Era um daqueles dias brancos, cobertos de neve e um ar frio que perdurava até dentro da roupa quentinha das pessoas.

Kuroko Tetsuya estava com uma roupa quentinha, mas mesmo assim, seus dentes batiam levemente enquanto ele caminhava, a neve enterrando seu tornozelo a cada passo que dava.

Era um daqueles dias em que você deve ficar em casa, aproveitando a família e os amigos, um daqueles dias em que ele passaria com seu time. Ou melhor, uma daquelas noites.

Mas enquanto estava lá, sentado no sofá macio e limpo no apartamento de Kagami, sentiu que faltava alguma coisa. Estavam todos ali, conversando e rindo de alguma coisa que não prestara atenção, e estava, inegavelmente, quente em vários sentidos. As janelas estavam fechadas e as risadas traziam uma boa sensação em seu peito, mas não era esse o problema.

Conseguiram trazer todos seus antigos colegas; Kise fora o mais fácil de persuadir, apesar de que voltaria mais cedo para poder compartilhar o momento com seus senpais; Murasakibara fora simplesmente a menção de que haveria sobremesa — somando-se ao fato de que Himuro também iria -, Midorima hesitou, mas Takao arrastou-o para lá com um largo sorriso. Akashi ficou surpreso, mas depois sorriu e aceitou o primeiro convite que recebera para passar o natal.

Mas Aomine..

Kuroko bem sabia que o Ás era um cara complicado. Recusara o pedido quando Momoi passara para ele.

Momoi também estava ali, o que deixava bem claro que o amigo de infância da garota passaria a data sem a companhia desta. Bem, ainda tinha a família dele, certo? Algo o dizia que aquilo não significava muita coisa.

Achara que após a derrota de Touou, o garoto fosse demonstrar mais ânimo para com as coisas, assim como costumava fazer em Teiko, mas claramente não foi o que aconteceu.

Mas ele me pareceu mais animado...

Pelo menos, para os treinos...

Já passava da meia-noite quando saiu de lá. A maioria estava acordada ainda, mas muitos já haviam dormido ao redor da mesa ou coisa do tipo.

Era natal.

Estava olhando para cima, alguns flocos de neve caíam sobre seu nariz já gelado, fazendo com que seu corpo tremesse por inteiro. Tentou ir mais rápido, arrastando os pés na neve densa que se formava na madrugada gélida e estranhamente melancólica.

Podia ver as luzes acesas nas casas que passava por, exceto na casa do Daiki. Não havia percebido quando chegou nela, mas ali estava, pequena e deslocada, mas ainda assim agradável.

Não estava acostumado a ir ali, na verdade, poucas foram as vezes que entrou para entregar a lição ou alguma coisa que o garoto havia esquecido, mas nunca ficava muito tempo. Suspirando, andou até lá, mas hesitou antes de bater ou mesmo tocar a campainha.

Podiam estar dormindo...

“Tetsu?”, a voz num timbre rouco chamou-o, e era inegável, mesmo que não fosse pelo apelido, que era Aomine ali atrás dele.

“Aomine-kun?” Tentou, virando nos calcanhares para encará-lo, tão alto quanto se lembrava, mas enfiado numa blusa larga e com um par de luvas pretas, havia um cachecol vermelho contornando o pescoço moreno.

“O que faz aqui?” Ficou observando-o se aproximar, esfregando as mãos umas na outra para tentar aquecê-las.

“Eu…”

Realmente, o que ele fazia ali?

“Eu vim desejar feliz natal.”

Os olhos azuis claros se encontraram com os azuis escuros, e Kuroko viu a surpresa neles. Seu peito que queimava pelo ar frio quase se aqueceu quando viu a fina linha da sugestão de um sorriso brincar naqueles lábios.

“Você tá’ tremendo, vem, entra”, foi convidado, enquanto o maior abria a porta.

Quando passou para dentro da sala que conhecia vagamente, suspirou aliviado. Estava bem mais quente, e assim que a porta da entrada foi fechada o ar pareceu se condensar, aquecendo-os em poucos segundos.

“Tetsu, tem neve até no seu cabelo”, Aomine informou-o, retirando o gorro que cobria o seu próprio. Suas mãos viajaram para os fios finos e claros, mas mãos muito maiores que as suas já estavam trabalhando neles, bagunçando-os propositalmente enquanto retirava os flocos de gelo.

“Obrigado”

“Pode se sentar, vou pegar algo quente pra gente”, e com isso o Ás saiu para a cozinha, deixando um Tetsuya imóvel para trás.

Sentou-se quando o calor daquelas mãos sumiram, sentindo o quanto o material era diferente do sofá de Kagami. Mas não de uma forma ruim.

“Aqui”, ele retornou poucos minutos depois, com duas canecas cheias com um chocolate quente fumegante e com um cheiro delicioso.

“Eu quero pedir uma coisa para você, Aomine-kun.” Soltou as palavras cuidadosamente, enquanto o alvo das suas palavras se sentava ao seu lado, o sofá afundando com o peso do corpo maior.

“Pedir? O quê?” Kuroko viu uma ponta de decepção nos olhos estreitos e engoliu em seco. Talvez não escolhera as palavras tão bem assim.

“Esqueça”, pediu, bebericando a bebida quente após assoprar.

Mas é claro que o Ás não esqueceria. Ficou encarando-o por cima da própria caneca, franzindo as sobrancelhas até que os vincos que Kuroko tanto odiava se aprofundassem na sua testa. Quando o moreno abaixou a caneca, tinha um bigodinho de leite que fez com que sorrisse, daquela sua forma quase imperceptível.

“Conta, você já veio até aqui mesmo.” Ele argumentou, e teve de admitir que não podia levá-lo a sério enquanto não limpasse o lábio superior.

“Está sujo aqui”, apontou para o próprio rosto, na área onde estava sujo no maior. Foi mais uma frase que se arrependeu de deixar-se proferir, quando a língua avermelhada do outro deslizou pelo lábio superior, lentamente, quase que inocentemente demais.

Kuroko desviou o olhar.

“Onde estão seus pais?”

“Saíram.”

Não aproveitou o silêncio que se formou, era denso e desconfortável, quase que como ter neve dentro do sapato.

“Hoje eu percebi que queria passar o natal com o Aomine-kun. Percebi que faltava você.” Declarou, após alguns minutos, enquanto pousava a caneca agora vazia na mesa de centro. "`Posso passar o natal com você?"

“Por que isso do nada?” O moreno perguntou, olhando-o com desconfiança. Kuroko se remexeu, então se aproximou um pouco mais do outro, recebendo um arquear de sobrancelha como indagação.

“Está frio.”

“Foi estupidez vir até aqui nessa hora.”Foi a vez de Daiki se remexer, olhando-o com o canto dos olhos enquanto virava o restante do chocolate na boca, lambendo os lábios em seguida.

Fosse pela cerveja que haviam feito-no beber, fosse pelo frio afetando seu raciocínio, ele achou aquilo muito tentador. Estava encarando-o com tanta intensidade que o outro suavizou a expressão, como se tentando entender seu olhar.

“Sujo de novo?”

“Você também estava fora nessa hora, aliás, onde estava?” Questionou, curiosamente, mantendo sua expressão calma como sempre gostava de manter.

“Caminhando. Meus pais foram passar o natal na casa dos meus avós”, explicou, e pegou-se sentindo-se vitorioso por conseguir uma frase com tantas palavras do maior. “Eu não quis ir.”

“Típico…”

“Mas você não tem a minha resistência, não faça coisas estúpidas.”

“Eu não teria feito se você tivesse ido.”

“Era na casa do Kagami!”

“Mas eu estava lá, e todo mundo…”

Aquela frase pareceu tirar qualquer resquício de justificativa válida.

“Momoi-san também estava.” Ouviu-o bufar, tamanha era a proximidade entre ambos.

“Eu não estava afim de ir, Tetsu, foi mal…”

Após alguns segundos para assimilar que o que ouvia eram desculpas, sorriu, mais abertamente do que na vez anterior. “Agora estamos aqui, não?” Se aconchegou mais perto do maior, aproveitando do calor que o corpo moreno parecia emanar tão naturalmente.

“Tetsu?”

“Hmm...foi cansativo vir até aqui, me deixe descansar um pouco, por favor.”

Seu corpo foi pendendo lentamente para o lado, enquanto ouvia o som distante do vento castigando as árvores já sem folhas; apenas os galhos secos se chicoteando noite adentro. Era quase confortável, se não fosse o frio que insistia em se esgueirar por seus ossos. Quando deu por si, estava acomodado no braço do maior, a bochecha esmagada contra a blusa alheia.

“Deite na cama”, Aomine o empurrou com uma mão, mas quando Tetsuya ergueu os olhos, os lábios quase sempre franzidos sorriam.

Quero tocar...o Aomine-kun.

E então ele simplesmente o fez. Tocou-o, esticando uma mão para que pousasse no rosto tão distante, mesmo estando tão próximos. Os lábios que antes sorriam para si estavam entreabertos, demonstrando uma surpresa suave. Suave…

Suavemente, sua mão deslizou na pele incrivelmente macia para alguém que parecia tão rústico.

“Te...tsu? Está se sentindo bem?”

“Hã?” Questionou, genuinamente confuso, enquanto puxava a mão de volta.

“Seu rosto…”

De fato, e no fundo o garoto de pouca presença sabia que, seu rosto queimava. Mas abanou a cabeça, decidido a não se importar com aquilo. Sua mão foi capturada em fuga, e, para sua surpresa, posta novamente na bochecha macia.

“Está gelada.” Foi uma observação singela, e em poucos minutos ambas suas mãos estavam presas entre as do outro, já sem luvas.

As mão firmes e grandes, levemente ásperas, acariciando as suas com um cuidado que nunca adivinharia que aquele cara tinha. Os dedos longos faziam traços circulares sobre a palma, contornando e apertando, até que os dedos se entrelaçaram com os seus, como se de brincadeira, apenas testando se o quebra-cabeça iria encaixar. Quando os dedos estavam todos entrelaçados em uma mão, as outras descansaram em lugares distintos; o cachecol que o Daiki usava, o queixo fino do Tetsuya. Sem mais nenhuma palavra, os lábios se tocaram enquanto os flocos caiam cada vez mais rápido lá fora, mas os olhos cristalinos não puderam mais captar nada quando fecharam-se, lentamente, deixando a sensação apenas para o tato.

Foi um toque suave, apenas um enrolar superficial em sincronia reprimida. Mas aquela delicadeza toda foi quebrada quando uma língua que não era a sua traçou a linha dos seus lábios, molhando-os e instigando-os para que se entreabrissem e abrigassem a intrusa. Na sua boca tinha duas línguas, a feroz de Aomine e a sua inexperiente, tentando acompanhar o ritmo do outro; mas era assim, ninguém conseguia seguir o ritmo daquele moreno.

“Aomine-kun…” Sussurrou, afastando-o pelo peito. Podia sentir sua respiração, quente perto do seu rosto frio. Eles não tinham mais muito o que dizer, mas tinham muito o que fazer com ambas as bocas. Uniram-as novamente, os olhos agora abertos para tomarem das expressões alheias e gravarem-nas na mente. Substituir as memórias ruins que insistiam em atormentá-los.

Os braços grandes contornaram seu torso, abraçando seu corpo muito menor do que aquele que agora se colocava sobre o seu, o empurrando em direção ao sofá, prensando os corpos de forma que o calor do momento substituía o frio que se apossou da sua pele após a caminhada até ali.

Sua mente era uma bagunça. Não tinha nenhum vestígio de intenção de participar de um beijo com Aomine Daiki quando deixou o apartamento de Kagami, mas era o que estava acontecendo, de uma forma que não sabia explicar; apenas deixou-se levar, olhando fixamente para a profundidade dos olhos que o confrontava.

As perguntas gritavam na sua mente, mas a resposta não precisava ter formação com palavras quando ambos se puxavam e esfregavam-se um contra o outro. Era muito quente, e a roupa antes quentinha tornou-se quase insuportável. Aomine pareceu pensar o mesmo acerca da sua própria, pois se afastou, ajoelhando-se no sofá entre suas pernas, removendo o casaco e cachecol com um movimento digno de um Ás no basquete; diferente do sexto homem, que tirou com menos facilidade e atrapalhou-se um pouco.

Quando se tocaram novamente o choque foi maior, mas também mais gostoso. A blusa fina que ambos traziam era o que permitia que pudessem sentir a firmeza da pele um do outro por baixo da camada de tecido. Aquilo era muito melhor do que poderia imaginar. Estar nos braços daquele garoto era quase como que o paraíso; quente e seguro, o cheiro característico do perfume impregnado no seu pescoço, fazendo com que levasse o nariz até lá quando precisaram respirar. Ficou aspirando do cheiro forte, até que se sobressaltou com o contato entre os quadris.

Aomine estava...estava…

Muito duro.

A ideia fez com que seu rosto perdesse a cor, só para em seguida adquirir um tom profundo e brilhante de vermelho. Não percebeu que estava olhando para baixo, para onde o volume tocava sua coxa, até ouvir a risada que tanto gostava de ouvir, próxima ao seu ouvido; foi uma coisa rápida e rouca, mas o suficiente para todos os pelos do seu corpo se eriçarem em expectativa.

Com as mãos apoiadas no peito maior, moveu um joelho para o meio das pernas do Ás tão eroticamente quanto ele podia, sendo tão inexperiente. Aquilo era muito bom. Poder senti-lo, bem ali, os olhos atentos ao rosto que estava deitado na curva do seu pescoço. Podia ver a sombra de um sorriso que o gelaria em qualquer outra situação, mas naquele dia, naquele momento e naquela posição aqueceu até onde ele não sabia que era possível aquecer.

“Hnngh-” O som foi mísero, uma reação automática quando sentiu uma mão explorar sua coxa, apertando a parte interna com força; mas o suficiente para arrancar um olhar de desejo do que o provocava.

Ele não reclamaria.

Quando enrolou os braços ao redor do pescoço do outro, e encarou seus olhos famintos, esboçou um sorriso que nem mesmo sabia poder desenhar em seus lábios; lascivo e avermelhado pelas sucções que foram feitas nestes.

“Ah, porra, Tetsu!” Ouviu, antes de jogar a cabeça para trás e suspirar com as mãos que tateavam e tomavam para si cada pedaço de carne disponível, uma luta afoita para apertar todos os lugares plausíveis antes que perdessem totalmente o controle que Aomine já não tinha, mas Kuroko mantinha. A pequena linha invisível do controle se partiu quando a língua girou na parte interna da sua orelha, prevenindo os dentes que se cravariam na cartilagem no momento seguinte. Estavam uma bagunça de suspiros e resmungos satisfeitos e ansiosos, exatamente o que eram, quando um telefone tocou em algum lugar dali.

Se repeliram, quase que automaticamente. Os olhos arregalados e os volumes nas calças exigindo liberdade, quando o bronzeado se ajoelhou novamente e buscou o celular nos bolsos, xingando em voz baixa enquanto puxava-o para fora.

O garoto fantasma não ousou se mover, estava com as mãos caídas ao lado do corpo, a respiração acelerada e o coração competindo com esta. Podia sentir os lábios inchados e a adrenalina correr solta pelo seu sistema, inebriando-o e não deixando com que pensasse direito, apenas o som da voz do outro, distante, reclamando com alguém, preenchendo a parte sã da sua mente.

“Ele está aqui”, ouviu, quando percebeu que era o assunto da conversa, sentou-se desajeitadamente. “Sim, Satsuki, ele tá’ bem. Não, não sei que horas vai.” Uma pausa se seguiu, e a mão que antes buscava tirar suspiros dos seus lábios estava apoiada na testa, demonstrando a pouca paciência que o outro mantinha. “Estamos...vendo um filme.”

Se tinha uma coisa que Aomine Daiki não sabia fazer, era mentir. Na verdade, haviam muitas coisas que ele não sabia fazer — o que compensava seu monstruoso talento para com o basquete -, mas essa era uma que se sobressaía; tanto que, quando ele deixou a última frase gaguejada sair, o garoto menor e atento à sua conversa teve de gargalhar, atraindo um olhar interessado e confuso.

“Tenho que desligar.” Foi tudo que ele disse antes de guardar novamente o celular, atacando o corpo abaixo de si com tamanha vontade que o sofá protestou; inutilmente, já que tudo que aqueles dois podiam focar era os olhos um do outro, enquanto as bocas marcavam e os corpos se uniam.

O problema era que, além de não saber mentir, aquele que se mostrou não só selvagem na quadra mas também na cama, que tomou uma virgindade imaculada e deu a sua própria, não sabia desligar corretamente as chamadas de celular.

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