Missão Saturno
3 Sky
Notas iniciais
Sky
Jurei para mim mesmo que nunca mais faria aquilo. Entrar no carro de garotas estranhas, sem saber para onde ia. Eu deveria estar completamente insana. Talvez a adrenalina tenha me deixado assim. Estava me sentindo uma tola que deixava os sentimentos e vontade por diversão se sobressaírem, como de costume, mas ignorei toda a aquela situação já que o Noah estava a caminho.
Esperei. Esperei. E esperei mais. Não sabia se ele já estava chegando ou se tinha sequer acertado o caminho que lhe enviei pelo GPS do celular. Ótimo oportunidade para refletir, ou para ensaiar uma coreografia nova, mas acho que não estava com energia o suficiente para a segunda opção.
Olhei ao redor, era um lugar pacato, várias lojas iluminavam a rua naquele horário, me pareceu ser um lugar com movimento quando de dia. Fui andando por aquela avenida até que avistei uma farmácia 24horas, parecia estar vazia, porém aberta. Segui em sua direção. A luz que essa loja emitia era suficiente para cegar qualquer um que estivesse um pouco bêbado e desnorteado, que claramente era o meu caso. Ao entrar fui direto ao caixa verificar se realmente havia alguém ali, então bati em sininho que estava em cima do balcão, soltei no mesmo momento uma risada baixa, aquilo era tão anos 80. Alguns segundos depois, um rapaz sentado em uma cadeira giratória saiu de trás de uma porta que havia ali. Ele estava segurando um prato com tudo o que é tipo de doces, havia bolo de festa de aniversário, brigadeiros, pães com salsicha e carne louca, tanta variedade que me deu um pouco de fome. Ele ainda de boca cheia me perguntou:
— Olá – terminou de mastigar o que estava comendo, limpou a boca e continuou – Desculpa, estava fazendo uma boquinha já ninguém vem aqui a essa hora da noite. Mas, enfim. Quer?
Ele me estendeu a bandeja com comida, não me contive, peguei um pão e dois brigadeiros.
— Muito obrigado! – falei enquanto o analisava. Seus cabelos eram pretos, grande comparado ao cabelo de qualquer outro garoto, mas curto quando comparado com o de uma garota. Ele usava aquela roupa típica de farmacêutico, jaleco e calças jeans pretas. Consegui avistar um crachá. – Sean, certo? Hum, você pode me informar se tem algum ponto de ônibus ou lugar onde possa pegar um taxi por aqui?
Ele olhou para o crachá para garantir que havia algo escrito ali. Olhou de volta para mim e disse:
— Tem um terminal de ônibus a cinco quarteirões daqui. Segue reto a direita, é um lugar amarelo e azul. Mas acho que vai ter que esperar algumas horas até o passar o primeiro ônibus para qualquer lugar.
Olhei em consentimento, só precisava de um ponto de referência para o Noah me encontrar. Agradeci aquele ao Sean e fui em direção ao tal lugar. Era um ótimo momento para colocar a toca que havia na minha jaqueta preta, enfiar as mãos nos bolsos e seguir em frente. Ouvi um ruído atrás de mim, fui obrigada a olhar. Um moço bem arrumado veio andando atrás de mim, sem mala mochila ou nada do tipo. De que buraco aquele cara havia saído?
Ele começou a apressar o passo para me alcançar. Lascou-se, comecei a criar milhares de histórias e lembrar de táticas de luta que aprendi durante a faculdade, não eram muitas e não lembrava direito para o que servia, mas me pareceu útil no momento. Ele encostou a mão no meu ombro e disse:
— Oi, tudo bem? Não se assuste. Eu vi você aqui e queria saber quanto está cobrando? – fiquei pasma no mesmo instante
— Oi? Cobrando para que? – falei com o tom alterado, elevando minha voz
— Ué? Você está andando essa hora na rua, achei que estivesse vendendo uma “noite no paraíso”. Mas me desculpa pelo mal-entendido, mas, já que estamos aqui, gostaria de ir para algum lugar?
— Eu não quero ir a lugar algum, mas já você, poderia ir para o inferno! – Me virei e saí andando. Ele segurou no meu braço direito e me puxou para trás. – Me solta seu imbecil!
— Garotinha levada, tentei ser pacifico com você, te ofereci até dinheiro, mas já que não vem por bem, vem por mal. – ele mudou o tom de voz enquanto falava. Meu tempo era curto e minha reação foi instantânea. Um chute na virilha, foi o que ele levou. O suficiente para fazer ele soltar meu braço e eu sair correndo.
Com os passos largos virei na primeira esquina, dei uma olhada para o lado enquanto virava, ele estava se levantando do chão, pronto para correr atrás de mim. Plano B. Me escondi atrás de uma lata de lixo, se continuasse correndo talvez ele me alcançasse, sabia que minha decisão não era a correta a se fazer, mas estava confiante o suficiente para apostar na minha ideia. Me agachei, olhei ao redor, a tampa de uma lixeira e uns sacos pretos estavam jogados no canto, a segurei com o braço esquerdo, cobrindo o tórax. Ouvi passos e resmungados. Ele parou na minha frente, olhando para a rua.
— Vadia imbecil.
Plano B começou. Peguei o saco de lixo com a mão direita e joguei na cara dele, imediatamente, enquanto ele ainda tentava entender o que estava acontecendo, eu levantei e dei com a tampa de metal na cara dele, o jogando no chão. E de sobremesa, um belo e estrondoso chute nas partes baixas. Ele urrou de dor.
— Vagabunda! – tentou gritar. Infelizmente meu humor já estava dos melhores e voilá, segundo chute com força e vontade, no mesmo local, com a mesma intensidade. Agora ele não tinha mais forças para urrar, apenas para chorar.
— Se mexer com qualquer outra garota de novo, volto e te arranco o pinto. Babaca escroto. – sinto que não deveria ter falado aquilo, mas enfim, meu espirito heroico falou mais alto. Ouvi uma buzina na esquina de onde estava. Noah, nunca senti tanto alívio.
Joguei o que segurava no chão novamente e corri em direção ao carro, que a propósito era meu. Ele abriu a porta e entrei apressadamente.
— Como abriu meu carro, seu marginal? – olhei para o beco de onde havia saído, o cara continuava se esperneando. – Ok, me explica depois, agora corre. VAI!
Não pude perceber por um minuto que a adrenalina estava tomando conta de mim, novamente. Noah não era um motorista tão ruim, ele deveria dirigir de vez em quando, pensei aleatoriamente. O ar que vinha da janela me ajudou a acalmar. Respirei fundo e disse:
— Ok, deixe-me explicar. Estávamos na festa até que vi uma garota muito linda, mas muito linda mesmo, fui falar com ela, nos beijamos um pouquinho e ela me chamou para irmos a algum lugar, porque nessas festas é assim, se há um interesse mútuo e ambas pessoas querem levar para o estágio dois, nós saímos da festa e vamos para a casa de alguém.
— Sei bem como é isso. – falou com um tom de consentimento. Me surpreendi, Noah não é do tipo que tem o hábito de sair, será que estraguei a noite dele com alguém? Enfim, que bom que ele veio me buscar.
— Continuando, ela e uma outra amiga, que apareceu depois, me levaram para um apartamento bonito, em algum lugar por aí. Teria sido uma noite incrível se o apartamento fosse dela. – Noah imediatamente começou a gargalhar. Soltei alguns risos tímidos também, será que era difícil de acreditar? – Mesmo prédio, porta errada. Como alguma pessoa ainda é capaz de dormir de porta aberta? Enfim, a mulher gritou tanto que o porteiro pediu para que as pessoas que não moravam no prédio e estavam devidamente alcoolizadas se retirassem, ou seja, me chutaram de lá. Depois um maldito tentou me levar para algum lugar a força.
Noah olhou perplexo, não por causa da história, mas por causa da história com o homem.
— O que aconteceu Sky? Você correu, certo?
— Sim, mas só depois de ter o impossibilitado de tentar estuprar qualquer mulher novamente.
Finalmente chegamos ao apartamento do Noah. Eu iria passar a noite lá, não estava no clima para voltar a essa hora para a mansão das garotas (fraternidade onde moro). Ele estacionou o carro e subimos.
Estava tão cansada que cheguei a dormir no elevador, quinze andares demoram uma eternidade quando se está cansado. Ao entrar no apartamento lembrei de como aquilo era limpo, organizado e espaçoso.
— Você prefere sofá ou colchão aqui na sala? – falou ele.
— Colchão, por favor. E enquanto arruma as coisas aqui, posso fazer um copo de leite para mim? – perguntei.
— Claro Sky, você já é tecnicamente de casa. – Enquanto dizia isso esboçava um fino sorriso em seu rosto oval. Que ficava muito fofo por sinal.
Assim que tomei meu leite desejei boa noite para ele e deitei. Foi tão espontâneo que nem tive tempo de pensar sobre o próximo dia. Assim que deitei já caí no sono.
Estava no fogão terminando de coar o café quando a porta rangeu, era Noah com o resto do café da manhã, pães, mortadela, mussarela, presunto e um requeijão. “Tão típico e tão gostoso”, pensei. Ele dificilmente saia para comprar algo, mas dizia que gostava, pois, ter que sair da zona de conforto é parte de se sentir vivo. Ele colocou as coisas em cima da mesa e começou a preparar os pães. Enquanto o café esquentava, eu pegava as xícaras e as colocava na mesa. Estava pronto nosso café da manhã. Sentamos e começamos a comer.
— O que pretende fazer hoje? – perguntei.
— Nada. Pensei em um museu ou algo do tipo, e você?
— Vai ter uma festa de Halloween na fraternidade. Beneficente, não se esqueça, vou ajudar com a decoração e as fantasias das meninas. Vamos?
— Pode ser! Pelo menos não corre o risco de você se perder, porque vai estar na própria casa. – falou e em seguida deu uma risada sarcástica.
— Rá rá rá. Muito engraçado. Me prometi que isso nunca ia acontecer de novo. Não sei se vou cumprir, mas eu prometi.
Assim que terminamos o café, peguei meu casaco e as chaves do meu, já me preparando para sair.
— Noah, te vejo mais tarde, e convide quem puder, quando mais pessoas mais dinheiro arrecadamos. – dei um beijo na bochecha dele e segui para o elevador.
Estava chegando em casa quando avistei sete garotas na entrada da garagem começando a decorar o ambiente. Moro em uma fraternidade, com outras onze garotas, desde o segundo ano da faculdade, algumas mudaram, outras entraram, sempre mantendo o espirito de irmandade vivo. Adorava o lugar onde morava, palmeiras dividindo a rua em dois, casas bonitas e grandes, pessoas gentis, não me faltava nada naquele lugar. Ao chegar mais perto, Zoe me viu e disse:
— Você está atrasada garotinha, esse lugar não vai se arrumar sozinho sabia? – disse ela com um sorriso extremamente sarcástico no rosto, que particularmente adorava. Zoe era provavelmente a garota que mais gostava naquela casa, ela era divertida e sempre uma ótima companhia. E sempre me chamava muita atenção com seus olhos verdes em seu corpo negro cheio de curvas. No começo lembro dela usando tranças a maioria do tempo, mas agora seu grande cabelo crespo tomava conta de seu rosto.
— Hey girl, já estou aqui. Como vão as coisas? – perguntei.
— Vai tudo bem. Pelos ingressos que vendemos vem muita gente! – falou animada. — Estamos terminando a decoração aqui de fora para depois arrumarmos lá dentro. E o resto das garotas estão arrumando lá dentro. Sobe lá para ver.
Assenti com a cabeça, estacionei o carro e fui subindo. Era uma casa de dois andares e uma garagem, espaçosa, confortável, tudo o que precisávamos. Ao entrar damos de cara com o hall, tem dois sofás um tapete ao centro e a televisão grudada na parede. E agora está se tornando realmente macabra para o halloween. Subi as escadas de encontro com as outras garotas. Em um dos quartos estava Aria procurando as luzes que usávamos no natal para usar na sala. Virei no outro quarto e vi Chloe se arrumando, testando uma fantasia de noiva cadáver. Nem tinha pensado na minha fantasia ainda, mas tínhamos horas para pensar naquilo. Fui seguindo pelo corredor até que Chloe me chamou:
— Sky! Para onde acha que está indo? Vem aqui, rápido.
Segui ela até seu quarto e ela abriu e me mostrou uma caixa de fantasias.
— Comprei para todo mundo, essa é a sua de pirata. O que acha?
— Partindo do princípio que não havia pensado em nada, podemos considerar que estou no lucro, certo? E outra, adorei muito essa fantasia.
Era uma fantasia linda, cheia de acessórios como pulseiras e colares, tinha até um chapéu. Decidi que seria o que iria usar naquele dia.
— Ótimo! Agora vamos terminar a decoração, tenho que pegar uma hora para fazer a maquiagem de vocês, e se continuar nesse ritmo não sei o que vai dar tempo.
Seguimos para o hall e todas as meninas já estavam lá. A decoração estava começando a criar forma, tínhamos aranhas falsas penduradas no teto, abóboras iluminadas já estavam no jardim da frente e várias fitas e lâmpadas coloridas estavam se espalhando pela casa.
— Ok garotas, todas aqui. Come on! – disse Keila. Ela estava encarregada de produzir tudo o que teríamos na festa, decoração, comida, DJ e todo o resto. Ela estava no último ano da faculdade, fazendo design, ou seja, a mais apta, junto com a Chloe que faz moda, a elaborar uma festa de qualidade. – Já que todas vocês estão aqui, vamos separar as tarefas e determinar o tempo para cada uma de vocês realiza-las. Emily e Jessie, vocês ficam responsáveis por terminar a decoração do hall e do resto da casa. Eu e a Bela vamos ficar com a iluminação. Luna e Zoe, bebidas. Manu e Chloe, a comida é de vocês. Aria, o trabalho de publicidade é seu. Entra em todas as redes sociais e agita a galera para vir, fala que ainda temos alguns ingressos para vender na hora. Grace nossa DJ, já separou as músicas?
— Não todas. – disse ela.
— Ok, termine isso e arrume o som. Maya e Sky instalem o som pela casa e testem, não se esqueçam de colocar o home theater em todos os cantos da casa.
Nós formávamos um círculo naquele momento, nos preparando para mais uma de nossas famosas festas.
— Mãos ao centro meninas. – disse Luna, a mais velha e segunda mais animada, depois de mim é claro. Nós juntamos nossas mãos, colocando uma sobre a outra. – Prontas? Um, dois, três.
Naquele momento falamos em uníssono a rima que marcava a união daquela equipe maravilhosa. Em anos, sempre intacta, mostrando o valor de tudo que acreditávamos e o que buscávamos como mulheres:
“ Que a irmandade e fraternidade estejam sempre entre nós
Buscando o empoderamento e fortalecimento da nossa voz
Pois esse é o momento de mostramos nossa capacidade
Já que sororidade e amizade nos levarão à equidade. ”
Depois de recitarmos nosso hino, demos alguns gritos em concordância e rimos, felizes, prontas para dar duro para fazer aquela festa acontecer.
Três horas se passaram e estava tudo pronto. Mesas no lugar, aranhas penduradas no teto, abóboras iluminadas e comida colorida nas mesas. Keila seria a DJ, ela realmente fez aquilo acontecer, fiquei muito feliz ao ver tudo aquilo funcionando. Me lembro claramente do dia que decidimos que iriamos fazer aquela festa. Estávamos todas na sala conversando até que ela chegou com vários panfletos falando: “Precisa-se de doações para manter o orfanato da tia Shanny aberto, venha fazer uma visita”. Fomos e lhes garanto que nunca choramos tanto. Ouvimos das mais diversas histórias de vida e ficamos comovidas e decidimos ajudar, e voilá, surgiu a ideia de fazer uma festa de halloween. Desde que começamos a organizar está tudo dando muito certo. Keila e as meninas vêm fazendo um ótimo trabalho.
— Ok garotas, está anoitecendo, o pessoal já está chegando, quem vai ficar na entrada recebendo os ingressos? – disse Luna – Alguma voluntária?
— Eu vou! – disse eu.
— Tudo bem, mas coloque a fantasia antes de ir, viu? – disse Chloe. – Sabe qual é a sua, certo?
— Pirata. Sei sim. – dei um sorriso para as garotas e subi as escadas seguindo para o quarto da Chloe, onde estavam as fantasias.
Olhei em cima da cama e peguei a sacola com a minha fantasia. Segurei todos os utensílios com as duas mãos, realmente muita coisa para vestir. Me dei dez minutos para me vestir e descer para fazer os últimos detalhes. Fechei a porta e comecei. Uma blusa branca de mangas longas, com cordas para amarrar na cintura e um babado grande na frente e curto nas laterais. Depois disso vinha uma calça preta com um tecido que dava a impressão de ser de coro, seguido por botas pretas na altura do joelho que tinha cadarços nela. Coloquei o corselete preto depois. Por fim completei com os acessórios, pulseiras douradas, brincos de pena, um cinto que tinha um espaço para uma espada e uma faixa vermelha para colocar na cabeça. Fui para a frente do espelho para colocá-la na cabeça. Meus cachos estavam lindos com um tom muito claro de loiro. Os soltei e joguei para trás para poder colocar a faixa. Finalizado. Convenhamos que estava linda com aquela fantasia. Enquanto me admirava ouvi a porta se abrindo, era a Zoe.
— Uau. Você está linda. – disse ela, afinando a voz enquanto falava. – Perigosa como um pirata e linda como uma princesa. – ela sorriu quase que instantaneamente após dizer isso,
— Muito obrigada, Zoe. Você vai se fantasiar de que?
— Serei uma princesa medieval. Chloe disse que ficaria incrível em mim, e ela não é do tipo que questionamos quando o assunto é moda. A propósito, ela está te chamando. Venha. – ela fez sinal apontando a porta, ainda no caminho. Prossegui. Ao chegar perto dela, ela me segurou pela cintura e me puxou para perto dela. Ficamos alguns segundos olhando uma no olho da outra, até que ela disse – Te encontro lá em baixo quando a festa começar.
Ela entrou no quarto e fechou a porta, enquanto isso fiquei alguns segundos paralisada do lado de fora, sem saber o que fazer. Olhei aquela situação sem entender direito. Sem me importar muito desci para o hall.
Chloe estava fazendo minha maquiagem, passando um delineador, lápis e rímel, finalizou com um batom vermelho e pintou minhas unhas de preto e quando secou começou a tirar pedaços delas, como se o objetivo fosse ter unhas com pinturas velhas. Terminei e segui direto para a entrada, que seria pela escada da garagem que estava cheia de caveiras brilhantes nas prateleiras, servindo de atrativo para quem fosse entrar.
Um a um foram chegando as pessoas, de um lado pessoas entregando os ingressos e entrando e de outro, pessoas formando uma pequena fila para comprar ingressos de última hora. Já estava por cerca de uma hora ali, até que vi um carro conhecido se aproximando, mas o que essa pessoa estaria fazendo aqui?
Saíram do banco de trás de carro Noah e Chuck, do banco do passageiro Katherine e do motorista Arizona. Será que o Noah tinha convidado todos eles? Eles se aproximaram, Noah de vampiro usando um traje social típico de 1800 e bolinha. Chuck de Shrek, a coisa mais engraçada do mundo. Katherine era um esqueleto, seus cabelos estavam soltos e ela estava muito atraente, de um jeito que nunca pensei a ver, mas meus olhos se fixaram nela só até eu avistar Arizona por completo. Seus dreads estavam coloridos de roxo, azul e branco, volumosos e colocados para o lado. Ela usava um tomara que caia preto, que na altura do joelho se separava em oito pedaços, com a parte de dentro roxa e com bordas azul, combinando com seus dreads. Sua maquiagem estava perfeita, ela estava simplesmente deslumbrante, até mesmo seus olhos brilhavam quando ela puxava parte do vestido e seguia em minha direção. Meu coração palpitou por alguns poucos segundos. Olhei para o meu lado e vi Noah, ele estava sorrindo, deu de ombros e disse:
— Convidei mais pessoa que você pensou que convidaria, né?
— Claro que não! Só convidou pessoas inesperadas. Mas tudo ótimo, quanto mais pessoas, melhor. Sejam todos bem-vindos. Vocês estão incrivelmente lindos. – disse eu.
— Você também está linda – disse Katherine.
— Muito obrigada. – troquei alguns segundos de olhar com Arizona e me atrevi a perguntar – Do que está fantasiada?
— Uma bruxa dos mares. – ela jogou os cabelos para um lado do ombro. — Gostou?
— Só espero que não passe perto de mim, porque afinal, eu tenho que lidar com bruxas como você, e como pirata não sei o que poderia fazer. – nem sequer um segundo depois já estava me perguntando sobre o que foi que eu havia falado?
— Espero que não – retrucou Arizona.
Retomei a consciência e disse:
— Vamos subir, a festa já está rolando faz um tempo.
Tomei as rédeas e subi a escada da garagem em direção ao hall. Todos me seguiram. Assim que chegamos tive noção pela primeira vez da quantidade de pessoas que estavam ali, um número muito mais alto do que esperávamos. As luzes piscavam sem parar, música alta (tocava lady gaga naquele momento), e consegui ver as meninas correndo de um lado para o outro, provavelmente repondo comida ou consertando algo. Aria veio falar comigo.
— Sky, estou indo ficar lá embaixo um pouco, está bem? Se precisarem de ajuda é contigo, estou indo. – ela desceu assim que terminou de dizer isso, sem reação só acatei o que ela havia dito.
Mostrei onde ficava a comida e mostrei de longe algumas das garotas para caso precisarem de alguma coisa e os liberei para curtir.
— Ótima festa Sky, parabéns. – disse Noah.
— Obrigada. A propósito, curta bastante e cuidado com essas presas aí! – ri e o deixei ir curtir a festa.
De longe avistei Zoe, incrivelmente bonita naquela fantasia de princesa medieval. Ela me viu olhando para ela e veio em minha direção, não era o que queria, tentei disfarçar, mas não consegui.
— Oi Sky, gostaria de dançar comigo? – perguntou ela. Naquele momento não sabia mais como dizer qualquer coisa. Gostava muito da Zoe, mas ela era minha amiga, não conseguia ver ela como algo diferente, mas como dizer isso para ela? Por outro lado, pensava: “será que estou paranoica? Ela pode estar querendo apenas dançar, nada mais”, mas e se não fosse o que eu faria? Respirei fundo e respondi:
— Zoe, me desculpe, mas... – a música parou de tocar. Fui interrompida pela Jessie falando no microfone do lado da Keila no palco improvisado.
— A todos vocês espero que estejam curtindo a festa. Vocês estão realmente muito assustadores hoje. – o público vibrou – Mas agora é hora do blackout. É a parte da festa que tudo fica escuro e vocês curtem sem esses minutos de terror. — enquanto a música volta a tocar lentamente ao fundo, me lembro da Zoe, já não sei onde ela está, comecei a andar no meio dessa gente toda procurando ao menos uma parede para me encostar, andei de um lado para o outro, estava entrando em pânico, até que esbarrei em alguém.
— Oi. Calma. Não consigo te ver, mas está tudo bem com você? Você está meio eufórica – percebia apenas que era a voz de uma mulher e que era calma e melodiosa. Estava me sentindo incrivelmente bem ao ouvir aquela voz. – Está melhor?
— Sim. – foi tudo o que consegui responder.
— Gostaria de dançar? Eu não danço mal, eu juro. – disse ela.
— Sim. – foi novamente tudo o que pude dizer.
Tomei a iniciativa. Toquei minha mão direita com a esquerda dela e em seguida, minha mão esquerda em sua cintura, senti o macio do tecido de seu vestido. Passos para a direita e esquerda, ritmicamente durante aquela música lenta. Nada nunca havia me deixado tão confortável, estava calma e feliz, mas feliz pois estava dançando ou porque estava calma? Não sabia, e naquele momento já não conseguia falar por mim, me soltei e a música se animou.
— Está ficando muito animado aqui, não acha? – perguntou ela. Mas não lhe respondi.
Fui chegando mais próxima dela, até que esbarrei meu chapéu de pirata na testa dela. Rimos por três segundos daquela situação, depois eu parei de dançar e fiquei em pé, parado na frente dela, ela aos poucos foi parando.
— Um minuto para o fim do blackout. – disse Jessie. O público adorou a notícia. Mas eu não.
Estávamos parados uma em frente a outra. Tirei o chapéu e segurei na mão direita, a mesma que naquele momento passei pela cintura dela, enquanto a esquerda se direcionava ao seu pescoço. Posicionados. Estava sentindo toda aquela energia. Fui colando o meu rosto no dela, logo já conseguia sentir sua respiração. Ela havia colocado uma mão na minha cintura e passou a outra por cima da minha até encostar sua delicada mão no meu rosto. Tomei iniciativa e encostei nossos lábios. Talvez fechar os olhos naquele momento fosse simbólico devido ao extremo escuro, mas era automático, era como se sentisse mais, me conectasse mais a ela. Nossos lábios já se tocavam e agora nos beijávamos, trocando saliva e entrelaçando nossas línguas.
— Trinta segundos. – anunciava a duração do blackout.
Toquei o tecido da sua roupa, senti a textura da sua pele. Como a reconheceria a partir de agora? Será que a veria de novo? Não sabia. Apenas senti que deveria continuar a beijá-la. E foi o que fiz, foi tão intenso e maravilhoso que os próximos 10 segundos passaram muito lentamente.
— Vinte segundos – pronunciou.
Descolei meus lábios dos dela lentamente, como se não quisesse mais separar, e realmente não queria. Desentrelacei nossos corpos. Ela ofegante me perguntou:
— Posso pelo menos saber seu nome? – aquela doce tonalidade de sua voz era inalterável.
— Dez segundos. – repetia como se fosse o cronômetro para o fim do mundo.
Toquei seu rosto pela última vez e saí por meio à multidão.
— Cinco segundos. – já não sabia para que direção ia, mas continuava com a velocidade constante. Ainda sem respostas para qualquer pergunta que tenha feito. – Quatro, três, dois, um e... – ela acendeu as luzes, fortes e intensas luzes, que afetaram a visão de todos que ali estavam.
Já não sabia de onde vinha, ou se sequer a reconheceria se a visse, só sabia que a queria novamente.
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