Minhas Adoráveis Ex-Namoradas
6 Perdidos na Floresta
Notas iniciais
P.O.V Elena
– Quanto tempo de viagem? – perguntei olhando para a estrada sem fim. Mesmo após a forte chuva que caiu a estrada estava seca.
– 14 horas... – Damon respondeu bufando.
– Quanto tempo falta pra gente chega?
– 14 horas...
– Como? A gente saiu de Nova York a exatos... – fiz uma pausa e olhei para o relógio preto simples em meu pulso. — 26 minutos! – completei, derrotada.
– Essa viagem vai ser longa...
– Ok. Me acorde quando ela acabar... – me virei de costas para Damon e fechei os olhos tentando ficar o mais confortável possível.
– Demorô! Fala sério! Eu sou Teddy Marinho, o polvo aê! – começou a cantar.
– O que você ta fazendo?
– Teddy o polvo.Um amigo especial... Teddy o polvo. Eu tenho uma nova dança para vocês!
– Que porra é essa?
– Nunca escuto a musica do Teddy, o Polvo?
– Já escutei, mas por que você ta cantando isso?
– Você acha que vou deixar você dormir?
– Acho bom você me deixar dormir!
– Ah coitada...
– Por que eu não posso dormi? Eu to com sono!
– “Eu to com sono” – Damon fez careta imitando minha voz.
– Para de ser criança!
– “Para de ser criança!”
– Para de me imita!
– “Para de me imita!” – bati na sua cabeça fazendo perder o controle do volante e desviar da estrada. – Ai ai, não precisa me bate... – um sorriso divertido saiu de sua boca, não acredito que ele estava se divertindo as minhas custas.
– Damon, olhos na estrada!
– Por que? Olhe em volta! Isso aqui é o fim do mundo, não tem nenhum sinal de civilização, nem postes com luz, ou fios de telefone, não tem nem sinal de celular aqui!
– Por isso se chama estrada...
– Não, estradas são diferentes. Existem outros carros na estrada. Estamos sozinhos, não passamos por nenhum carro a mais de 40 minutos!
– Qual o problema de eu dormi? – voltei ao assunto anterior.
– Qual o problema? Você ronca que nem uma mula! Eu não sou obrigado a dirigir 14 horas, servindo de motorista pra você, enquanto tenho que escutar suas reclamações, e seu ronco de mula. Sem falar que não é justo eu ter que dirigir e você poder descansar....
– Se eu não descansar, eu vo fica com sono, e vo fica chata...
– Pior do que ta, não fica!
– Você vai ter que me ouvir falar horas e horas...
– É diferente do que você ta fazendo agora?
– Tenho que lembrar você que a culpa de estarmos aqui é sua?
– Ai meu Deus... Cala a boca!
– Eu calaria a boca se você me deixasse dormir!
– Então enfia a cabeça nesse banco e vai dormi porra, ta me dando dor de cabeça escuta tua voz já.
– Obrigada... Acho que já deixei claro que sempre consigo o que quero... – me virei para o lado novamente, mas pude perceber Damon bufar e revirar os olhos antes de adormecer.
P.O.V Damon
Agora essa porra de musica não saia da minha cabeça. E pra “melhorar” a situação Elena estava roncando. Eu não brinquei quando disse que ela roncava que nem uma mula. Ela ronca assim mesmo... E eu não podia nem ligar o radio naquela merda de lugar por que pelo jeito, não tem sinal no meio do nada, de nenhuma estação.
Estava dirigindo a mais de duas horas. As duas horas mais longas da minha vida, das primeiras 14 horas mais longas da minha vida, da semana mais longa da minha vida.
A situação só piorou quando o carro começou a fazer uns barulhos estranhos e eu olhei o ponteiro que mostrava o quanto de gasolina tínhamos... NADA.
– Elena! Acorda! – gritei.
– Hum... Já chegamos? – ela disse se espreguiçando.
– Bem... Não...
– Me acordo por que então? Por que estamos parados no meio do nada?
– Acabo a gasolina.
– O QUE?
– Você me escutou... E eu te escutei também, não precisa gritar.
– Ai Meu Deus!
– A gente da um jeito, se acalma...
– Me acalma? Minha vida ta um saco desde que eu te conheci!
– Tua vida já devia ta um saco antes de me conhece. – sussurrei.
– Pra sua informação, minha vida era ótima antes de eu te conhece.
– Ahan... Ta. Elena, a devassa. – ironizei batendo palmas.
– Cala a boca, a culpa é sua. Ignorante.
– Minha?
– Você que não colocou gasolina no carro.
– Você acha que eu vo banca a gasolina sozinho durante a viagem toda?
– Você não espere que eu pague, né? As ex-namoradas não são minhas!
– Da pra cala a porra da boca? O que nos vamos fazer?
– O que “nós” vamos fazer? – ela fez aspas em nós. – Não existe nós... O que você vai fazer? Você esqueceu a gasolina.
– Vamos passar a noite no carro, amanha quando passar alguém nessa estrada de fim de mundo nós pedimos carona.
– Parabéns! É um ótimo plano! – ironizou. Revirei os olhos e virei para o outro lado pra dormir. — Você ta falando sério? – não respondi, senti o carro se mexer. Elena pulou para o banco traseiro e deitou.
– Eu ia fazer isso!
– Bem... Eu fiz antes, e a idéia de dormir aqui foi sua, eu so aprimorei ela – sua cabeça estava bem atrás do meu banco, então deitei meu banco para trás, fazendo-o bater naquela cabeça gigante. – Ai! Que porra Damon!
– Ninguém mando ir aí pra trás... – com muita dificuldade ela virou para o outro lado, colocando seus pés atrás do meu banco.
~~//~~
– Damon, acorda!
– O que você quer? – respondi grogue.
– Já ta de manhã... To com fome!
– E...
–E.. que eu quero come alguma coisa.
– Então pega as coisas que você comprou antes de ir pro hotel ontem.
– Eu não comprei nada, fiquei tão fula da vida que fui logo pegar o ônibus.
– Toma água pra engana a fome.
– Desculpa! – ela mexeu uma garrafinha de água vazia no meu rosto e eu abri os olhos.
– Será que algum dia você vai me deixa dormi em paz?
– Eu já tomei a água.
– Toda a água?
– Toda a água. – imitou meu tom de voz.
– Você é idiota?
– O que eu fiz de errado?
– Nunca foi escoteira?
– Não...
– Como você se formou? Agora vamos morrer de fome e sede. Vamos morrer nesse mato e vão acha nossos corpos daqui 10 anos.
– Para de exagero... Vem.
– Aonde? – olhei para o banco de trás enquanto Elena colocava seus sapatos ortopédicos pretos e ajeitava seu terno marrom fora de moda.
– Anda por ai, ver se achamos água e comida. – ela abriu a porta do carro e eu a segui.
– Você acha que eu vo deixa meu bebê aqui?
– O carro? – fiz que sim com a cabeça. – Ué, liga o alarme e deixa ele aqui. Ninguém vai passa nesse fim de mundo mesmo.
– Você sabe quanto essa maravilha custou? – me virei para o carro e passei a mão em sua capota perfeitamente delineada.
– Mais do que meu apartamento.
– Exatamente. Não vo deixa ele ao léu..
– Quem é Leonardo?
– Ainda me pergunto como você conseguiu seu diploma... Ao léu Elena... Ao nada!
– Ahn... Bem, para com a bichisse e vamos logo.
– Vamos onde, não temos pra onde ir...
– Vamos entrar nessa mata, com a chuva de ontem,deve ter água em algum lugar. – ela começou a andar indo ate a floresta da beira da estrada. Liguei o alarme do carro e corri atrás dela.
– E pensa que você nunca foi escoteira...
– Sempre achei o ar puro tranqüilizador.
– Eu também, mas aqui com você, me sinto sufocado.
Passamos hora andando pela mata. Meus pés doíam, não agüentava mais andar. Já estava com vários calos e arranhões nas mãos e nos braços feitos por aquelas arvores assassinas.
Sabe aquelas floresta estilo filme Crepúsculo? Estávamos numa dessas, o pior é que eu não conseguia mais ver a estrada atrás de nós, e a nossa frente apenas arvores, talvez eu estivesse sentindo um pouco de medo. Só talvez. Elena agora andava ao meu lado, ela sim estava com medo, a cada barulho de galho sendo quebrado, animais passando nas plantas mais baixas, ela pulava e dava um gritinho.
Já devia passar do meio dia, quando Elena se sentou num tronco de arvore caído e suspirou.
– To cansada... Meus pés tão doendo...
– Imagina os meus, os seus são sapatos de velinhas.
– Quero volta.
– Volta pra onde?
– Pro carro, quem sabe essa hora alguém esteja passando pela estrada. – ela disse desanimada e eu comecei a ter um ataque de riso. – Ta rindo do que, idiota?
– Nós não vamos voltar agora, a idéia foi sua de vir andar por aqui. Agora que já estamos andando a quatro horas, vamos continuar, vamos achar água e comida.
– A quem eu to querendo engana... Nunca vamos achar água e comida por aqui.
– Se você fica sentada com essa bunda mole ai, nunca vamos achar. Levanta!
– Nãããão... – arrastou o “a” como se fosse uma criança.
– Elena, levanta. Ou eu vo continua sem você.
– Ta, pode ir, eu fico aqui. Me viro melhor sem você mesmo...
–Ótimo!
– Ótimo! – ela disse e eu me virei e comecei a andar pelas arvores, deixando Elena para trás.
P.O.V Elena
Levantei do tronco, muito tempo depois que Damon se foi, me deixando sozinha, numa floresta escura e úmida, a claridade mal chegava no chão de tantas arvores. Naquela hora eu comecei a ficar com medo... A fome e a sede pareciam aumentar a cada passo, assim como a dor pelo corpo. Meu celular tava sem sinal, e deixei o relógio no carro.
E se eu nunca mais encontrasse o Damon?E se eu voltasse para a estrada e o carro não tivesse mais lá? E se ele me abandonasse pra morrer aqui nessa floresta? E seu eu morrer aqui antes de ele me achar?
Meu Deus... Eu vo morre..
Luzes laranjas, azuis e roxas pareciam manchar o topo das árvores, o por do sol. Logo ia anoitecer e eu estava ali sozinha, e logo teria a companhia de vários animais prontos pra me matar. Quem sabe onças estejam a minha espreita o tempo todo prontos para me atacar. Quem sabe: lobos!
Girei a procura de qualquer animal a espreita e logo começou a escurecer... O medo tomou conta de mim e eu me assustava com qualquer barulho. Tinha de voltar logo pra estrada, senão morreria ali. Já tinha perdido o casaco do meu terninho horas atrás, e estava com a saia e a camisa toda suja e rasgada. Um raio fez o céu ficar claro, me assustando, logo depois um trovão ensurdecedor me fez pular, e dar um grito.
– Ok... Ok... Nada de pânico... – comecei a falar sozinha. – Você é a Elena. Uma advogada de sucesso, não vai acontecer nada com você. Alguém vai sentir a sua falta a vai vir te procurar.
– E ai será tarde demais, você já estará morta!
– Quem disse isso? – pulei.
– Você mesmo idiota! A fome o medo e o cansaço estão provocando alucinações em você.
– Ah ta... Eu já estudei sobre isso. Mas quem é você?
– Sou seu subconsciente.
– Ahn... Ta, e agora?
– Agora você terá de continuar andando, ate achar água e o Damon.
– Mas eu odeio ele.
– Não odeia, não agora.
– É, o bumbum dele é uma gracinha...
– E você precisa dele pra sair daqui... Você precisa achar o Damon
– Achar o Damon!
– Isso! Achar o Damon
– Achar o Damon1 E o que farei quando achar o Damon?
– Pule nele e não deixei ele ir embora sem você.
– Sem mim... Ir embora...
– Achar o Damon! Diga!
– Achar o Damon! Achar o Damon! – comecei a falar repetidas vezes, mas por algum motivo não conseguia parar.
P.O.V Damon
Eu nunca achei que fosse capaz de dizer isso, mas já estava preocupado com Elena. Diminui o ritmo da caminhada horas atrás e dei meia volta, tentando voltar pelo mesmo caminho por onde vim. Achei uma mangueira no meio do caminho, haviam várias mangas soltas pelo chão, parei apenas para comer, e carreguei mais duas comigo.
Ela podia ser o peido do tinhoso e mala, mas eu não ia deixar ela morrer. Sou médico, pelo amor de Deus, tenho que fazer alguma coisa.
Já estava escuro e nada de Elena... Eu gritava seu nome mas ninguém respondia. Quando estava pensando em parar e passar a noite ali – sabia que não era seguro andar sozinho a noite pela floresta- começo a escutar um barulho de arvores se mexendo. O que era estranho, por que não ventou o dia inteiro.
Meu corpo se arrepiou com o barulho e eu me forcei a virar para ver o que era. Havia uma planta baixa entre duas grandes arvores, e logo ela começou a mexer. Pensei em correr, mas meu corpo parou, e eu não sentia mais minhas pernas, e se fosse um animal grande eu nunca conseguiria escapar.
Senti minha vida passar diante de meus olhos, e por último meus bens mais preciosos: meu apartamento, meu carro, meu amigo Alaric, minha mãe, minhas garotas, meus pornôs, as noites prazerosas de sexo e um coelho.
– Coelho? – falei sozinho enquanto um coelhinho extremamente branco de olhos vermelhos e fofinho saia do meio da moita. – Era isso? Um coelho? – comecei a rir enquanto a bolinha de pelos passava por mim e eu escutei um grito.
– Ahhhh! ACHAR O DAMON! ACHAR O DAMON!- uma figura primitiva e escura saiu de dentro da moita e pulou em cima de mim.
– Ahhh! – me assustei e joguei a criatura no chão.
– ACHAR O DAMON! ACHAR O DAMON!
– Elena? – perguntei pasmo, recuperando a respiração.
– Achei o Damon... ACHEI O DAMON!
– Meu Deus, você quase me matou do coração... – pousei a mão no coração. Elena continuava deitada em posição fetal no chão, com as duas mãos agarradas a minha perna.
– Viu... Eu sabia que você ia achar o Damon... – sussurrou. – Achei o Damon, achei o Damon! – falou mais alto.
– Para com isso... – me abaixei a seu lado e tentei tirar sua mão de minha perna, mas Elena era mais forte. – Você ta me machucando... – chutei suas mãos, a fazendo me soltar.
– Não! Damon não vai sem mim.
– Para com isso, você ta me assustando.
– Não sem mim... – olhei para ela. Elena ainda estava na mesma posição, chorando baixinho. Ela estava sem o paletó do terno e grande parte de sua camisa e de sua saia estava rasgada, haviam varias manchas de sangue, sujando sua blusa, seu rosto estava arranhado e o cabelo desgranhado.
– Elena, como você chegou aqui...
– O coelho...
– O que quem tem o coelho?
– Ele... ele me disse pra seguir ele, e ele cumpriu a promessa dele, ele me trouxe ate você...
– Do que você ta falando.
– Achar Damon...
– Elena você ta me assustando. – peguei uma das mangas que estavam em cima do eu casaco, descasquei com as unhas e dei a ela. – Eu achei comida...
Ela agarrou a manga das minhas mãos, com as suas todas sujas e machucadas, em poucos segundos ela lambia os dedos, e tremeu. Sem dizer nada, peguei meu casaco e enrolei nela, procurando mais machucados. Ela continuou deitada e eu deitei ao seu lado. Adormecemos em poucos segundos.
Abri os olhos devagar, piscando, tentando me acostumar com a claridade, mas ao invés de arvores altas, enxerguei uma pequena lâmpada. Olhei para o lado e vi que estava em uma cama pequena mas confortável. Elena estava deitada em meu ombro e dormia tranquilamente, protegida pelo meu braço, que estava ao seu redor. Me levantei rapidamente, fazendo ela acordar.
– Que merda Elena, o que você ta fazendo. – comecei a lembrar do dia anterior, e de Elena falando como uma louca.
– Ahn? Onde estamos? – ela arregalou os olhos se afastando de mim.
– Estão no acampamento de férias para jovens encrenqueiros... – um homem alto, de cabelos claros, com uma roupa militar apareceu perto da cama onde estávamos, dando um sorrisinho cínico.
– Acampamento do que? – dissemos juntos.
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