Mistake
6 Meu demônio.
Notas iniciais
http://36.media.tumblr.com/76b8c6e34552c0ef9d230552105ab0a0/tumblr_np0w6hFrmA1s5slo6o6_1280.jpg (A imagem não estava indo por erro do Nyah, então deixo o link)
Azrael tinha que ir a biblioteca, mas decidiu ver Emily, que ainda estava confinada no interior do castelo. Costumava conversar com ela quando a rainha estava longe, pode-se dizer que eles possuem certa amizade.
— Olá Emily, não se preocupe, não vim te machucar. — Ele tirou as correntes de seus pulsos e tornozelos.
— Ezrael, o que você ganha fazendo isso?
— Isso o que jovenzinha?
— A trazer almas para cá, a fazer as pessoas sofrerem.
— Ganho a confiança de Sofia, isso é gratificante para mim.
— O que fez com que você quisesse ajudá-la?
— Talvez sua falsa gentileza, talvez o quão solitária ela era, eu não sei dizer ao certo.
— Você é estranho… — Emily desviou o olhar.
— Sabe que eu era um morador de rua, certo? Eu era maltratado todos os dias, já me usaram como mercadoria, me venderam como um objeto, fui tratado a vida toda como um estorvo. Sofia era diferente, tinha um carinho grande por mim. No fim eu sabia que ela queria apenas minha alma, mas foi então que eu disse: “Em troca de sua gentileza lhe ofereço meus serviços, farei tudo o que pedir, sem questionar.”
— Você não viveu na atualidade, né? Escravos hoje não é comum ter…
— Nasci a muitos séculos atrás, tanto que não lembro a data certa. Esse mundo faz com que você perca parte da memória do seu passado, você pode saber tudo sobre ele no grande livro da Morte, que fica centralizado na biblioteca.
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro, diga.
— Se você é um humano como eu, como possuí habilidades especiais?
— Não sei te explicar muito bem porque foi obra da Sofia, acredito que ela me deu parte do seu poder.
— Isso faz de você um meio demônio, agora faz sentido.
—Não é atoa que tenho meus olhos negros. — Ele exibiu seus olhos deixando Emily desconfortável.
— Isso é realmente assustador. Eu queria saber sobre meu passado. — Ela mudou de assunto.
— Se quiser posso lhe contar, sei tudo sobre todos daqui, já que fora Sofia, sou o único com acesso à biblioteca.
— Claro, me conte. — Seus olhos brilharam, ela realmente queria entender melhor o motivo de estar em Derrorim.
— Você era amiga de infância de Timothy, ele tinha bastante amigos naquela época, mas… um dia ele trocou todos os amigos que tinha por Sofia. Você ficou chateada, pois ele era o único que falava contigo. Com o tempo sua mãe descobriu que você estava doente, gastou até mesmo o que não podia para te ajudar, mas você ficou em coma. Era para você ter morrido, mas a sua vontade de viver era grandiosa, então Sofia lhe ofereceu a felicidade eterna, um mundo perfeito, onde você estaria com Timothy novamente, mas em troca você teria que se entregar de corpo e alma.
— E eu fiz isso, desde então tenho esperado a chegada dele. Ao ver o quão crescido ele estava, fiquei feliz, mas… saber que ele poderia ter o mesmo fim que eu, cortou meu coração.
— Sofia controlou a vida toda de Timothy, seus sonhos, amizades. Ele não teve sorte, ninguém de Derrorim teve escapatória.
— Mas por que ele? Por que ela não escolhe outra pessoa?
— Algumas pessoas nascem com um demônio designado a cuidar delas, Timothy foi uma delas.
—Sofia então também manipulou minha vida toda? —Ela parecia um tanto surpresa, seus olhos estavam ficando aguados.
—Não, você foi apenas parte de um plano, uma oportunidade. Timothy nasceu com esse destino cruel, tudo o que ele pode fazer é aceitá-lo.
—Mas, estou confusa… Então até mesmo a esquizofrenia do Timothy a causa foi a Sofia?
—Sim, tudo. Afinal, em vez de ganhar um anjo da guarda, ele ganhou um demônio que o guiou para onde bem quisesse.
—Isso é realmente lamentável. —Ela suspirou fundo.
—Não fique triste Emily. Todos desse mundo foram enganados, pensaram ser os primeiros a estarem aqui… mas Sofia sempre existiu, sempre teve almas consigo, até mesmo deve ter tido um servo como eu.
—Azrael, me ajude. Você sabe que ela poderia te substituir, você poderia ser esquecido por ela, se salvarmos Timothy, se mandarmos ela para o inferno…
—Nós iriamos juntos. —Ele interrompeu a olhando seriamente.
—O que? —Agora ela parecia sem reação.
—Entregamos nossa alma a um demônio, entregamos nossa alma ao inferno, jamais conheceremos o paraíso.
—Você tem razão, lutar é inútil…
—Apenas Timothy pode se salvar, se ele disser não, se ele negar Derrorim. Ainda vai viver com a doença, mas ao menos vai ser polpado de toda essa dor e sofrimento que a maioria passa.
—Eu queria poder fazer algo.
—Mas você não pode. Agora volte para seu corpo que daqui dez minutos você verá Timothy, vou preparar um lugar bem divertido para vocês.
Emily sabia que não tinha chances, a alma de Timothy estava perdida. O único que poderia fazer algo seria Azrael, mas jamais ele trairia a rainha. Agora teria que fazer os preparativos para o encontro dos dois.
✺ ✺ ✺
Quem guiou Timothy e Emily para o encontro foi Sofia, ela estava usando um vestido tomara que caia preto, seu cumprimento era grande, chegando até os pés, era bem acinturado, constituído por várias camadas de um tecido meio transparente da mesma cor do vestido, preto. Emily usava um vestido delicado azul bebê de bolinhas brancas, ficava um pouco acima dos joelhos, era rodado, era constituído por três camadas, no final tendo um forro, era um vestido de alcinha, com rendas brancas, no busto tinha um pequeno decote e um laço grande. Ele estava usando uma camiseta de manga longa preta, um colete cinza por cima e uma calça jeans. Sentia-se desconfortável usando esse tipo de roupa, mas admitia que o gosto para roupas de Sofia era refinado.
O lugar onde foram era em uma parte de Derrorim desconhecida pelo casal, parecia uma floresta bonita, onde haviam fadas e seres mágicos encantadores. Haviam flores exóticas, as mesas e cadeiras eram decoradas com rosas das mais diversas cores possíveis, havia um riacho, haviam também muitos vagalumes naquele local. Para Timothy, aquele lugar não era Derrorim, não poderia ser, estava muito alegre para ser o lugar que sempre conheceu.
—Sentem-se, tenham uma conversa agradável. —Sofia sorriu e os deixou a sós.
—Aqui definitivamente não é Derrorim. —Emily observou atentamente o lugar ao seu redor.
—Concordo com você, não há nada sombrio aqui.
—Espero que tenham gostado da decoração. —Azrael aparece com uma roupa de garçom, estava com uma bandeja cheia de bebidas, serviu para Emily um suco e para Timothy vinho.
—Ficou lindo, muito… adorável! Você tem um bom gosto. — Ela sorriu.
—Fico feliz que tenha gostado, fiz especialmente para você. —Azrael retribuiu com outro sorriso.
Timothy não gostou desse “especialmente para você”, o coitado já estava iludido com Emily. Acontece que ela não sente nada mais que uma simples amizade por ele, mas o que Timothy não sabia que na verdade havia transado com Sofia. A única coisa que o manteria naquele mundo seria a doce Emily.
—Desde quando vocês são tão amigos? —Ele desviou o olhar, sua expressão facial demonstrava o quão nervoso havia ficado.
—Sempre fomos amigos, mesmo que ele ajude Sofia… não há motivos para que fique bravo comigo.
—Você não é minha namorada? Não deveria dar bola a outros caras.
—Não seja idiota, somos amigos. —Emily se estressou. Sofia ouviu toda a conversa e parou o tempo.
—Que história é essa de “somos amigos”? —Sofia colocou a mão sobre os ombros de Emily e deu aquele sorriso diabólico.
—Para mim chega, use meu corpo, finja que sou eu. Estou cansada disso, estou cansada de você Sofia.
—Quando ele se tornar rei, substituirei todos dessa merda. —Ela riu.
—Ele não vai se tornar rei, sei que vai me substituir.
—O destino de Timothy não é se apaixonar por você e sim por mim, ou seja, ele vai querer estar ao meu lado, ser meu servo.
—E Azrael? —Nesse exato momento Emily torcia para que ela fosse substituí-lo, assim ela conseguiria a ajuda dele.
—Não te interessa, mas você me deu uma ótima ideia dando um fora no Timothy. —Ela deu uma risada maléfica, se afastando devagar.
Agora ela estralou os dedos, o mundo voltou a mover-se. A expressão predominante no rosto de Timothy agora desesperou Emily, se ele a odiasse, jamais ganharia sua confiança.
—Desculpa Timothy, não foi minha intenção… —Ela ficou de cabeça baixa.
—Desculpa? Você transa comigo e depois me trata assim?!
—Não é isso, Timothy… eu não estou bem hoje, desculpa.
—Esquece também, não quero mais sair com você. —Ele se levantou, a verdade é que estava triste, seu coração havia se partido.
—Você não deveria ter feito isso… —Azrael toca devagar o ombro de Emily.
—O que deveria ter feito? Iludi-lo? Eu não quero isso para mim…
—Você está em Derrorim, Sofia é quem decide tudo.
—Você não ouviu o que ela disse né? Quando ela parou o tempo…
—Eu percebi que ela faria isso então fiz com que não tivesse efeito em mim, se ela me substituir o trato será desfeito. Ela não seria idiota de correr o risco de voltar para o inferno.
—Então você realmente pode mandá-la de volta para lá?
—Posso, mas quero servi-la, não traí-la.
—Onde ela está agora?
—Está indo atrás de Timothy, executar a parte dois do plano. —O sorriso dele pareceu um tanto assustador aos olhos dela.
Timothy estava indo para o início da floresta, desejando que houvesse uma saída, que houvesse um modo de sair daquele mundo e nunca mais voltar.
—Timothy! —Sofia o parou pegando sua mão. —Não se vá, você não precisa dela. Sempre fomos só eu e você, não é? —Ela sorriu, em seguida o deu um abraço gentil.
—Quero acordar, não quero mais ficar em Derrorim. Não quero também voltar para meu mundo, lá escutarei os gritos e choros dela.
—O que posso fazer por você? Quer que ela morra?
—Isso não é necessário, mas quero esquecê-la. —Suas palavras foram ditas com firmeza, era o que Sofia querer ouvir, assim ela mesma poderia fazer com que seu plano desse certo.
—Seu desejo é uma ordem meu rei. —Ela colocou sua mão sobre a cabeça de Timothy. —Até mais.
✺ ✺ ✺
Ele acordou olhando a data no celular, viu que dessa vez havia dormido duas semanas. Levantou um tanto confuso, parte das memórias do seu sonho havia sumido, exatamente, todas as memórias que teve com Emily até agora haviam desaparecido, como se nunca tivessem existido.
Timothy viu Azrael novamente, o observando bem de perto. Já não sentia mais medo, pois sabia que o homem de capa preta não o causaria nenhum mal. Foi devagar até a cozinha comer alguma coisa, os ruídos em sua mente agora soavam mais alto, os gritos pareciam transmitir mais dor. Isso fazia com que lágrimas escorressem em seu rosto.
Depois de comer estranhou o silêncio predominante que sua casa apresentava e foi procurar seus pais, olhou quase todos os cômodos, menos o quarto. Ao chegar no quarto bateu na porta devagar, mas nada disseram. Então chamou por seus pais, mas nada.
Começou a chorar novamente, se sentia sozinho, pensou que seus pais agora o odiassem e simplesmente não queriam mais ver sua cara. Abriu a porta, foi até a cama deles e tirou o cobertor que os cobria por completo, mas teve uma surpresa. Seus pais estavam mortos, ensanguentados, foram brutalmente assassinados. Ao ver todo aquele sangue, começou a se sentir tonto, começou a perceber que sua sanidade estava indo por água abaixo.
Ficou rindo o tempo todo enquanto caminhava até seu banheiro. Começou a encher a banheira de água e ligou o secador, ele pretendia se suicidar. Agora não havia mais motivo para querer continuar vivendo sua realidade, não tinha mais motivos para nada. Assim que a banheira encheu ele deu um sorriso, um sorriso vazio, sem emoções.
—Timothy, não! —Azrael apareceu em sua forma humana. O segurou com força para que não se matasse.
—Me deixe ir Ezrael, me deixe… —Seu olhar parecia morto, ele estava completamente mal.
—Não posso, você não pode se matar. —Ele o jogou no corredor. —Eu sei de tudo, sei o que Sofia quer. Aquela vadia escreve todos os planos dela num livro e eu o achei.
—Se ela é má e quer minha alma, deixe ela levar. Estou pouco me fodendo.
—É muito mais que isso, sei que é estranho, mas eu estou disposto a te salvar. —Azrael curvou-se diante ele.
Timothy estava morto por dentro, as lágrimas não queriam sair, ele estava em choque. Seu mundo tinha acabado, não estava com cabeça para entender a razão pela qual a “morte” o salvaria.
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