— Eu lhe arrebento a cara! —Olhava Leon furioso para o irmão

— Eu não tenho medo de você Leon, você não pode obrigar-me a ficar ao lado dela.

— Você é um canalha mesmo! —Leon urrava.

Tomas olhava nervoso o irmão com um olhar de desafio.

Leon abria e fechava o punho se controlando para não socar o irmão. Ele estava inquieto. Tentava se controlar, mas faltava pouco para ele perde o controle. Seu irmão era um inconsequente. Lembrou-se do sentimento de rejeição que havia sentido quando Ludmila o deixou.

— Dessa vez você não vai fugir de sua irresponsabilidade.

— Eu não vou jogar minha carreira fora. Justo agora que vou ter uma chance de crescer profissionalmente. Pode esquecer. Amanhã estou de partida para a plataforma, vou ficar pelo menos um ano fora, desculpe, mas não dá.

— Você me dá nojo! Quantas vezes eu te preveni! Não foi por falta de conselhos!

— O grande Leon Vargas !Nunca erra! Você que me dá nojo. Essa sua vida certinha! Você fala de mim, mas não sai desse escritório. Só pensa em trabalho, trabalho!

— Tomas você não entendeu a gravidade do problema? Ela precisa de você.

— Leon, por favor, me quebra essa.

Leon o olhou com incredulidade.

— Eu olho para você e não acredito que nascemos da mesma mãe e do mesmo pai, que somos irmãos.

Tomas se aproximou do irmão relutante.

— Leon se não fosse por minha carreira eu assumiria minha responsabilidade. Você bem que poderia segurar as pontas até eu voltar. Só até eu voltar Leon. Depois eu juro que eu faço o que você achar melhor. Eu terei folgas e virei vê-la.

Leon olhou o irmão com desprezo. Então fechou os olhos.

— Se você não sair agora do meu escritório eu te arrebento a cara com gesso e tudo. Eu te pego.

Tomas viu a palidez do irmão, abriu a porta e saiu. A secretária correu até o onde Leon estava.

— O Senhor está se sentindo bem?

Leon respirou fundo e abriu os olhos, viu o rosto aflito da Senhora Torres. Ela era uma senhora de cinquenta anos, que já trabalhava com ele dez anos, era uma pessoa de sua extrema confiança. Quando seu pai morreu ele assumiu os negócios e ela já trabalhava com seu pai há onze anos.

— Camila me traz um copo de água. Com um pouco de limão.

—Senhor Leon, o senhor ainda não está bem, deveria ir para casa. Hoje sua agenda está tranquila. Os clientes que tiverem, eu os transfiro para amanhã.

— Vou seguir seu conselho, mas, por favor, a água. —Leon disse isso passando a mão na testa para enxugar o suor.

Camila imediatamente correu e fez o que ele pediu e deu a Leon. Ele virou o copo bebeu seu conteúdo rápido, quase com desespero.

Camila viu Leon e Tomas crescerem, o pai deles sempre os traziam para o escritório e ela nunca havia presenciado uma briga entre os irmãos.

Leon, logo depois da morte de Leonardo Vargas, assumiu os negócios.

Antes de seu pai morrer, ele já era o braço direito do pai. Com a morte dele ele não ficou perdido, pois já estava por dentro dos clientes e de tudo inerente a Ferleson Impressoras.

Tomas desde o princípio dizia ao pai que nunca trabalharia em um escritório fechado. Tinha optado em fazer engenharia Petroquímica, onde se formara há um ano.

Leon tinha trinta e cinco anos, cinco anos mais velhos que o irmão.

Leon e Tomas eram muito diferentes um do outro, enquanto Leon era voltado para o trabalho tendo pouquíssima vida social, só o necessário por causa dos negócios, Tomas tinha a vida social bastante ativa.

Camila sabia o que levava Leon a ter uma vida tão pacata, se tornando praticamente recluso. Leon sofria de epilepsia. André , seu chofer, estava sempre ao seu lado, sempre atento caso ele tivesse qualquer crise.

Leon também andava com uma plaquinha informativa no pescoço, que revelava a sua doença e orientava as pessoas que atitude tomar, caso André não estivesse presente.

Leon convivia com a doença desde a adolescência. As crises geralmente se encadeavam com stress, que o levava a apagar e cair. A última crise o levou a trincar o braço.

Camila já estava acostumada. Participava de todas as reuniões com Leon quando aconteciam às crises ela sabia como agir.

Leon não fazia as reuniões em pé, se envergonhava da doença e tinha medo de cair e se machucar. Então geralmente quando ele tinha a crise ele estava sentado. Ela imediatamente tranquilizava os clientes, e os fazia ajudá-la a colocá-lo no sofá, informando-os da doença.

Isso era muito raro. Aconteceu muito quando ele foi abandonado pela namorada e agora com o acidente do irmão.

Leon não dirigia, tinha um chofer. Evitava escadas sempre fazendo uso de elevadores, não ia a lugares perigosos. Tinha medo de piscina. Camila o olhava com pesar. Ele era um Rapaz bonito, mas tinha se fechado em si mesmo por causa da doença.

Camila o viu esticar as mãos morenas e colocar o copo na mesa. E ela tinha intimidade suficiente para perguntar a Leon da briga.

— Leon o que aconteceu? —Leon que olhava com um olhar vidrado num ponto fixo do escritório a olhou sem entender. E Camila percebeu que ele não a havia escutado.

— Leon o que aconteceu?

Leon a olhou como se não a visse e depois de um longo tempo lhe falou.

— Lembra-se do acidente que meu irmão sofreu com o carro na semana passada?


Camila que encarava Leon assentiu.


— Meu irmão nada sofreu, mas a namorada está internada no hospital...

Então ela o viu cair e bater a cabeça na mesa. Ela imediatamente se colocou em pé e pegou uma almofada do sofá e lhe escorou a cabeça na mesa. Saiu da sala e pediu para André, o chofer dele, colocá-lo no sofá.


Já estavam acostumados com isso. André entrou calmamente e o colocou no sofá. Afrouxo-lhe a gravata e tirou-lhe os sapatos. Agora era só esperar ele voltar a si.

Já havia passado uns 20 minutos quando Leon abriu os olhos. Camila o ajudou sentar-se. Ele já estava acostumado e a olhou com gratidão.

Ela lhe pegou um copo de água que ele bebeu e dando-lhe o copo encostou-se ao sofá com os olhos fechados. Ela sabia que ultimamente ele estava tendo mais crises do que o normal por causa do acidente com o irmão e agora a briga.

Camila não quis perturbá-lo e saiu fechando atrás de si a porta. E viu Tomas que a olhava ansioso.

— Ele teve outra crise de novo?

— Tomas não é para menos eu nunca vi Leon tão exaltado assim. — Depois de um tempo resolveu perguntar— Tomas o que aconteceu?

Tomas olhou apreensivo para a porta e disse-lhe.

— Camila eu te falo, mas não aqui. — E puxando Camila para uma sala onde ficavam os arquivos, ele passou a lhe contar o ocorrido.

— Na semana passada eu minha namorada sofremos um acidente. Nós saíamos de um restaurante por volta das dez horas da noite, eu a levava para casa quando um canalha, um bêbado, veio na direção contrária e nos atingiu. Eu saí ileso. —Então ele nervoso apertava as mãos— Ela está em coma no hospital. O que acontece é que essa semana eu recebi uma proposta de emprego, fui admitido como engenheiro numa empresa petrolífera. Eles me convidaram para trabalhar em alto mar numa plataforma de extração de petróleo. Eu disse ao meu irmão segurar as pontas aqui, pois eu não vou perder essa chance. Eu ralei seis anos para isso.


— Tomas e a família dela?


— Aí é que está o problema. Ela não tem família e divide com a amiga um apartamento. A amiga está para casar. Ela não tem ninguém. Mas eu fico pensando que talvez ela não venha nem sobreviver. E se sobreviver eu não posso deixar uma vida toda de estudos para me dedicar a uma garota que eu nem sei se vai levar uma vida normal depois desse acidente. Um acidente que eu nem tive culpa. Suzanna, nós estávamos ainda nos conhecendo. Eu todo dia a pegava do trabalho, ela é bibliotecária. Estávamos saindo apenas uma semana. Eu não vou me sacrificar como um cordeirinho.

Camila ouvia tudo balançando a cabeça. Agora entendia Leon.

Camila conhecendo os dois sabia que eles nunca iam chegar a um entendimento.

Leon era mais humano, embora se esquivasse das pessoas ela sabia que ele tinha um coração de manteiga, talvez ele fosse assim por causa da doença.

Já Tomas era mais expansivo, gostava da vida, saía muito e tinha uma vida toda pela frente.

Os irmãos sempre se divergiriam em relação a muitas coisas. Eles eram completamente diferentes em muitos aspectos.

— Tomas vai embora que eu converso com Leon. Ele acabou de ter uma crise agora. Ele se preocupa com você. Quando ele ficou sabendo a notícia do seu acidente ele teve uma queda feia, trincou o osso por sua causa. Graças a Deus que ele tem André que o acudiu na hora, mas mesmo assim não conseguiu evitar que ele caísse de mau jeito no braço. Ele está muito nervoso agora. Você sabe que por causa da doença ele se tornou muito recluso. Não deve ser fácil para ele ter que lidar com essa situação agora.

Tomas suspirou, mas não podia fazer nada á respeito. Amava seu irmão, não tinha culpa que ele não o entendia.

Viu que o jeito era arrumar as malas e ir para um hotel e evitar um confronto com o irmão.

Tomas olhou tristemente para Camila e assentiu resignado.

Leon foi até o barzinho e colocou uma dose de uísque e bebeu. Sabia que não podia beber, mas queria embotar um pouco os pensamentos.

Olhou com frustração o gesso do seu braço. Foi até o interfone e chamou seu cão guia André. Ele foi o homem de confiança de seu pai e como Camila, passou a ser dele depois de sua morte.

Ele estava muito nervoso ainda e tinha medo de ter outra crise, seu cérebro não aguentava pressões e se desligava como em curto circuito. Infelizmente precisava sempre usar desse artifício e sair acompanhado.

Seu pai lhe fazia muita falta. Eles se pareciam muito, no jeito de ser, pensar e de agir.

— O Senhor me chamou? —André apareceu na porta e olhava o patrão atentamente. André era um gorila. Era muito forte, quem o visse pensaria que ele era na verdade seu guarda-costas e não seu chofer. André era o tipo faz tudo, mas principalmente seu motorista. Miguel nunca lhe havia falado a idade, mas aparentava uns 48 anos. Ele era casado com Emma, sua governanta. Essa era outra que já estava com ele há anos. Eles o haviam visto crescer.

— André eu vou precisar sair, vamos juntos. — André já o conhecia e essa era a palavra chave que significava que seu patrão não estava bem. Estava sobre pressão e poderia ter uma crise a qualquer momento.

Ele imediatamente se colocou ao lado de Leon

— Nós vamos ao hospital visitar a namorada do meu irmão que sofreu o acidente, para ver que condições as coisas estão. Vou ver o que eu posso fazer para ajudá-la.

André concordou com um gesto de cabeça e olhou com frustração o braço do patrão, sabia que havia se descuidado por um momento, que foi o suficiente para ele cair e machucar o braço.


Leon entrou no hospital, ele suava frio. André percebeu e não desgrudava os olhos do patrão que seguiu até a recepção.

— Boa tarde, eu gostaria de obter informações do estado de saúde de uma moça chamada Violetta Castillo, ela deu entrada nesse hospital já tem uma semana.

—Pois não, Violetta Castillo Aqui, ela já saiu da UTI e está no quarto. Já está consciente. Mas eu não tenho todas as informações, eu vou chamar o mé...

Leon então caiu, sendo imediatamente escorado por André que tranquilizou a recepcionista dizendo que ele sofria de epilepsia.

Leon abriu os olhos e se assustou. Olhou ao seu redor e viu que estava em cima de uma maca em um consultório médico desativado. Olhou André com frustração. Respirou fundo e fechou os olhos tentando se acalmar. Mas ultimamente isso estava se tornando difícil. André o ajudou a se levantar e ele se colocou em pé. Foi escorado por André que colocou uma das mãos embaixo do seu braço e ele se deixou conduzir. Saíram da sala e Leon avistou um banco.

—André eu vou me sentar naquele banco, por favor, você pode saber da moça para mim?

—Não seria bom o senhor voltar outro dia...

Leon o silenciou com o olhar.

André então se calou e represou o que ia dizer. E resignado o ajudou a se sentar no banco.

Leon se inclinou para trás e apoiou a cabeça na parede fechando os olhos. Precisava ficar consciente, tentava não pensar no problema e se acalmar.

Dez minutos depois André voltou. Leon sentiu o toque nos seus ombros e viu André olhando sério.

— E então?

— A menina Violetta está bem. Ela não quebrou nada. O choque só foi da cabeça mesmo. Ela precisará ficar uns dias de repouso para se recuperar. Ela está muito fraca.

Leon respirou aliviado.

— Eu vou falar com ela.

— Tem mais uma coisa.

Leon voltou seu olhar para André que o olhava aflito.

— Ela não se lembra de nada e nem quem é. Ela está com amnésia temporária.

Leon o olhou surpreso e logo André viu que ele ficou sem ação. Meu Deus mais essa! Leon respirou fundo. Seu coração estava apertado. O que eu vou falar para ela?

André viu seu patrão aturdido e o viu fechar os olhos com força.

— Leon espere aqui que eu vou buscar uma água.

Leon abriu os olhos e André que já estava saindo para pegar a água.

Ele bebeu toda a água que André lhe deu. Levantou-se e foi escorado por André.

—Eu vou poder entrar no quarto?

—Sim você poderá. Eu vou levar o Senhor.

Leon sabia que precisava ser escorado como um velho. E foi até o quarto da jovem. Abriu a porta e seus olhos a encontraram deitada na cama com os olhos fechados. Ela era linda. Estava pálida, tinha uma áurea de pureza. Os cabelos estavam soltos até os ombros ainda úmidos pelo banho. Era bem branquinha, tinha o nariz arrebitado e a boca sensual. Tinha um corte rente aos cabelos na testa.


Violetta ouviu a porta se abrir olhou na direção do barulho e viu um homem alto de terno, com um braço engessado. Ela o olhou demoradamente tentando reconhecê-lo. Ele era moreno, cabelos negros brilhantes, queixo quadrado e olhos verdes penetrantes.

Estava sendo escorado por um homem enorme, mas com um rosto bondoso. O físico do homem enorme não combinava nem um pouco com o rosto.

Será que ele é o rapaz que havia sofrido o acidente com ela?

André ajudou o patrão a se sentar em frente à moça. E vendo-o sentado se afastou. Leon se virou na direção dele.

—André, você pode me esperar fora?

André assentiu e saiu. Leon olhou atentamente Violetta. Os olhos dela eram cor de mel.


Ela olhava fixamente para o gesso do seu braço e perguntou.

— Você é o rapaz que me disseram que estava comigo no acidente?

Leon estava se sentindo mal com a situação, não sabia como enfrentar a jovem e nem como propor que ela se recuperasse em sua casa até ela se fortalecer e recobrar a memória. Precisava oferecer-lhe abrigo sem ofendê-la. Então a pergunta o surpreendeu. Ele viu o gesso do seu braço e entendeu o que ela pensou. Seu irmão é que deveria estar ali. E se viu mentindo para ela.

— Sou.

Violetta o olhou atentamente.

— Desculpe-me, mas não sei se lhe disseram que eu não me lembro de nada.

Ele não respondeu de imediato. Ele a olhava detentiva mente. Parecia querer encontrar palavras para falar-lhe. Por fim ele a informou.

— Eu sei o médico já me deixou a par de sua saúde. Tente não pensar nisso. Você ficará comigo depois que sair daqui, não precisa se preocupar com nada. Eu já acertei tudo com o hospital. Você se fortalecendo estará livre para fazer o que quiser de sua vida.

— E meus pais. Eu não tenho ninguém?

Leon a olhou com pesar.

— Não Violetta. Você só tem a mim. —Disse Leon com firmeza.


Ela lhe olhou com lágrimas nos olhos.

— Violetta e sei que você não se lembra de mim eu sou Leon Vargas, eu te conheci numa festa há umas duas semanas atrás. Estávamos saindo juntos algumas vezes.

Ela repetiu o nome com os olhos fechados tentando se lembrar dele e nada.

Leon ainda não estava bem e ficou com medo de ter uma crise perto dela, e logo quis se despedir. Levantou-se e beijou-lhe a testa. E sentou-se de novo.

— Preciso ir. —André! — Ele chamou André até que relativamente baixo, mas foi o suficiente para Amanda vê-lo abrir a porta num gesto rápido e se colocar ao lado de Leon.

Leon se levantou e André o conduziu pelo braço até a porta. Violetta os observava sair. E pensou “Ele deve estar ainda se recuperando do acidente.”.


Suas malas estavam prontas. Ela esperava Leon vir buscá-la. Violetta olhava pela janela do quarto tristemente. Era horrível não saber nada de si mesma. Agia por instintos. Como uma pessoa não se esquece de falar, de como andar e para que serve as coisas, e ao mesmo tempo não se lembra de nada dela mesma?

Tinha conhecido Francesca sua amiga de quarto que lhe trouxe as malas. Francesca foi muito vaga, pois a conhecia pouco. Ela lhe contou tudo o que sabia dela. E para sua frustração eram poucas coisas. Ela morava pouco tempo com Francesca e era provisório, ficou sabendo que antes do acidente estava procurando outro lugar para ficar.

Disse-lhe também que ela namorava Leon apenas uma semana e que ela não havia conhecido seu namorado, pois estava viajando nessa data. Ela só voltou agora e ficou sabendo do acidente.

Lembrou-se de Leon. Ele era muito bonito, sentiu nele uma áurea de fragilidade que a fazia se ligar a ele, mesmo o tendo visto uma vez. Não duvidou que estivesse gostando dele mesmo. Ele a atraía.


Estava observando uma pipa no ar quando escutou abrirem a porta e via a figura de André

— Tudo pronto senhorita?

Ela assentiu e ele vendo-lhe as malas as pegou imediatamente.

— Então vamos?


Notas finais
E ai gente gostaram?