Minha estranha obsessão
7 Aquela traidora
Notas iniciais
—O que foi? –Perguntei para Dereck enquanto estávamos no carro indo para minha casa.
—Nada.
—Você sabe que pode confiar em mim. Você me conhece do avesso.
—Taylor, me desculpe, mas estou preocupado com você.
—Por quê?
—Não quero deixar você sozinha.
—Nós vamos conversar pelo pensamento não é?
—Você não está preparada para isso, Taylor.
—O que sugere então?
—E-mail?
—Será o suficiente?
—Acho que sim.
Depois de mais alguns minutos no carro, chegamos à minha casa. Convidei Dereck para entrar e passar aquela tarde comigo, ele bem estranho recusou afirmando que precisava arrumar algumas coisas para a viagem.
Depois de nos despedirmos, deitei no sofá e aproveitei para dormir um pouco. Acordei com o barulho do carro da minha mãe. Ela entrou com algumas sacolas e pediu para que eu guardasse as compras.
Quando terminei de fazer a tarefa que ela havia me pedido, subi até meu quarto e me joguei na cama e comecei a ler um dos livros de Shakespeare. Minha mãe bateu no meu quarto perto das sete da noite.
—Ei, podemos conversar?
—Claro, pode entrar.
—Filha, seu pai ligou.
—E daí?
—Ele quer que você volte.
—Por quê?
—Ele me perguntou sobre sua amizade, e eu disse que só tinha uma. Ele quer que você volte. Reencontrar seus amigos, seria bom para você.
—Eu tenho uma amiga além de Dereck.
—Por que não a chama pra jantar com a gente?
—É uma boa ideia.
—Vou preparar o jantar.
Estava com medo de falar com Isis, ela parecia ser bem legal, porém a última “amizade” que fiz foi com Lauren e acabei com uma perna quebrada. Acabei optando por ligar pra ela. Não queria de jeito nenhum voltar a morar com o meu pai. Eu tinha uma missão com Dereck, uma missão que deveria ser cumprida.
—--
—Eu não sabia que minha filha gostava de fazer amizades. –Sorriu minha mãe para Isis.
—É, foi uma surpresa muito rápida para mim também. –Eu disse rindo.
—Quer mais? –Perguntou minha mãe à Isis apontando para a salada.
—Não, obrigada. Taylor, acho que preciso ir para casa.
Quando abri a porta, me deparei com um vento frio que arrepiava forte minha pele. De longe, ouvi ruídos, pareciam ser do outro lado da cidade, onde tinham restaurantes e baladas.
—Está tudo bem, filha? –Perguntou minha mãe ao meu lado.
—Sim, tudo ótimo.
—Isis, está muito tarde e frio para voltar para casa agora, liga para sua mãe e pergunte se pode ficar.
—Claro.
Aproveitei que todos estavam na sala vendo televisão e então fui até o outro lado da rua, me sentei na calçada e fiquei observando os carros passarem. Recebi uma mensagem da minha mãe no celular e avisei que já ia entrar.
Aquele momento, aquela Lua, aquele espaço, aquele lugar. Tudo o que eu sentia parecia ser refletido naquele vento forte. Na esquina avistei andando em minha direção, duas pessoas que estavam no restaurante onde vi Ficker pela primeira vez. Levantei-me e entrei em casa. Não queria me meter em encrenca mais uma vez.
Quando entrei no meu quarto, encontrei Isis sentada no banco da minha janela lendo um dos meus livros.
—M-me desculpe.
—Tudo bem, fica a vontade. Quer um pijama emprestado?
—Não obrigada.
—Abri meu armário e peguei um casaco e uma calça de moletom e entreguei a ela.
—Mas eu...
—Coloca logo. Vou tomar um banho. Já volto.
Deixei a água quente cair sobre meu corpo, conseguia ouvir os trovões lá fora.
Quando voltei pro quarto me deitei na cama e Isis disse que não queria dormir ainda.
Não consegui pensar em nada antes de dormir, apenas fechei o olho e cai no sono.
Tive mais um daqueles sonhos. Estava em um sítio, o reconheci sendo da minha vó falecida, eu passava meses e meses lá quando meu pai viajava a trabalho. Podia sentir a grama macia sobre meus pés. O cheiro de bolo de morango saindo do forno e o silencio daquele lugar. Ouvi um rugido e olhei para trás. Tinha um leão fora da jaula correndo atrás de mim. Comecei a correr e me joguei em um lago que ficava por ali por perto. Senti minha respiração ofegante, o cabelo suado de tanto correr e a falta de ar.
Acordei com a roupa molhada e com falta de ar.
Desculpa.
Ouvi mais uma vez a voz de Dereck. Aquela voz me acalmava.
Olhei para a janela e percebi que Isis já tinha descido.
Coloquei um vestido florido e minha sapatilha. Peguei minha bolsa e desci até a cozinha. Isis estava sentada na mesa mexendo no celular.
—Você grita bastante enquanto dorme em.
—Desculpa.
—Ei, sua mãe disse que seu namorado deixou recado.
—Meu namorado?
—É aquele garoto que anda pra cima e pra baixo com você.
—Ata.
—Ela disse que ele pediu para avisar que voltaria só semana que vem, porque seu voo foi cancelado.
—Tudo bem. Vai para o colégio?
—Não, tenho que resolver umas coisas em casa, coisa de família.
Fui até a porta e a tranquei, Isis foi até o outro lado da rua e foi para sua casa.
Como já tinha tirado o gesso, não tive dificuldade em ir andando até o colégio.
Cheguei até a portaria da escola e me deparei com Isis entregando um papel para Lauren.
Fui direto para a sala de aula. A primeira aula, de filosofia, assistimos a um documentário sobre o amor em tempos de guerra. Confesso que fiquei entediada. Sentei na última cadeira como sempre, coloquei minha bolsa na cadeira ao lado para ninguém se sentar e coloquei os fones de ouvido.
Durante o intervalo senti uma falta gigantesca de Dereck. Sentei em uma mesa mais afastada e tomei apenas um suco de uva e comi algumas frutas. De longe, percebi que vinha um menino estranho andando na minha direção. Abaixei o olhar e fingi mexer no celular.
—Oi, você é a aluna nova não é?
—Sim e você?
—Andrew, estudo nesse colégio desde pequeno, se quiser ajuda para...
—Não, obrigada. –O cortei levantando da mesa pegando minhas coisas.
—Mas... –Tentou continuar Andrew.
—Não percebeu que ela não quer? –Surgiu uma voz do meu lado, seu corpo quente me abraçando e percebi quem estava ali. Dereck sorria para mim com os olhos.
—Tudo bem, desculpa incomodar. –Saiu Andrew com um sorriso irônico.
Olhei mais uma vez para Dereck e o abracei.
—O que está fazendo aqui, seu maluco? –Interroguei-o ainda de pé e o abraçando.
—A reunião foi de madrugada. Adiantei meu voo e voltei logo para te ver.
Percebemos que todos do refeitório estavam nos olhando, e então sentamos.
—Como foi lá?
—Eles aprovaram.
—Aprovaram o que?
—Nós podemos ficar juntos Taylor, eles não acharam isso um problema, já que você virará imortal em breve, eles não acharam que poderiam interferir.
—Você não sabe como eu me sinto feliz por saber disso Dereck. Mas... Calma, como você está aqui se Isis disse que seu voo foi cancelado.
—Esse é o problema.
—O que?
—Isis, ela é o problema. Existem imortais que conseguem se disfarçar de mundanos tão bem que nem outros imortais percebem.
—Eu dormi na mesma cama que aquela vaca!
—Sério? –Ele começou a rir.
—Sim, longa história.
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