Mirrors ... Memories
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Hoje eu iniciava um novo ciclo.
Deixei para trás a menina estudiosa, para ser apenas uma mulher. Claro que jamais desviarei meu foco original, mas posso me permitir algumas proezas e sair com esse microvestido esvoaçante, essa boca vermelho sangue e com meu cabelo completamente liso, provava isso.
Eu estava radiante. –Nossa, isso é realmente apenas uma reuniãozinha? — gabou-se Rosie ao checarmos a praça lotada de pessoas.
Finalmente eu iria me socializar, finalmente eu poderia ter novos amigos, amigos esses que me entenderiam, afinal, falaríamos a mesma língua e eu não seria taxada de CDF.
O lugar era abarrotado de árvores, o que deixava o ambiente mais fresco, quero dizer, tirando o cheiro excessivo da fumaça dos cigarros por ali, eu só enxergava pontinhas vermelhas por todos os lados.
–Preciso de uma bebida – puxei Rosie pela mão e fui em direção á uma placa com os dizeres: BEBIDAS AQUI.
–Por favor, uma Coca-Cola ou um guaraná – pedi ao rapaz com olhos gentis e 300 brincos na orelha.
Rindo, ele nos entregou duas latas – Bem vindas á cidade grande garotas – e com uma piscadinha se afastou.
–Tô passada – queixei – Está tão na cara assim que somos lá do interior, do interior, do interior?
–Não exagera Bella – pegou uma lata e abriu – Você tem apenas um sotaquezinho de nada – e bebeu.... e cuspiu tudo.
–Cerveja Bella? – limpou a boca com a mão – Seu irmão me mata se souber que bebi isso e pior, deixei você beber.
Com uma habilidade digna de uma eximia Boêmia, abri a lata e dei um gole na cerveja gelada, não era a primeira vez que eu fazia isso e ninguém precisava saber, garotas certinhas também tem seus segredos.
O liquido desceu rasgando em minha garganta seca, era uma mistura doce e amarga, estava deliciosa – Rosie, merecemos isso hoje, não nos tire o privilégio de brindarmos nossa nova etapa de vida – ergui minha lata e aguardei.
–Pelos próximos anos onde eu terei que conviver com você todos os dias e não com seu irmão – sem hesitar tocou sua lata com a minha e bebeu um gole generoso, sem regurgitar.
Uma voz doce e rouca chegava a meus ouvidos juntamente com um som gostoso de violão, a letra de “O Passageiro” do Capital Inicial me transportava para dimensões por mim desconhecidas.
♩♫Entre no meu carro, nós vamos rodar. Seremos passageiros à noite. E veremos a cidade em trapos. ♪♫
Cantei junto com o desconhecido cantor, era impossível não cantar. Cresci ouvindo rock nacional, meu irmão ainda guardava os LP’s do Legião e adorávamos ouvir.
–Ei – uma mão puxou-me com força – Onde você se meteu? – perguntou uma Rosalie enfurecida. Olhei pra ela como se ela tivesse duas cabeças.
–Eu nem saí daqui Rosie – bebi um gole e ainda estava cantando na minha cabeça.
–Como não Bella? Eu estava falando com você e de repente ela chegou e quando vi, você tinha sumido. – notei que o “ela” estava ao seu lado, tinha a metade do tamanho da Rosie e parecia uma boneca.
–Acho que divaguei, ouvi um som e devo ter saído procurando o dono da voz – dei uma piscadinha esperta pra loira e ela sorriu.
–Alice essa é Bella, minha cunhada louca que te falei – a pequenina estendeu a mão em minha direção.
–Tenho certeza que ela quis dizer linda ao invés de louca, prazer Alice – a puxei gentilmente pela mão e dei-lhe um abraço.
–Tenho certeza que sim Bella – uma voz incrivelmente gentil saiu daquela pequenina – Ela me disse que vocês chegaram a pouco de viagem, espero que a cidade as agrade.
–Já está agradando – disse sorrindo – Esta sendo muito divertido lidar com tantas coisas ao mesmo tempo, tantas pessoas, carros, prédios... Isso é uma loucura.
–Logo vocês se acostumam e quando menos perceberem estarão com sotaque Paranaense – rimos juntas e a conversa foi fluindo facilmente.
A voz agora embalava outra canção, Engenheiros do Hawaii era a vez, novamente cantei junto e fui empurrando as meninas em direção da voz. Elas não paravam de tagarelar sobre roupas e Shoppings, e eu queria ver onde estava à galera cool.
O palco improvisado já deve ter sido um coreto muito lindo, mas aparentava estar abandonado. Pelo menos a iluminação no local era excelente, várias pessoas rodeavam o local e estavam sentadas no chão mesmo, cantando junto, aplaudindo e foi então que eu segui o som...
–Nós dois temos os mesmos defeitos. Sabemos tudo a nosso respeito. Somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos. – cantei junto o refrão e suspirei com aquela voz rouca.
Meus olhos não enxergavam bem o rosto na distância em que estávamos, mas ele tinha um porte físico legal, eu acho. Era magro, estava com uma camiseta branca com símbolo do “Aborto Elétrico”, uma bermuda clara e um boné preto virado pra trás.
–Lindo né? – perguntei Alice ao meu lado.
Eu apenas suspirei e balancei a cabeça. Nunca tive vontade de ter um namorado e nem nada disso, mas eu adoraria ter alguém que cantasse com essa voz em meu ouvido.
–Vamos lá meninas, vamos conhecer a galera – e assim Alice nos enfiou entre todo mundo, que agora estavam de pé dançando loucamente algum tipo de funk ridículo, notei que agora o som saía de um carro que estava parado na entrada da praça.
–Onde você estava? – perguntou uma loira assim que chegamos próximas ao “palco”.
–Fui conhecer novas pessoas, recepcionar alguns calouros, me socializar sabe – Alice respondeu em tom irônico – Rosie, Bella, essa é Irina – ambas sorrimos e demos um olá tímido. “Garotas do interior”.
–Olá meninas, sejam bem vindas á UFPR e a Curitiba, acredito que não são daqui – ela disse isso e nos mediu de cima a baixo – E se precisar de qualquer coisa – abriu um sorriso gigante – A anã de jardim está à disposição de vocês – abraçou uma Alice enfurecida de lado.
–Já pedi que não se dirigisse a minha irmã assim Irina – ai meu Deus – E agora não estou mais pedindo, estou ordenando – essa voz... Ah! Essa voz era ainda mais deliciosa quando estava brava.
Agora a voz e o corpo tinham um rosto e senhor, minhas vistas foram abençoadas quando encararam aquela face.
Ele estava meio de perfil, seu maxilar trincado demonstrava raiva e ele mantinha um olhar fixo na loira sem sal. Sua pele era muito clara, quase translucida, um leve rosado em sua bochecha e uma sobrancelha grossa muito bem desenhada. Não pude ver a cor de seus olhos e vendo-o apenas de perfil, consegui desenhá-lo perfeitamente em minha mente.
–Olá meninas – disse uma voz ainda não identificada por mim, meus olhos ainda estavam sob ele – Vocês devem ser calouras, bem vindas, sou Tânya... – parei de ouvir quando ele me olhou, seus olhos de uma tonalidade verde indescritível pousaram sobre mim e me analisaram. Sua boca incrivelmente vermelha estava entreaberta e suas bochechas estavam ainda mais vermelhinhas.
Ele era lindo!
–Bella ... – sua voz me chamava – Bella... – seus lábios clamavam por mim – Isabella – alguém gritou em meu ouvido. E estranhamente percebi que ele não estava me chamando, chacoalhei levemente a cabeça e olhei ao lado. Ah! Sim, Rosalie estava aqui e onde estávamos mesmo?
–Bella essa é Tânya, uma das veteranas, amiga de Alice e namorada do rapaz ao lado – e foi como se uma balde água gelada estivesse descendo por minha espinha em pleno inverno, amuei e olhei a Loira na frente da Rosie. Ela era muito bonita, mas eu tinha meu valor e era mais eu.
–Meninas esse é o Edward – ele cumprimentou Rosie com um aperto de mão e o mesmo comigo. Mas quando sua mão tocou a minha, por uma fração de segundo eu desejei ser a namorada dele, desejei tocar aquele rosto, ver se os pelos daquelas sobrancelhas eram tão macios quanto aparentavam, desejei conhecer o seu cabelo e viajar meus dedos nele, desejei ter aqueles olhos me encarando quando aquela boca estivesse cantando, desejei que suas canções fossem direcionadas todas para mim.
–Sou Isabella – disse num fio de voz, preferi dizer meu nome inteiro para não ser motivo de chacota como mais cedo com o Eric – Mas pode me chamar de Bella.
–Olá Bella – ouvir meu nome ao som da sua voz me fez flutuar – É um prazer conhece-las – ele sorriu para nós e juro que eu o vi dando uma piscadela para mim.
–Ei Bella, que bom que veio – a voz de Eric insultou meus ouvidos – Dá cá um abraço garota – e o rapaz magricela era um tanto forte, pois me levantou e me apertou no ar.
Quando olhei de novo, estavam apenas Alice e Rosalie, Edward e as garotas estavam já de costas caminhando entre as outras pessoas.
Poxa!
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