Misconception
4 Cartas de Casa
Notas iniciais
Campo de Quadribol, Sábado, 9:45 a.m.
Já era a quinta volta que eu dava no armário de vassouras depois que todos saíram de lá. Em nenhum momento – desde o teste que Beatrice arranjou para mim – fiquei nervosa. Nem no teste, nem no resultado da seleção, nem nos treinos. Mas algo ali estava me apertando à boca do estômago como se eu fosse botar meu café para fora a qualquer momento. Eu nunca liguei para qualquer pressão que caísse sobre mim, mas quando eu mesma me pressionava, era extremamente torturante, e nada saía conforme deveria ser. Fora muito fácil responder ao comentário sujo de Crawford, mas engolir aquelas palavras fora desconfortável, e eu não irei digerir tão cedo ao menos que eu entre naquele campo agora e faça-o engolir cada uma de suas palavras.
— Ledger, o time já está entrando – gritou Hooch do lado de fora.
— Estou indo – gritei de volta.
Joguei uma ultima água no meu rosto e respirei fundo, mas toda a minha confiança já havia se esvaído de mim àquela altura. Saí do banheiro respirando fundo e peguei a minha vassoura. Ela já era velha e nem voava tão rápido e alto como as do restante do time, mas eu não a trocaria por nada, foi a que meus pais me compraram em meu primeiro ano em Hogwarts e eu queria ter pelo menos um jogo com ela.
Juntei-me ao resto do time e nos posicionamos em um meio círculo de capas verdes, sendo completados por outro meio círculo de capas azuis. O jogo seria contra os Corvinos, e durante toda a semana correram boatos de que o time da Corvinal estava melhor do que nunca. Claro que me lembrar dessas informações só deixou-me mais apreensiva em relação ao jogo. Montamos em nossas vassouras dando um impulso para cima e mantendo a mesma posição mais uns metros acima. Hooch abriu a pequena caixa no centro dos dois times e os dois balaços foram lançados, logo depois a goles e em seguida o anuncio dos alto-falantes deu início ao jogo: o pomo de ouro já foi lançado.
Avancei em direção aos dois artilheiros da Corvinal que arremessavam a goles entre si. Após um tempo e dois gols que totalizaram um placar de vinte a zero para eles, consegui recuperar a goles para o time da Sonserina, lancei para Lerman, que numa troca de arremessos extremamente calculadas com Elliott, marcaram cinco gols. Os batedores da Sonserina jogavam com uma nítida determinação de levar pelo menos três corvinos para a enfermaria, mas tampouco os batedores da Corvinal deixaram barato, e estava sendo cada vez mais difícil para mim me manter em cima da vassoura enquanto me desviava rapidamente. Olhei para cima e avistei Malfoy procurando atentamente com os olhos algum sinal do pomo, me aproveitei de sua concentração para ignorar totalmente o que ele mais odiava na minha estratégia de jogo e voei para a mesma altura na qual ele se encontrava. De lá, Elliott me avistou e lançou a goles para mim, fiz sinal para que Lerman voasse em direção ao gol e esperasse o retorno do meu arremesso. Com força lancei a goles através do aro do meio e no segundo seguinte Lerman estava lá para receber a goles, arremessando-a para Elliott que marcou o próximo, fazendo com que a torcida emendasse uma comemoração na outra. Entreolhamos-nos e percebemos que ali havia sido montada uma nova estratégia, que estava nos rendendo muitos pontos. Subi ainda mais com a vassoura. Oito, nove, dez gols marcados e em nosso placar já mostravam cem a vinte para nosso time.
“Parece que Malfoy avistou o pomo e agora ele está em uma disputa séria com Allen, qual dos dois conseguirá levar a vantagem ao time?” A voz do locutor me fez pensar na possibilidade de não conseguirmos o pomo, e entre minhas reflexões e a disputa entre os apanhadores, os outros dois artilheiros do meu time marcaram mais sete pontos, quando finalmente segurei a goles mais uma vez e a lancei contra o aro mais alto atingindo minha jogada que analisei com precisão, escutei o sino tocar anunciando o fim de jogo.
“Allen derrubou Malfoy e apanhou o pomo de ouro” anunciou o locutor, levando a torcida da Corvinal à loucura, antes de terminar sua frase: “Porém, Charlotte Ledger marcou o décimo oitavo gol antes que Allen apanhasse o pomo, o que deu a Sonserina uma vitória de cento e oitenta a sento e setenta.”
E a arquibancada foi à loucura, uns praguejando, outros gritando, e eu imóvel na minha vassoura ainda no meio do campo, analisando cada coisa que acabara de acontecer.
— Ledger, isso foi incrível – disse Lerman se aproximando de mim com sua vassoura.
— Não teria sido incrível se vocês não estivessem tão atentos às nossas estratégias – comentei sorrindo – obrigada, rapazes.
— Quero ver quem vai discordar de que você é uma vitória garantida – pronunciou-se Elliott.
— Sabemos que não sou – falei ainda em um tom simpático.
Olhei para baixo e vi Malfoy sendo guiado por Hooch e Pomfrey, e imaginei que ele havia se machucado feio com a queda da vassoura. Mas afastei a preocupação desnecessária e Lerman interrompeu meus pensamentos.
— Venha, vamos comemorar, deram um jeito de levar um barril de cerveja amanteigada para as masmorras. – ele disse sorrindo e seguimos em direção ao castelo.
Quando eu estava a adentrar nosso salão comunal, uma voz lenta e um tanto quanto potente me fez parar no lugar.
— Senhorita Ledger – disse e então virei, me deparando com Snape.
— Professor Snape! – exclamei falsamente – Algo de errado?
— Eu não perderia o meu tempo se não houvesse algo de errado –ele falou quase que revirando os olhos – o diretor gostaria de vê-la.
— O que eu fiz? – perguntei enquanto ele me guiava para o andar de cima – Olha professor, o senhor pode soltar o meu braço, esse caminho eu sei de cor.
— Quieta, Ledger, se apresse – ele falou soltando meu braço por fim e me acompanhando.
— Professor? – perguntei enquanto esperávamos as escadas pararem de se mover – Você viu o jogo de hoje?
— Eu estava vendo, senhorita, até ser advertido de que uma aluna de minha casa havia quebrado regras, por que será que não duvidei que fosse você?. – ele respondeu e um frio me percorreu a espinha.
— Que pena – respondi ignorando a apreensão que eu sentia – foi um ótimo jogo, ganhamos sem capturar o pomo, sabia?
— Gota de Limão – Snape disse para a entrada da sala do diretor, abrindo a passagem e ignorando totalmente o que eu havia dito.
Subi as escadas que já conhecia um pouco mais do que deveria, e adentrei a sala grande e repleta de livros do rodapé ao teto. Lá estavam me esperando a professora Minerva, o diretor Dumbledore, Crawford e o professor Snape logo atrás de mim. Engoli seco ao ver a expressão da professora Minerva como quem reprovava completamente o que acontecia, mas logo respirei aliviada ao ver Dumbledore totalmente indiferente a minha presença.
— Bom dia professores – cumprimentei sorrindo e me limitei a sorrir ironicamente para Crawford.
— Sente-se, senhorita Ledger – pediu Minerva apontando para uma larga poltrona ao meu lado e assim o fiz – A senhorita poderia confessar diante de nosso diretor e do professor Snape o ocorrido com o senhor Crawford?
— Por que precisamos que o professor Snape esteja aqui? – perguntei.
— Eu é quem irei decidir qual a sua punição, Ledger. – ele respondeu friamente.
— A punição já é minha? O senhor nem sabe a história! – respondi injustiçada.
— Por favor, senhorita – falou Minerva – vá direto ao ponto.
Bufei, e antes que eu contasse desde o início o ocorrido com Crawford, o covarde se pronunciou.
— Ela me azarou, professor! – falou o menino apontando para mim, o que fez minhas bochechas esquentarem de raiva.
— Qual azaração foi feita, senhorita Ledger? – Snape perguntou e todos fixaram a atenção em mim mais uma vez.
— Saco escrotal gigante — eu falei sem cerimônias dando um sorriso entre dentes para Crawford – mas pararemos por aí ou eu terei a chance de explicar o motivo? Tenho certeza que o senhor Crawford não contou tudo.
— Vá em frente. – disse Minerva um pouco sem graça mas ainda autoritária.
E então eu contei todo o desenrolar do acontecimento, desde os comentários mais sujos que ele fez ao meu respeito até como eu consegui o azarar sem que ninguém percebesse. Em vários pontos da historia a professora nos olhava aterrorizada e Snape mantinha a postura prestando a atenção com aquela cara de tédio insuportável que ele tinha. Já Dumbledore, em alguns momentos levantava as sobrancelhas surpreso, como quem tinha visto algo super interessante ou criativo. No final de todo o discurso, Crawford me olhava com ódio e eu mantive minha postura inabalada com satisfação por tê-lo deixado com mais raiva ainda.
— Receio que a senhorita Ledger não poderá participar do próximo jogo da Sonserina. – falou Snape e Crawford comemorou – E o senhor Crawford não está mais responsável pelo cargo de Artilheiro reserva. A Professora McGonagall ficará encarregada de ver quantos pontos a casa perde pela postura infantil dos dois. Agora podem se retirar.
E Snape se dirigiu a saída, sendo seguido por McGonagall. Crawford e eu caminhamos em passos lentos logo atrás, não deixei de lhe oferecer o meu melhor sorriso sarcástico e sussurar um “continue se esforçando” para que só ele ouvisse.
— Senhorita Ledger – Dumbledore chamou, me dando um quase susto.
— Senhor? – perguntei e ele fez sinal para eu me sentar novamente.
— O senhor pode voltar para seu Salão Comunal, senhor Crawford. – ele disse para o garoto que ainda espiava de canto até que a porta se bateu.
— Soube de seu desempenho no jogo hoje, senhorita Ledger, meus parabéns. – ele falou como se eu não tivesse acabado de contar uma confusão enorme.
— Obrigada, mas não fiz isso sozinha. – respondi sendo modesta.
— É uma pena que não vá poder participar do próximo jogo. – ele falou cordialmente.
— Uma pena mesmo, mas valeu a pena. – falei sorrindo na esperança dele entender que eu não falava sério.
— Eu sei que valeu, mas tome mais cuidado da próxima vez. – ele falou como quem soubesse que eu não iria parar por ali e isso me arrancou um sorriso.
— Bom, professor, eu tenho que ir. Preciso avisar Malfoy que ele terá que escalar alguém para me substituir. – conclui me levantando.
— Creio que ele ainda esteja na ala hospitalar, mas avise-o mesmo assim – ele disse sorrindo desconfiado – e juízo, senhorita.
— Irei me cuidar, professor, obrigada. – afirmei por fim e saí de sua sala.
Ala hospitalar, Sábado, 12:30 p.m.
— Com licença, Madame Pomfrey? – entei fazendo silêncio e caminhando até sua mesinha.
— Não é hora de visitas, senhorita. – ela falou não prestando muita atenção em mim.
— Ah, eu sei que não, mas o diretor está ciente de que vim, preciso falar com Malfoy. – falei com convicção suficiente para que ela me olhasse – Ele está por aqui?
— Ultima maca na esquerda, não falem alto. – ela concluiu e eu segui até o local indicado.
As cortinas estavam fechadas, então tomei a liberdade de colocar só a cabeça para espiá-lo.
— Achei que estivesse dormindo – falei assustando quando ele me encarou com uma cara amarrada.
— Não estou – falou friamente.
— Como está o seu braço? – perguntei notando que estava enfaixado.
— Já não dói tanto – ele falou dando de ombros – sente-se.
Então eu entrei e me sentei na cadeira um pouco afastada da maca, em silencio esperei que ele continuasse.
— Foi um bom jogo – ele falou olhando para o braço machucado.
— Eu arrasei muito. – sorri empolgada fazendo-o revirar os olhos – Vai, não tem ninguém aqui para te ouvir admitir que eu jogo para caralho.
— Que vocabulário chulo, Ledger, até mesmo para você. – ele me repreendeu.
— Aposto que você não reclamou dele aquela noite. – foi minha vez de dar de ombros.
— Então você se lembra de algo? – ele perguntou arqueando as sobrancelhas.
— Nadinha... – fiz uma cara de pena bem sarcástica – Mas é mais ou menos sobre isso que eu vim falar.
— Achei que esse assunto havia morrido. – ele falou me lembrando de minhas palavras.
— E morreu! – dessa vez eu o repreendi – Mas depois que o boato se espalhou pelo time, eu tive uma briga muito feia com Crawford, que terminou em uma azaração que ele só percebeu depois, e...
— Ledger, eu nem te conheço mas você só faz merda – ele falou esfregando os olhos – continue.
— Nada demais! Ele me dedurou, e bem, eu fui suspensa do próximo jogo. – falei de uma vez.
— Você o que? — ele perguntou quase gritando – Ledger, você precisa pensar que tudo de errado que você faz vai refletir no time, por que você procura confusão? Terei que colocar o babaca do Crawford em seu lugar.
— Então, aí entra o outro problema. – falei sem jeito – Eu não o deixaria sair ganhando nessa, então contei o que ele fez. Os professores acharam conveniente o tirarem do time. Então tecnicamente você vai ter que escalar outro artilheiro.
— Caramba, Ledger, custava você ficar calada? – ele falou dessa vez se alterando – Eu terei que fazer outro teste e outra seleção só porque você não sabe controlar esse seu geniozinho. Você é muito atrevida para uma...
— Uma o que, Malfoy? – perguntei alterada e me levantando – Uma sangue-ruim? Vá em frente então, fale o que quiser, esqueça mesmo toda a relação de respeito que eu confiei que poderíamos estabelecer. Mas escute uma coisa – levantei meu dedo em riste para ele – me custava muito eu ficar calada. Me custava minha reputação, e também a minha dignidade. Eu me recuso a andar por aí sendo tachada como a garota que entrou no time porque deu para o capitão, quando na verdade eu entrei por ser melhor. Não, eu não podia ficar calada, e nem vou se você quer saber, meu “geniozinho” – fiz aspas com as mãos – não pode ser controlado. E no momento ele está mandando você arranjar um artilheiro novo para o time. Eu estou fora.
Saí pisando forte sem dar quaisquer chances para ele rebater, eu precisava apenas sair dali e descansar, e também refletir sobre o que eu tinha acabado de fazer.
Dormitório feminino da Sonserina, Sábado, 8:30 p.m.
O dormitório estava vazio, e eu agradeci mentalmente por aquilo, pois tive que passar boa parte da tarde comemorando uma vitória que eu já nem me importava mais sobre. Depois de conseguir sair aos poucos, tomei um banho gelado e deitei em minha cama para comer uns doces que comprei ainda na viagem de volta as aulas. E então me lembrei que havia recebido uma coruja de meus pais pela manhã, o que era muito raro, pois eles ainda não estavam habituados com tal mecanismo. E eu não poderia culpá-los por isso, normalmente quando eu precisava muito me comunicar com eles, eu usava uma das lareiras do salão comunal, era um pouco mais trabalhoso de certo modo, mas eu sabia que suas respostas seriam bem mais instantâneas do que esperar uma resposta via correio coruja. Peguei o longo pergaminho escrito e reconheci a caligrafia de meu pai, o que me fez sorrir com um pouco de saudades.
“Olá, querida, aqui é o papai, está tudo bem por aí? Como foi o retorno das aulas? E como seus testes estão indo? Sabe, eu não compreendo direito como isso funciona ainda, mas recebemos uma carta da escola elogiando seu desempenho nos NOM’s, e mesmo sem saber muito o que é, eu e sua mãe ficamos orgulhosos de saber que você é tão dedicada e responsável ao ponto de conseguir isso tudo por conta própria. Você sempre me deu muito orgulho, e eu sempre dizia que o mundo era seu, e eu não poderia estar mais convencido disso: o mundo é seu, Charl, e a prova disso é você conseguir se virar sozinha em um universo tão diferente e mágico. Na carta também nos contaram que você entrou para o time de Quadribol, estamos tão felizes por você! Sua vassoura ainda está boa? Sabe, compramos para você em seu primeiro ano, se não estiver mais funcionando para o esporte, daremos um jeito, não se preocupe. A sua mãe está muito triste, Charl, por isso eu estou escrevendo para você. O seu avô está piorando um pouco, semana passada ele perguntava de sua avó a cada dez minutos, e sempre chorava quando cuidadosamente respondíamos. Ele já não tem tantos momentos lúcidos como antes, e isso está deixando um clima muito triste em nossa casa, sentimos falta de sua presença aqui, você virá passar o natal conosco? Sabemos que gosta de passar em Hogwarts, mas não se sabe até quando poderá passar um natal com seu avô, se quiser, pode trazer sua amiga Beatrice para cá, ficaríamos honrados em ter a casa um pouco mais cheia e feliz. Filhota, o papai te ama muito, e a mamãe também. Ela pediu para que eu não te contasse sobre seu avô, mas seria injusto demais esconder de você como se você fosse uma criança. Você é quase uma mulher, e tenho certeza que enfrenta cada situação da sua vida como uma adulta. Isso é o que eu mais admiro em você. Nunca perca sua essência, Charlotte. Por ninguém. Eu te amo
Com amor,
Papai.”
Quando eu terminei a leitura, já estava secando minhas lágrimas que insistiam em sair. O meu pai era meu melhor amigo, e de longe a pessoa que eu mais amava e admirava no universo, justamente pelo fator do amor e admiração ser totalmente recíproco. Não pude deixar de me abalar muito sabendo do estado de meu avô, o qual também eu era muito apegada, e posso ter ideia de como minha mãe estava mal, afinal, era o pai dela e ela é tão apegada a ele como eu sou apegada ao meu pai. O vovô já não estava bem há anos, e sabíamos que ele chegaria nesse ponto, mas nunca queríamos acreditar que chegaria tão rápido. Enxuguei as lágrimas mais uma vez e comecei a escrever a carta para casa.
“Papai e Mamãe, obrigada por me escreverem, eu adoro quando vocês se arriscam em escrever para mim, isso é muito legal da parte de vocês, obrigada pela preocupação e pelas palavras de carinho. O retorno das aulas foi bom como sempre, e os testes estão indo bem, inclusive meu professor de Poções disse que fui esplendidamente bem em sua matéria (palavras dele) e me chamou para o seu clube de melhores alunos, que honestamente me parece mais uma coleção idiota e injusta. Ainda não fui em nenhuma reunião, mas soube que alguns alunos de meu ano já foram e disseram não ser nada demais. Hoje tive o primeiro jogo de Quadribol para valer, e jogamos muito bem, quando tivermos mais tempo de nos falar, eu explico passo a passo para vocês. A vassoura supriu muito bem minhas necessidades, papai, não se preocupe com isso, não precisarei de uma nova. E como vocês estão? E como o vovô está? Eu já estou com saudades, e pode deixar, no natal estarei aí com vocês para nos divertirmos bastantes, e sim papai, eu posso levar mais daqueles sapos de chocolate que vocês gostam. Eu amo muito vocês, obrigada por todo o apoio que vocês me dão e por acreditarem que eu sou uma filha tão responsável e dedicada. Se cuidem, e cuidem bem do vovô.
Com amor, Charl.”
Logo que acabei de escrever, envelopei a carta e guardei dentro da gaveta da minha mesinha, observei por uns minutos o céu que já estava repleto de estrelas, e comecei a pensar que, pela primeira vez, eu não estava sentindo aquela sensação de estar em casa. Hogwarts sempre me proporcionou a sensação de um lar, de liberdade e independência, mas dessa vez, tudo parecia desconfortável. Talvez pelo fato de tudo o que eu mais queria neste momento era estar em casa. Na minha casa.
Umas risadas e barulhos de passos invadiram o quarto e também a minha concentração. Passei as pontas dos dedos em meus olhos para me certificar de que não estavam marcados e me virei para a direção dos passos.
— Charlotte? – era Pansy e mais uma menina que não era do nosso ano nem do nosso dormitório – Está tudo bem?
— Sim, está. – falei dando um sorriso ridiculamente não convincente até para mim
— Tem certeza? Quer que eu chame a Beatrice? – ela fez sinal para que a outra garota saísse do dormitório e sentou na cama ao lado da minha mesa.
— Não precisa, e ela também não ajudaria – respondi mostrando que eu estava agradecida pela preocupação. – obrigada, Pansy.
— Foi o otário do Crawford outra vez? Ledger você por acaso estava saindo com ele antes? – ela disparou em perguntas que eu só consegui rir.
—Não! – alterei a voz para mostrar o quão absurdo aquilo era – Não mesmo, eu jamais sairia com gente do tipo dele. Credo.
— Mas você saiu com o Draco, e sabe, ele não é dos mais cavalheiros do mundo. – ela disse me arrancando outra risada.
— Não mesmo. Mas eu não saí com Malfoy, foi só uma coincidência do destino e um pouco de doses a mais do que não deveria. – falei me justificando e notando um leve desconforto na expressão dela. – Você gosta dele, Pansy?
— Ah, Charlie, eu nunca... – ela fez uma pausa – Eu posso te chamar de Charlie?
— Sim você pode – ri pelo nariz e fiz sinal para que ela continuasse.
— Charlie, eu nunca esperei que eu e ele poderíamos dar em algo. Nunca tivemos nada nem definido. O Draco não é o cara que vai querer se relacionar com alguém agora, justamente porque sua vida já está toda traçada para ele se preocupar primeiro com o seu futuro e depois com a sua família. Mas... – ela desistiu de falar.
— Mas você gosta dele? – tentei ajudar sua conclusão.
— Mas gosto da ideia de que ele poderia desistir de tudo e colocar a felicidade dele mesmo na frente. – ela deu de ombros.
— Você acha que ele não merece o futuro que planejam para ele? – perguntei confusa.
— Ninguém mereceria. – ela falou com pesar – Nem mesmo ele.
— Você já quis ser a responsável por essa felicidade? – perguntei sem rodeios.
— Ah, claro que eu quis – ela respondeu vagamente – nós crescemos juntos, em todos os sentidos,aprendíamos as coisas sobre a vida e descobríamos um com o outro o que isso era de fato, tínhamos uma intimidade, mas nada que o fizesse ficar, é como se ele não visse qualquer significado no que tínhamos, então simplesmente paramos de ter. Eu não acho que ele vá encontrar mudança em alguém.
— Nem eu... – falei distante dando um fim da conversa e levando um susto com o estrondo da porta do dormitório se abrindo.
— Ah, encontrei vocês – disse Beatrice pousando os olhos em mim – Charlie! O que aconteceu?
— Eu já estou bem – falei sorrindo para ela.
— Que bom! – ela disse me oferecendo outro sorriso. – Problemas em casa?
— Vovô... Não está em seus melhores dias. – respondi simplesmente dando fim a possibilidade de mais explicações.
Beatrice entendeu meu jeito sutil de fugir do assunto e logo começou a contar de um garoto da Corvinal que ela conheceu no jogo de hoje que tinha a chamado para sair, e deste ponto a conversa de estendeu a noite toda, até uma hora que a única coisa que conseguíamos fazer era acariciar a barriga gorda e quentinha do Alfajor, e aos poucos trocar de roupa e ir dormir.
Grande Salão, Domingo, 09:30 a.m.
— Houve outra confusão no Ministério, envolvendo comensais aparentemente – disse Beatrice baixo folheando O Profeta Diário.
— Beatrice, não quero falar sobre isso agora no café da manhã – disse enquanto comia um pedaço de minha torrada – na verdade eu nunca quero falar sobre isso.
— Desculpa, é que eu acho interessante saber de como o mundo está fora dos portões de Hogwarts – ela falou mudando a página e lendo rapidamente as outras manchetes.
— Muito fácil: só irmos para Hogsmeade hoje à noite para testar a segurança daqui com vários comensais a solta. – falei baixinho para que só ela escutasse e ela soltou uma risada
— Você está mesmo a fim de sair hoje? – ela questionou – Temos teste de Defesa Contra as Artes das Trevas amanhã.
— Você virou uma aluna aplicada então? – falei com deboche arrancando outra gargalhada de minha melhor amiga.
— Você é Charlotte Ledger? – senti alguém me cutucar e quando me virei para trás deparei-me com um grifinório, provavelmente uns anos mais novo, ofegando como se estivesse correndo por todos os corredores do castelo.
— Sim, quem é você? – perguntei ainda com o cenho franzido.
— Ethan Morton, mas isso não importa agora. – ele falou se acalmando – Estão te esperando na sala do professor Dumbledore.
Eu não esperei o menino acabar de falar. Apenas me levantei e cruzei o salão inteiro correndo, estava tão desnorteada que senti meus olhos ficando marejados. Não poderia ser nada além de noticias de casa, e nunca seriam boas notícias vindas dessa maneira. Não com essa urgência. Virei os corredores com a maior pressa que pude e os degraus das escadas pareciam não ter fim, quando cheguei por fim na torre o pior pressentimento do mundo tomou conta de mim, e era como se mil vozes em minha cabeça dissessem para eu não adentrar aquela gárgula. E foi só quando a minha visão foi ficando turva e perdida, que ouvi passos correndo em minha direção.
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