Minha perfeita imperfeição
1 Capítulo Único – Doce desejo de angústia.
Notas iniciais
A solidão é o sossego sem voz que comove a dor. Sustentada pelo silêncio de um cômodo escuro e recoberto pelo passado das lembranças. A instância encontra-se inerte no estado temporal, todavia a mescla entre a razão e a emoção consistia-se na velocidade do infinito num movimento inquietante de desgosto e apreensão.
Fazia parte de um universo utópico em que a vida se apresentava esculpida na forma de um diamante angelical e inatingível pela alma de meros mortais. A dádiva da raridade de um sonho alcançado por poucos, como uma coincidência de encontrar um bilhete de loteria premiado. Sempre vive uma realidade invejável, contudo ela me fizera parar de viver e repensar sobre a minha própria existência.
Num ambiente quieto, opaco e semi-vazio, com a exceção de uma poltrona vermelha e da minha irrelevante presença. Um dos quatro cantos da parede era revestido por um vidro fumê que deixava aquele lugar ainda mais hostil, no entanto por meio dele pode-se ver a bela e sinuosa cidade de Mishiton com suas luzes coloridas e encantadoras. Encontrava-me no trigésimo sexto andar de um dos maiores edifícios daquele conglomerado, observando o mover urbano e esperando que as respostas emanassem daquele cenário reflexivo.
Era uma mulher elegante de beleza exuberante e natural; Meus longos cabelos castanhos avermelhados; olhos que miscigenavam entre o azul e o verde; porte atlético e uma pele alva que não continha nenhuma cicatriz deixada pelo tempo. Casei-me com um dos homens mais charmosos que já conheci, ele é bonito, forte, alto e com uma das melhores qualidades, fiel. Com ele tive dois filhos maravilhosos, meus maiores presentes. Morava em um dos apartamentos mais cobiçados do bairro, além disso, era a chefe da principal empresa que sustentava a economia daquela cidade.
Tudo aquilo fazia parte de uma fantasia palpável da rotina. Ver o dia transcorrer sem qualquer tipo de problema. Ter a solução para todas as respostas. Mesmo com tudo isso acordava infeliz todos os dias por ter de parar de sonhar, lá parecia que eu aprendia o que é realmente é viver. Não tinha inimigos, entretanto muitos amigos e um príncipe que sabia me amar com excelência em todos os sentidos. Não havia motivo para a melancolia, afinal era uma mulher de muitas qualidades, no entanto sou apaixonada pelos meus defeitos.
Como num conto de fadas, o “Era uma vez” voava sem escala para o “Felizes para sempre”. Depois do café da manhã, levava as crianças até a escola. Lembrava-me do quanto fui privilegiada por minha educação, estudando nos melhores colégios do país proporcionado pelos meus pais. Por muitos, desenvolvi um intelecto especial, que resultaram em grandes prêmios que já recebi. Quando cursei a faculdade, tinha um leque de profissões a seguir e então resolvi fazer todas do meu interesse gradativamente, era como uma maquina que ansiava conhecimento, mas enfim não demorou muito para que ela se estagnasse por conta própria.
Logo que saía do trabalho, ia até uma biblioteca do centro e lá buscava os livros de diversos gêneros e categorias, principalmente os que envolviam a problematização das tragédias, era a parte do dia em que eu mais gostava. Me teletransportava para um novo mundo, uma nova história que não fosse a minha. Ficava entorno de duas horas sentada em umas almofadas no chão perto da ala de leitura e ali encontrava-me em uma espécie de refúgio. Pensei muita das vezes em virar uma simples bibliotecária, mas talvez eu fosse dominada por um vicio irreversível.
Na verdade tenho de confessar que já tive ótimos momentos e que já fui muito feliz, como por exemplo, meu casamento, o nascimento dos meus filhos, minha formatura, todavia por mais que muitos consideram esses momentos como uma felicidade eterna, para mim tudo não se passou de algo momentâneo. Meu racionalismo havia ultrapassado a emoção dos meus sentimentos confusos, tudo se tornara monótono, anelando as novidades. Queria voltar a sentir, porque certamente eu chegaria num estágio sem volta, a loucura.
É obvio concluir que eu sou o problema, a causa de tantas dores mentais. Levantei-me da poltrona e fui até o vidro, fitava uma estrada retilínea que ia até o porto da cidade, de lá ancorara um enorme navio. Pensei na possibilidade de fazer viagem, caso ela me fizesse pensar melhor sobre tudo isso, porém aquilo era só uma desculpa para fugir de mim mesma.
Voltei-se para fora do cômodo, abri a enorme porta de madeira e antes de sair, fitava novamente o espaço em seus míseros detalhes. Fechei a porta com as chaves e sai pelos corredores do prédio até chegar ao elevador. Desci até o estacionamento subterrâneo e fui até o meu automóvel, o abri e sentei no banco em frente ao volante, olhei para o lado e no banco carona havia um dos meus livros favoritos, “O mistério de Jasmine” recordava-me rapidamente da história e uma ideia surgiu de repente.
Sempre pensei em mudar minha vida quebrando suas regras, mas o senso nunca permitiu que avançasse, pois eu sabia no que estava errando e sempre voltava atrás e concertava as coisas com maior perfeição do que já havia antes. Entretanto não há como voltar e concertar a morte, afinal era um caminho de uma só via. Respirei a loucura da insanidade, já que estava planejando algo considerado aos fracos e egoístas. Antes de fazer qualquer coisa, peguei minha bolsa no banco de trás e retirei uma caneta, abri o livro numa página da capa em branco e comecei a escrever um testamento de explicação a minha família, chorava a cada verso e as lágrimas escorriam com as palavras. Por um momento pensei em voltar atrás, mas tinha de prosseguir, resistindo ao medo.
Saí do carro e fui até a portaria do edifício. Havia um homem de prontidão fazendo a segurança do prédio, pedi para que ele entregasse aquele livro ao meu marido no dia seguinte e sem entender o motivo ele não se recusou em fazer. Voltei ao carro e antes de partir, peguei meu celular e envie uma mensagem ao meu amado com a seguinte mensagem: “O pôr-do-sol é um bom lugar para dizer adeus.” Recostei a cabeça sobre o volante, passei as mãos sobre os cabelos e com firmeza pus minhas mãos sobre aquele e comecei a dirigir para fora do prédio.
Não havia limites para a velocidade, as ruas da cidade começavam a ficar vazias, a madrugada nos engolia num alento e me direcionava a iminência para o término da perfeição. Cada vez que o automóvel acelerava sentia que a rapidez me fizera voar e ir até os céus, senti meu celular vibrar com uma nova mensagem, foi então que avistei o caís do porto e acelerei ainda mais, tremia junto com os pneus passando pelas madeiras. Foi então que o horizonte se acabou e o carro voou alguns segundo no ar como um foguete e nesse momento olhei para o vidro do lado de fora e sorri, antes de afundar nas profundezas daquele mar assustador. A emoção e a adrenalina em meu peito não duraram muito, até que eu estivesse agora inconsciente.
Estava em um lugar completamente claro, a luz penetrar uma das janelas do cômodo, encontrava-me deitada sobrei um leito e recoberta por aparelhos médicos. Meu corpo estava todo dolorido e eu não fazia a menor ideia de onde estava e nem o porquê. Levantei lentamente da cama e segui até a janela, o dia estava claro com o nascer do sol. Um médico entrou no quarto e ao me analisar pergunta:
- Olá senhora, está tudo bem? – Demorei um pouco para assimilar a pergunta e então respondi.
- Sim, estou, mas afinal o que eu estou fazendo aqui? – Indaguei.
- A senhora sofreu um acidente no píer do porto, e ficou em coma por uns três meses, não se lembra? Seu marido recebeu...
- Um instante, eu tenho um marido?
- Sim senhora, na verdade como eu ia dizendo, seu marido recebeu uma mensagem codificada do lugar onde ele te encontraria, eu acho que a mensagem fala sobre o lugar que vocês se conheceram, ou coisa assim.
- Por favor, pode me deixar sozinha. – Solicitei-lhe.
- Tudo bem, eu já vou indo, mas antes ele pediu que lhe entregasse este livro. – O rapaz me estendeu os braços entregando-me o livro e saindo.
Não me lembrava ligeiramente de nada e uma confusão de sentimentos sobrevoavam minha mente. Deitei-me novamente sobre a cama e abri o livro, na primeira página havia uma mensagem:
Se você está lendo isso é porque o plano foi um sucesso. Você provavelmente deve estar confusa, mas irei lhe explicar da melhor forma que puder. Você perdeu a memória e não vai se lembrar absolutamente de nada, todo seu esquecimento é por causa de um bem maior e necessário, eu precisava morrer para que você pudesse viver. É estranho o que eu vou lhe contar, mas foi você quem escreveu esta carta, no entanto lembre-se que de forma alguma queira resgatar as suas memórias, eu lhe digo com convicção que elas não são boas, me dei uma nova oportunidade arriscada de viver, foi então que me acidentei no mar, como no seu livro favorito “O mistério de Jasmine” leia-o e irá entender um pouco mais do seu passado assustador. Algumas considerações finais. Lembre-se que você tem uma família maravilhosa e você pode encontrá-los na rua: Boster Miller, nº 512 , Apt 803. E para finalizar, seu maior sonho é ser uma bibliotecária.
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