Mirror of the soul
10 10. Interações
Notas iniciais
O reflexo do seu corpo nas ondas do lago negro deixava Meredith em uma batalha interna ao notar as vestes: a saia do uniforme era um pouco mais curta do que as das outras meninas, gerando olhares escandalizados e olhadas maliciosas. Mas olhando por outro lado, quem se importava? Nenhum professor havia lhe chamado atenção, e a bruxa não podia dizer que não gostava da atenção voltada para si. Seu corpo, suas regras.
— E ainda temos o baile de Halloween, que está se aproximando. Na verdade, eu tenho. — Minerva suspirou, parecendo cansada só de imaginar. — Como monitora, preciso organizar junto com os outros. Não que eu esteja reclamando, mas...
— Ok, eu entendi. Você está frustrada com tanto trabalho. — a Helinor a interrompeu, encarando o céu acima delas. — Agora me diz: quando é a primeira viagem à Hogsmeade?
A ruiva franziu a testa, pensativa. Meredith tirou aquele momento para observar os arredores: tudo a fazia se lembrar da sua época, tirando o fato que tudo era mais comportado. Os estudantes definitivamente não se misturavam com os outros das casas rivais.
— No primeiro fim de semana, é claro. Por que? Está com saudade do seu tio?
Tio.
Sim, lá no fundo Meredith poderia estar com saudades de Aberforth. Talvez fosse o espaço que o bruxo a dava, a permitindo pensar claramente sobre seu plano. Diferente do irmão.
— Algo assim. — ela sorriu ao encarar a ruiva, lembrando da bruxa no futuro, severa. — Bom, parece que vou ter que esperar mais dois dias. Agora eu preciso ir.
Se levantando, a bruxa pegou sua bolsa sobre o olhar da Mcgonagall.
— Pensei que você não tivesse aula agora.
— E eu não tenho. Preciso resolver algumas coisas. — lançando-lhe um sorriso, Helinor se afastou alguns passos. — Foi legal passar um tempo com você, Minerva. Te vejo por aí.
E virou-lhe as costas, escutando a risada incrédula da outra garota.
Minerva estava certa sobre a confusão, Meredith havia agido imprevisívelmente durante a semana. A bruxa passava um período curto de tempo com os três grifinórios que conhecera, tomando o cuidado de não ser vista por seus companheiros de casa.
E no tempo que restara, ela vigiava Edwina. Não que Meredith se considerasse obcecada, mas ela precisava encontrar uma brecha no comportamento da garota para se aproximar. Qual outra forma ela poderia ganhar sua confiança a ponto da Turpin lhe dizer sobre as pesquisas do pai?
Helinor não estava brincando quando decidiu ignorar os problemas com Dumbledore e focar em seu plano. Por isso, cada mísero momento em que não estava em aula ou com os grifinórios, ela aproveitava para rondar a colega de casa, arriscando puxar conversa.
Era aquilo que estava pronta para fazer novamente quando se dirigiu a biblioteca, tendo em mente que era para lá que a outra bruxa ia quando precisava estudar após as aulas.
Meredith estava certa. Na primeira mesa, lá estava Edwina, cercada por livros e pergaminhos, porém, solitária em companhia. A bruxa que estava observando franziu a testa, não era a primeira vez que via a Turpin sozinha. Muito solitária, eu suponho.
Forçando um sorriso radiante, ela apertou a alça da bolsa, se encaminhando para a mesa da garota.
— Você realmente é um prodígio.
Edwina levantou a cabeça, mirando os olhos da outra garota. Uma careta se formou em seu rosto, e Meredith teve a impressão que ela estava aborrecida.
Não desiste. Ela precisa gostar de você.
— Obrigada, mas eu só estou fazendo o que todos deveriam fazer. — a Turpin voltou a sua leitura, ignorando quando a morena se sentou ao seu lado. — Você não está em aula?
— Não. Depois do almoço tenho adivinhação. — a voz de Meredith carregava um tom alegre e ela estava gritando por dentro com a cena patética que estava fazendo. — Aliás, eu não gosto muito dessa matéria. — riu como as garotas bobas daquele tempo faziam. — Vamos lá, quem pode saber o que o destino tem preparado? É tudo uma grande enganação.
— Hum.
Suspirando, a bruxa esperou por algo mais, porém, foi em vão. Gritando internamente para não desistir de ultrapassar o muro de pedras que era aquela garota, Meri abriu sua bolsa, tirando seu dever de casa.
Edwina apenas a encarou por alguns segundos, com a expressão séria.
Durante aquele tempo, a Helinor pensava em formas de interagir com a garota. Com a pena na mão e os olhos perdidos no pergaminho, ela quase não ouviu:
— Eu tenho que te entregar uma coisa.
Sua atenção foi rapidamente desviada para as mãos de Edwina, a mesma que estava tirando um livro da própria bolsa.
Ainda com a expressão fechada, ela a estendeu o livro.
Curiosa, a bruxa o pegou. Quando seus olhos se fixaram no título, um sorriso verdadeiramente radiante tomou sua face. Na capa," Os contos de Beedle, o Bardo " se destacava.
— Professor Dumbledore me pediu pra lhe entregar.
Surpresa passou pelo rosto da jovem, fazendo a Turpin erguer uma sobrancelha. Piscando, Meredith se recuperou do choque e se lembrou que receber um presente de tios era normal em uma família.
Tios.
Aberforth e Dumbledore eram sua família agora. E aquilo a assustava na mesma medida que a deixava aliviada.
— Obrigada por entregar. Ele disse algo mais?
— Apenas que você ia gostar. — a voz de Edwina estava cheia de suspeita.
Era de se esperar. Qual sobrinha ignorava o tio por uma semana inteira? Aparentemente, as pessoas já estavam notando.
Continuando a observar o livro, Meredith o tocou delicadamente. Algo parecido com ternura enchera seu coração naquele instante.
— Eu sempre quis este livro. Era um sonho de criança.
— Por que? É apenas um livro.
A Turpin a encarava, com a curiosidade estampada em seu rosto.
Meredith tirou os olhos do livro e a observou, se permitindo transparecer o que sentia.
— Quando se vive com medo da vida real, contos de fadas trouxa ajudam a ter esperança. — ela gesticoulou para o livro. — Mas quando se vive em um verdadeiro mundo mágico e ele é terrível, o que sobra? Meus pais tinham medo que eu perdesse a esperança quando tudo começou a dar errado e para não alimentar esse medo, me proibiram de usar magia desnecessária. — em parte, Meredith sabia que era verdade. As lembranças de sua infância passavam rapidamente em sua mente. — Tudo o que eu tinha era o que eles me davam, me permitiam. Cresci escutando as histórias infantis trouxa porque quando eu queria que fossem verdade, sabia que não eram.
Seus olhos ardiam com a vontade de chorar, mas ela se segurou. A indiferença nos olhos de Edwina cedeu lugar para compaixão e naquele momento, Meredirh percebeu que desde que chegara ali, era uma das raras vezes em que estava sendo verdadeira. Sem jogos. Sem máscara. Sem mentiras.
— Parece horrível.
A bruxa riu amargamente. Seu aperto no livro se intensificou.
— Parece não, é? Mas as vezes por mais horrível que pareça, pode ser bom. Eles fizeram tudo por mim, e eu os amo...amava muito. — Meredith pigarreou. — Bom, não que importe, mas eu sei ótimos contos trouxas. E algumas fábulas. — ela tentou um pequeno sorriso ao encarar a outra jovem. — Qual seu preferido?
Edwina parou para pensar. Assim como em Meredith, um pequeno sorriso se formou em sua face. Ela largou os pergaminhos, estendendo as mãos e agarrando o livro das mãos da outra bruxa.
— Depende. Eu adoro "Babbity, a Coelha e seu Toco Gargalhante", mas " A fonte da Sorte" foi o primeiro conto que o meu pai leu para eu dormir.
A menção do pai de Edwina a chamou atenção, a fazendo perceber que era a primeira vez que a bruxa falava do progenitor. Ela estava indo no caminho certo, pelo visto.
E assim ela continuaria, mesmo que tivesse que ser a primeira a abrir a porta para ganhar a confiança de Edwina.
— Toco gargalhante? Não sei não, Turpin. Mas A Bela e a Fera parece dar de dez à zero nessa história aí. — ela riu ao ver a expressão confusa da garota.
— A Bela e a Fera?
— Ah, doce Edwina! Parece que alguém vai ouvir algumas histórias trouxas.
Edwina revirou os olhos e Meredith riu. Por um segundo, imaginou que poderia não ser tão complicado se aproximar da garota. E nem tão ruim, aliás, Edwina Turpin parecia precisar de uma amiga.
Meredith também.
O único problema era: amizade nenhuma poderia ser mais importante que seu plano.
☆
Depois do almoço, — onde fora acompanhada por Edwina, ambas comentando sobre os contos de fadas trouxas. — Meredith migrou para a torre norte, onde teria aula de adivinhação. Foi uma surpresa para ela ao receber seus horários e perceber que Dumbledore havia incluído aquela matéria. Em sua época, Helinor não frequentava esta aula por opção. Qual motivo ela teria de adivinhar seu futuro se já sabia o que a aguardava?
Mas ali estava ela: sentada, encarando a mesa com toalha bordada e xícaras de chá acompanhadas de um bule. O que diabos era aquilo?
Ela se arrependia de não escutar Lucy resmungando sobre as aulas de adivinhação, no futuro.
Olhando ao redor, a garota notou que poucos alunos — assim como ela, azarados. — assistiam a aula. E como era uma aula optativa a partir do sexto ano, as casas se misturavam. A maioria era da Lufa-lufa, seguidos de três grifinórios e apenas um aluno da Corvinal: ela.
Seus colegas de casa deveriam ser espertos demais para aquela aula?
A bruxa não se sentiu tão deslocada quando um garoto da Sonserina entrou, ignorando todos. Com mais uma rápida olhada, ela teve certeza: apenas ela e o garoto não estavam em bando. E pelo o que parecia, a aula seria em duplas.
Ótimo, ela teria que interagir com mais pessoas.
Uma mulher que não parecia ser tão velha quanto Meredith imaginava, entrou na sala. Seus cabelos eram um emaranhado selvagem, mas que combinava com seus olhos azuis expressivos. Ela fazia a bruxa se lembrar da professora do seu tempo: Sibila.
— Boa tarde, meus queridos. Como foram as férias? Espero que bem. — os longos colares que ela usava balançavam a medida que seus braços abertos gesticulavam. — Estou vendo rostos novos. Muito bem, vamos lá! Eu sou Sabine Trelawney, a professora de Adivinhação.
Os alunos a encaravam, entediados. Pessoalmente, Meredith achou a mulher fora do comum para alguém da década de quarenta. Quase que automaticamente, a garota já gostara da mulher.
— Agora, como muito de vocês já sabem, façam duplas!
Sabine bateu palmas alegremente, sorrindo. A garota segurou uma risada ao encara-la, havia algo estranho naquela mulher que ela não conseguia apontar.
A cadeira ao seu lado foi arrastada. Virando sua cabeça para encarar a pessoa que sentara ao seu lado, as sobrancelhas da jovem se ergueram em questionamento.
O loiro que a encarara na aula de poções, na semana anterior, mantinha seus olhos na professora, parecendo frustrado. O mesmo garoto que a vira ser estúpida o suficiente para levantar o polegar, em um cumprimento.
Respirando fundo, Meredith pigarreou, abrindo seu melhor sorriso em seguida.
A atenção do loiro se desviou para ela, o reconhecimento passando por seus olhos.
— Oi.
— Oi...Você é a garota que sentou ao lado do Riddle na aula de poções, não é? — o bruxo franziu a testa, como se estivesse se lembrando do momento.
Tentando não revirar os olhos ao ouvir o nome do outro bruxo, ela apenas assentiu, as mãos cerradas embaixo da mesa.
Sabine começou a falar sobre a aula, mas Meredith estava mais concentrada no garoto. Algo nele gritava familiaridade.
— Meredith Helinor.
Ela estendeu a mão para o rapaz, em um convite para um aperto de mãos.
— Abraxas Malfoy. — ele respondeu, a surpreendo logo em seguida.
Abraxas levou a mão dela até seus lábios, depositando um suave beijo logo em seguida. Ela deveria saber que os costumes daquela década eram outros. Burra.
Ele soltou sua mão e ela a recolheu, tentando processar o fato que acabara de ter a mão beijada por um sonserino. Estranho.
— Respondendo sua pergunta, senhor Malfoy, sou eu sim, hum... do outro dia. — a bruxa não mencionara o gesto ridículo que fizera e ele pareceu entender o recado. — Parece que você é o único sonserino aqui. — mudou de assunto.
Abraxas balançou os ombros, como se não se importasse. Sibila estava passando nas mesas.
— Infelizmente. Posso dizer o mesmo de você, senhorita.
A bruxa o imitou, sorrindo.
Quando a professora Trewlaney se apromixou da mesa de ambos, o Malfoy mudou a expressão para uma de indiferença. Meredith se perguntou o motivo.
— Senhor Malfoy, fico contente em ve-lo retornar para as aulas deste ano. — a garota percebeu que não era isso que sua expressão dizia. — Quanto a você, senhorita Helinor, seja bem vinda! É demasiado agradável saber que a sobrinha de Dumbledore tem interesse na arte da adivinhação. Você deve ter puxado isso dele.
Meredith apenas sorriu forçadamente, sobre o olhar do bruxo. Sibila passou para a outra mesa, fazendo a garota suspirar.
O que ela queria dizer com você deve ter puxado isso dele?
(...)
" Pega-se um bule de chá, adiciona-se o líquido, logo depois o bebendo completamente até restar a borra. Deve-se sacudir três vezes com a mão esquerda, depois virá-la, de borda para baixo, no pires, esperar até cair a última gota de chá. Depois de todo esse procedimento, forma-se um desenho em forma de símbolos, que deve então ser interpretado cruzando com os dados a seguir do livro"
Meredith lia pela terceira vez, se certificando que estava fazendo tudo certo. Após beber como mandava as instruções, ela efetuou todo o processo, observando o desenho logo em seguida. O mesmo tinha a forma de um falcão.
Ao seu lado, Abraxas sacudia sua xícara, irritado.
— Um Malfoy adivinhando o futuro com a borra de chá! Um efeumismo imperdoável! — ele resmungava, lançando olhares de desprezo para a professora.
Helinor observara que o garoto era muito cabeça dura e orgulhoso. Nos minutos que ambos passaram conversando, ele havia sido encantador, mas ela era mais esperta que aquilo. Meredith conseguia ver o desprezo nos olhos azuis do sonserino ao encarar os lufanos e grifinórios. Ela estava acostumada a detectar o preconceito de longe e infelizmente, aquele garoto estava cheio dele.
O ignorando, a bruxa conferiu o livro, buscando a resposta para o desenho.
Seus olhos se arregalaram ao ler o significado, sentindo um arrepio sinistro. Era tudo o que ela não precisava!
— Um inimigo mortal. — Sabine apareceu atrás dela, murmurando ao encarar o desenho por cima do seu ombro. — Eu estaria preocupada se fosse você, querida.
Os olhos da garota se detiveram nos olhos expressivos da mulher. Seu rosto estava contorcido em uma seriedade profunda.
Sobre o olhar de um Abraxas frustrado e de uma Sabine estranhamente séria, Meredith percebeu que havia acabado de ganhar mais uma prova para sua antipatia com adivinhações.
Ela sabia quem era esse inimigo mortal: Morgana Le Fay, a mesma quer iria usurpar seu corpo e sua alma.
Mas lá no fundo, algo sinistro sussurava que a garota não deveria se preocupar apenas com Morgana.
Um inimigo mortal.
Senão fosse Morgana, então quem seria?
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