Minutos Antes.

1 Minutos Antes


Minutos Antes.

Eu devia estar sentado estudando para a prova de álgebra — ou era cálculo?-Mas a única coisa que vinha a mente era o cigarro no bolso esquerdo do casaco. Estava eu sentado na beirada do prédio, onde vivi a maior parte de minha peculiar vida, os pés firmados em um ferro no qual tinha apoio e aparentemente “segurança”. Tragos longos para dentro dos meus jovens pulmões, que nem sei se ainda são tão jovens.

O mundo parecia-me girar em um fluxo perfeito de onde eu estava, não importava o que tivesse acontecendo em um ângulo de 360º, aquele era o lugar de ficar em paz ou até mesmo alcançar o “nirvana” mesmo que por alguns estantes. De um lugar tão alto não era a toa eu me sentir em paz, tão alto que era possível enxergar os prédios do setor 42. O barulho da eletricidade nem sequer chegava lá, claro que nada é perfeito e tinha vários motores de refrigeração no telhado. “O que eu tô fazendo?” a pergunta me vinha toda vez não importava onde eu estivesse, mas ali esse questionamento me fazia se sentir um deus observando todas aquelas pessoas minúsculas perambulando nem sei para onde, parecia importante já que maioria estava sempre tão rápida.

Passei a retorna ao telhado quase todas as noites, também passei a levar meu caderno de anotações e ao invés dos números e letras passei a desenhar textos que vinham em minha mente, anotava meus pensamentos sem saber o porque ou se ao menos iria usa-los para alguma coisa. Talvez passei a frequentar tal lugar por refletir o que eu realmente sentia, era frio e úmido, tormentas não eram difíceis então sempre estava agasalhado com o casaco verde meio surrado pelo longo tempo que vem me acompanhado, sobrevivido junto comigo na cidade tão grande que começara a engolir as menores, sufocando pouco a pouco cada coisa viva, metro quadrado a metro quadrado.

Meu cotidiano começara a ficar sufocante como se o universo tivesse me largado em alto mar num bote inflável de cor laranja tão brilhoso que qualquer um veria, com um furo pequeno numa das laterais assoviando uma cantiga que apenas a morte entenderia ou quem ela estivesse à buscar. Escrever o minha mente singular pensava tornava-se vício a medida que eu me perturbava entre os arranha-céus, e dentro deles a plateia assistindo de pé, sentada ou até mesmo transando para que não perdessem o momento mais esperado de uma monólogo arruinado antes mesmo de vir a existir. O mar era negro e chuviscado de branco como uma televisão antiga e sem sinal, me imaginava em um ponto laranja naquela imensidão surreal, mesmo que avistasse uma alma flutuante sequer a milhas de distância não se importariam com o ponto laranja que desapareceria em pouco tempo, e logo pensariam ser uma ilusão, que nunca estivera ali, se foi.

O transporte de elevação havia quebrado e sem ele minha noite de paz teria que ser adiada, a teimosia me obrigava a resolver problemas mesmo que eu não os quisesse fazer. A plataforma que empregados usavam para limpar as vidraças se mostrara o meio mais rápido para me levar ao meu vício noturno. Janela por janela passei observando cada um deles, qualquer um que estivesse a vista e não importava o que estivessem fazendo, me mantinha quieto escondendo o rosto nas sobras do capuz cinza chumbo que era costurado na parte de dentro do meu casaco verde. Lembrei que havia amigos morando ali e não os via a muito tempo, o filme noir dos momentos juntos que vivi com cada um veio lentamente com um roteiro pesado e de difícil compreensão me deixando hora extasiado e outrora melancólico. Cada andar subido parecia uma luta incessante contra a gravidade. “física ou depressão?”.

A última folha do caderno tinha sido preenchida e nem era o começo daquela noite, o caderno não tinha aguentado as palavras que eu havia vomitado em todas as aquelas noite. Não importava o frio fumegante eu sempre estava lá maltratando cada folha do caderno preto que em tão pouco tempo ganhara meu apreço inestimável. Enfim as folhas acabaram, tornara-se um livro e tão logo eu começaria a me sentir o livro, e enxergar o livro como uma um outro eu. O que não conseguiria jamais vir ao mundo, que se digladiaria consigo mesmo tentando ganhar a liberdade prometida por Cesar. Eu era Cesar. E como imperador e ditador nunca permitiria um tolo sair vivo de minha arena. Cabia a outra parte matar Cesar que pediria clemência ajoelhado acovardadamente, planejando um plano vil de vingança.

Naquela mesmo noite, folheando as páginas de meus pensamentos questões me corriam em velocidades ensurdecedoras. Resolvi então dar um título aquele suposto diário, em sua capa em letras garrafais escrevi “BRUTOS”. E uma pequena dedicatória à quem viesse a ler meus pensamentos. Um vento forte tomou o telhado, era noite de tempestades horrendas que nos obrigavam a se esconder em nossas casas amedrontados como ratos em um navio afundando. Algumas folhas soltaram-se flutuando violentamente por todo os lugares, correndo pelo tenho com o caderno debaixo dos braços comecei a apanhar folha por folha. A última esperando que eu apanhasse no alto de uma antena curvada para fora do prédio, como uma criança rebelde que tenta escapar de suas obrigações, lutando e desafiando qualquer um que tentasse lhes controlar. Não era para menos, aquela folha era o fragmento de um pensamento meu. Curvei-me para tentar alcança-la, rezando para que não viesse a se soltar perdendo-se pelas ruas como folhas de um jornal qualquer. Como era de se esperar, escorreguei, caindo de uma altura que chegava perto a do foço mais fundo do mar. Minutos antes escrevi na contra capa meu últimos detalhes de vida, passando lentamente pelas janelas como se cada vidraça fosse uma cena de um filme velho. Assim como Roma, o livro pouco a pouco cresceu, mas sua queda estava sendo rápida. Cesar estava morto, e causa seria “Brutus”.

Notas finais
Obrigado por ler até o final, caso tenha lido. Manda mensagem se gostou. Ou se quer mais. Posto pouca coisa aqui. Mas....
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!