inverno, então?
― Lagos congelados é igual a local de treinamento grátis. ― Sorriu travessamente, mas o sorriso sumiu lentamente. ― Eu não gostei de voltar. Eles estavam brigando o tempo todo, minha mãe não gostava de ser praticamente sustentada, ela não tinha um bom emprego lá. Então quando conseguiu um emprego em São Francisco, nós voltamos. Só eu e ela, ele fica indo e vindo de Toronto. Mamãe ficava se mudando com a desculpa de acompanhar os prédios que ela desenha serem construídos. Conheço a maior parte das capitais do país, eu acho.
― Eu não queria que você tivesse passado por isso.
Audrey deu de ombros.
― Você não podia fazer nada. Nem sabia onde eu estava, e eu nem sabia de você. ― A voz dela começou a ficar embargada novamente. ― Por que ela fez isso?
― Por anos eu tentei entender sua mãe, mas nunca consegui. Então, eu comecei a me concentrar em achar você. ― Encarou os olhos verdes tão semelhantes aos dele próprio. ― Eu prometo a você, que vamos achar as respostas que você quer, tudo bem?
Audrey assentiu, antes de perguntar:
― Você odeia a minha mãe?
Percy foi pego de surpresa e demorou muito a responder.
― Eu não sei. ― Foi o que disse por fim. ― Mas acho que estou tentando não odiar.
― Olha, Percy, eu...
― Olha, eu não estou pedindo pra você ficar com raiva da sua mãe. ― A interrompeu com um tom urgente. ― Não estou pedindo pra você parar de falar ou gostar do Luke, ou mesmo chama-lo de pai, mas eu realmente quero participar da sua vida. ― Sorriu sem jeito, sentindo os olhos encherem de lágrimas. ― Sei que você só descobriu minha existência hoje, eu sei que é complicado pra você e vou tentar ao máximo não deixar ainda mais difícil. Eu sei de você a muito tempo, e eu amo você. Então, por favor, será que você pode me deixar te dar um abraço?
Audrey não conseguiu dizer nada. Apenas abraçou seu recém-descoberto pai. Estava confusa e se sentindo traída pela mãe. Apenas queria um pouco de segurança naquele momento.
― Eu vou cuidar de você a partir de agora. ― Percy disse em um tom baixo, e beijou a testa de Audrey sem deixar de abraça-la. ― Eu nunca vou me separar de você de novo.
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