Mirror
3 Capítulo 3
Fomos recebidos por um homem alto de cabelos negros longos e olhos azuis turquesa. Ele usava roupas tradicionais vermelhas e carregava uma katana embainhada. Se eu não soubesse, diria que era uma pessoa estranha de gostos peculiares. Ele estava sempre sorrindo e vinha com uma aura leve ao seu redor. O tipo que nunca leva as coisas a sério. Mas eu sabia que quem estava na minha frente era um dos líderes mais importantes, que também cuidava da segurança da família real.
Ele apertou nossas mãos enquanto dizia num tom animado:
— Shi… E você deve ser Yang.
— Yon — corrigi automaticamente.
— Sim, sim. — Ele sorriu. — Vamos entrando.
Ele estendeu o braço na direção das portas duplas abertas e começamos a andar. Shi parecia já conhecer o QG, mas aquilo tudo era novo para mim, que vivi minha vida toda na fronteira. Não pude evitar admirar o espaço ao meu redor.
— Vocês já devem saber que o espelho racha periodicamente, certo?
— Por causa da concentração de magia graças à guerra — eu disse antes que pudesse me impedir.
— ...É o que anunciamos. Mas o espelho é mais resistente que isso.
— Está sugerindo que alguém está quebrando o espelho? — indaguei.
— Você é um garoto esperto, Yang.
— Yon.
— Acontece que quem está quebrando o espelho está quebrando pelo nosso lado. Alguém nos traiu ou algum Wahr se infiltrou aqui. A missão de vocês será descobrir quem está fazendo isso e trazê-lo. — Sua voz estava sempre num tom animado, mas nas próximas palavras, sua expressão escureceu: — Vivo ou morto.
— Seremos nós dois? — Shi indagou.
— Não, escolhemos uma líder para a missão.
Nós paramos de frente para mais portas duplas. Quando foram abertas, encontramos uma garota sentada de costa para nós e os pés apoiados numa mesa. Seus cabelos negros estavam presos em um coque bagunçado e ela usava apenas um top, o que permitia a visão de tatuagens que cobriam suas costas e parte de seus braços. Eram dois dragões que se entrelaçavam: um que emanava chamas, outro que emanava raios. Usava calças que pareciam confortáveis e estava descalça.
— Maihime? — Shi indagou. — Sério que ela será nossa líder?
Sua fala sugeriu que ambos se conheciam, de um jeito ruim. Ela tirou os pés da mesa e virou a cadeira para nos encarar. Encontrei um par de olhos dourados.
— Eu me recuso a trabalhar com ele — ela declarou, firme.
— O que eu posso fazer? — Daichi perguntou. — Eles eram os mais capazes, você não tem muita escolha.
— Então eu tenho alguma escolha? — ela indagou, pegando Daichi aparentemente desprevenido.
Até agora parecia como nos rumores: aparência, influência, personalidade. Eu tinha aprendido que a maioria dos rumores eram exagerados, mas ali parecia certo. Não me surpreenderia se ela realmente desferisse golpes “rápidos como um relâmpago”. O que eu sabia que era verdade é que ela era uma mestre em Kyoshujutsu e ela acertando o ponto certo pode inutilizar todo seu corpo.
— Na verdade, você não tem escolha.
— Por que não disse isso desde o começo? E Shi não sabe lutar.
— Quem precisa saber lutar quando te tem como aliada? — Ela deu de ombros. — Foi o que imaginei. Deixarei vocês se conhecerem melhor, boa sorte na missão.
Daichi saiu da sala, deixando os três sozinhos. Maihime suspirou e se levantou, o que revelou uma coisa exagerada na lenda: falavam de Maihime como alguém que poderia mover montanhas, e bem alta.
A garota que estava na minha frente era mais baixa que o usual, mas sabia que era melhor não comentar.
— Você ainda não cresceu? — Shi indagou em um tom de deboche.
A expressão da garota mudou de indiferente para enraivecida rapidamente e no segundo seguinte, Shi não estava ao meu lado, Maihime havia errado seu soco.
Mas só por causa da magia de Shi. Movida pela raiva, ela não tinha percebido que ele poderia usar a magia para desviar.
Maihime respirou fundo e o segundo ela não errou. Shi não esperava pelo segundo e nem pôde desviar dele usando o teletransporte novamente.
— Depois você acompanha a gente, Shi — Maihime disse, acenando para ele. — Vamos.
— Você imobilizou ele?
— Só por um tempo.
— Como você espera que encontre vocês? — Shi indagou.
— Você sabe para onde estamos indo, a não ser que não tenha prestado atenção na explicação de Daichi.
***
Estávamos andando pela floresta rente ao espelho. Maihime olhava as rachaduras com certo interesse, examinando-as.
Uma das rachaduras estava ao nosso alcance, então ela tocou-a, examinando de perto.
— Não consigo descobrir qual magia foi usada. — Ela franziu a testa. — Alguma coisa destrutiva. Shi, você não consegue voltar no tempo?
Ele deu de ombros — Não do jeito que você tá querendo.
— Que inútil. E você, Yon?
Levantei o tapa-olho e me permiti visualizar o que tinha acontecido ali. Mas eu apenas via as rachaduras surgindo a partir de algum tipo de magia destrutiva, as características da pessoa que causou eram todas confusas.
— Nada além do que você já falou, é tudo um borrão.
Ela suspirou.
— Temos que voltar para a linha da frente. É uma missão secreta e o nosso sumiço repentino pode levantar suspeitas.
***
Com Maihime lá, era bem diferente. Ela matava a grande maioria dos inimigos antes que pudéssemos reagir. Ela era como um exército por si só.
Mas os inimigos que tinham conseguido passar pela linha da frente sem que pudéssemos impedir logo tomavam vantagem pela retaguarda e as perdas do nosso lado estavam bem próximas ao inimigo.
Como eu lutava ao lado de Maihime, não precisei usar minha magia, o que era uma vantagem. Sem me preocupar em perder o controle, senti-me bem mais livre do que na minha primeira vez.
O resultado? Não prestava atenção direito ao meu redor até um corpo cair ao meu lado com uma flecha atravessada. Eu encontrei Shi, a diferença entre isso e a visão que tive é que o olhar dele era frio.
Olhei ao redor e encontrei diversos aliados caídos em meio a diversos inimigos. E entendi o que estava acontecendo.
— Vão nos cercar — sussurrei para a Maihime.
— Cuida disso? Tem um peixe grande ali.
Eu assenti e, de início, ia tentar uma aproximação sem meus poderes. Ao refletir novamente no que eu iria fazer para livrar o caminho, resolvi usar minha Visão. Rapidamente. Iria acabar com aquilo rapidamente.
Logo eu estava cortando o ar e livrando nos de uma boa quantidade. Apenas dois cortes foi o necessário para derrubar os que já se juntavam para nos cercar.
Eu fui atravessado por uma espada em meu peito. Desci o olhar e vi apenas uma mancha de sangue. Era uma katana. Ao olhar para trás, encontrei Daichi.
Coloquei rapidamente a mão no lugar em que tinha sido acertado e não encontrei nada. Era mais uma visão. Eu coloquei o tapa-olho no lugar. Não poderia usar meus poderes por um tempo, se as visões já estão se confundindo com a realidade.
Levantei o olhar a tempo de ver o próximo golpe e poder impedir que parte daquela visão se realizasse.
***
— O que, exatamente, nós estamos fazendo aqui? — Shi perguntou.
— Mais baixo — Maihime sussurrou. — Eu recebi informações de que estarão se reunindo aqui.
— Quem?
— Quem está fazendo essas rachaduras.
Eu não podia ver por estar escuro, mas imagino que ela tenha revirado os olhos, coisa que ela fazia com frequência por causa de Shi.
Estávamos escondidos em meio a árvores e arbustos, observando uma parte no espelho. Mais especificamente, esperando quem quer que fosse se encontrar ali. O fato de ter árvores ali nos escondia, e por ser uma depressão tínhamos a vantagem de uma boa visão. Ficamos lá um bom tempo. A mesma posição já estava começando a atrapalhar a circulação de sangue pelo meu corpo.
— Quando isso vai acontecer? — perguntei.
Maihime levantou a mão para que eu ficasse em silêncio. Um grupo se aproximou do local. Eram Wahr. Rostos que eu não conhecia, nem encontrei no campo de batalha, mas que valiam a pena lembrar.
E voltamos a esperar. Dali, podíamos ouvi-los bem. O grupo estava reclamando da demora e ficavam andando ao redor. Agora, a lua já estava bastante alta. Finalmente, o outro grupo chegou. Uma voz masculina animada, apesar de ser tarde da noite, começou a falar:
— Perdoem a minha demora.
Ele se aproximou do outro grupo. Eu esperava qualquer pessoa para se encontrar com os Wahr, mas não ele.
— Tive que enviar alguns meus para investigarem as rachaduras, então sejam mais cuidadosos.
— Por que não podia simplesmente desviar a situação? — um dos garotos do grupo indagou. — Como acha que iremos destruir com alguém na nossa cola?
— Não se preocupem, estará tudo sobre controle. Como está indo a operação?
— Enquanto a maioria está concentrada na guerra, encontramos um lugar em que podemos quebrar o espelho e dar a volta, atingindo na retaguarda, onde o exército é mais fraco, para podermos encurralar a linha da frente. Sem eles para nos impedir, poderemos avançar tomando as cidades até o centro.
— E quem diria que vocês eram Wahr, que só buscavam paz?
— Temos que fazer alguma coisa para conseguí-lo de volta. Tentamos ser diplomáticos, mas vocês não aceitaram — foi a vez de uma garota falar. Ela deu de ombros. — Acabamos recorrendo a este método.
— Vocês já estão quebrando-o?
— Estamos pelos dois lados, mas é difícil e pode levar tempo.
— Está bem. Falem onde é que eu irei impedir que qualquer um se aproxime.
Maihime nos puxou e saímos de lá. Ela começou a correr na nossa frente e tivemos de correr para podermos alcançá-la, mas mesmo assim, não estávamos lá muito próximos.
A garota emanava uma aura assassina maior que a dos Falsch normalmente. Ela se sentia traída. Eu, no lugar dela, provavelmente me sentiria do mesmo jeito. Seu tão admirável líder, Daichi, formando aliança com o inimigo.
Ela parou de correr por um momento e pudemos alcançá-la.
— Vão para a linha da frente.
— Mas… — comecei a protestar.
— Agora! — Seu tom era autoritário e acabou saindo bem mais alto do que o necessário na noite silenciosa.
— Estamos indo — Shi resmungou. No segundo seguinte, ela já não estava mais na nossa frente. — Menina mandona. — Revirou os olhos.
Ele passou o braço ao redor dos meus ombros e disse:
— Vamos fazer algo mais interessante. Você se lembra do local que eles falaram que estavam destruindo?
Eu assenti.
— Vamos pra lá.
***
Nenhuma rachadura. Ninguém. Estava limpo.
— Era uma armadilha? — indaguei. — Deveríamos ter ido para a linha da frente como Maihime disse.
— Informação errada. — Shi deu de ombros. — Se não já teríamos sido pegos.
Ele se deitou na grama e disse: — Deite-se, o céu está bonito.
Eu suspirei e me deitei ao seu lado. Eu olhei para o céu. A lua já não estava tão alta, então eu sabia que não demoraria muito antes de amanhecer.
— Você me fez uma pergunta antes. Sobre matar alguém e me arrepender — Shi começou.
Eu deitei de lado para encará-lo enquanto ele falava.
— O que tem? — impeli-o a continuar.
Ele se virou e ficou por cima de mim, se apoiando com as mãos em ambos lados da minha cabeça.
— Por que eu iria me sentir arrependido ao matar alguém?
Ele passou a língua nos lábios novamente, como de costume.
— Eu… Eu não sei. — Amaldiçoei mentalmente por gaguejar e virei o rosto pro lado, desviando meu olhar do garoto.
— Você não sabe quem eu matei? — Ele riu. — Eu sei que você é melhor que isso, Yon.
Ele virou meu rosto em sua direção, segurando em meu queixo e aproximou seu rosto do meu. Nossos lábios estavam a poucos centímetros de se tocar.
Lembrei das visões e dos acontecimentos recentes e a verdade recaiu sobre mim.
— Você não pode…
— Estar falando sério? Eu estou. Eu já te vi morrendo tantas vezes, você não tem ideia.
Sua expressão escureceu. Ele não olhava para mim com aquele ar irônico mais.
— Por quê? Como?
Ele se levantou e disse, sem olhar para mim: — Vá para a linha da frente. Tenho coisas para resolver.
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