Um tempo depois, acabamos conseguindo uma apresentação em uma casa de shows local, cantamos nossa única música (Skylines and Turnstiles) e o público até que gostou. Eu acabei saindo do Cartoon porque os meus brilhantes amigos e meu irmão decidiram que eu não precisava daquele emprego para viver, pois seriamos os melhores músicos de todos os tempos e mais um monte de besteira. Mikey terminou as aulas de baixo e agora toca muito bem, porém abandonou a escola para dedicar-se à música. Frank fez o mesmo, e Matt e Ray pararam de ser dois inúteis.

Eu acabei parando de ser totalmente anti social e comecei a me relacionar mais com as pessoas. Aliás, havia uma em especial... Frank Iero. Eu e ele estávamos bem mais próximos, bem mais que eu e o outros caras da banda. Ele sempre se importou comigo, até mais que Michael. Mas, até esse momento, éramos apenas melhores amigos.

Já havíamos escrito mais umas cinco músicas e estávamos fazendo pequenas apresentações pelas casas de show de Jersey. Nosso primeiro show foi inesquecível, tocamos Skylines and Turnstiles (a única que havíamos escrito até o momento do show).

Houve um dia, no começo de Junho desse ano que estávamos fazendo um pequeno show, quando um cara da platéia nos chamou para uma “conversa privada”. Descobrimos que se tratava de Geoff Rickly, o vocalista da banda Thursday, que trabalhava na Eyeball Records e queria falar sobre um possível futuro CD da banda. Concordamos em comparecer a uma reunião em seu estúdio, algum dia.

– Espera, precisamos de um nome – Comentou Ray, jogado em um dos sofás da casa de Matt. – Se vamos lançar um CD, precisamos de um nome! Sugestões?

– Que tal... Gerard Way e sua gangue? – Brincou Matt, fazendo todos rir, menos Mikey.

– Parem de falar besteira, idiotas. – Respondeu meu irmão, sempre educado – Quero ler. – Ele segurava um livro chamado “Three Tales Of Chemical Romance”, de Irvine Welsh. – Esperem... O que vocês acham de “Three Tales Of Chemical Romance”?

Ele sorria, possivelmente achando-se um gênio.

– Cala a boca, Mikey, você ta chapado. – Brincou Frank, sentado ao meu lado. Mais uma vez todos riram, exceto Mikey.

– Ah... É legal, Mikey. – Comecei – Mas acho que “My Chemical Romance” ficaria melhor. Sabe, Meu Romance Químico... – Olhei discretamente para Frank, que encontrou meu olhar e riu docemente.

– Eu concordo com Gee. My Chemical Romance é perfeito! – Respondeu ele, ainda sorrindo docemente e debruçando sua cabeça em meu ombro.

Eu e Frank éramos assim, mais que amigos, porém menos que namorados. Gostávamos um do outro, mas não havíamos oficializado nada. Era realmente uma “amizade coloridas”, cheia de agarração e “Eu te amo”. Eu realmente o amava, e esperava que ele sentisse o mesmo por mim. Nesses poucos meses que nos conhecíamos, ele já havia mudado a minha vida. Eu era mais feliz, tinha mais esperança, ele sempre esteve lá para mim. Mas ainda não era aquilo de “Eu te amo, morreria por você” e tal. Digamos que estávamos ficando, porém com um pouco mais de sentimentos. Apenas experimentando e indo devagar.

Continuamos a escrever nossas músicas, acabando por escrever onze, no total – contando com as que já tínhamos – e já nos sentíamos preparados para ir à tal reunião com o cara da Eyeball.

Quando o “grande dia” chegou, estávamos todos nervosos.

– Ei, fica calmo. Vai dar tudo certo. – Frank sussurrava, quando eu ficava um pouco nervoso.

Ao contrário do quê imaginávamos, Rickly realmente gostou das músicas e acabamos fechando para gravar o CD, o qual se chamou “I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love”, nome escolhido por Frank e eu... É claro! Esse CD meio que representou o que éramos, tanto que escrevemos a maior parte das músicas do mesmo.

Eu entrei em sua vida com minha frieza, meu desejo por autodestruição, vícios e tentativas de suicídio, o que seriam as “balas” (bullets), e ele entrou na minha vida com seu amor (love). E também há a música Demolition Lovers, pois é isso que somos: amantes da destruição, e acabamos encontrando um no outro o que faltava em nós. A maioria das outras músicas eu acabei escrevendo sobre a vida fodida que eu sempre levei, e também tem uns solos bizarros de guitarra que Ray insistiu em colocar no CD pois, de acordo com ele, era relacionada à romance e tinha tudo a ver com a história do casalzinho do CD. Às vezes eu acho que ele foi o único, fora o publico, que realmente levou essa história a sério, pois Matt era muito burro para formar uma teoria à respeito disso, ele apenas... Tocava. E Mikey, pelo contrário, era inteligente demais e com certeza percebeu que certas músicas do CD eram sobre eu e Frank.

Após o lançamento do CD acabamos saindo em turnê com algumas bandas alternativas que estavam na mídia no momento. Uma delas chamava-se The Used e vinha de Utah, liderada por Bert McCracken, vocalista. Eles haviam criado a banda no mesmo ano que nós, tocavam um estilo musical parecido e tal, então nos damos super bem. Fora que Bert era uma pessoa muito simpática, e eu havia me identificado com ele, ficávamos todo o tempo que estávamos no camarim bebendo e falando besteira. Ele era bem atraente também, mas nem tanto quanto Frank... Aliás, esse meu lado homossexual surgiu depois da banda.

Certo dia, estávamos eu e Bert no camarim, cada um com uma garrafa de algum destilado qualquer nas mãos.

– Sabe, Bert, essa coisa de banda não ta me fazendo bem, eu acho. – Comentei.

– Por quê? – Perguntou ele, abaixando a garrafa e me olhando.

– Não sei. Até a minha sexualidade essa porra ta bagunçando. – OK, isso era pra servir como uma indireta que eu me sentia atraído por ele, mas como o cara já tava chapado, duvido que tenha entendido.

Ele sorriu. Mas não um sorriso malicioso, não percebi malicia nenhuma vinda dele.

– Eu te entendo, Gerard. Isso meio que bagunça a vida das pessoas, essa pressão toda. É como diz a música, certo? “Insanity laughs, under pressure we’re cracking”. – Sorri e concordei. Bert tinha um bom gosto musical.

Larguei minha garrafa de bebida, ele fez o mesmo, e saímos do camarim. Nossas bandas já haviam tocado, quem tocava agora era “Taking Back Sunday”. Passamos pela sala onde estava o resto do My Chem e do Used, para avisarmos que estávamos de saída.

– Ei, Gee, aonde você vai? – Perguntou Frank, levantando-se do sofá e fazendo menção de ir junto.

– Ah, andar... Não vou demorar, Frankie. – Respondi, puxando Bert pelo braço para fora da sala.

Não é que eu não gostasse do Frank ou quisesse magoá-lo, mas Bert me entendia melhor. Ele passava pelas mesmas coisas que eu.

– Então, aonde vamos? – Perguntei. – Já está escuro Bert, não vamos muito longe, se não a gente nem acha o caminho de volta. – Rimos.

– Ei, espera, foi você quem disse que iríamos sair e foi você que me arrastou pra fora daquela sala enquanto eu estava falando com Quinn. – Quinn, o loirinho que tocava guitarra. Desde que nos conhecemos, o que não fazia muito tempo, percebi certa ligação entre ele e Bert que o mesmo não tinha com o baixista e nem o baterista.

– Ah, vamos andar a toa então. Talvez parar em algum bar e comprar mais bebida... – Sugeri enquanto pegava um cigarro e o oferecia a ele, que negou com a cabeça.

– Você não descansa, Way? – Brincou Bert, gargalhando.

– Você é igual! – Gargalhei também.

– É, tem razão... – Concordou ele, com uma falsa cara pensativa.

A noite toda foi assim, continuamos andando por aí, bebendo, conversando e usando algumas drogas. Quando dei por mim, já eram três da manhã e estávamos sentados em algum lugar que eu realmente não sabia onde ficava. E, ah, comentei que estávamos em NY?

– Já está tarde, acho melhor voltarmos. – Comentei, tirando minha cabeça do ombro de Bert, que estava encostado em mim.

– Ah, por quê? Não deve ser nem meia noite, te acalma aí... – Respondeu ele, despreocupado.

– Sério, Bert, o pessoal já deve estar procurando por nós.

– Way, te acalma! – Ele parecia um pouco alterado. – Eles estão bem e nós ficaremos bem também, certo? – Completou, puxando pelo meu braço para eu não me levantar.

– Bert, porra, me solta! – Ele claramente era mais forte que eu, por isso não eu não conseguia me soltar.

– Só mais uma cheirada, OK? – Insistia ele, me mostrando a cocaína. Acabei cedendo.

– OK, McCracken, só até terminar isso aí e deu... – Ele sorriu satisfeito, largou meu braço e eu me sentei novamente como antes: ao seu lado e com minha cabeça em seu ombro.

Quando a coca acabou, fiz menção de me levantar novamente, mas fui impedido... Outra maldita vez!

– Ei, espera... Onde pensa que vai, Way? – Perguntou ele, que claramente não gostou do fato de eu estar tentando sair de perto dele.

– Embora. A droga acabou, não foi? Agora vou embora. – Levantei decidido.

– Espera mais um pouco, amorzinho. – Agora sim pude perceber um sorriso malicioso vindo dele, que segurou meu braço de novo. – Vamos brincar um pouco, o que acha? – McCracken estava claramente chapado e fazendo besteira, tanto que me prensou contra um muro todo destruído.

– Bert, caralho, eu não quero! – Gritei enquanto tentava me soltar, o que foi em vão.

– Por que não, Way? – Nossos rostos estavam muito próximos agora – Vai dizer que não quer se divertir um pouco? Ou prefere fazer isso com o baixinho lá? – Foi nesse momento que eu lembrei que Frank possivelmente estava procurando por mim, e um desespero me tomou conta – Eu sei que você quer, Way. Eu sei. E eu também te quero...

Ele estava certo. Eu o queria. Eu o queria demais. Minhas duas opções eram: ceder e ficar com Bert, ou sair de lá e ir atrás de Frank. Mas, pra começar, eu não sabia nem como chegar ao Frank sem Bert, porque ele que sempre estava em NY. Eu, sozinho, me perderia.

Não disse nada, apenas parei de tentar me soltar e ele sorriu satisfeito.

– Não vou fazer nada que você não queira.

Me senti culpado por Frank, mesmo que não tivéssemos uma relação mesmo, ele gostava de mim e esperava que eu não me envolvesse com ninguém. E também me senti culpado por Mikey e o resto da banda, que deveriam estar procurando por mim.

Acordei no outro dia deitado no chão, minhas roupas espalhadas por aí – eu vestia apenas uma camiseta e uma calça, que estava aberta – com Bert ao meu lado. Ainda estávamos naquele lugar bizarro da última noite, parecia uma rodovia abandonada. Garrafas, isqueiros e outras coisas estavam jogadas pelo chão.

– Ah, acordou? Tava na hora. Já tava até pensando em ir sem você. – Falou Bert, calçando seus tênis. – Anda, Way, o caminho é longo.

– Porra, o que você fez comigo na noite passada? Por que as minhas roupas estão jogadas por aí? – Perguntei, desesperado, enquanto pegava minhas roupas do chão – Seu filho duma...

– Ei, espera aí! Ta dizendo que eu te dopei pra te abusar? – Ele sorriu malicioso, o imbecil ainda se acusa!

– Exatamente isso, idiota! – Enquanto pegava minhas coisas, um silêncio tomou conta do lugar. Ótimo, ele não negou.

Ao terminar de me vestir, apenas olhei-o com um olhar decepcionado e fui embora.

– Espera, você não sabe o caminho. – Disse ele, com um olhar vitorioso, jurando que eu aceitaria sua companhia para voltar.

– Eu encontro sozinho, obrigado pela preocupação. – Respondi irônico.

Caminhei, caminhei e caminhei até encontrar um táxi, o qual pedi para me levar até a pousada onde a banda estava.

Eu não esperava isso de Bert, não mesmo. Ele sempre me pareceu uma ótima pessoa, tirando os vícios. Sempre foi brincalhão e sempre pareceu se importar comigo. Eu não quis acreditar que ele havia realmente feito isso, esperava que fosse apenas o efeito das drogas e da bebida.

– Onde você estava? – Perguntou Frank, quando abri a porta do quarto onde estava a banda.

– Em lugar nenhum, não enche. – Respondi, sem me preocupar não demonstrar meu mau humor.

– Sério, Gerard, onde você tava? – OK, ele realmente não percebeu que eu não tava a fim de conversar.

Ele levantou e postou-se na minha frente.

– É sério, Gee, eu fiquei preocupado e... – Simplesmente saí de perto. – OK, antes de ir fazer sei lá o que com sei lá quem, Mikey ta procurando por você. – Ótimo, achei que poderia dormir, mas ainda vou ter que aturar o mala do meu irmão.

– O que ele quer? Onde ele ta?

– Falar com você. Um pessoal importante lá quer gravar o vídeo de Vampires – Respondeu, deixando o quarto.

Ótimo, queriam gravar o primeiro vídeo da nossa banda e eu, o frontman, estava perdido por aí com um drogado do caralho.

– Frankie, espera! Me leva até onde eles estão, por favor! – Gritei, saindo à sua procura.

Ele me levou até onde pedi de bom grado.

Chagamos lá e o resto da banda já estava reunido com o pessoal. Pedi desculpas pelo atraso e me juntei ao resto da banda.

Discutimos várias possibilidades sobre a gravação do vídeo e outras coisas. No final, ficou certo que gravaríamos o vídeo dali a alguns meses, pois o tempo para produzir tudo não era pouco, e nós tínhamos um festival para tocar em pouco tempo.

A reunião terminou, e todos fomos para o estacionamento.

– Vai com o Matt, Gerard. – Disse Frank, seco, fechando a porta do carro na minha cara.

– Frank! – Gritei, batendo no vidro. – Me desculpa...

Minha voz já falhava.

– O que você quer, Way? – Ele tentava demonstrar que não se importava, mas não conseguia.

– Frank, me desculpa? – Tentei sorrir, não consegui. – Eu te explico tudo no caminho, OK?

Ele não respondeu, apenas fez sinal para que eu entrasse no lado do carona.

– Obrigado... – Respondi.

– Então...? – Começou ele, como se esperasse por algo. – Explique...

Contei a ele tudo que aconteceu e o quão filho da puta o Bert foi. Quando chegamos à pousada, Frank já queria matar-lo.

– Espera, Frankie, o McCracken e o resto já se foram, OK? A nossa turnê já terminou e agora estão a caminho do Warped Tour. – Disse, rindo, enquanto me jogava em um dos sofás e ele sentava-se ao meu lado.

– Me desculpa, Gee?

Fiz uma cara confusa, pois não entendia porque ele deveria desculpar-se.

– Ah, você sabe, por ter ficado todo estressado com você sem saber o que realmente havia acontecido...

Ele passou um braço pelos meus ombros e eu descansei meu rosto em seu peito.

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