Local: Terraço do hospital de Suna

Horário: 21h40.

O céu está nu. Exposto.

Estrelas bordadas no escuro com a precisão de um deus entediado e apaixonado por detalhes.

O vento sopra com ternura — nem quente, nem frio. Apenas... presente.

Como se o deserto estivesse respirando mais leve naquela noite.

Akari está sentada no chão de pedra quente, encostada contra a muralha que cerca o hospital.

Há uma jarra de água ao seu lado e um pergaminho aberto sobre as pernas dobradas.

Os cabelos, presos num coque improvisado e desalinhado, soltam mechas teimosas que dançam com o vento como se soubessem segredos.

Ela está anotando algo.

Ou fingindo anotar.

Às vezes, escrever é só uma desculpa pra não pensar em voz alta.

E então… ele vem.

Gaara.

Sem barulho. Sem passos.

Como se tivesse brotado da sombra do hospital.

Ou da própria noite.

Akari o nota de relance, mas não se assusta. Nem se surpreende.

Há uma familiaridade incômoda naquela presença calma e magnética.

Do tipo que chega e, mesmo em silêncio, muda o clima.

Akari (sem desviar os olhos do pergaminho):

— O Kazekage agora também faz ronda hospitalar?

Gaara (encostando de leve na parede ao lado dela, braços cruzados):

— Vim garantir que o clima não afete sua recuperação... adaptativa.

Ela ergue uma sobrancelha. Um deboche leve.

Ele mantém o rosto impassível. Finge que não notou a provocação.

Mentira. Notou sim. Ele nota tudo.

Ambos olham para o céu.

Longos segundos.

Nada se move — e tudo se mexe.

Gaara (voz baixa, mas firme):

— Quando o céu está assim, é sinal de que o deserto confia.

Ele mostra sua calma só pra quem ele escolhe.

Akari (rindo baixo, quase com doçura):

— E eu achando que era só ausência de nuvens.

Silêncio.

Mas não aquele silêncio tenso.

É o tipo raro — o confortável.

Aquele que só existe entre duas pessoas que sabem que não precisam preencher o espaço com palavras pra serem ouvidas.

Ele a observa. De lado. Com cuidado.

Como quem quer tocar, mas não pode.

Ou não deve.

Ou teme o que pode acontecer se tocar.

Akari (pensando, com os olhos fixos em uma estrela específica):

"Ele sempre olha como se estivesse lendo algo por trás de mim. Como se... eu dissesse mais do que falo."

Gaara (pensando, com o coração um pouco mais exposto do que gostaria):

"Ela fala mais do que percebe. E sente menos do que eu gostaria."

O vento sopra de novo.

Leva uma mecha solta do cabelo dela pra frente do rosto.

Ela sopra de volta. Ele sorri. Só um pouco.

Só o suficiente pra saber que, mesmo no deserto...

há coisas que florescem.