Millennium Odyssey: Réquiem do Último Solstício
10 A capital das flores
O grupo está caminhando por Ekoir. Marco está carregando Stella em seu ombro.
"Você tem mesmo certeza disso ?" — Èris pergunta.
Stella concorda com sua cabeça. "Definitivamente sim. As cartas dele diziam que o Marco ia me levar, porque eu ia ficar cansada de andar."
Mira levanta uma sobrancelha. "Jura ?"
"Ousa questionar a sabedoria da grande Stella, a maior astróloga que viveu em Bastion Spei, até os dias de hoje ?" — Stella pergunta.
Mira solta um suspiro. "Claro que não, vossa magnanimidade."
"Luna quer ser carregada também !" — Luna diz, pulando nas costas de Cirius.
Mesmo estando de costas, Cirius consegue desviar, fazendo Lua cair de cara no chão.
"Heh, tá ficando profissional." — Kaito diz.
"Eu tenho um instinto superior pra essas coisas." — Cirius diz.
Èris ajuda Luna a se levantar. "Tudo bem com você ?"
"Luna achou uma formiga estranha." — Luna diz.
"…Então tá tudo bem…" — Èris diz.
"A gente já tá perto… ?" — Kaito pergunta, cansado.
"Não devemos estar muito longe. Veremos uma montanha, quando estivermos perto do mar." — Marco diz.
"Uma montanha perto do mar ?" — Luna pergunta. "Mas montanhas não ficam perto do mar..."
"É porque não é uma montanha feita pelos Dez, mas sim, pelo povo antigo de Fiore." — Marco diz.
O grupo se espanta, ao ouvir isso.
"P-Perdão, uma MONTANHA !?" — Èris pergunta.
Marco concorda com sua cabeça. "Nossos antepassados precisavam de um lugar rápido para acessar os barcos em que vieram para este continente, então, com suas próprias mãos, fizeram uma montanha em cima do oceano e construíram suas casas por ela."
"E você fala isso como se fosse qualquer coisa !?" — Kaito pergunta.
"Como é que se constrói em cima da água !?" — Cirius pergunta.
"Simples. Você constrói em cima de madeira e-" — Marco diz, sendo interrompido por Kaito.
"Foi uma pergunta retórica…" — Kaito diz.
"Cara, isso é maluco…" — Cirius diz.
"Fiore é um dos semblantes vivos de como trabalho em conjunto pode fazer a diferença. E nós somos um povo orgulhoso de suas raízes." — Marco diz.
"D… Dá pra ver…" — Mira diz.
"Viram só ? Até meus antepassados são incríveis. Ser assim está no meu sangue." — Stella diz.
"Olhem ali." — Marco diz, apontando para a frente.
Pode-se ver um pedaço do topo da montanha. O grupo corre até uma colina. A montanha inteira se revela. Da metade para baixo, há uma cidade com várias casas coloridas, um grande local redondo, feito de pedra, e uma muralha. Ao pé da montanha, há um porto com diversas embarcações de todos os tipos.
"Whoa ! Que lugar bonito !" — Luna diz, animada.
"À distância, é a maravilhosa Fiore que conheço. Mas assim que adentrarem, verão o problema…" — Marco diz.
"Eh ?" — Mira diz. Ela pega o cristal de Melia. "Tá indo diretamente para lá."
"A Galadriell tá em Fiore !?" — Cirius pergunta, surpreso.
"Huh, então não tem nada com o que se preocupar." — Kaito diz. "Aquela mulher consegue arrebentar a cara de quem ela quiser sem problema nenhum."
"Se a senhorita Galadriell está lá, vamos !" — Èris diz. "Pode ser que ela tenha se perdido. Ou pior, Milena pode ter pegado ela."
"Vamos correr !" — Cirius diz.
"Peço que esperem um momento." — Marco diz.
"O que foi ?" — Stella pergunta.
"Eu não poderei entrar com vocês por… razões." — Marco diz. "Por isso, é aqui que iremos nos separar. Mas não se preocupem, entrarei na cidade."
"Certo. Onde vamos nos encontrar ?" — Mira pergunta.
"Quando chegarem, procurem por uma casa roxa e verde, que fica perto do porto." — Marco diz. "Batam na porta e peçam pelo peixe mais caro que a casa tem. Quando a mulher disser o preço, especificamente quadrupliquem o pedido."
"Meio estranho… Mas ok." — Mira diz.
"Nos vemos lá, cara." — Cirius diz. Ele estende seu punho. "Toma cuidado, hein."
Marco encosta seu punho no de Cirius. Ele sorri. "Eu tomarei."
Eles se separam. Algum tempo depois. O grupo chega na entrada da cidade. Eles se aproximam de dois guardas usando armaduras douradas, máscaras pretas, cobrindo metade de seu rosto, e segurando lanças.
"Olá. A cidade está aceitando visitantes ?" — Èris pergunta.
"Estamos sempre de portas abertas para novas pessoas." — Um dos guardas diz.
"É a primeira vez que vêm à Fiore, eu presumo." — O outro guarda diz.
"É tão óbvio assim ? Ehehehe..." — Mira diz.
O primeiro guarda pega algumas máscaras parecidas com a dele só que brancas e as entrega para o grupo. "Nossa lei obriga que usem isso."
"Sem nenhum problema." — Kaito diz, pondo a máscara.
O resto do grupo faz o mesmo.
"Tenham uma ótima visita." — O segundo guarda diz.
O grupo entra na cidade. Há várias pessoas e Korgen caminhando para todos os lados, vestindo roupas coloridas e usando as mesmas máscaras que eles. Há alguns canais de água, indo para todos os lados, com cercas brancas cobertas por flores cinzas nas bordas e canoas passando por eles. O chão da cidade está coberto por uma fraca névoa.
"Essa deve ser a névoa que Marco mencionou." — Èris diz.
"Não é muito densa, eu consigo ver por ela." — Kaito diz.
"Ei... Eu sei que a gente tem que fazer alguma coisa importante, mas podemos explorar o lugar ?" — Stella pergunta.
"Quer conhecer sua cidade natal ?" — Cirius pergunta.
Stella hesita, mas concorda com sua cabeça.
"Luna não vê nenhum problema nisso." — Luna diz.
"Além disso, é sempre bom conhecer o terreno." — Èris diz.
Stella se anima. "Jura ? Muito obrigada, gente !"
"Amigo é pra essas coisas." — Mira diz.
Eles começam a andar pela cidade.
"Onde vamos primeiro ?" — Mira pergunta.
"Duh ! No coração de toda cidade: a taverna." — Kaito diz. "Tem lugar melhor pra conhecer uma cidade do que um lugar cheio de comida, bebida e gente que não cala a boca ?"
"Bom, eu deveria saber disso..." — Mira diz.
Èris se aproxima de uma mulher. "Com licença, onde fica a taverna mais próxima ?"
"Taverna ? Oh ! São de fora, não é ?" — A mulher pergunta. "Não recomendo as tavernas daqui. Cerveja não é o forte de nossa cultura. Se quiserem uma experiência autêntica, recomendo nossas adegas. Comeram da melhor comida e beberão os melhores vinhos de toda Bastion Spei."
"Pra mim, tá ótimo." — Kaito diz.
"Eu recomendo o Zanna di Lupi, uma das nossas melhores adegas." — A mulher diz. "Para chegarem lá, cruzem essa rua, atravessem aquela ponte, andem por alguns minutos, e encontrarão um estabelecimento amarelo, com uma estátua de leão na frente dele. Ou podem pegar uma gôndola."
Luna inclina sua cabeça, confusa. "Gôndola ?"
"Vêem essas canoas passando pelas ramificações com água ? São chamadas de gôndolas." — A mulher diz. "São consideravelmente mais rápidas do que andar, e vocês podem apreciar a paisagem enquanto passeiam. Como há canais pela cidade inteira, as gôndolas vão para todos os lugares."
"Legal. E como é que conseguimos uma ?" — Mira pergunta.
"Esperem por uma gôndola vazia passar." — A mulher diz.
"Tipo aquela ali ?" — Stella pergunta, apontando para uma canoa vazia.
A mulher concorda com sua cabeça. "Estão com sorte. Bom, precisão de mais alguma informação ?"
"Não. Muito obrigada." — Èris diz.
A mulher vai embora. O grupo se aproxima do canal. A canoa para perto deles. Há um condutor de cabelo preto, olhos verdes, vestindo uma camiseta verde, com listras horizontais brancas, calças vermelhas, sapatos marrons e com um remo em mãos, na frente e, atrás, está um músico de cabelo loiro, olhos azuis, vestindo as mesmas roupas que o condutor e com um acordeão.
"Gostariam de um passeio ?" — O condutor pergunta.
"Queremos ir para Zanna di Lupi." — Stella diz. "Poderia nos levar ?"
"Com todo prazer !" — O condutor diz, com um sorriso em seu rosto. "Subam aqui e terão a melhor experiência de suas vidas."
O grupo entra na canoa.
O condutor começa a remar. "Zarbini, por favor."
O músico começa a tocar uma calma música em seu acordeão.
"Olá, meu nome é Tiziano, e eu serei seu condutor hoje. Se me permitem a pergunta, o que trouxe vocês à Fiore ?" — O condutor pergunta.
"Viemos matar a-" — Cirius diz, sendo interrompido por Mira, que cobre a boca dele com suas mãos.
"Viemos matar a saudade." — Mira diz, forçando um sorriso. "Nossa amiga aqui nasceu em Fiore, mas teve de se mudar. Então ela quer matar a saudade dos velhos tempos. Não é ?"
"É-É ! Nada melhor do que retornar ao lar." — Stella diz.
"Entendo. Não consigo imaginar minha vida fora desta linda cidade." — Tiziano diz. "Você também, não é, velho amigo ?"
Zarbini concorda com sua cabeça.
"Ótimas palavras, como sempre, amigo." — Tiziano diz.
"Mas o moço loiro não disse nada." — Luna diz.
"Zarbini prefere expressar emoções com sua música, não palavras." — Tiziano diz.
"Com certeza..." — Zarbini diz.
"MAS… Ocasionalmente ele abre a boca." — Tiziano diz.
O grupo começa a rir. Eles passam debaixo de uma ponte, com algumas flores cinza nela. Há algumas pétalas cinza na água. Tiziano fica cabisbaixo. Zarbini para de tocar.
"Algum problema ?" — Èris pergunta.
Zarbini volta a tocar.
Tiziano balança sua cabeça. "Não, não. Apenas me distraí um pouco. Perdão pela falta de profissionalismo."
O grupo chega em uma escada.
"Prontinho. Daqui pra frente, só precisam seguir reto, virar à esquerda na primeira rua que virem e chegarão na adega." — Tiziano diz.
"Valeu aí pelo passeio. Foi legalzão." — Cirius diz, sorrindo.
"Quanto ficou ?" — Èris pergunta.
"Um total de zero moedas." — Tiziano diz.
Luna inclina sua cabeça, confusa. "Eh ?"
"O primero passeio é de graça…" — Zarbini diz.
"Mas a segunda vez não vai ser, hein." — Tiziano diz, sorrindo. "Bom, temos mais clientes para levar de um lado para o outro. Vemos vocês por aí !" — Ele vai embora.
"Até ! Valeu mesmo pelo passeio !" — Mira diz, acenando.
Tiziano acena de volta e volta a remar.
"Povinho bacana, esse." — Kaito diz.
"Me sinto em casa. E nunca nem tinha ouvido falar desse lugar." — Cirius diz.
"Vamos para lugar com comida logo ! Luna quer comer !" — Luna diz.
"Você só pensa em comida ?" — Stella pergunta. O estômago dela ronca. Stella fica vermelha.
"Olha só~" — Kaito diz, com um sorriso presunçoso.
"Quieto !" — Stella diz, envergonhada. Ela vai embora, batendo seus pés.
O grupo olha uns para os outros, ri e segue Stella. Alguns minutos de caminhada depois. Eles chegam na frente de um estabelecimento amarelo com dez estátuas douradas de animais, segurando dez pilares brancos com vinhas enroladas neles cobertas por flores de pétalas roxas e verdes. Uma música em um piano, sendo acompanhada por várias vozes conversando, pode ser ouvida.
"Uh… Meio chamativo demais pra um bar, não ?" — Mira pergunta.
"Deve ser o local errado…" — Cirius diz.
"Bom, só tem um jeito de saber." — Èris diz. Ela entra no local.
O grupo segue Èris. Eles entram em um grande salão com as paredes vermelhas, chão de madeira escura, mesas com toalhas xadrez vermelho e branco, um balcão, uma escada subindo para outro andar e um palco, em um canto, com um pianista. O local está cheio.
"Esse lugar é bem movimentado, huh." — Kaito diz.
"Não parece que tem lugar pra gente." — Mira diz.
Uma jovem Korgen ursa de pelo castanho, olhos pretos, vestindo um uniforme de empregada rosa, com um avental branco, se aproxima do grupo. Ela parece nervosa. "B-Bem-vindos ao Zanna di Lupi. Gostariam de uma mesa ?"
"Tudo bem com moça forte ?" — Luna pergunta.
"D-Definitivamente ! C-Com toda certeza do mundo eu sou uma profissional treinada e não uma amadora !" — A ursa diz.
"Ok..." — Stella diz.
"O local me parece cheio. Tem alguma mesa para nós ?" — Èris pergunta.
"S-Sim !" — A ursa diz. "M-Me sigam, por favor." — Ela vai embora.
O grupo segue a ursa. Mira chama a atenção de seus amigos.
"O que foi ?" — Luna pergunta.
"Deixa essa comigo e com o meu irmão." — Mira sussurra.
"Vai ser divertido. Confia." — Cirius sussurra.
"Tão planejando o que, hein ?" — Stella pergunta.
Cirius e Mira piscam. O grupo sobe as escadas e vai para o segundo andar, igualmente cheio de clientes. A ursa os leva para uma mesa.
"Irei buscar os cardápios." — A ursa diz.
"Não precisa." — Mira diz. "Queremos o prato mais vendido, e a melhor bebida que o acompanhe."
"E eu vou querer um bife também." — Cirius diz.
"Sim." — A ursa diz.
"Ah, mais uma coisa ! Nós dois vamos querer um copo com água gelada com limão." — Mira diz.
"C-Certo." — A ursa diz. Ela vai embora.
"Ok, o que vocês tão tramando ?" — Kaito pergunta.
"Testando o lugar." — Mira diz.
"Viram como ela tava nervosa ? Aquela garota vai se atrapalhar de algum jeito." — Cirius diz.
"Trabalhávamos em uma taverna. É praticamente nosso dever ver se esse lugar realmente merece a atenção que ganha." — Mira diz.
"Coitada dela…" — Èris diz.
"O prato mais vendido de um lugar significa a alma desse lugar." — Cirius diz. "Se é o prato mais vendido, tem de ser a melhor coisa do cardápio."
"Além disso, pedindo uma bebida que acompanhe, você testa se o cozinheiro realmente sabe o que tá fazendo. E nós estamos em cinco, o que significa que deve demorar algum tempo para fazerem nossos pedidos." — Mira diz.
"E aquela garota já cometeu dois erros." — Cirius diz. "Ela queria ir embora, antes mesmo de terminarmos de pedir. E aquela garota nem perguntou o ponto em que eu queria meu bife. O que você sempre deve fazer, já que não conhece o cliente e não sabe os gostos dele."
"Mas e a água ?" — Luna pergunta.
"Foi só pra deixar ela mais confusa mesmo." — Mira diz.
"Vocês dois são horríveis…" — Stella diz.
"Fiquem longe de qualquer taverna que eu abrir…" — Kaito diz.
"Fica tranquilo. Não iríamos criticar sua taverna." — Mira diz. "Não muito."
Algum tempo depois. A ursa termina de colocar o último prato na mesa. Em todos os pratos há uma macarrão com molho de carne. Também há um prato com um bife, para Cirius, e uma taça com vinho de coloração rubi, com tons violáceos, para todos.
"Hmm~ O cheiro é bom !" — Stella diz. "O que é ?"
"N-Nosso prato mais vendido: tagliatelle al ragù." — A ursa diz.
Todos comem um pouco.
"Whoa ! Gostoso pra caramba !" — Kaito diz, surpreso.
"Luna adorou !" — Luna diz. Ela começa a comer rapidamente.
"É realmente uma delícia. Eu preciso saber o que tem aqui." — Èris diz.
Mira dá um sorriso confiante. "Que bom que tocou nesse assunto, porque nossa querida garçonete vai nos dizer."
"E-Eh !?" — A ursa diz, surpresa.
"O que foi ? Não vai me dizer que não sabe o que tem na comida que você mesma acabou de servir ?" — Mira pergunta.
Cirius nega com sua cabeça. "Não seja boba. É claro que ela sabe. Qualquer garçonete que se preze sabe como é feito cada prato no cardápio."
"E-E-Eu... O-O ingrediente é um segredo !" — A ursa diz.
"Jura ? Então eu gostaria de perguntar para o chefe." — Mira diz.
"S-Sabe o que é ? É que a cozinheira também é a proprietária do local, então ela está um pouco ocupada-" — A ursa diz, sendo interrompida por Cirius.
"Claramente ela tem tempo para seus próprios clientes, não ?" — Cirius pergunta.
A ursa abaixa sua cabeça, triste. "…Irei chamá-la..." — Ela vai embora.
"Isso é realmente necessário ?" — Èris pergunta.
"Passamos pelo mesmo problema, quando trabalhávamos com a vovó." — Cirius diz.
"Isso vai dar um pouco de experiência pra ela." — Mira diz.
"É, junto com um trauma." — Kaito diz.
Mira dá de ombros. "Ossos do ofício."
Algum tempo depois. A ursa chega, ainda cabisbaixa, acompanhada de uma madura Korgen loba de pelo branco, olhos vermelhos, com um olhar sério e uma cicatriz de garra cruzando seu olho direito, vestindo uma jaqueta roxa, com as mangas para cima, calças e pretas e com seus braços cruzados.
"Ela é cozinheira ou carcereira ?" — Kaito pensa consigo mesmo.
"Eu não sei o que ela quebrou, derramou, estilhaçou, queimou, rasgou, manchou, desperdiçou ou confundiu, mas peço perdão." — A loba diz. "Giullia começou a trabalhar aqui recentemente, ainda não tem experiência. Eu sou Bianca, dona do estabelecimento e cozinheira."
"Isso foi uma ameaça ? Porque pareceu com uma… A voz dessa mulher é forte pra cacete…" — Kaito pensa consigo mesmo.
"Poderia nos dizer do que esse prato é feito ?" — Mira pergunta.
Bianca olha para Giullia pelo canto de seus olhos murmura. "Pelo jeito, nem isso ela aprendeu." — Ela solta um suspiro, desapontada. "Duas colheres de sopa de azeite de oliva, uma cebola, uma cenoura e um talo de salsão, todos cortados em pequenos cubos, um dente de alho picado, uma folha de louro, duzentas e cinquenta gramas de músculo de javali moído, duzentas e cinquenta gramas de peril de javali moído, meia xícara de vinho tinto seco, três colheres de sopa de extrato de tomate, e, para terminar, pimenta e sal."
"E o vinho, por favor ?" — Cirius pergunta.
"Um vinho tinto doce 100% Merlot, com aroma frutado, que foi maturado por oito meses em um barril de carvalho e ficou em evolução durante um ano inteiro em uma cave, mais oito anos na minha adega." — Bianca diz.
"Muito obrigado. Só precisávamos saber disso mesmo." — Cirius diz.
Bianca vai embora. Giullia se curva e a segue.
"Viram só ? É assim que funciona." — Cirius diz.
"Huh, essa cidade é cheia de gente esquisita." — Kaito diz. "Ela não era a cara do Marco ?"
Bianca para.
"Agora que você parou pra falar..." — Cirius diz.
"Moça assustadora tinha um cheiro parecido com Marco, só que com menos suor e mais tempero." — Luna diz.
Bianca volta para a mesa do grupo. "Venham comigo."
"O que foi-" — Cirius diz, sendo interrompido por Kaito, que tapa a boca dele.
"Tá ficando maluco ? Se disser não pra uma mulher assustadora dessas, VOCÊ vai ser o próximo prato do cardápio !" — Kaito sussurra, bravo.
"Eu ouvi muito bem o que disse." — Bianca diz.
"Eeekkk ! D-Desculpa !" — Kaito diz, assustado.
Bianca vai embora. O grupo se levanta e vai atrás dela. Eles entram na cozinha, descem algumas escadas e chegam em um armazém. Bianca empurra uma estante, revelando um corredor. Ela entra por esse corredor. O grupo se olha, confusos, mas seguem Bianca. Eles caminham por alguns minutos, em completo silêncio, até chegarem em uma sala feita de pedra com várias caixas com vinho, iluminada por tochas.
"E-Eu juro que era brincadeira !" — Kaito diz.
"Me contém tudo que sabem sobre esse Marco." — Bianca diz. "E é melhor me contarem a verdade. O último que tentou me passar a perna… Digamos que alguns Makai dormiram satisfeitos."
"E-Eu conto qualquer coisa !" — Kaito diz.
"Kaito !" — Èris diz, brava.
"Eu não sei o que VOCÊ sabe sobre o Marco, mas não vamos entregar nosso amigo pra você !" — Cirius diz, bravo.
Eles começam a se encarar seriamente.
Bianca solta um suspiro. "O que aquele cabeça de vento pensa que tá fazendo… ?"
Luna inclina sua cabeça, confusa. "Eh ?"
"Se são amigos dele, eu fico mais aliviada." — Bianca diz. "Podiam ter dito isso mais cedo, né ?"
"Uh… Você não vai, tipo, arrancar minha cabeça fora ?" — Kaito pergunta.
"Depende de quão bêbada eu estiver. Ahahaha !" — Bianca diz. "Tô de brincadeira. Fala aí, como é que ele tá ?"
"Bem… ?" — Stella diz, confusa.
"Heh, isso é um milagre. Aquele idiota vive se metendo em encrenca." — Bianca diz.
"Do que moça assustadora tá falando ?" — Luna pergunta.
"É claro que aquele cérebro de tijolo não falou de mim pra vocês." — Bianca diz. "Eu sou a irmã mais velha dele."
O grupo se espanta. "EEEHHH !?"
"São só alguns segundos de diferença, mas eu nasci primeiro." — Bianca diz.
"...Honestamente, eu não tô tão surpreso assim…" — Kaito diz, surpreso.
"Onde ele tá ?" — Bianca pergunta.
"…Aqui, eu acho…" — Cirius diz.
"Ele voltou, huh ?" — Bianca se pergunta. Ela solta um suspiro, aliviada. Bianca dá um leve sorriso. "Ainda bem…"
"Dá pra, uh, explicar alguma coisa ?" — Kaito pergunta.
"Ele disse alguma coisa pra vocês ?" — Bianca pergunta.
"Resumindo bastante, mulher ruim controla meu reino, me ajudem a matar ela." — Mira diz.
"É basicamente isso." — Bianca diz.
"Por que o único lugar daqui com flores coloridas é sua adega ?" — Stella pergunta.
"Simples: eu odeio aquela mulher." — Bianca diz.
"Milena, eu presumo." — Èris diz.
"É exatamente por isso que eu tenho uma estátua de cada um dos Dez e várias Signora Della Speranza. Ela odeia essas coisas." — Bianca diz.
"Olha, audácia você tem." — Kaito diz. "Como é que ela não derrubou esse lugar ainda ?"
"Não tem nada que uma boa atuação e uma mentira bem contada não façam." — Bianca diz. Ela limpa sua garganta. "Mas senhorita Milena, se nossa cidade não tiver nada para comparar sua beleza, como é que vão ter certeza de que a senhora é a mais bonita de todas as divindades a pisar nesta terra ?"
"Moça assustadora é inteligente !" — Luna diz.
"Legal. Não tem nada que eu goste mais do que uma boa mentira." — Kaito diz.
Èris olha para Kaito pelo canto dos olhos, séria.
"F-Fora do relacionamento, é claro." — Kaito diz, assustado.
"Então, uh… Vocês dois nasceram com isso no rosto ? Porque é uma marca de nascença bem legal." — Mira diz.
Bianca passa a mão em sua cicatriz. "Isso aqui é… um lembrete. Um lembrete de que eu sou uma idiota."
"Ok… Você foi de assustadora pra legal, e, agora, de legal pra esquisita…" — Kaito diz.
"Quando éramos crianças, Marco sempre era irritado pelos outros porque era fraco demais pra se defender, e eu sempre tinha de bater naqueles otários." — Bianca diz. "Um dia, eu fui defender ele, mas acabei tomando uma surra legal. Marco começou a falar umas bobagens sobre virar o Capitano."
"Explicações, por favor." — Kaito diz.
"Capitano é basicamente quem comanda toda a infantaria do Pantalone." — Bianca diz.
"Tipo um general." — Èris diz.
"Continuando… Claramente, eu não ia deixar meu irmão menor arriscar a vida dele, se ele nem conseguia se defender." — Bianca diz. "Nós dois acabamos brigando feio e isso na nossa cara é o resultado. Desde então, ele treinou todo santo dia, dizendo que não ia deixar mais ninguém ser oprimido e ia proteger todos. E não é que deu certo mesmo ? Ele virou Capitano, e até melhor amigo do Pantalone. Bom, só até aquela mulher tomar o poder. E eu ? Eu fiquei como a idiota da situação… Nunca dei apoio nenhum pro meu irmão, enquanto ele se esforçava ao máximo pra me proteger…"
"Acontece nas melhores famílias." — Cirius diz.
"Pensa pelo lado bom, vocês ainda têm um ao outro." — Èris diz.
"Confia em mim, isso importa mais do que parece." — Kaito diz.
"Heh, acho que têm razão." — Bianca diz. "Qual o plano dele ?"
"Ainda não discutimos nada." — Stella diz. "Marco disse para nos encontrarmos em uma casa verde e roxa, perto do porto."
"Óbvio que ele tá indo pra lá..." — Bianca diz.
"O que foi ?" — Luna pergunta.
"Nada." — Bianca diz. "Bom, é melhor sairmos daqui. Se eu deixar a adega por muito tempo, a Giullia quebra alguma coisa."
"Ela é bem nova nisso, huh ?" — Cirius pergunta.
"Que nada. A garota tá comigo há uns três anos. Só é ruim mesmo." — Bianca diz.
"Ou você é muito sádica, ou tem muita pena dela, pra não demitir a garota." — Kaito diz.
"Eu até tentei, mas não dá. Ela sabe que é desastrada, mas mesmo assim, se esforça demais. Me lembra bastante meu irmão..." — Bianca diz. "Além disso, eu era melhor amiga dos pais dela, antes deles…"
"…Oh…" — Kaito diz.
"Precisavam de dinheiro e pensaram que teriam alguma chance no coliseu." — Bianca diz. "Aquela sádica de merda fez cada segundo deles lá dentro um inferno, até que não aguentaram mais e tiraram a própria vida."
Kaito fecha seus punhos. "A lista de coisas boas da Milena não para só por aí, não é ?"
"Eu queria dizer que sim." — Bianca diz.
"Quando é que esse coliseu abre ?" — Èris pergunta.
"Todos os dias tem alguma 'peça' lá." — Bianca diz. "A próxima é daqui a pouco. E é uma das grandes."
"Ótimo." — Mira diz. "Vamos. Temos de reconhecer o terreno e ver que tipo de atrocidades são cometidas lá."
"Boa ideia." — Stella diz. "Não podemos deixar o povo sofrer por mais tempo."
"Valeu pelo tempo e pela comida." — Cirius diz.
"Que isso. Foi nada." — Bianca diz.
O grupo vai embora. Algum tempo depois. Eles chegam na frente de um local redondo, feito de pedra. Algumas pessoas estão entrando nesse local.
"Bom, é bem óbvio o que isso é." — Kaito diz. "Vamos ?"
Luna nota Cirius nota que Cirius está um pouco nervoso. Ela segura a mão dele e sorri. "Marido vai ficar bem."
"…Valeu…" — Cirius diz, se acalmando.
O grupo entra no coliseu. Eles passam por alguns corredores e chegam nas bancadas. Há várias pessoas no local. Em um trono chique, está sentada uma mulher de cabelo longo ruivo, olhos verdes, vestindo um gracioso e reluzente vestido dourado, com babados vermelhos, sapatilhas também douradas, longas luvas brancas e usando uma máscara vermelha, com um longo nariz curvado para baixo.
"Quem será a pessoa mais importante daqui ? Eu juro que não consigo ver." — Kaito diz, zombando.
"Como é que alguém consegue ser tão cínico assim ?!" — Mira pergunta, brava.
"Huh, isso não é nada que eu já não tenha visto centenas de vezes, e, mesmo assim…" — Cirius diz.
"Olhem ! Parece que algo vai começar !" — Stella diz, apontando para a arena.
Um homem entra na arena. "Senhoras e senhores aqui presentes, nossa peça está prestes a começar ! Por favor, uma salva de palmas para nossa querida Colombina, Andreina !"
Na arena, entra uma mulher de cabelo longo castanho, vestindo um colete amarelo, uma camiseta verde, calças e sandálias marrons, usando uma máscara dourada, com detalhes vermelhos, cobrindo seu rosto inteiro e segurando uma espada de ferro quase maior que seu corpo. A platéia começa a aplaudi-la.
"Agora, aquela que enfrentará nossa graciosa guerreira não é ninguém mais, ninguém menos que a viajante persistente, que não consegue parar de lutar em nosso coliseu !" — O homem diz.
Alguns homens entram na arena, segurando correntes feitas de luz. O grupo se espanta, quando vê que quem está sendo puxada é Galadriell, vestindo apenas uma camisola completamente suja. Ela está com vários machucados e hematomas espalhados pelo seu corpo. As correntes estão amarradas em seus braços, pernas e pescoço. Um dos homens finca Nebro no chão, ao lado de Galadriell.
"S-Só pode ser brincadeira…" — Kaito diz, em choque.
"…Isso… Isso é desumano..." — Èris diz.
"Coitada da moça forte…" — Luna diz.
Cirius encara a situação com uma mistura de ódio e medo. Ele aperta mais a mão de Luna.
"Ai ! Isso dói, marido !" — Luna diz.
"Claro, como sempre, vamos começar os procedimentos." — O homem diz.
Alguns dos guardas de antes chegam e começam a cutucar Galadriell com suas lanças. Em questão de segundos, a camisola dela se encharca com o sangue.
"…Soltem ela…" — Cirius sussurra.
As correntes desaparecem. Galadriell imediatamente se ajoelha, não conseguindo aguentar a dor. Algumas lágrimas escorrem pelo seu rosto.
Andreina aponta sua espada para a cabeça de Galadriell. "Qual o problema ? Não vai me dizer que já se cansou ? Levante sua cabeça e lute ! Madame Milena está lhe observando ! Ou devo lembrar-lhe o motivo de estar aqui ?"
Galadriell fracamente se levanta e, com o máximo de força que consegue, levanta Nebro.
"Melhorou. Dê à audiência sua melhor performance." — Andreina diz. Ela ergue sua espada e ataca.
De repente, alguns círculos vermelhos, com símbolos roxos neles, aparecem na frente de Andreina. Cirius rapidamente passa por esses círculos, com Yaldabaoth em mãos, e, com um golpe certeiro, corta a espada dela. Galadriell se espanta. Com o choque, ela acaba desmaiando.
Andreina pula para trás, desviando de um golpe se Cirius. "Intromissões não são permitidas ! Se quiser uma luta, espere seu turno !"
"Se afaste da minha irmã !" — Cirius diz, sério.
"Sua irmã ?!" — Andreina pergunta. "Então que tal morrer junto com ela ?"
Vários guardas chegam. Um se aproxima de Cirius pelas costas.
Luna aparece e chuta a cabeça desse guarda, o jogando para trás. "Homens maus não vão mais machucar a amiga de Luna !"
Algumas cartas começam a flutuar em volta deles e formam um escudo. Balas acertam esse escudo. Explosões acontecem perto de guardas com rifles, os matando. Mira e Stella se aproximam do grupo.
"Eu adoro causar uma cena." — Mira diz, com um sorriso confiante.
"Vocês são malucos ?! Estávamos disfarçados !" — Stella diz, brava. "Qual parte da palavra DISFARCE não entenderam ?!"
Vários guarda começam a rodear a arena e correr na direção do grupo. De repente, os guardas tropeçam em algo e caem.
Kaito aparece dentro do escudo, segurando seu fio azul. "De nada~"
"E agora ?" — Stella pergunta.
"Lutamos." — Luna diz.
"Em desvantagem ? Nem ferrando !" — Stella diz.
"É claro que a gente não vai lutar." — Kaito diz. "Ainda bem que alguém aqui tem um cérebro e pensou em um plano de fuga."
"Como vamos sair daqui ?" — Cirius pergunta.
"Quando eu contar até três, abaixa o escudo." — Kaito diz.
"Certo." — Stella diz.
"Um... Dois…" — Kaito diz.
Stella abaixa seu escudo.
"As defesas enfraqueceram ! Ataquem !" — Andreina diz.
Alguns guardas com armas de fogo se preparam para atacar.
De repente, Èris pega impulso em um dos guardas e pula para cima do grupo, com suas espadas em mãos. "Aeternum Tormentum !" — Ela ataca o chão, criando uma cortina de poeira.
Os guardas atiram. Os outros guardas que estavam caídos se levantam, correm para a poeira e dissipam ela. Não há mais ninguém lá.
"Não deixem que os desertores escapem !" — Andreina diz.
Os guardas vão embora, correndo.
"Heh, não que isso me preocupe. Afinal, não importa o quão longe a coleira vá, a criatura ainda está presa à ela." — Andreina diz.
O grupo está correndo pela cidade. Luna está carregando Galadriell e Nebro em suas costas. Vários guardas estão correndo atrás deles.
"E agora ? Qual o plano ?" — Stella pergunta.
"Eu disse que pensei em como fugir, não pra onde fugir." — Kaito diz.
"Ah, qual é !" — Stella diz, brava.
"Vamos para o local que Marco disse." — Èris diz.
"Não dá. Eles iam seguir a gente e descobrir onde ele está." — Mira diz.
"Droga, e ferrei tudo… Desculpa, gente..." — Cirius diz.
"Se marido não tivesse ido, Luna iria." — Luna diz. "Ninguém machuca os amigos de Luna na frente de Luna."
Eles entram em um beco.
"Rápido, por ali !" — Um guarda diz.
"Eles vão cercar a gente !" — Stella diz.
"Droga, não temos pra onde fugir." — Kaito diz.
Mira vê algo. "Eh… ? Por ali !" — Ela aponta para um lado.
O grupo corre para o lado que Mira apontou. Os guardas vão atrás. Tiziano e Zarbini estão no local, em sua canoa. Há um pano preto nela.
"Viram sete indivíduos passarem por aqui ? São criminosos que vão contra a madame Milena !" — Um guarda diz.
"Vimos ! Eles correram para aquela direção !" — Tiziano diz.
"Muito obrigado !" — O guarda diz.
Os guardas vão embora. Algum tempo depois. A canoa da dupla chega no porto.
Tiziano olha para os lados. "Podem sair."
Zarbini puxa a lona, revelando o grupo.
"A barra tá limpa ?" — Kaito pergunta.
Tiziano concorda com sua cabeça. "Mas não por muito tempo. Logo, os guardas vão usar o raciocínio e cobrirão todas as rotas de fuga."
"Valeu mesmo, cara." — Cirius diz.
"Mas isso não significa que vocês também são criminosos agora ?" — Mira pergunta.
"Digamos que não somos os maiores fãs da Milena." — Tiziano diz.
"Não somos..." — Zarbini diz.
"Além disso, vocês parecem um grupo interessante. Se isso significa uma coisa boa ou ruim, só o tempo vai dizer." — Tiziano diz. "Agora vão, antes que eles cheguem aqui."
O grupo sai da canoa.
"Vamos ficar devendo essa pra vocês !" — Kaito diz.
"Podem nos pagar com uma boa conversa e uma refeição no Zanna di Lupi." — Tiziano diz.
"Estamos sempre lá..." — Zarbini diz.
"Nós vamos !" — Èris diz.
O grupo vai embora. Eles olham casa por casa, até encontrarem uma casa roxa e verde.
"Bom, só pode ser aqui." — Kaito diz.
"É a única casa roxa e verde que vimos, até agora." — Mira diz.
Cirius se aproxima da porta e bate nela.
Passos podem ser ouvidos, se aproximando da porta. A voz de uma mulher é ouvida. "Quem é ?"
"Uh… Cirius." — Cirius diz.
"Nós queremos peixe." — Stella diz.
"O peixe mais caro que tenho tem um preço muito alto." — A mulher diz.
"Ótimo. Vamos querer mais quatro." — Èris diz.
Sem resposta.
"Uh… A senhora ainda tá aí ?" — Mira pergunta.
De repente, um pedaço do chão se abre. O grupo acaba caindo. O chão se fecha, logo em seguida.
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