Eu sempre fui a garota perfeita, filhinha de papai. Riquinha e mimada. Tinha tudo o que eu queria, cresci sabendo que não precisaria trabalhar por que meus pais eram milionários e a empresa só prosperava. Falava varias línguas perfeitamente. Afinal tive aulas desde que aprendi a falar, por um tempo eu mal sabia qual era minha língua verdadeira.

Tinha um irmão mais velho chamado Nathan, ou Nate como preferia. O oposto de mim, o garoto rebelde que desafiava os pais todos os dias, o cara que queria ser livre, fazer o que quisesse da vida, escolher viver ao invés de ficar fechado em um sala usando um terno engomado era o que ele falava.

Apesar do dinheiro tentei levar a vida da forma mais simples possível. Estudava em uma escola publica e por isso ouvia varias vezes alguns comentários inapropriados. Meu motorista André, me levava e buscava todos os dias, tirava notas ótimas e tinha sempre uma fila de garotos atrás de mim. O único problema: Eu não queria um garoto que só estava atrás de fama ou dinheiro.

E foi assim que eu o conheci. Isaac era lindo, tinha os cabelos castanhos claros e os olhos azuis, era alto e atlético. Jogava no time da escola e as garotas eram loucas por ele. Era novato, tinha chegado há pouco tempo na França e já era um dos populares da escola. E único garoto que não se aproximava de mim. Mas o destino estava ao meu favor naquele dia.

O professor Sunders foi gentil ao nos mandar trocar de parceiros durante a aula de Artes, teríamos que desenhar nossos parceiros. Ele ocupou a cadeira a minha frente deixando a mochila aos seus pés, seus olhos azuis encontraram os meus e eu sorri sem graça.

A aula foi silenciosa enquanto desenhávamos. Sempre desenhei super bem. Enquanto os filhos dos amigos dos meus pais gostavam de piano ou ballet, eu me dediquei a aulas de desenho. Não que a minha mãe tenha achado construtivo, mas aceitou a minha decisão como todas as outras que eu já tive. Eles nunca me negaram nada. Tirando é claro sair para uma festa ou aprender a dirigir.

Eu só era autorizada a ir no shopping desde que eu levasse o motorista. E isso me deixava um pouco rebelde. Eu não tinha controle sobre a minha vida, era escondida do mundo como se fosse uma pedra preciosa. Na verdade para eles, eu era uma pedra preciosa. Quando nasci algo aconteceu e conforme o tempo foi passando eles notaram que eu me curava instantaneamente, não me machucava facilmente e podia fazer as luzes e aparelhos eletrodomésticos ligarem ou apagarem.

Era bizarro. Mas eles levaram isso como um milagre da natureza ou algo do tipo, o que era ridículo na minha opinião. E por isso eu era a preferida dos meus pais, Nate não tinha nada de diferente. Só que muitas vezes eu queria não ter nada de diferente. Meu relacionamento com meu irmão apesar de opiniões diversas nunca mudou. Éramos irmãos e ponto.

Ergui meus olhos encontrando os olhos de Isaac em mim.

— Tudo bem?

— Você fica mesmo concentrada enquanto desenha.

— Se eu não me concentrar, não desenho.

— Essa é a dica?

— Não sabe desenhar? — Juntei as sobrancelhas o encarando confusa.

— Não.

— Por que esta nessa aula então?

— Como cheguei no meio do ano algumas aulas já estavam lotadas.

— Posso te ajudar? — Assentiu.

Puxei a cadeira para ficar ao seu lado e olhei seu papel completamente branco. Fiquei aliviada por ele não ter tentado desenhar. Comecei a desenhar mostrando a ele como era fácil.

— Faz isso desde quando? — Ergui meus olhos desta vez sentindo seu rosto bem próximo do meu.

— Desde criança. Minha mãe preferia piano ou ballet. — Ri baixinho enquanto revirava os olhos. — Não é difícil Lahey.

— Achei que não soubesse meu nome.

— Isaac Lahey. Vai me dizer que não sabe meu nome?

— É claro que eu sei, Natalie. Todos sabem o seu nome.

Tentei decifrar sua expressão, mas não consegui identificar nada. Assenti calmamente enquanto voltava a desenhar.

— Então de onde você era?

— Beacon hills.

— Não conheço. — Cocei a sobrancelha voltando a encara-lo.

Seus olhos azuis me hipnotizavam.

— Imaginei.

— Você me acha superficial não é?

— E você não é?

— Vai descobrir que posso ser muitas coisas. — Pisquei pegando minhas coisas e saindo da sala.

Na educação física encontrei com Mel. Melany e eu éramos melhores amigas desde sempre. Nossas mães eram amigas. Então nos conhecíamos desde o berçário já que nascemos com poucos dias de diferença. Ela me conhecia melhor que ninguém e tirando o segredo dos meus "super poderes", ela conhecia tudo sobre a minha vida. Éramos parecidas na aparência só que meus cabelos eram loiros bem claros puxado para o branco ou prateado como chamam enquanto ela tinha os cabelos loiros mais escuros puxado para a cor ouro. Mas nossos olhos eram da mesma cor. Verdes.

Nate e ela namoraram durante uma época, mas meu irmão não queria se prender, queria viver. E viver incluía viver bem longe da França. Fazia dois anos que ele estava nos Estados Unidos, dois anos que eu não via. Só conversávamos por vídeo chamada ou mensagens.

— Então como foi desenhar aquele gostoso? — Perguntou sorrindo me dando um cutucão.

— Ele me acha superficial. — Resmunguei amarrando os tênis all star e Mel riu.

— Não quero ferir seus sentimentos, mas todos acham isso amiga.

Seguimos para a quadra prontas para a aula de vôlei enquanto os meninos jogavam basquete ao lado.

— Superficial ou não, aqueles olhos azuis não param de te olhar. Eu disse que esse short ia valorizar suas pernas.

— Claro por que ele é um short mesmo, quase da pra ver meu útero.

— O útero não, mas a calcinha sim. — Gargalhou me fazendo empurra-la.

Fizemos os times e eu fui para o saque, me concentrei. Eu tinha uma super força e um movimento errado poderia causar um acidente fatal. Agilidade e força foram coisas que apareceram com o tempo e por isso meus pais cortaram minhas aulas. Agora que já tinha pleno controle podia participar da educação física. Mas um passo errado e eles cancelariam tudo de novo.

Muitas vezes me sentia o passarinho pronto para sair e alcançar voo. Mas estava presa em uma gaiola.

Uma bola de basquete veio parar ao meu lado. O treinador apitou dando uma pausa no jogo, agarrei a bola a jogando para Isaac que a pegou sem problema algum, suas sobrancelhas se ergueram e eu sorri antes de piscar um olho para ele e voltar ao jogo.

— Você esta dando em cima dele? — Mel sussurrou enquanto me entregava a bola.

Era a minha vez de sacar.

— Estou provocando, mas... Ele não corresponde.

— Eu acho que ele não esta confiando muito que você esteja dando em cima dele.

— Que se dane. Ele que ache o que quiser. — Respondi.

Fui ate o canto da quadra e joguei a bola para cima, saltei acertando a bola a fazendo cruzar a rede, uma garota se jogou no chão, mas foi ponto meu. Mel e as meninas do meu grupo comemoraram mais um ponto.

Os dias seguintes foram passando, continuamos dupla na aula de artes e na aula de literatura, vê-lo recitando versos enquanto me olhava nos olhos me fazia sorrir ainda mais sabendo que isso o deixava desconfortável.

Um garoto daquele tamanho e ficava desconfortável com a minha presença ou o meu toque, sempre que eu podia tocava seu braço para perguntar algo ou chamar sua atenção. No jogo da conquista eu sabia que tinha que começar pelo mais simples.

Sabia que no fundo ele gostava daquela atenção, seus olhos passeavam pelo meu corpo sempre que eu fingia não estar prestando atenção. Era uma garota comum como qualquer outra do colegial, só tinha o fato que minha conta bancaria tinha muito dinheiro. E conforme o tempo foi passando comecei a notar que era isso que o deixava incomodado.

— Então você acha que ele não quer você por que você é podre de rica? — Mel debochou enquanto se jogava no sofá.

Estávamos no sótão da minha casa. Eu tinha um quarto, mas o sótão que era quase maior que o meu quarto, era meu lugar favorito. Meus pais planejaram ele da forma que eu mais gostava com livros, lugares para desenhar e um computador com impressora. Mais que desenhar eu amava fotografar, se algum dia precisasse trabalhar, escolheria a profissão de fotografa.

Tinha uma parede completa com fotos de Mel, da minha família e do meu coelho Pernalonga. Pernalonga era um coelho cinza gordo que passava maior parte do tempo limpando o jardim para os meus pais, mas ao mesmo tempo o destruindo. Meus pais tiveram que reformar todo o jardim por tantos buracos que Pernalonga abriu para se esconder.

Ele tinha acesso a casa onde sempre andava procurado algo para roer, sendo comida ou qualquer outra coisa. Na verdade o sonho dos meus pais, era prende-lo em uma gaiola, mas eu odiava animais presos. E concertar os estragos do coelho não faria cocegas no dinheiro do papai.

— Imagino que sim. — Respondi pegando um sanduiche da mesinha de centro.

— Sabe algo da vida dele?

— Não muito. Ele é maior de idade, se mudou com um amigo mais velho e só. Sem família, sem amigos além daqueles do time da escola. Que não conta é claro.

— Uma incógnita. É por isso que esta afim dele?

Lancei um olhar para Mel e pensei. Era por isso que eu estava afim dele? Na verdade tudo começou semanas antes dele se mudar, eu tinha sonhos com um garoto loiro, não conseguia ver seu rosto. E quando o vi pela primeira vez tive certeza que era ele. O por que dos sonhos eu não sabia identificar. Ele chegou na escola com uma expressão triste, se mostrou um ótimo jogador e logo as meninas começaram a dar em cima dele.

Normal. Ele era a carne nova da escola, mas ele não beijou nenhuma delas.

— Quando ele se aproxima fico nervosa, os pelos do meu corpo se arrepiam. Sinto uma sensação estranha sabe?

— Não, não sei. — Riu. — Acredita que ele é o garoto dos sonhos?

— Bom, eu parei de sonhar com o garoto quando ele apareceu na escola. — Peguei o caderno de desenhos na mochila jogado no chão ao meu lado. — Alto. Os cabelos castanho claros. Os olhos azuis que vi uma vez. Não sei explicar. Mas é ele.

— Bizarro.

— Nem me fala. O mais bizarro é que não consigo parar de segui-lo com o olhar. — Mel olhou o mural de fotos atrás de mim onde tinha algumas fotos dele.

Fotos que consegui tirar quando ele estava distraído.

— Amiga você esta parecendo um maníaco. Falou com os seus pais sobre um psicólogo?

— Eles vão mandar me internar em um hospício se eu contar tudo. — Riu assentindo.

Suspirei olhando o desenho sabendo que talvez não soubesse o motivo de tudo isso. Mas para tudo sempre havia uma razão. Os fios do destino eram sempre interligados. Nada acontecia por acaso na minha vida. E sonhar com ele, era a prova viva de que algo estava para acontecer.