Notas iniciais
Muito curto, mas tem bastante informação, talvez? See you below.

Depois de deixar o rapaz confortável na sala e guardar as coisas dele no quarto de hóspedes, Sakura tomou um banho e colocou uma calça de moletom e regata azul, o que era considerado vestes apropriadas — não que se importasse que Aomine a visse semi-nua, porque ele já se acostumara com isso. Ela penteou os longos cabelos platinados, trançando-os desde o topo da cabeça até o fim dos fios em sua cintura e pegou seu óculos de armação preta e grossa, colocando-o sobre os olhos de tom violeta.
Voltou para onde o amigo estava e encontrou-o fazendo café na cozinha. Ou tentando, pois aparentemente, era necessário uma faculdade para usar a maldita cafeteira. Ela se pôs atrás dele e guiou as mãos grandes para colocar o papel de filtro no lugar certo, a quantidade apropriada de pó de café e água. E, ao fim, ligou o aparelho.
— Estava com saudades. — disse ela, abraçando-o e apoiando a cabeça nas costas largas. — Em algum lugar da lei diz que não pode abandonar sua mestra por muito tempo. — ele se virou dentro do abraço dela e apoiou o queixo no topo da cabeça.
— Minha vida estava um caos nesses últimos tempos.
— Então Pandora abriu sua caixa de vez para você vir parar aqui não? — Aomine se afastou para fitar as orbes violetas e o ar sério que resplandecia nos traços suaves. — Eu te conheço melhor que a maioria das pessoas, Dai-chan. Até mesmo melhor que você. — ela o soltou e foi para os armários separar duas xícaras grandes. Também separou alguns doces que havia dentro de sua geladeira que havia ganhado de um aluno. Depositou tudo sobre o balcão de sua cozinha americana e sentou-se num dos bancos altos. — Você pretende me contar ou só veio esfriar a cabeça e me deixar preocupada?
— O que você não consegue arrancar de mim, Sakura? — resmungou ele, sentando no banco no outro lado do balcão, de frente para ela, que mosdiscava um dos doces.
— Ainda não arranquei suas calças, mas no dia que isso acontecer... Uh, será muito divertido! — a garota rapidamente foi acertada por um dos bolinhos bem no meio da testa, mas a gargalhada foi espontânea de ambos os lados.
— Pervertida. — disse o moreno, com as bochechas vermelhas.

*

Kise estava esticado sobre um dos sofás do estúdio onde estava filmando um comercial. Estava no intervalo de almoço e o loiro brincava com o celular, jogando-o de um lado a outro. Porém, dado momento, olhou para a tela escura e, apertando um botão, desbloqueou. Foi direto no registro de chamadas e viu que havia escrito um (14) ao lado de um número específico.
Era o número de Aomine.
Havia ligado catorze vezes e, por mais exagerado que fosse, estava preocupado. Tinha tentado falar com ele no dia seguinte ao anúncio de seu noivado, — logo pela manhã, mas a mensagem dizia que estava fora de área ou indisponível. Tentou enviar SMS, mas não recebeu resposta e, durante o dia inteiro, tentou ligar. Queria compartilhar com alguém a felicidade de estar noivo e, principalmente, levá-lo para que conhecesse Misaki.
O loiro suspirou e acessou a galeria de fotos no celular. Algumas fotos dele e Misaki estavam perdidas e ele clicou em uma onde havia apenas a garota com seus cabelos pretos compridos e a franja reta que recobria sua testa. Tinha olhos pretos grandes e um sorriso de lábios cheios que Kise provara o suficiente para descobrir como eram macios. Não confessava, porém, que a cada vez que a beijava, sentia falta de algo adocicado. Ou ainda, alguma coisa que era diferente, que não lhe agradava por completo. Mas a garota tinha ótimo senso de humor e o tratava com enorme respeito e carinho. Isso era suficiente, não?
Havia conhecido Misaki no hospital. Ele sofrera um acidente o qual não recordava muito e ela tinha sido sua enfermeira por tanto tempo que mal percebeu quando se interessou por ela. Só que, por causa de sua carreira de modelo, preferiu manter o relacionamento escondido para que ela não sofresse com o assédio de suas fãs. Sabia como elas poderiam ser loucas quando queria.
Sem saber como, o celular escapuliu de seus dedos e caiu sobre o nariz perfeito, fazendo a região ficar dolorida.
— Baka. — disse para si mesmo e resgatou o celular em mãos. Deve ter esbarrado na tela de algum modo que passou para outra foto. Nela, Aomine estava ao seu lado com uma expressão séria, mesmo que o loiro sorrisse. A foto devia ter um mês mais ou menos e tinham tirado na festa de aniversário de Kuroko.
Kise se sentia feliz porque tinha ótimos amigos. Momoi, Kuroko, Kagami e Aomine eram os mais próximos. Ainda existia Midorima, que estava fora do país fazendo uma especialização em Medicina; Murasakibara, que agora era produtor/cozinheiro de seu próprio programa de confeitaria. Kasamatsu, seu antigo veterano, agora investia em seu próprio negócio, mas volta e meia ia visitá-lo. O loiro gostava de saber que era muito querido e apreciava o apoio deles depois do seu acidente. Não que lembrasse muito do que acontecera antes, mas imaginava que eles deveriam ser como agora.
Ele deslizou o dedo pela tela, passando por fotos mais velhas até que chegou a uma que devia ter sido do fundamental. Parecia que tinha sido scaneada e depois passada para o celular como recordação. Era Aomine e ele jogando basquete ainda novos. Kise estreitou os olhos e ampliou a foto como pode num único ponto que era interessante: o sorriso de Aomine. Era fluido, vivo e contagiante, assim como as linhas de expressão não existiam, o que deixava seu rosto muito mais jovem do que aparentava.


O treino havia terminado e eles ambos tinham sido obrigados a limpar a quadra e guarda as bolas que haviam usado para lances livres. Praticamente tudo havia sido recolhido, à exceção uma bola que permanecia segura entre os dedos de Kise. O loiro olhava para a bola com um sorriso vago, parecendo um idiota hipnotizado pela cor laranja dela.
— Oe, Kise! — ele levantou o rosto diante do grito do amigo. — Me dá isso para guardar. — Aomine fitou os olhos caramelos do outro, identificando os desejos dele.
— One on one, Aominecchi.
— Não. Eu quero ir embora! Me dá essa bola. — Kise sorriu de lado e estendeu a mão onde a bola estava e o moreno andou o suficiente até quase pegá-la. Mas seus dedos apenas resvalaram sobre a superfície rugosa, antes que o loiro jogasse a bola para outra mão e se pusesse em defensiva.
— Então vem buscar. — Aomine pareceu desarmado por alguns segundos, as sobrancelhas arqueadas em dúvida. Mas antes que Ryouta percebesse, o moreno já se colocava em sua posição usual e lhe roubava a bola com a rapidez que lhe era característica. O loiro notou a felicidade no sorriso aberto que Aomine oferecia enquanto tentava ultrapassar seu bloqueio.
Estavam tão entretidos que não perceberam Momoi retornando a quadra para buscar suas anotações. E ela ficou tão impressionada e surpresa com a cena que resolvera guardar aquilo numa memória física, tirando uma foto com seu celular. Mandaria revelar depois.

Kise sentou de súbito, segurando o celular com mãos trêmulas. Tinha acabado de ter um flashback. Podia não ser tão importante, mas queria compartilhar com alguém. Seus dedos mexeram rápidos no touchscreen e discaram o número. Levou o aparelho ao ouvido.
O número discado encontra-se fora de área ou desligado. Tente mais tarde...
A frustração o assolou, assim como duas dúvidas surgiram em sua mente: por que a primeira pessoa a quem contaria aquilo seria Aomine? E o que raios seria Aominecchi?!

*

Frank Sinatra tocava baixo na sala de leitura de Sakura, que estava deitada num dos sofás em tom de creme. Ela observava Aomine, que permanecia em pé de frente para sua estante de livros, que ocupava de uma parede a outra. Ela fitava o amigo de cima a baixo através das lentes de grau que estavam pousadas na ponte do nariz.
— Alguém já disse que você é um pedaço de mau caminho? — comentou ela, virando de barriga para cima.
— Como continuamos amigos, Sakura? Eu já deveria ter desistido quando você começou a me cantar. — respondeu o moreno, pegando um livro em mãos.


Técnicas de Basquete para Deficientes.
Yukino Sakura


— Você gosta muito de mim. — replicou pacientemente. — Mas não deve ser suficiente para me dizer o motivo de sua vinda. — levantou do sofá e foi até ele, roubando o livro de suas mãos.
— Como lidar com circunstâncias difíceis... — Daiki olhou para a perna dela, antes de encará-la nos olhos e perceber suas sobrancelhas arqueadas. — Como você conseguiu aceitar?
— Como aceitei que tive que perder metade da minha perna por causa de uma necrose e joguei toda uma carreira fora? — Sakura lançou um meio-sorriso e guardou o livro na estante organizada para depois caminhar até uma parede de vidro que dava para os campos pedregosos. — Você acha que foi fácil, uh? — cruzou os braços abaixo dos seios. — Nunca te contei como isso aconteceu, não? Mesmo você sendo uma das primeiras pessoas a saberem do acidente, não lembro de ter dado detalhes. — o moreno balançou a cabeça de um lado a outro, negando. — Começou só com uma dor. Uma pontada forte na minha panturrilha. Achei que tinha forçado a perna demais no treino e por isso, liguei para o médico da equipe. Ele disse para fazer umas compressas quentes e enfaixar e foi o que fiz. Pediu que eu maneirasse nos treinos, mas não ia ser uma dor que ia me fazer parar. Faltava uma semana para o Estadual. Dois dias depois, eu acordei chorando de dor. Parecia que tinha uma faca na minha perna e a torciam dentro da minha carne. — ela olhou para o moreno. — Sabe qual a primeira coisa que fiz?
— O que? — questionou Daiki, se aproximando dela.
— Liguei para o treinador e pedi desculpas por não conseguir ficar em pé para comparecer ao treino. Tínhamos um jogo importante e sabia que, como capitã, precisava dar forças ao meu time. — ela empurrou as lentes mais para cima e voltou a olhar para o horizonte. Apesar disso, parecia estar olhando para algum ponto mais distante dali. Algo que, mesmo Daiki ao seu lado, não conseguiria ver. — Então, depois de garantir ao técnico que estava tudo certo, com a melhor voz firme que pude, eu desliguei. E então, liguei para ambulância, aos prantos, pedindo socorro. — ela desviou o olhar para o rapaz e sorriu. — Quando fui diagnosticada, já era tarde demais. Um coágulo havia obstruído um dos vasos da minha panturrilha e, por não ter sido diagnosticada a tempo, a área de necrose era profunda e extensa demais. O médico se surpreendeu que eu não tivesse tido uma embolia ou algo do gênero. O fato de ter treinado piorou meu quadro porque os músculos precisavam ainda mais de oxigênio e eles não tinham, o que aumentou a área de infarto. — Sakura soltou um suspiro carregado de lembranças. — Eu poderia só tirar o tecido morto, mas minha perna não ficaria boa, segundo o médico. Só seriam ossos sem músculos para me sustentar.
— Por isso você decidiu...
— Pedi que o técnico viesse me ajudar a decidir. Lembro que eu estava deitada no leito com a perna enfaixada quando ele chegou e sentou ao meu lado, mas sequer olhou para meu rosto ou perna. Apenas se virou para o médico que estava e perguntou se a cirurgia não poderia ser adiada para que eu pudesse jogar. Então eu percebi que ele não se interessava sobre minha saúde. Só precisava de mim para ganhar alguns jogos.
— Sakura, isso é horrível. — afirmou Aomine, com certo choque no olhar. Apesar de estar presente na época que tudo acontecera, não sabia metade do que a amiga havia sentido.
— Basquete é minha paixão, Dai-chan. — respondeu Sakura, se virando totalmente para ele. — Eu amo jogar e é o que faço de melhor. Não daria para fazer isso com uma perna inútil, mas isso não facilitou minha escolha. — suspirou, franzindo a testa. — O que quero dizer com todo esse drama é que fazer uma escolha que pode afetar o nosso futuro e tudo que amamos nunca será fácil. Eu lembro que eu mal conseguia falar com o médico. A cópia que tenho que permitia a amputação e adaptação a prótese mostra minha assinatura borrada de lágrimas. — Sakura abaixou o suficiente para tocar sua prótese mecânica feita totalmente em metal. — Se esconder é só fingir que a realidade não existe por algum tempo. Mas hora ou outra, você vai ter que dar sua tapa a cara. E se não for agora, vai ser uma hora. — Daiki tocou o topo da cabeça da mulher com a palma da mão, fazendo o que ele achava ser um carinho.
— Quando você cresceu tanto, Sakura?
— Quando a vida bateu na minha cara e eu me senti incentivada o suficiente a revidar.

Notas finais
Yuhu! Agora temos capa também (fajuta, mas serve!). Eu optei por não postar tudo de uma vez para quem acompanha Even Flow, spin off desta fanfic (com foco em Kagami/Sakura). Como ela está em andamento, né... Quero terminá-las juntas para ai vir a terceira e última parte desta coletânea. De qualquer maneira, espero que estejam gostando. Quem se sentir a vontade, deixe um comentário, MP, sinal de fogueira, sei lá, rs. Beijo gente goxtosa!