Missão Neve Mortal
2 O Peso da Vigília - Primeiro Dia
A escuridão da caverna era uma bênção e uma maldição. Era um refúgio contra o frio cortante e os olhos inimigos, mas também uma prisão de pedra úmida que amplificava cada gemido de dor de Shino. Kiba o havia arrastado para lá, seu próprio corpo doendo a cada passo, o coração batendo descompassado no peito, um tambor de pânico. Estariam totalmente desprotegidos caso aqueles ninjas resolvessem retornar.
— A fratura é exposta e complexa — disse Shino, sua voz um modelo de controle, embora Kiba pudesse ver o suor frio escorrendo por sua têmpora. — O risco de infecção ou gangrena é... considerável. Precisamos de um médico qualificado.
Kiba não respondeu. Com mãos que tremiam ligeiramente, ele rasgou a manga de seu casaco e, usando dois galhos retos que encontrou do lado de fora, improvisou uma tala. Cada movimento era um suplício. A mente dele gritava por Akamaru, um chamado primitivo e desesperado que ecoava em seu interior. Onde você está, amigão? Você está machucado? Você está...
— Kiba — a voz de Shino o trouxe de volta — A decisão lógica é você me deixar. Você é mais rápido sozinho. Pode encontrar ajuda e... procurar por Akamaru.
— Cale a boca, caralho — a resposta de Kiba saiu mais áspera do que ele pretendia. Ele apertou o nó da tala, e Shino conteve um gemido. — Eu não vou te deixar aqui sozinho, indefeso. E se eu sair correndo e o Akamaru voltar? Meu ninken é treinado e esperto, confia.
Era uma racionalização frágil, e ele sabia. Shino também sabia. Mas era a única tábua de salvação que Kiba tinha para se agarrar. Deixar Shino era impensável. Deixar de procurar por Akamaru era como arrancar um pedaço de sua própria alma, mas estavam em uma área que o ninken poderia localizar com o faro. E além disso… a dor em sua costela estava excruciante, arrastar o namorado cobrou um preço visível na face pálida e em cada gota de suor frio a despeito da neve e do clima de inverno. Partir sozinho não parecia uma boa ideia.
As horas se arrastaram. Kiba saiu brevemente, caçando um coelho da neve desavisado com suas próprias mãos, a falta de Akamaru tornando a tarefa estranhamente solitária e brutal. A costela ferida tornando cada ato em um suplício de dor. Conseguiu reunir alguns gravetos que pareceram demorar uma eternidade para pegar fogo com o jutsu especial. Manteve o fogo baixo, as chamas dançando e lançando sombras inquietas nas paredes da caverna. Cada estalo de um galho lá fora, cada uivar distante do vento, fazia seu corpo se tensionar, a mão indo instintivamente para uma kunai. Eram os inimigos voltando? Era um animal selvagem? Era...?
Não era Akamaru.
A noite caiu, trazendo um frio ainda mais profundo. Shino entrou em um sono inquieto, talvez a inconsciência de um desmaio, sua respiração às vezes presa de dor. Kiba não dormiu. Sentou-se na entrada da caverna, os olhos ardendo, fixos na escuridão lá fora. Ele sentia a ausência de Akamaru como um membro fantasma que doía mais do que a costela trincada. O calor faltava ao seu lado, o peso familiar que sempre o aconchegava nas noites frias. O vazio era físico, uma dor surda no peito que a neve não conseguia anestesiar.

— Você devia ter ido — a voz fraca de Shino ecoou na caverna, rompendo o silêncio da madrugada — Ainda dá tempo...
Kiba fechou os olhos, a imagem do focinho leal de Akamaru queimando em sua retina:
— E te deixar aqui para ser presa fácil? Nem fodendo! — ele engoliu seco — Você é meu parceiro, Shino. Meu namorado. E o Akamaru... é forte. Ele vai voltar. Eu... eu preciso acreditar que ele vai voltar.
Era a primeira vez que Kiba admitia, até para si mesmo, que sua fé não era certeza, mas uma prece silenciosa sussurrada no escuro.
— Kiba…
— Vai ser o nosso primeiro natal juntos, Shino. Você é o meu presente!
— O quê?
Kiba fingiu não sentir o rosto esquentar até as orelhas e ignorou a questão sussurrada:
— Essa merda de guerra não vai atrapalhar. Temos planos, lembra? — silenciou e engoliu o gemido de dor, cada respirada era um sacrifício. Os olhos selvagens fixos na entrada da caverna, já não temendo o retorno dos inimigos. O perigo era muito mais traiçoeiro e indefensável: a neve fria que os rondava ou os ferimentos que injuriaram ambos?
O fogo da pequena fogueira afastava o frio por ora, ajudando a preparar o coelho da neve que, no final das contas, nenhum dos dois conseguiu comer. Conquanto os ferimentos, principalmente o de Shino, era algo que Kiba não sabia lidar.
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