Million Dollar Man

1 Parte I - Capítulo 1


O céu começava a escurecer em Coney Island. As nuvens pesadas se arrastavam sombriamente com o vento que soprava da orla. Meus cachos artificiais eram jogados para trás enquanto andava na direção sul até o fim da Mermaid Ave. Olhares masculinos vindo de todos os lados acompanhavam cada movimento que eu fazia. Dei um sorriso torto e virei a minha esquerda numa curta rua onde em seu fim já era possível ver o oceano com suas águas escuras e violentas.

Já com os pés na areia ligeiramente suja, procurei a familiar pedra onde costumava sentar. Tirei do bolso um maço de cigarro e acendi um depois de uma rápida olhada ao meu redor. Por mais que ali nunca havia fiscalização policial, qualquer coisa é demais para uma garota com ficha suja.

A fumaça exalada de meu nariz tapava minha visão parcialmente. O som dos carros ao fundo era misturado com o som das ondas quebrando me davam uma falsa sensação de paz. O vento continuava a soprar fortemente indicando que mais para o fim da tarde teríamos uma tempestade.

Que beleza, pensei comigo mesma. Já não bastava ter que dormir na rua, tinha que chover também.

Revirei os olhos para meus pensamentos. Talvez, apenas, talvez, Stefan deixasse que eu dormisse em seu Motel. Ou se eu tivesse sorte, algum homem solitário pagaria para me ter por toda a noite.

Aos poucos os pensamentos pessimistas desapareceram de minha mente. O efeito da droga consumida pela manhã começava a sumir de meu sistema e em seu lugar, uma dor de cabeça poderosa se instalava se apoderando de meus sentidos. Estava tão habituada com tal situação que conseguia ignorar a dor com extrema facilidade.

Por fim, empurrei meus tênis para longe fazendo da pedra meu travesseiro. Com meu movimento, o decote extravagante de minha blusa desceu a tornando mais indecente. A puxei e ajeitei-a, sem seguida dobrei as barras de meu short jeans para encurtar seu tamanho. Fechei os olhos e me encontrei perdida em pensamentos – em sua grande parte ruim.

Joguei o cigarro ainda em sua metade para longe na areia úmida e me fixei em apenas um devaneio. Dali a dois dias seria o aniversário de Margareth, uma das datas no ano que eu tinha permissão de aparecer em casa – qualquer outro dia minha presença era ignorada, muitas vezes dava com a cara na porta. A única parte dolorosa era ouvir os gritos histéricos de minha irmã implorando para meus pais que me deixassem entrar.

Teria de arrumar uma roupa descente. No ultimo ano meu pai não permitiu que eu entrasse na casa por estar usando um vestido, que segundo ele, era vulgar demais. Talvez até fosse, mas a verdade é que de um tempo para cá qualquer coisa era motivo para evitar minha presença.

Não os culpava afinal minha maneira de ajudar não era lá muito correta. Chacoalhei a cabeça me livrando do sentimento de remorso que se rastejava em minha direção. Depois de três anos aquilo não me afetava da mesma maneira, continuava sentindo falta de casa é claro, mas era algo mais suportável.

O ruído de passos amassando areia me sobressaltou. Abri os olhos e ergui a cabeça lentamente. A silhueta alta se aproximou em passos lentos até ficar apenas alguns centímetros de distância de mim. Abri um sorriso fraco e me sentei.

–Não se passam das três da tarde e você já está assim? – Matt juntou suas sobrancelhas até que rugas fossem formadas no meio de sua testa.

Ali estava minha única companhia verdadeira. Meu fiel e melhor amigo.

Com cabelos loiros e olhos azuis brilhares, Matt era o único amigo que não virou as costas para mim quando entrei para essa vida. Ele viu o que meus próprios pais se negam a enxergar, o motivo por trás de minha decisão. Ás vezes surgia o assunto de que “Mas isso não é certo, Elena, você está estragando sua vida”. Que vida? Muitas vezes essa foi a minha resposta, carregada de ironia.

O motivo de nossa amizade estar intacta se deve ao fato de que por mais que ele não aprovasse as coisas que eu viesse a fazer, ele não as julgava. Nem eu o julgava. Não só meu amigo, Matt fora também meu primeiro e único namorado – época que as lembranças ainda me causam boas risadas. Ambos de nós sabíamos que aquilo não daria certo e mesmo assim mergulhamos de cabeça sem pensar duas vezes.

Talvez se não fossemos amigos desde a pré-escola nosso relacionamento amoroso teria dado certo – ou talvez não. Não consigo vê-lo aceitado uma namorada vendendo o corpo para sustentar a família. Como amiga, tratava-o como um irmão mais velho que, independente da situação está bem ali, firme e forte, te defendendo com unhas e dentes do que quer que seja.

O que era mútuo. Caso contrário, ele não teria enfrentado meia hora de trânsito para me ver.

Pensar em toda aquela situação fez com que um sorriso verdadeiro iluminasse meu rosto.

–Assim como? – disse enquanto esticava minhas pernas e prepara-me para me colocar de pé. Assim que consegui equilibrar meu peso, seus braços me envolveram num abraço apertado.

–Você não tem jeito – estalou a língua num sinal de desaprovação. Aos poucos, ele afrouxou seus braços e segurou meus braços, nos distanciando um pouco. Seus olhos vagaram por todo meu corpo e suas bochechas ficaram rosadas. – Está melhor do que eu imaginava. – Claro, disse mentalmente, da ultima vez em que nos vimos estava na delegacia esperando por meus pais o mais distante possível de alguém sóbria.

–Você também – sorri e o abracei novamente.

–Elena – podia jurar que ele estava revirando os olhos – você está fedendo a tabaco.

–Hm – arqueei uma sobrancelha. Matt sacudiu a cabeça negativamente. – Como estão as coisas por lá? – mudei de assusto abruptamente.

–Sua mãe não está bem – disse fazendo uma careta. Minha expressão desmoronou. – -Calma — ele passou a mão por meu rosto e em seguida colocou uma mexa de meu cabelo atrás de minha orelha — não é um problema de saúde – não percebi que havia prendido a respiração até soltar um suspiro de alivio. – ela sente sua falta Elena.

Abaixei a cabeça não querendo demonstrar o quanto aquilo havia me abalado. Não era aquilo que ela mostrava quando eu a visitava. Já estava perdido em minhas memórias a ultima vez em que ela havia me abraçado.

–Eu também sinto falta dela – murmurei ainda encarando meus pés descalços enterrados na areia. – Mas você sabe, — franzi o cenho e obriguei-me a erguer a cabeça – não tenho mais permissão de ir em casa sem que seja uma data comemorativa.

–Se eu fosse você... – quando Matt dizia aquilo, significava que havia um recado de alguém atrás de suas palavras. Rapidamente fechei a cara – me atreveria a fazer uma visita rápida quando seu pai não estiver em casa.

–Quem disse isso? – perguntei cruzando os braços.

–Sua mãe – ele me imitou.

Suas palavras me surpreenderam.

–Importunamente, não sei a hora que meu pai está ou não em casa – disse com ironia.

–Você tem de oito da manhã às sete da noite para ficar com sua mãe e sua irmã – ele abriu um sorriso fraco – isso nos dias de semana.

Pensamentos felizes dominaram minha cabeça. Era isso que você queria Elena, meu inconsciente estava em êxtase, vá em frente.

–Diga a ela – mordi o lábio. Matt sorriu – que provavelmente, se der... – ele me interrompeu.

–Sem provavelmente, sem se der Elena – revirou os olhos.

–Amanhã – disse por fim.

Satisfeito com sua missão comprida, Matt se sentou ao meu lado para fazer o que nós fazíamos de melhor: jogar conversa fora. Não ficamos ali o tempo que gostaríamos, depois de passados vinte minutos, as primeiras gotas do que prometia ser uma densa tempestade começaram a cair.

Caminhamos lado a lado fazendo o caminho de volta à Mermaid Ave. Matt havia me cedido seu casaco ao perceber que o tempo havia esfriado. O mesmo caia como um vestido em mim, cobrindo minha roupa por completo. Enfiei minhas mãos nos enormes bolsos depois de puxar o capuz para proteger meus fios.

Assim que chegamos a já familiar fachada do Mermaid Motel onde uma placa de neon piscava em vermelho tornando-se chamativa à medida que o dia escurecia, nos despedimos com rápidos beijos na bochecha – e com a promessa de que nos veríamos no dia seguinte.

Com passos preguiçosos, adentrei pelas portas duplas de vidro opacos. A recepção tinha as paredes cobertas por uma tinta num tom de bege enquanto o chão era dominado por um carpete cor de sangue. O balcão que ocupava sua maior parte era revestido por madeira e mármore. Ali atrás se escondia Katherine, esposa de Stefan. Passava todos os dias de minha vida me perguntando como alguém poderia ser casado com um cara como aquele sabendo que ele mantém relações sexuais com outras mulheres – não com outras, mas comigo.

Isso explicava o fato do ódio que Katherine sentia por mim. Ignorei seu olhar repleto de nojo e segui até o fim do curto corredor e subi a estreita escada de dois em dois degraus. No fim da escada, havia um corredor rodeado por portas. Segui em frente até deparar-me com a outra escada, onde em seu fim tinha um grande salão. O chão era coberto de madeira escura enquanto as paredes tinham o mesmo tom de vermelho sangue que o carpete da recepção. Várias mesas e poltronas confortáveis estavam espalhadas e organizadas como de costume. Ao fundo, um bar onde Meredith arrumava os copos enquanto usava poucas roupas.

Ao lado esquerdo, havia um caixa, e do direito um palco escondido entre cortinas vinho. O cheiro de ervas afrodisíacas tomava conta do lugar. Franzi o cenho e segui para a parte mais escondida do salão, onde uma porta de madeira escondia o quarto onde Stefan escolheria o iríamos vestir.

O quarto com paredes manchadas não estava vazio. Caroline já estava lá debruçada sobre a penteadeira contornando seus olhos com um lápis na cor preta. Ao me ver, ela abriu um breve sorriso. Segui para o banheiro e tomei um rápido banho.

Quando terminei, sequei meus cabelos e refiz os cachos cuidadosamente. Fui até o guarda-roupa e encontrei um cabide com o meu nome. Peguei e retirei a capa e vesti o vestido preto de uma só vez. Ele abraçava todas as minhas curvas e deixava boa parte de minhas pernas a mostra. Calcei uma sandália com um salto absurdo e me sentei em frente ao espelho para começar a me maquiar.

–Stefan disse que hoje vai ser algo diferente – quase dei um pulo na cadeira por não ter notado a presença de Caroline. – Leilão.

Puta merda.

–Como assim? – franzi o cenho.

–Quem pagar mais, leva — deu de ombros – Ah sim, — ela jogou uma máscara na minha mão – usar a máscara é obrigatório.

Não disse nada. Apenas coloquei a máscara cobre que cobria meu rosto parcialmente. Passei um batom vermelho e me coloquei de pé preparando-me para deixar o quarto.

O salão já estava repleto de homens. Stefan veio em minha direção com um sorriso torto no rosto. Seus olhos devoraram meu corpo a ponto de me deixar sem graça. Dei um sorriso duro e ajeitei meu cabelo.

–Você será a ultima – disse sussurrando em meu ouvido.

–Por quê? – franzi o cenho.

–Porque vale mais – deu um sorriso pervertido – E porque você tem restrições.

Claro. Sem beijo. Sem sexo oral.

Esses eram os tipos de coisa que nunca faria com qualquer pessoa. Nunca mesmo. Sexo oral, por motivos óbvios. Beijo era algo extremamente pessoal. A única pessoa que eu havia beijado na minha vida fora Matt no tempo em que namoramos. E para mim, beijar uma pessoa expõe a maneira como você se sente. Não beijaria qualquer pessoa que pagasse para me ter por diversão. Havia deixado isso bem claro para Stefan quando vim parar nesse lugar.

–Ok – suspirei por fim.

Sentei-me numa cadeira de frente ao pequeno palco e observei enquanto ele subia levando uma de suas garotas. O murmúrio de vozes masculinas aumentou. A primeira conseguiu a quantia de $500. Meus Deus, tanto dinheiro para uma noite. Debati-me mentalmente para conseguir me lembrar como se fechava minha boca totalmente aberta em choque.

A segunda levou mais tempo, sempre que Stefan ameaçava a fechar o lance, alguém aparecia aumentado a quantia maior. No final, foi vendida por $650. A ordem parecia ter sido cuidadosamente escolhida, a cada garota de passava as quantias estavam muito maiores, por exemplo a terceira arrecadou $920. Entre a quarta e a quinta a diferença foi mínima, por pouco não saíram pelo mesmo preço.

À medida que o tempo passava o alvoroço entre os homens era cada vez mais perceptível. Eles riam e cochichavam antes de fazerem seus lances. Quando percebi, já estava na vez de Caroline a ultima – exceto por mim. Todos no salão pareciam ter se transformado em bichos, o rosto de Stefan era radiante. Sacudi a cabeça negativamente perguntando a mim mesma o que levava um homem a ser desse jeito.

E ela foi vendida por $4500. Meu queixo caiu mais uma vez.

Então era minha vez.

–E aqui está a minha preciosidade – disse passando a mão por meu rosto e tirando a máscara. Ele ergueu meu queixo gentilmente. Engoli em seco. – Carmen – ninguém, absolutamente ninguém naquele lugar tinha permissão de me chamar por meu nome. Seria humilhação demais sair na rua e ter o nome manchado por um passado sombrio. Claro que Stefan me chamava de Elena, assim como Caroline, mas os dois não faziam isso na frente de ninguém. Caso fizessem, eu ignoraria. – Dê um sorriso docinho – disse roçando seu nariz em minha bochecha. Dei o melhor sorriso que consegui. – Tenho que avisar, — ele se virou para sua platéia masculina – ninguém tem o direito de beijá-la. – abriu um sorriso malicioso – apenas eu. E – passou os braços envolta de minha cintura – por ser minha – mentira – a missão de vocês é me convencer que eu devo compartilhar minha diversão com vocês.

–5000! – um senhor que beirava seus quarenta anos gritou. Senti um arrepio percorrer minha espinha.

–Hm, bom começo, algum outro lance? – seus olhos verdes brilhavam.

–6000! – um loiro alto que usava um terno carvão se levantou para falar seu lance.

–Interessante – ele passou a mão meus cabelos e a desceu mais um pouco até pousá-la levemente sobre meu seio. – É o suficiente por você, docinho? – disse usando seu tom sedutor.

Abri um sorriso torto e peguei sua mão e a colocando de volta em minha cintura. Não disse uma palavra.

–Como eu pensei – ele riu. – Alguém mais? Posso dar a aquele homem a honra de uma noite com a minha mulher? – suas palavras me causavam nojo.

–$6500 – a voz veio de uma mesa no canto mais distante do salão. Não pude ver quem era o dono da voz rouca.

–$7000 – o som veio do lado oposto do anterior.

–E esse é o lance final – disse e pegou a minha mão indicando para que eu seguisse para o homem de meia idade que sorria depravadamente para mim.

–Eu pago $10.000 – um homem que estava na mesa bem a nossa frente disse com um sorriso sedutor no rosto fazendo que o murmúrio de vozes cessasse – E cubro qualquer outro lance de vocês – disse dando uma rápida olhada para trás. – ele usava um terno cinza e seus cabelos estavam desgrenhados. Seus olhos eram de um azul profundo e intimidador e atenção dos mesmos estava presa em mim. Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo de forma involuntária. Abri um sorriso provocador e percebi que Stefan tinha os olhos em meu rosto.

–Ela é toda sua então – disse e indicou para que fosse até ele. Andei com cuidado mantendo os olhos no chão um tanto atordoada pela beleza do homem que havia feito o lance. – Cuide bem do que é meu – alertou – e divirta-se Damon. – me assustei ao perceber que ele sabia o nome do indivíduo.

–Prefere que eu a deixe em sua casa? – perguntou rindo.

–Como quiser – Stefan também riu.

Esperei sentada com o resto das outras garotas enquanto o dono do par de olhos azuis pagava o que havia dito. Dez mil dólares para passar a noite comigo. Tentei não parecer surpresa. Depois de alguns minutos, ele veio em minha direção e pegou a minha mão. Esperei que ele não saísse do motel, mas ele me conduziu até o estacionamento onde parou em frente um Porsche prateado.

Num ato de gentileza, ele abriu a porta do carona para mim e esperou que eu entrasse para fechá-la. Dentro do carro estava agradável, o cheiro de couro se misturava com o cheiro de limpeza. Observei enquanto o homem – Damon – se movimentava elegantemente na frente do carro. Respirei fundo e tentei controlar minha pulsação. Deixei que minha atenção vagasse pata o painel eletrônico de ultima geração do carro não querendo aparentar nervosa.

Anos de prática e sempre a mesma coisa. Nervosismo, medo, vergonha. Não que alguém ficasse sabendo disso, tinha meu orgulho – caso não tivesse, não seria conhecida como a Rainha de Coney Island.

Ouvi o som da porta se abrir e depois se fechar. Relaxei minha postura e dei uma rápida olhada. Ele ligava o carro ainda sem me dirigir uma palavra. Entrelacei meus dedos em meu colo e observei a paisagem se tornando um borrão a medida que ele dava a partida no carro.

–Importa-se se fizermos isso no carro? – perguntou num sussurro. – Não sei se tenho paciência de dirigir até em casa.

–Como quiser – respondi a mesma altura.

–Mas – ele pela primeira vez olhou para o meu rosto – se importaria de primeiro jantar comigo?

–Jantar? – a surpresa tomou conta de minha voz.

–É – abriu um sorriso torto de tirar o fôlego. Puta merda, porque ele tinha que ser tão lindo?

–Como eu já disse, como você quiser – repeti com mais simpatia.

–Hm – ele riu – Tem alguma preferência? Não diga “o que você quiser”.

–Não tenho preferências – mordi o lábio.

–Meu restaurante preferido é uma opção então – disse mais para si mesmo do que para mim. Depois, inclinou a cabeça em minha direção – Primeiro eu agrado você, depois você me dá prazer, é assim que as coisas funcionam comigo.

Senti meus olhos se arregalarem. Ele riu.

–Stefan estava certo – ele tirou a mão do volante para mexer em seu cabelo – Você realmente é muito bonita, Elena.