Minha filha Inês
1 Um encontro ao acaso
Notas iniciais
Minha filha Inês
(Miguel)
Cada jovem que se juntavam ao Circo das Luzes, uma fora uma criação minha e de minha esposa, trazia consigo uma verdadeira emoção. Cada um deles tinha uma história de vida e passavam a fazer parte da minha história de vida. Eles eram como os filhos que eu e Paloma não podíamos ter; e eu tinha certeza nunca esqueceria a história da mais nova integrante de nossa família.
*
Cinco anos atrás
A caravana parou finalmente na aldeia Kón, onde passaríamos as próximas semanas, e eu finalmente pude esticar o corpo após uma longa viagem em cima de um cavalo. Após desmontarmos, Paloma se aproximou e beijou meu rosto enquanto o resto de nossa grande família começava a montar nosso pequeno acampamento, usando os vagões dispostos em círculo como uma espécie de delimitação.
— Vou buscar lenha na floresta. — Avisei minha esposa e, após beijá-la nos lábios, entrei na floresta com um machado nas mãos.
Após caminhar por alguns minutos, avistei algo bem estranho à minha frente; escondido entre as árvores e quase invisível aos olhos havia uma pequena casa feita inteiramente de madeira. Eu sabia que aquele tipo de moradia no meio da floresta não era incomum naquela região, porém algo no local me impulsionava a chegar mais perto e, quase sem pensar, me vi entrando na casa.
A primeira coisa que notei foi o frio que estava ali dentro; não que do lado de fora estivesse um clima quente, porém a casa parecia estar em pleno inverno. Os armários da cozinha estavam abertos e tão vazios quanto os outros cômodos da casa, e eu já estava perto de sair quando ouvi algo que me fez estancar no lugar. Uma tosse seca que vinha do único quarto onde eu não entrara.
A cena que descobri ao abrir a porta foi de partir meu coração. A única janela fora deixada aberta, e uma corrente forte de ar passava pela abertura deixada; o cômodo tinha apenas um pequeno baú em um canto, que também estava vazio, e uma cama no outro. Nesta, uma criança de uns cinco ou seis anos tentava se manter aquecida com um cobertor fino demais para o frio da região de Kón enquanto tossia fortemente. O rosto e vermelho e o corpo trêmulo não me deixavam dúvidas de que ela estava doente.
Muito, muito doente.
Corri para fechar a janela e depois me ajoelhei perto da criança. Colocar a mão em sua testa foi como colocar a mão sobre as chamas de uma fogueira, e não tardou para eu sentir um suor pegajoso sob minha palma. O contato fez com que ela abrisse minimamente os olhos – tão azuis quanto o céu em um dia de verão – e olhasse para mim. Eu não sabia como reagir, então fiz o que me passou primeiro pela minha mente; sorri e acariciei seus cabelos cor de cobre.
— Oi, querida. Você parece bem mal... — Claramente, estava amenizando a situação para não a deixar preocupada. — Eu sou Miguel; qual o seu nome?
— Inês.
— Onde estão seus pais? — Perguntei, tentando soar calmo, embora por dentro estivesse despedaçado com a visão em minha frente. Ela foi tomada por outra forte tosse.
— Eles foram embora. — Ela sussurrou, e eu precisei me inclinar em sua direção para escutá-la; ondas de calor emanavam de seu corpo pequeno. — Me deixaram aqui sozinha.
A primeira coisa que senti foi raiva por deixarem uma criança sozinha naquele estado. Entretanto, outro sentimento surgiu ao mesmo tempo, e eu automaticamente tirei meu casaco para cobri-la e tentar mantê-la aquecida.
— Não me deixe sozinha, por favor. — Ela pediu, fazendo novamente meu coração se despedaçar pelo pedido desesperado de uma garotinha que fora abandonada pelos pais apenas por estar doente.
— Eu não vou. Eu vou levar você até uma das melhores pessoas que eu conheço, e elas vão cuidar de você. — Eu prometi, desejando realmente que aquilo fosse verdade. Me ergui e passei meus braços por baixo de seus ombros e de seus joelhos para erguê-la em meu colo. Seu corpo estava magro, o que me fez deduzir que ela não havia comido nada por alguns dias.
Com a lenha esquecida e uma criança desconhecida em meus braços, corri de volta para a caravana.
*
— PALOMA! — Gritei assim que sai da floresta, chamando atenção de todo o circo. Minha esposa estava do meu lado alguns segundos depois, com o olhar questionador. — Eu a encontrei na floresta. Os pais a abandonaram, a casa estava vazia e... ela está muito doente. — Eu sussurrei, sentindo um nó na garganta. — Por favor, ajude-a. Por favor! — Pedi, embora soubesse que não precisava. Paloma ignorou tudo à sua volta, inclusive as pessoas que se aglomeravam, e tentou me acalmar.
— Coloque-a no nosso vagão. Rosa, Diana, tragam lençóis e água, por favor. Diego, traga um pijama da sua irmã. Temos que agir rápido antes que ela piore. — Ela disparou ordens, aos quais todos nos apressamos em seguir.
Deitei a garotinha na cama de casal, ajudei Rosa e Diana com o que era necessário e depois saí do local, levando as mãos aos cabelos em um ato antigo para tentar me acalmar.
Aquela foi uma as maiores noites que eu vivi.
*
Cinco anos depois
Inês se recuperou alguns dias após eu a encontrar, e se juntou ao circo no mês seguinte. Eu a ensinei a montar e ela rapidamente demonstrou aptidão para tal, apresentando-se para nosso público com montaria ao pelo e truques de volteio.
Muitas pessoas marcam nossa vida de maneiras que nunca podemos imaginar. Algumas, para o bem; outras, para o mal. Inês e eu nos conhecemos de forma inusitada e triste, mas formamos uma coisa que ninguém podia separar.
Éramos pai e filha.
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