Minha Luz
1 A Verdadeira Luz
Notas iniciais
Eu o avisto ao longe, camuflado em torno dos outros, fingindo dormir como eles.
Observo como ele caminha, os passos rápidos, ansiosos, envolventes. Poderia passar horas apenas os olhando andarem de um lado para o outro, os tênis gastos, a calça um pouco maior do que seu número.
Ele pratica arduamente seu rap. Sinto vontade de pará-lo, dizer que está tudo bem, não precisa se esforçar tanto. Porém, o medo me impede, apesar de eu saber que o motivo pelo qual ele treina tanto é a crítica que vêm dos outros e dele mesmo.
Percebo que seu corpo vira em minha direção e fecho os olhos, apreensivo. Meu coração bate descontroladamente, e por um momento, sinto que ele pode ouvi-lo. Pergunto-me se eu quero que ele o ouça, se desejo que ele entenda a ansiedade que eu sinto só por estar no mesmo cômodo que o dele.
Ouço o barulho dos tênis andando pelo chão, por mais que ele tente não acordar os outros membros. Com cuidado, abro o olho direito e depois o esquerdo, até que os mantenho bem abertos para apreciá-lo com mais detalhes.
Ele se verifica no espelho e dá duas voltas, antes de começar. Em seguida, coloca o pé esquerdo para frente e, sem música alguma, inicia uma dança excêntrica com uns poucos passos. Continuo a olhá-lo com mais vontade conforme ele se esforça mais e mais. Mesmo com apenas uma das luzes acesas, consigo ver bem o suor escorrendo de seu pescoço.
Ele encosta as duas mãos no espelho e respira fundo, parando por um momento. Eu copio o seu gesto inconscientemente, como se, de alguma forma, a minha ação pudesse levar alguma calmaria a ele.
Retornando, dança para um lado e para o outro, sorrindo algumas vezes para o chão, como se houvesse ganhado um prêmio ou algo do tipo. Quero rir, mas sei que ele ficaria um pouco sem graça por mais que tentasse não demonstrar. Nós dois éramos muito bons em esconder nossas falhas.
Quando ele cansa, senta-se perto de mim, e fecho os olhos. Ouço-o deitar a cabeça perto da minha, e sinto o seu cheiro. Sua respiração, ainda descompassada, parece fundir-se com a minha, ansiosa pela súbita proximidade. Novamente, tenho receio de que meu coração escandaloso venha a dar pistas sobre mim.
Pouco a pouco, o seu respirar se normaliza, e sinto uma mão tocar a minha, que estava um pouco acima de minha cabeça. Sinto o toque quente de seus dedos em cada um dos meus, até que os seus se entrelaçam aos meus, segurando minha mão.
Não sei mais se o que está mais quente é a mão dele ou o meu rosto.
Ele aperta forte e me seguro para não abrir os olhos. Com um dedo, batuca timidamente o meu dedão, ao ritmo de alguma música aleatória. Não consigo concentrar-me no ritmo, pois estou ocupado aproveitando cada segundo.
Lentamente, ele para. Nossas mãos continuam juntas porque agora eu as seguro. Ele respira normalmente e sei que está dormindo. Posso finalmente observá-lo.
A pele pálida, o rosto delicado semelhante a uma pessoa inocente. As belas pálpebras fechadas. A expressão dócil, contrastada com sua aparente personalidade. Eu vejo alguém que já é muito amado e não percebeu ainda.
Sempre nos disseram que eu era sua luz. Porém, nunca perceberam que o que me faz ser a esperança de todos é o rapaz que segura minha mão, o garoto de Daegu que tenta se fazer de frio.
Olhando para as nossas mãos, sussurro para ninguém ouvir:
— Você é a minha luz.
“Meu coração que está batendo para te segurar com força"
Hug Me
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