Minha Primeira Ficção
1 O começo do fim
“Posso sentir o mundo inteiro... Posso ver como as pessoas se deixam levar por ele, sendo escravas de seus conceitos pré-formados. Nada faz sentido, não há mais razão para estar aqui. Sinto-me preso a uma realidade que nunca me pareceu real. Vi do que o homem é capaz, vi como usam de tal capacidade tão somente para o bem próprio. Ou para o mal alheio. Dessa forma, despeço-me de tudo isso sem cerimônias, afinal nunca me apeguei a nada nem a ninguém e se por ventura algum dia eu já fiz isso, então está no passado, o qual não me importa mais.”
Ao terminar de ler minha carta, senti um vento gelado no rosto, como a mão de uma mãe que afaga seu filho deixando-o partir. Talvez seja sim ela, a morte. Talvez esteja me perguntando se tenho certeza do que estou fazendo. Realmente isso é uma despedida, não há mais como negar, ou voltar atrás. Depois de dois passos, o vento já está mais forte e sinto um aperto no pescoço, minhas mãos enrijeceram e não sinto minha saliva. Olho para baixo e vejo um abismo sem fim, escuro como a noite que vem caindo. Uma última olhada para o céu de um anil enevoado e fecho os olhos tentando esvaziar minha mente, mesmo com todo aquele frio. O pequeno pedaço de papel molhado onde deixei gravada minha despedida, balança intensamente com o vento gelado. O som de uma vila próxima parece estar a milhas e milhas distantes. Alguns minutos e já estou leve como o sereno da manhã, minha mente está pronta. Suavemente deixo meu corpo inclinar-se para frente, e num passo longo, o pequeno bilhete se desprende de minhas mãos e a gravidade faz seu trabalho.
Meu corpo acelerou rápido e o vento quase arrancou meu rosto. Em instantes imaginei que seria assim por toda a eternidade, aquela sensação de frio e aperto como se algo me esmagasse de dentro pra fora... Mas tudo foi rápido demais. Milésimos de segundo antes de tocar o chão, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo: Tudo ficou frio, não consegui decifrar o que era luz e o que era escuridão, não senti meu corpo nem o espaço à minha volta. Depois o vazio. Tudo sumiu... E com uma intensidade fora do comum, algo começou a correr em minhas veias. Não pude pensar, não conseguia ver, nem sentir, mas alguma coisa estava errada...
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