Minha Querida Alexandra

4 Uma Noite Sem Estrelas


Notas iniciais
Esse capítulo é muito pequeno, eu o fiz somente para dar entrada para as situações dos próximos.

O tempo não passava do lado de fora da casa, eu me sentia cada vez mais murcha, entediada e apreensiva naquele lugar. Aeron tentou melhorar meu humor tentando fazer piadas das quais eu nunca entendia, mas as coisas que eu mais gostava de ouvir eram suas histórias longas e detalhadas, isso me fazia detestar ele menos. Havia muitas coisas de que eu na sabia sobre o mundo, os dois lados dele para ser mais exata, e até mesmo sobre mim.

Estávamos em um barco no lago, como em uma pintura de Veneza, ele remava enquanto me contava histórias e eu apenas o escutava da outra ponta.

–... E foi assim que os seres humanos nasceram.

–Não faz muito sentido, Darwin era mais lógico.

–Quer saber, retiro o que eu disse, você não é uma boa ouvinte, é igualzinha a minha irmã.

–Você tem uma irmã? Tipo... sério mesmo? – Eu não conseguia imaginar esse cara nem em formato de criança, imagine então numa foto de família.

Ele parou de remar e se espreguiçou um pouco, em seguida se debruçou sobre meu colo e olhou diretamente para mim.

–Você humanos tem uma definição diferente do conceito “irmão”, geralmente frutos genéticos dos mesmos pais, um pai ou mãe diferente ou completamente diferentes, no caso da adoção. Já eu e minha irmã Lazuli somos irmãos porque fomos feitos para sermos irmãos.

–Eu não entendi muito bem.

Ele coçou seu queixo enquanto olhava para o céu alaranjado.

–Já teve uma amiga ou amigo que você amava, mas não “daquele” jeito, de uma maneira que vocês são como a última peça do quebra-cabeça um do outro?

–Não... claro que eu já tive muitos amigos e me divertia com eles, mas não era lá muita coisa.

–Isso nunca te deixou triste?

–Na verdade não, eu era feliz com eles do jeito que as coisas eram. Amigos vinham e outros iam. Eu sempre fui assim.

–Eu sinto muito por você.

–Por quê?

Ele se levantou rapidamente e me beijou antes que eu pudesse me defender, pude sentir sua língua tentar entrar em minha boca, então se afastou antes que nós dois caíssemos do barco.

–Eu sinto muito, por você não ter encontrado na vida o que eu levei a eternidade para encontrar em você.

Ele sorriu, pela primeira vez o seu sorriso não possuía malícia alguma, nem sua voz um tom de sarcasmo. Pude sentir todo o meu rosto esquentar.

–Cretino, me avise quando fizer mais de 12 anos!

Ele gargalhou um pouco, exibindo seus dentes pontudos. Flutuamos daquele barquinho bem devagar até o cais, mas algo nos assustou por um segundo, um tremor em todo o lago, causando pequenas ondas.

–Hum... – Sua expressão mudou drasticamente, ele parecia preocupado.

De longe algo voou até nós. Era o pequeno pardal que ficou comigo por um tempo, ele parecia incrivelmente preocupado com algo, ou com medo.

–Monsieur Aeron! Os dois grandes estão batalhando próximos à bolha, precisamos muda-la de lugar! – Ele estava quase sem ar.

–Estou a caminho. Alexandra entre em casa e se esconda em um lugar confortável, não sai até que eu volte!

–O que está acontecendo. – Eu fiquei de pé no barco para tentar subir no cais, quase tropecei, mas Aeron me segurou pelo braço antes.

Suas asas romperam os tecidos de sua roupa, estavam diferentes, mais agressivas, com pontas afiadas e mais largas. Ele olhou para mim uma última vez antes de partir na direção do sol que estava sempre se pondo. Por que todo aquele tumulto? Quem eram estes que conseguiam faz todo um universo paralelo estremecer? Eu corri pelo cais até entrar em casa, peguei vários cobertores que havia ganhado de Aeron tempo atrás e fiz uma enorme tenda no centro da sala, rodeada de travesseiros e almofadas. Mas o que eu mais precisava era de uma vela.

–Madame? – Olhei assustada na direção da voz.

–Oi pardalzinho. Como você entrou? – Eu estava completamente encolhida entre todos aqueles panos, apenas meu rosto era visível.

–Pela janela...

–As janelas nãos estão trancadas?!

–Nunca estão, madame.

–Eu mereço. – Então me lembrei de algo que sempre me deixava tranquila quando eu era criança. – Ah! Pardalzinho?

–Sim, madame.

–Você sabe onde eu posso encontrar uma vela?

–Na cozinha, vou buscar uma pequena pra você.

–Obrigado... – Mesmo que eu me questionasse se um passarinho tão pequeno conseguia carregar uma vela.

Ele voou para a cozinha e eu me deitei sobre as almofadas, mesmo com o som abafado por elas eu podia escutar os tremores que faziam a casa ranger e estalar. Foi quando algo mudou, o ar estava frio e eu podia ver minha própria respiração na minha frente, mas o pior de tudo foi o escuro. O céu alaranjado se tornou completamente negro e sem estrelas, nem nuvens e nem mesmo lua.

–Madame! Está tudo bem?! – Meu adorável passarinho com sotaque francês me aliviou, por um segundo esqueci que não estava sozinha naquela casa e no escuro.

Uma chama podia ser vista através dos lençóis, ele estava trazendo a vela. Eu a segurei e a coloquei de pé no chão e afastada da tenda.

–O que está acontecendo?!

–Estamos fugindo... – Ele pousou no chão completamente exausto.

–Fugindo de que...?

Um último estrondo possuía uma força gigantesca, as águas do lago se tornaram grandes ondas que cobriram a casa, virando-a como uma canoa enorme. Fui jogada contra as paredes enquanto tentava escapar da água que entrava rapidamente, foi quando de repente um dos móveis caiu sobre mim, a batida contra minha cabeça me fez ficar tonta.

–Madame...!

Eu podia escutar o pardalzinho, mas sua voz ficava cada vez mais distante e distante, minha visão escurecia acompanhando a enorme dor em minha cabeça.

Por um segundo me senti do mesmo jeito que antes, nos segundos antes de acordar de um sonho. Quando não se sabe mais se está dormindo ou não. Mas pela primeira vez desde que cheguei naquele lugar, não quis acordar...