Milésima Canção de Amor
18 Eu não vou me adaptar
Era a primeira semana de férias, o que já representava um excelente motivo para estar de bem com a vida. Some a isso, a paixão assombrosa de Daniel por futebol e o amistoso entre Brasil e Estados Unidos há 150 quilometros de Lima. O que mais o carioca poderia desejar? O ingresso? Não precisava, já que Tina e Quinn tinham adquirido as entradas. Definitivamente, ele tinha os melhores amigos do mundo.
Mercedes e Sam eram presenças mais do que garantidas, assim como Puck e Adam. E o entusiasmo irlandês para com o esporte não foi esquecido, por isso, Rory e Harmony completavam o grupo. Estádio praticamente lotado, confusão de cores nas arquibancadas, batucada interminável da torcida e os gritos de incentivo. Por que Quinn Fabray tinha concordado em gastar a noite daquela quarta-feira num estádio de futebol? Por causa do rapaz com a camisa do Flamengo, sentado a sua direita e extraordinariamente entusiasmado. O juiz apita, a multidão de verde e amarelo se levanta, a bola rola e os jogadores são nomeados por Daniel, Puck e Sam, o único a torcer pelo país de origem. O batuque não cessa e o carioca repica na própria perna arrancando um sorriso da namorada, que repousa a cabeça em seu ombro. A cada jogada parada, a loira questionava o acontecido e um verdadeiro batalhão de comentaristas estava a postos. O gol levanta a torcida, incendeia os jovens de Ohio e faz as meninas gargalharem. O arbitro encerra a primeira etapa e algum sossego recai sobre o local.
_ Gol, de quem? É a força do moicano, cara! – o bad boy se vangloria e poucos compreendem a piada.
_ “Quando eu falar que sou amigo do Neymar, que o meu cartão é sem limite e hoje o bicho vai pegar... Ai, as minas pira e vai...Vai pirar! As minas pira no papai! – cantarola em português uma música que é entendida pela loira, que lhe dá uma cotovelada proposital.
_ O que foi que você disse, cara? – questiona divertidamente o irlandês.
_ Besteira, leprechaun... Só um som de boleiro, entende? – o brasileiro ri e os amigos relevam – Deixa pra lá... Vocês querem algo do bar? — Mike se oferece para acompalhar o carioca e retornam com dezenas de saquinhos de pipoca e diversos refrigerantes. Adam corre para tirar o excesso de mercadorias da dupla e já apanha o seu pedido.
_ Quer apostar no placar? Tenho certeza que ainda vamos virar! – afirma Sam.
_ Eu não to dando a mínima para o placar. To mais a fim de curtir o jogo, é a primeira vez que eu vejo a seleção no estádio! – reconhece o brasileiro.
Outro gol é marcado pela seleção brasileira, a torcida comemora com “olé”, a onda nas arquibancadas contagia os adolescentes e cabe ao imigrante explicar o sentido da manifestação. A batucada aumenta entre os brasileiros, Daniel cantarola baixinho e diverte a namorada por tamanho entusiasmo. O arbitro apita o fim da partida, o loiro é corneteado pelos “primos metralhas”. Já no estacionamento, Puck ligava o carro com Mercedes no banco de passageiro e o hippie falando alguma estupidez no banco de trás. Quinn sugere uma estação de rádio e o carioca solta uma proposta para lá de maluca.
_ Seria demais se a gente pudesse pegar uma praia! Não fica muito longe daqui, não é?
_ É, mas, estamos a 150 km de Lima e já passa das dez da noite! – conscientiza a negra.
_ Yeah, e vocês tem que acordar cedo amanhã, por que mesmo? – rebate o motorista.
Mike adora a ideia e se coloca a caminho da praia com o judeu em sua cola. Tão imediato, o bad boy estaciona, Daniel e Adam pulam na areia, se livram dos tênis e camisetas e correm para o mar. Puck desliga o veículo e se apressa em se juntar aos comparsas dentro do oceano. Os gritos pela baixa temperatura da água ecoam pela praia deserta e o asiático elabora uma rápida manobra para que os faróis iluminem simultaneamente a areia e o mar. Sam, Rory e Harmony decidem arriscar e cair no oceano, Tina e Mike se limitam a caminhar pela beira-mar de braços dados e Mercedes e Quinn aproveitam para escolher alguma música decente no som do carro do judeu, que sai reclamando de frio. O loiro e o irlandês disputam uma comida corrida pela areia a fim de se esquentar. A negra se aproxima do namorado e deixa a sister na companhia do bad boy.
_ O que deu na cabeça de vocês para correr para a água? Vão acabar todos doentes!
_ Pelo menos, eu aproveitei a água. Já você ta tremendo de graça, né? Pode pegar a minha jaqueta, não vou usar agora mesmo.
_ Ah... Obrigada... Uau! Fazia tempo que eu não usava essa jaqueta. – ela veste a antiga jaqueta dos Titãns.
_ Yeah, desde quando descobrimos que era uma menina, lembra? – ela confirma – Você soube que a Shelby voltou para Toledo?!
_ Sim, ela me avisou por email... Então, voltamos aquela coisa de visitas por mês?
_ Sim, mas, ela tem sido ótima... Minha mãe se consulta com um especialista de lá e aproveito para ver a pequenininha... É sensacional!
_ Posso ir da próxima vez? – ele concorda – Puck, sinto muito por quase ter estragado tudo... Sei que desde o nascimento da Beth, nós nos afastamos e...
_ É sério isso? Quinn, você é mãe da minha filha e namora o meu melhor amigo... Nós somos amigos... Não tem como você se livrar de mim pelos próximos anos. – o judeu sorri debochado e a loira revira os olhos pelo ar cafajeste. Puck nunca mudaria.
Harmony sai da água tremendo de frio e é rapidamente envolvida pelos braços do leprechaun. O hippie e o loiro inventam imitações e agüentam as próprias idiotices, o casal Tike se aproxima dos amigos e aproveita a canção romântica para literalmente dançarem sob o luar, o brasileiro é chamado pela blackdiva e sai relutante do mar. A primeira ação em terra é correr e emendar algumas acrobacias para esquentar a temperatura do próprio corpo. Puck puxa o violão, a turma se acomoda em volta do judeu, a luz dos faroletes é suficiente para clarear o local e o improvisado luau se adentra a madrugada. Ao retornarem para Lima, a proeza causa certa inveja nos gleeks deixados para trás e as comemorações coletivas se tornam ordem nas semanas seguintes. Mergulhos na piscina da mansão de Sugar, sessões engraçadissimas de videogame na casa de Mike ou Artie, churrascos incríveis nas residências de Rachel ou de Finn e Kurt, fugidas para o cinema 3D da cidade vizinha, escapadas para prestigir shows em municípios próximos, intermináveis tardes desperdiçadas em mesas de bilhar com cervejas ao alcance dos rapazes em bares baratos e noites exclusivamente femininas. Os passatempos são os mais variados e divertidos que o marasmo de Lima lhes permitia e a imaginação dos 18 anos conseguia driblar. Mesmo que tenha sido o melhor verão de suas vidas e que a amizade nunca esteve tão em alta, inevitalmente, aqueles dias chegariam. Dias em que era preciso dar adeus aos que se formaram e esconder a vontade em se esconder do mundo para prolongar aquela sensação de férias.
Aqui estou eu, esperando, terei que ir embora em breve
Por que estou persistindo?
Sabíamos que este dia chegaria, sempre soubemos
Como chegou tão rápido?
A primeira despedida foi complicada, afinal, quem disse que seria fácil abrir mão da companhia de Rachel, Kurt e Mike Chang? Os três integrantes do coral que retornariam para a Nova Iorque. Ninguém compreendeu exatamente o que Santana disse três dias após numa mescla de espanhol e lágrimas ao soltar Brittany e acenar antes de tomar o trem rumo a faculdade no Kentucky. Porém, o mais complicado foi comparecer naquela sexta-feira à noite na casa de Burt Hummel e participar da Festa de Despedida de Finn e Quinn. A dupla iria se mudar para Columbus e iniciar o semestre na Universidade de Ohio e partiria pela manhã. Daniel tentou se manter o ocupado ao máximo para não sufocar a quase ex-namorada. Todos os componentes do Glee Club se faziam presentes e os inúmeros pedidos para rodadas de caipirinha preenchiam o seu tempo. A música rolava, entretanto, poucos se sentiam motivados para aderir a pista de dança. Tina, Blaine e Brittany ainda digeriam as ausências dos formandos e não demonstravam qualquer animação para continuar com o ciclo de desapego. Estranhamente, Quinn desaparece em momentos diferentes sempre na companhia de algum ente querido e jamais torna a dirigir a palavra ao estrageiro. Era a sua forma silenciosa de dizer adeus. A primeira escolhida para o dramático dialogo só poderia ser a sister negra.
_ Nenhuma das coisas fantásticas que me aconteceram nestes últimos anos, teriam acontecido sem você. Não há ninguém que tenha sido mais minha irmã neste mundo. – Quinn reconhece o apego na conversa particular com Mercedes.
_ Eu sei exatamente do que está falando. Você tem dúvida que é a irmã que nunca tive? Minha irmã branca. Já morria de saudades mesmo te encontrando todos os dias, não sei o que vou fazer a partir de amanhã. – confessa a diva abraçando a branquela predileta.
Mercedes retorna da varanda aos prantos e o bad boy é o último a ser chamado gentilmente pela loira. O teor das conversas é revelado e o imigrante se apavora. Ele já havia se despedido de Quinn Fabray e por mais que a ocasião fosse completamente diferente não lhe servia de conforto. Os próximos seis meses poderiam alterar totalmente a dinâmica do quase casal.
Esta é nossa última noite, mas está tarde
E estou tentando não dormir
Porque sei que quando eu acordar
Terei que ir embora
_ Então, acho que você é o próximo...Está pronto? – aconselha a asiática.
_ Com certeza, você não está. Eu não chorava tanto desde o ano passado quando Brittany rompeu o namoro definitivamente. – confessa Artie
_ Não entendo para que essas conversas, sabe? Quinn está indo para Columbus é bem mais perto do que Nova Iorque ou Kentucky... – todos lhe encaram incrédulos – OK! Eu estou surtando porque ela me deixou por último...Por que estão demorando tanto?
_ Não sei, talvez, ela queira confessar que sempre amou o Puck e foi um erro não terem formado uma família. – debocha Sam – O que? Só tava brincando!
Quinn retorna para o interior da residência de braços dados com Puck, que estava visivelmente abalado, e abraça o imigrante de canto. Ela recosta a cabeça no ombro do rapaz e suspira cansada antes de proferir a frase mais surpreendente da noite.
_ Acho que já deu minha hora... Ainda preciso organizar algumas coisas para a viagem. Você passa na minha casa pelas 9 horas, Finn? – o grandalhão confirma para espanto coletivo – Pessoal, foi uma ótima noite... Muito obrigada mesmo!
_ O que diabos acabou de acontecer? Como assim? Eu não ganho um adeus? – se exalta o carioca recebendo olhares apalermados de todos os companheiros.
_ Sorte sua, desgraçado! – dispara o judeu ainda tentando se recompor.
_ É inacreditável que ela tenha se despedido de todo mundo, menos de mim! – o rapaz continua inconsolável.
_ Talvez, ela tenha achado que com toda a história entre vocês deveria ficar mais subentendida. Vocês não chegaram a conversar antes? – questiona Mercedes e ele acena negativamente com a cabeça.
_ Vamos pensar bem, tem que haver alguma explicação...Você discutiram ou fez algo que a irritou? Falando da Quinn, isso é bem fácil. – argumenta o loiro.
_ Quem sabe, ela tenha ficado muito emocionada com a nossa conversa. Foi a coisa mais bonita que alguém me disse depois da declaração da Santana. – palpita Brittany.
_ Yeah! Nunca achei que escutaria essas coisas de Quinn Fabray... – dispara Rory.
_ Meu Deus! Ainda não sei como vou me recuperar depois disso... – Tina ainda reforça.
_ Ok! Eu entendi... Mas, será que eu não mereço nada? Não tava esperando por uma declaração de amor, mas, não sei... Um abraço, algumas palavras, apenas isso! – comenta o brasileiro quase pirando pelo silêncio.
_ Bom, resolver isso é simples... Você deveria falar com a Quinn para esclarecer essa situação... Se correr, acho que ainda dá para alcançá-la! – a sugestão de Finn é prontamente aceita e o garoto sai em disparada.
_ Que merda você tem na sua cabeça, Hudson? Eles vão acabar brigando e estragando a última noite da minha sister! – sacramenta Mercedes e o rapaz dá de ombros.
Daniel percorre os metros entre a casa e a garagem lotada de carros e visualiza a garota já prestes a dar a partida. Ele corre, bate insistentemente na janela do veículo e sinaliza para que a garota desça por um instante. A expressão irritada dele intriga a loira que ainda se recuperava das diversas de confissões de amizade e gratidão aos colegas do Glee Club. Ele abre a boca e cospe as palavras com raiva.
_ Eu não vou ganhar nenhum adeus? – o timbre dele não escondia a frustração.
_ O que? – ela rebate sem a menor noção do motivo da fúria em semblante dele.
_ Todo mundo ganhou um abraço de despedida, menos eu! O que eu tenho que fazer para ganhar uma despedida? Ser seu melhor amigo? Namorar você? Me apaixonar por você? Espera ai, eu já fiz tudo isso! – ele leva as mãos a cabeça e suspira derrotado. O forasteiro se dá novamente por vencido e apenas pode esperar pelo derradeiro fim.
_ Daniel... – a loira cogita interromper o despejo de magoa, mas, é travada. Ela mira o chão e não reúne coragem para confrontar a visão do rapaz que deveria ser o seu refugio e não a razão de sua fuga.
_ Talvez, eu esteja forçando a barra...Imagino que deve ser complicado dizer adeus para todo mundo, que deve doer... Mas, depois de tudo que passamos, não posso acreditar que é assim que você quer deixar as coisas. Se divirta em Columbus! – o rapaz se afasta do estacionamento e se encaminha para o carro do padrinho.
E quando a aurora chegar, eu terei que ir
Mas esta noite vou lhe abraçar forte
Porque no amanhecer estaremos por conta própria
Mas esta noite preciso lhe abraçar bem forte
Ao desligar o veículo na vaga que correspondia ao apartamento de Will Schuester, o volante é esmurrado com vontade. Honestamente, ele merecia ser ignorado. Afinal, a única vez que tratou da mudança à sério foi em rápidas palavras durante o Baile de Formatura e nada mais. Com as férias e os constantes passatempos, nunca julgou que fosse o momento adequado para levar novamente o assunto. Por isso, puramente por covardia, estava em tamanho apuro. O interfone toca no apartamento de Willian Schuester e não é difícil para o brasileiro identificar o timbre bastante furioso da loira. Com os padrinhos fora da cidade entregando os convites para o casamento, a discussão no meio da noite não traria tantos estragos. Pelo menos, era o que ele imaginava antes de abrir a porta e encontrar a face totalmente alterada de Quinn Fabray.
_ Você acha mesmo que eu não me despedi por que não me importo? – ela grita tão logo adentra ao recinto.
_ Foi o que pareceu! – ele dá de ombros e se distancia da visita.
_ Não acredito que depois destes anos você não sabe absolutamente nada sobre mim!
_ Ok... Então, por que não disse nada? – ele esbraveja a centimentros do rosto dela.
_ Porque é extremamente difícil, Daniel! – ela grita alterada – Não consigo nem começar a explicar o quanto eu vou sentir a sua falta... Quando penso que não vou mais te ver todo o dia, fico morrendo de vontade de desistir desta mudança...Está bem? Se você acha que não me despedi porque não significa tanto quanto os outros... Está completamente enganado! É porque você significa ainda mais...Está satisfeito? Gostou do seu adeus? – ela deixa o rapaz imóvel após a declaração e se encaminha para a saida.
_ Quinn... – ela se volta e para a dois metros da porta – Você não pode... Isso é...
Ele acaba com a distância com um beijo e a tensão anteriormente resguardada para as palavras é transferida para beijos e abraços. Horas depois, o rapaz acorda, tateia as cegas sem encontrar ninguém e abre os olhos para vasculhar o quarto. Quinn estava terminando de calçar os sapatos e aparentemente pronta para se despedir. Novamente.
Aqui estou, encarando sua perfeição
Em meus braços, tão linda
O céu está clareando, as estrelas estão se apagando
Alguém faça isso ir mais devagar
_ Ei, isso é estranho... Eu costumo acordar antes, não é? – a voz cansada e bem humorada destoa da briga do início da madrugada. Ela sorri para o jovem ainda deitado.
_ Não quis te encomodar... Pode voltar a dormir, eu tenho que correr para a casa... Minha mãe vai surtar se não encontrar o carro na garagem. – o primeiro beijo do dia é trocado – Além disso, a carona com o Finn vai sair em três horas.
_ Eu poderia te abraçar para sempre e ainda assim não seria o suficiente... – ele abraça calorosamente a loira e cita a frase que melhor definia o quase casal.
_ Por enquanto, essa noite foi mais do que suficiente. Foi a forma perfeita de dizer adeus.
Por enquanto, era adeus. Um adeus temporário, ainda assim, um adeus. Os lábios se afastam, os braços se soltam e o abraço é desfeito. Ela passa pela porta, ganha o corredor e vira-se para corresponder ao último aceno. O adeus não deveria ser tão doloroso, principalmente, se havia a certeza do reencontro. Não deveria, mas era. Era porque aos 18 anos mesmo os até logo soam como adeus, especialmente, se você desejou dizer um sim ainda entalado na garganta.
Isto é muito difícil
Porque sei que quando o sol aparecer irei embora
Esta é minha última visão
Que em breve se tornará lembrança
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