Mistake
2 Minha amiga morte.
Notas iniciais

O relógio marcava meia noite em ponto, era uma noite fria, a janela do quarto de Timothy estava aberta, fazendo com que aquela brisa gelada batesse em seu rosto. Ele queria dormir, mas não conseguia, era dia 20 de setembro, quando o sol nascesse completaria seus dezessete anos, então queria descansar para não dormir na noite de seu aniversário, estava com medo, se Sofia fosse real provavelmente teria um ataque, ou se mataria, qualquer coisa para ele seria melhor do que ficar ao lado dela.
Timothy estava sentado em sua cama abraçando os joelhos, olhava o céu escuro por sua janela e depois olhava para o canto mais escuro de seu quarto, tinha certeza de que havia alguém ali, um homem todo de preto. Tudo o que conseguia ver era a capa que o homem usava, na cabeça dele era a morte, esperando a chegada de Sofia, esperando a sua hora.
Fechou a janela devagar, com medo de que aquele homem pudesse sair dali. Colocou devagar um de seus pés no chão, descalço saiu de fininho do quarto sem tirar os olhos do homem, estava com fome, ou queria apenas comer. Timothy comia muito, muitas das vezes sem estar com fome, nem mesmo ele compreende o por quê. Sua doença faz com que não ligasse para sua aparência, vivia com os cabelos negros despenteados, sempre usando aquele pijama listrado em azul e branco, algumas vezes não tomava banho, apenas não via necessidade, então fedia.
Quando abriu a geladeira se agachou tapando os ouvidos, ouvia gritos, ruídos e choros. Tapava os ouvidos na esperança de que tudo aquilo parasse, quando as vozes pararam ele começou a chorar, se levantou novamente pegando algumas coisas para comer. Voltou para o quarto, comeu tudo em cima da sua cama, o homem que antes estava ali agora havia desaparecido.
Depois de comer decidiu tentar dormir novamente, fechou os olhos respirando fundo. Tentava ignorar a sensação de ser observado. Ouviu alguém bater devagar na porta do seu quarto, arregalou os olhos, virou devagar o pescoço e ficou encarando a porta por um tempo, seus batimentos cardíacos estavam acelerados, seus olhos pareciam que iam transbordar. Sentou na cama novamente abraçando os joelhos, depois que tomou um pouco de coragem se levantou.
“Filho… sou eu, Daniel, seu pai.” Quando ouviu a voz dele sentiu um alívio, então andou calmamente até a porta, mas agora ela estava sendo barrada por um gato preto gigante, ele não tinha o olho esquerdo e parecia ser feito inteiramente de carvão.
“Por favor saia, eu preciso abrir a porta para meu pai.” Ele encarou o gato, o animal apenas inclinou o pescoço para o lado e não se moveu. Daniel escutou e apenas ficou esperando, sabia que seu filho estava vendo algo atrapalhar sua passagem, apenas queria ver como ele estava, algumas noites acordava para dar os medicamentos que Timothy precisava para dormir.
“Por favor, eu preciso que saia, prometo lhe dar um peixe depois.” Ele insistia, nem tudo que via lhe causava medo, aliás, quando eram semelhante a animais os seres pareciam ser irracionais, então não havia o que temer. Depois de cinco minutos o gato saiu, sorridente Timothy abriu a porta, mas deu um grito ao ver o rosto de seu pai, aos seus olhos era um monstro horrendo, com dois chifres semelhantes aos de um fauno, o rosto todo deformado, como se estivesse derretendo. Sem pensar duas vezes agarrou o pescoço do “monstro” com a intenção de matá-lo.
Não era a primeira vez que isso acontecia, outras vezes ele atacou os pais, ou chorou ao ver o rosto deles, no momento as vozes que ecoavam em sua mente pediam para que matasse o monstro, para que ele libertasse seu pai desse sofrimento. No fundo Timothy sabia que tudo aquilo era coisa de sua mente, mas não conseguia parar, ele não tinha o controle de si mesmo.
Com muito custo Daniel conseguiu afasta-lo, os dedos estavam marcados em seu pescoço, seu rosto estava vermelho, estava recuperando o fôlego. Ele se afastou devagar do filho, apenas o observando chorar, quando estava próximo do quarto olhou com pena para ele, não fazia ideia do quanto Timothy se sentia um monstro quando o olhavam assim. No fundo, ele pensava que era uma aberração, odiava ser tratado como pobre coitado, mesmo sabendo que era um.
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No fim das contas, ele conseguiu descansar um pouco na madrugada. Acordou cedo e foi tomar o café, sentava sozinho na mesa, tinha medo de que pudesse fazer algo que não quisesse com seus pais. Timothy sabia que eles o amavam, mas também sabia que sofriam por ter um filho como ele. Hoje ele apenas os cumprimentou com um bom dia, por mais que quisesse a sua relação com eles jamais seria boa.
Hoje era dia de ir ao psiquiatra, era o único dia em que ele era um pouco vaidoso, tomou banho e vestiu alguma roupa, mas o cabelo ainda deixou bagunçado, a razão pela qual ele sentia algum ânimo de fazer isso era que adorava o Dr. Rubens. Eles conversavam de igual para igual, não olhava para Timothy como se fosse uma aberração. Pode-se dizer que era o único amigo que ele tinha, já que não ia para a escola, ou saia de casa.
No carro Timothy fazia o possível para não surtar, sabia que poderia fazer algo com sua mãe que fizesse com que ela perdesse o controle do carro. No caminho a morte estava ao seu lado, o homem da noite passada estava no banco ao seu lado, quando tomou coragem olhou para o rosto do homem, era um crânio, apenas o osso de um crânio, ele já não tinha mais dúvidas de que hoje era seu último dia de vida.
“Eu venho daqui duas horas, não saia antes que eu chegue.” Ele apenas fez um gesto positivo para a mãe ao descer do carro, o homem desapareceu novamente, deixando apenas uma pena preta no banco do carro. Rubens estava na porta o esperando, acenou para ele com um sorriso, Timothy se aproximou devagar, havia um animal assustador o observando.
–Qual o problema? Tem alguém aqui? -Rubens olhava ao seu redor.
–Sim, aquele lobo que se parece com um urso. -Ele apontou para o nada.
–É um animal assustador, ele te dá medo? -O garoto apenas fez um gesto positivo com a cabeça.
Rubens fingia ver algumas coisas que Timothy via, assim ele se sentiria mais normal perto dele e conseguiria se abrir com mais facilidade, o consultório era na casa dele, as consultas eram feitas na sala, o lugar era luxuoso, ele herdou a casa dos avós, que possuíam uma boa quantia de dinheiro.
–O que tem para me contar hoje? -Rubens o encarou.
–Eu vou morrer, a morte está me perseguindo, Sofia está vindo. -Os olhos dele se encheram de água.
–Não chore, apenas me conte melhor a situação, como é a morte?
–Exatamente como nos filmes, ela é um esqueleto de capa preta, com asas negras.
–Acha que Sofia vai te matar?
–Tenho certeza, ela já me torturou uma vez, por que não me mataria agora?
–Mas não é apenas quando você nega brincar com ela?
–Sim, esse é o problema… eu não quero brincar com ela, eu já tenho dezessete anos, quero fazer coisas legais.
–Pensa em garotas Timothy? -Ele acende um cigarro.
–As vezes, mas eu não sirvo para conhecer pessoas novas, você sabe… eu posso atacar elas.
–E se ela concordasse em fazer coisas divertidas com você?
–Talvez poderíamos ser amigos, igual quando eu tinha sete e dez anos.
–Converse com ela então Timothy, não há por que temê-la. Sabemos que ela não existe, você criou ela, você pode controlá-la.
–Não é tão simples, nem sempre temos controle sobre nossos sonhos, no meu caso, eu não tenho controle nem de mim mesmo.
–Anda tomando os remédios?
–Sim, mas ontem quase matei meu pai.
–Por que?
–Era um monstro, não meu pai, ele tinha chifres e seu rosto estava deformado.
–Então como sabia que era seu pai?
–A voz e corpo pertenciam ao meu pai, mas o rosto não, ele estava possuído.
–Timothy… Se lembra como você descreveu Sofia na última vez que veio aqui?
–Eu disse que ela era o demônio.
–Mas você é ateu, não é?
–Sim, eu não acredito que Deus ou o diabo exista, mas… relacionei ela ao demônio por ser ruim.
–Eu sou bem religioso, e faz sentido sua relação, você disse que apesar da aparência dela, ela parece ser uma pessoa boa, mas na verdade não é. Dizem que o demônio é um ser belo, afinal já foi um anjo dos céus. -Ele colocou o cigarro no cinzeiro.
–Eu gosto de histórias de ficção, com todo respeito, claro. Mas… se Deus existe Doutor, tenho certeza de que me abandonou.
O psiquiatra permaneceu em silêncio por alguns segundos, depois mudou de assunto.
–Bom Timothy, vamos fazer algo, o que quer fazer hoje?
–Não quero desenhar, nem jogar, podemos apenas conversar?
–Ah sim, hoje é seu aniversário, queria algum presente?
–Ser normal por um dia, parar de ver coisas estranhas como essa. -Timothy apontou a poltrona do seu lado.
–O que é isso exatamente?
–Não sei dizer também, parece uma mistura de raposa com gato e rinoceronte, mas ele é todo feito de tronco de árvore.
–Realmente é meio bizarro. -Ele riu.
Não demorou muito, depois de cinco minutos de conversa Timothy estava gritando, rindo e chorando, a mudança de humor era surpreendente, ele começou a surtar depois de ter jurado ver Sofia ao lado de Rubens. Ele fez de tudo para acalmá-lo, mas aquilo realmente mexeu com o psicológico dele. Depois de meia hora ele se acalmou, era a hora dele ir para casa, quando abriu a porta Timothy viu a morte no carro, ela mexia seu braço esquelético dando oi, ela apareceu mais de uma vez, então o medo já não era tão grande como da primeira vez.
Cada vez mais que ele via o homem de capa preta jurava estar mais próximo de seu fim, no caminho foi tapando os ouvidos e gritando, os ruídos em sua cabeça estavam muito altos. Agora a morte não saia de seu lado, foi assim até mais ou menos cinco horas da tarde. Sofia não apareceu novamente, isso o deixou um pouco aliviado.
Durante a tarde ficou desenhando e comendo, ele comia tanto que estava acima do peso, ele desenhava bem, mas a maioria dos desenhos eram coisas que se passavam em sua mente, ou seja, eram bizarras e assustadoras. A morte foi o que mais desenhou, tentou retratar ela perfeitamente, queria que as pessoas soubessem o quanto o que via era bizarro.
Timothy desenhou até meia-noite e meia, ficou rindo enquanto desenhava, e estava como sempre comendo algo. Agora o que estava lhe assustando não era a morte e sim uma criatura de mais ou menos uns três metros, andava sobre quatro patas, seus olhos eram completamente negros, o corpo parecia ser feito de um tronco de árvore rígido cheio de musgo, tinha dois troncos na cabeça como se fossem chifres, na lateral da cara tinha mais dois pedaços pequenos de tronco, de ambos os lados.
Ele não pretendia dormir, ficaria o máximo de tempo que pudesse sem dormir, estava com medo, não apenas da estranha criatura que o encarava e sim de ver Sofia novamente cara a cara, enquanto desenhava suas pernas tremiam, seus dentes batiam um no outro, tudo isso era medo. Parou de desenhar por alguns segundos para chorar, não sabia o que fazer, não queria morrer, mesmo a vida sendo ruim, mesmo que o mundo fosse cruel Timothy não queria desistir.
Quando olhou para frente viu Sofia, ela estava com a cabeça inclinada para o lado, seu olho vermelho direito estava olhando fixamente para ele. Seu sorriso lhe transmitia medo, era um sorriso largo e cheio de maldade, ela não disse nada, apenas batia os dedos devagar sobre a mesa. Ele queria gritar, mas nada saia da sua boca, a presença dela o deixava tão em choque que nem mesmo se mexer ele conseguia, talvez ele fosse ter uma parada cardíaca, seu coração batia tão forte, ele estava soando frio, essa sensação era agonizante.
–Timothy… Finalmente, eu vim te buscar. -Ela foi em direção a ele, começou a guiá-lo até o quarto, ele não sabia por quê estava se movendo, porquê estava fazendo a vontade dela.
Sofia entrou no espelho do quarto dele, logo em seguida o puxou. Ele viu uma luz branca muito intensa, pensou que ficaria cego, ou que morreria. Mas, quando abriu os olhos estava onde ocorria seus pesadelos, a floresta de Derorrim, estava debaixo de uma pequena árvore, limpou os olhos, será que tinha pegado no sono na mesa e agora estava sonhando novamente?
Respirando fundo começou a se olhar, seu corpo parecia normal agora, não estava acima do peso, passou a mão nos seus cabelos que pareciam cortados, quando passou a mão em seu rosto não sentiu mais as espinhas e sua pele estava limpa, pela primeira vez sentia que estava muito bem naquele lugar.
Quando olhou para cima viu a morte, mas ela não estava lhe dando medo, ela estendeu a mão para ele e ele a pegou.
–Eu morri? — Ele olhou para a morte que agora tinha o rosto de um garoto.
–Não, você está vivo Timothy, este é seu sonho e eu serei seu guia.
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