Milagres de Junho

5 Implicância


ROMANCES MENSAIS

LIVRO VI — MILAGRES DE JUNHO

CAPÍTULO IV — IMPLICÂNCIA

O dia estava quente e abafado com o céu nublado, ameaçando ter mais uma chuva intensa de verão. Observo pela varanda do quarto de Damon a movimentação da rua, enquanto o silêncio nos cerca. Apesar de não dizerem nada, eu sentia os olhares de meu primo e de Tommy sobre mim, ainda absorvendo todas as informações. Não que Damon já não soubesse, mas acho que ele pensou que eu estivesse brincando quando eu mandei uma mensagem falando que eu era o pai do filho da Dra. Felicity.

— Espera. Isso é sério? — Questiona Damon, rindo. — Cara, quando eu disse que era para você terminar com a irritante da sua namorada, ficar com a Dra. Felicity e assumir o filho dela, eu não quis dizer para você ser o pai de verdade. Apesar de que eu acho que agora que você é pai mesmo, facilita todo o processo de despachar a Laurel e ficar com a médica que parece ser muito mais interessante.

— Você é um idiota. — Resmungo, revirando os olhos diante da provocações de meu melhor amigo. — Nós apenas tivemos um filho juntos.

— É. Eu sabia que você seria o primeiro a ser pai, mas jamais imaginei que seria por métodos não convencionais. Sem fazer a parte mais divertida de se ter um filho. — Brinca Damon, suspirando como se estivesse decepcionado. Dou uma cotovelada nele e meu primo acaba rindo, antes de passar o braço por cima dos meus ombros e sorri, dando tapas em meu peito. — Bom, pelo menos eu ganhei um sobrinho adorável. Eu estou feliz por você, irmão. E eu posso ver que você também está feliz. Então faça o seu melhor como pai do Tony e salve a vida dele. E se precisar, sabe que pode contar comigo.

— Obrigado, Damon. — Agradeço, aliviado por ter o apoio de meu primo.

— A Laurel já sabe disso? — Pergunta Tommy com seriedade.

— Eu irei contar para ela hoje a noite. Marquei para jantarmos no restaurante preferido dela logo depois que eu sair do hospital. — Respondo, assim que chegamos ao nosso café preferido na faculdade. Viro-me para a atendente, que não demora a nos reconhecer. — Oi Diane. Poderia preparar o mesmo de sempre?

— Oi Oliver! Claro. Três americanos grandes saindo. Podem se sentar. Eu levo para vocês. — Responde a garota, dando um sorriso sugestivo, olhando para Damon, que sorri malicioso.

— É sempre bom saber que podemos contar com você, Di. — Damon joga uma piscadela para a garota, que cora, sorrindo envergonhada, antes de ir preparar nosso café.

— Desde quando você está saindo com a Diane? — Pergunto, enquanto seguimos para uma das mesas que havia na praça de alimentação de frente para o café.

— Não estamos saindo. — Conta Damon, dando de ombros. Ele pensa por um momento e me encara com um olhar convencido. — Lembra da última festa que eu dei lá em casa?

— Aquela em que o Barry cantou com a Cait? — Questiono e ele assente. — Vocês ficaram lá?

— Sim. — Responde com um sorriso malicioso. — Foi incrível. Quem diria que por trás dessa carinha de inocente ela fosse tão... quente.

— O quê? O grande Damon Salvatore está pensando em ficar mais de uma vez com uma garota? — Provoco e ele ri, negando.

— Figurinha repetida não completa álbum, irmão. Você sabe as minhas regras. Ela é uma garota interessante, mas fui honesto desde o início com ela. Não vai rolar uma segunda vez. — Explica, dando de ombros.

— É por isso que a Nadine destruiu a moto dele. — Comento com Tommy, rindo da cara que Damon faz ao lembrar da última garota maluca com quem ele se envolveu. E nesse momento, ao invés de receber um comentário zombando de Damon, tudo o que tenho de Tommy é seu olhar sério. — O que foi? Por que está me olhando assim?

— Acho que você está cometendo um grande erro. — Responde Tommy, apoiando os cotovelos sobre a mesa, enquanto parecia contrariado. Eu o encaro confuso, tentando entender sobre o que ele estava falando.

— O que quer dizer com isso? — Pergunto e ele bufa, voltando apoiar as costas no encosto da cadeira. Troco olhares com Damon, que parecia tão perdido quanto eu.

— Assumir essa criança. — Responde Tommy, cruzando os braços, enquanto exibe um sorriso presunçoso.- Você não sabe cuidar nem de você mesmo, imagina criar uma criança. Além disso, eu te conheço bem. Acha mesmo que vai ser capaz de largar a farra do fim de semana para ficar cuidando de um moleque remelento? E a Laurel é uma garota legal. Não é justo você fazer isso com ela.

— Ele é o meu filho, Tommy. — Retruco, sem acreditar nas palavras de meu amigo de infância.

— Um filho que você nem sabia que existia até ontem a tarde. A mãe dele decidiu ter o bebê e deixou bem claro que não queria o pai por perto no momento em que escondeu esse segredo de você por seis anos. Desencana dessa história, Oliver. Esse garoto só vai acabar com a sua vida. — Aconselha Tommy, dando um sorriso satírico.

— Nós estamos falando de uma criança e não de um monstro, Tommy. É verdade que cuidar de uma criança não é fácil, mas não é impossível. Eu tenho certeza de que Oliver consegue. — Afirma Damon, lançando um olhar repreendedor para Tommy. Meu primo então se vira para mim e coloca a mão sobre o meu ombro. — Não dê ouvidos a ele. Não se pode confiar em alguém que acha que a Laurel é uma garota legal.

— Você vai mesmo jogar sua liberdade fora para ficar preso a algo que você nem mesmo teve escolha? — Questiona Tommy e nesse momento Diane aparece com nossos pedidos.

— Aqui estão os cafés americanos de sempre. — Diane coloca os copos com café para cada um de nós e um pedaço de torta de limão para Damon. — Eu soube que é a sua preferida. Fui eu quem fiz. Espero que goste. É por conta da casa.

— Obrigado, Di. — Agradece Damon, dando uma piscadela para a garota. Ele então dá um sorriso de lateral. — Eu comerei com muito prazer.

— Certo. Depois quero saber o que achou. — Avisa a garota, voltando para a cafeteria.

Um silêncio incômodo e pesado se faz presente assim que voltamos a ficar sozinhos. Eu encarava Tommy, esperando que ele dissesse que tudo não passava de uma brincadeira, mas ele permanecia sério com o olhar determinado. Suspiro e tomo um pouco do meu café.

— Olha, Tommy, eu já tomei a minha decisão. Tony precisa de mim. Não importa o que me digam, eu não vou voltar atrás da minha palavra. Pode ser verdade que eu não tive escolhas, mas ele é uma criança incrivelmente amorosa e inteligente. A forma como ele me encarava fazia eu me sentir único. Eu quero ser o pai dele e fim de história. — Respondo, colocando um ponto final naquela história. Tommy bufa e me encara incrédulo.

— Oliver, não seja idiota! A Laurel...

— Pouco me importa a Laurel nesse momento, Tommy. — Interrompo o rapaz, começando a perder a minha paciência. — Eu vou assumir a paternidade de Tony e se ela ainda quiser ficar ao meu lado, vai ter que aceitar essa situação.

— Eu não acredito nisso. — Murmura Tommy, antes de beber seu café com uma expressão inconformada.

— Desde o momento em que eu olhei nos olhos de Tony, eu senti uma conexão única com ele. É como se cada parte de mim desejasse protegê-lo. — Explico, relembrando o sorriso adorável de Tony. — Eu não espero que você entenda e nem preciso disso. Você pode falar o quanto quiser que eu enlouqueci ou qualquer uma dessas baboseiras, mas eu não vou mudar de opinião.

— Seja teimoso e inteligente como um Barton. — Damon sorri e levanta seu copo de café ao proclamar o lema de nossa família. Sorrio e bato meu copo no dele, concordando.

Não era fácil explicar a família Barton. De forma resumida, um homem chamado Clint Barton foi deixado em um orfanato ainda recém-nascido e viveu em vários lares adotivos até os doze anos de idade quando foi adotado pela família Hopper. Por causa da personalidade excêntrica e da inteligência acima da média, ao mesmo tempo que ele atraía as famílias para o adotarem, as pessoas pareciam ter medo dele e sempre acabavam o devolvendo para o orfanato.

Ele passou por pelo menos quinze lares adotivos durante sua infância e por mais que ele se esforçasse, Clint nunca conseguiu ter o amor dessas famílias. Por mais que desse o seu melhor para agradar sua nova família, ele nunca realmente se sentia em casa. Ele se sentia muito triste e incompleto todas as vezes em que era abandonado no orfanato, mesmo depois de ter se dedicado tanto a agradar sua família adotiva. Por causa disso, ele prometeu a si mesmo que quando crescesse, formaria uma família única, onde as pessoas se apoiariam e ficariam juntas não por compartilharem o mesmo sangue e sim porque seus corações se completariam.

E foi então que ele foi adotado pela família Hopper. Nessa família ele foi acolhido por Jim Hopper, que já era adolescente e tinha quatro amigos inseparáveis. O meu pai, tio Henry, tio Adam e tio Kyle. Apesar de serem mais velhos, todos eles se tornaram muito próximos de tio Clint e o fizeram finalmente sentir que finalmente pertencia a uma família. Depois que todos os seus melhores amigos se casaram e tiveram filhos, tio Clint resolveu cuidar dos sobrinhos de consideração e nós nos tornamos a oficial família Barton.

Sara Hopper, Nancy Wheeler, Damon Salvatore, Elena Gilbert, Sam Puckett, Beth Greene, Ben Florian, Barry Allen, Aaron e Austin Moon, Thea e eu. Esses são os doze membros sobrinhos oficiais, como nós nos identificamos. O mesmo número da idade que ele tinha quando foi adotado pela família Hopper. E desde então crescemos para seguir o lema criado por tio Clint.

— De novo isso. — Resmunga Tommy, revirando os olhos. Ele então se levanta e me encara com seriedade. — De qualquer forma, pense bem no que você está prestes a fazer. Vale mesmo a pena jogar todos os seus planos e vida para trás por alguém que você vai ser obrigado a ser responsável até o fim de sua vida?

E antes que eu o respondesse, Tommy vai embora. Observo-o se afasta e suspiro, sabendo que de agora em diante eu vou precisar me acostumar a lidar com situações como essa. Sinto então a mão de Damon sobre meu ombro. Encaro meu primo e ele me encara com determinação.

— Não liga para o que ele disse. — Fala o outro, encarando-me com um sorriso encorajador. Assinto e concordância e respiro fundo, tentando ignorar os comentários nada animadores de Tommy. — Você vai se sair bem.

— Espero que você tenha razão. — Respondo, sentindo a insegurança me atingir.

[...]

Eu andava pelos corredores do hospital em busca do consultório do meu pai, sem conseguir disfarçar a minha ansiedade. Assim como combinado com Felicity no dia anterior, eu faria os exames para conferir o meu estado de saúde com exames de rotina e agendar a cirurgia da retirara de uma parte do lado esquerdo do meu fígado para transplantar em Tony. Levando em consideração o estado crítico de saúde da criança, nós não podíamos perder tempo.

Mesmo sabendo que a doação não iria comprometer meu órgão, já que o fígado tem uma enorme capacidade de regeneração, eu estava nervoso. O medo de não ser capaz de doar por apresentar algum problema de saúde ou de a doação não ser o suficiente para salvá-lo me atormentava. O peso da responsabilidade recaia sobre meus ombros.

— Oliver. — A voz feminina de Felicity ecoa pelo corredor. Paro de andar e me viro para trás, vendo a mulher de cabelos loiros presos em um rabo de cavalo se aproximar, ajeitado os óculos de grau em seu bonito rosto. Ela dá um sorriso nervoso e coloca as mãos nos bolsos do jaleco.

— Boa tarde, Dra. Felicity. — Cumprimento a médica com um sorriso tão afetado quanto o dela, assim que ela me alcança.

— Pode me chamar apenas de Felicity. Não somos mais tão estranhos assim, certo? — Questiona Felicity, encarando-me com seus bonitos olhos esverdeados e com um sorriso gentil em seus lábios. Balanço a cabeça, concordando. Ela respira fundo e faz sinal para que continuássemos a andar. — Pronto para fazer os exames?

— Acho que sim. Confesso que estou um pouco nervoso. — Respondo, seguindo ao lado dela para o consultório do meu pai. Ela me encara com curiosidade. — Até saber que esses exames é que vão decidir se eu poderei doar o fígado para Tony, eu tinha plena certeza da minha saúde. Agora eu já me sinto inseguro.

— Eu acho que isso é normal. — Afirma a pediatra, dando um fraco riso. Ela então me encara e suspira novamente. — Oliver.

— Sim? — Digo, observando-a pelo canto do olho.

— Obrigada. — Agradece, parando de andar. Dou mais alguns passos e me viro para ela, tentando entender ao que exatamente ela estava me agradecendo. Ela se aproxima e pega em minhas mãos. Sinto um arrepio intenso em minha espinha ao sentir o toque de suas mãos. Seus olhos se fixam nos meus, transmitindo toda a gratidão que ela sentia. — Obrigada por se dispor a fazer isso. Eu sei que eu não te dei muitas opções quando apareci na sua casa ontem e joguei tantas informações sobre você, mas muito obrigada mesmo. Você não está apenas salvando a vida do meu filho, mas também a minha.

— Nosso. — Corrijo e ela parece um pouco receosa. — Eu não mudei de ideia, Felicity. Eu realmente pretendo assumir a paternidade de Tony.

— Oliver...

— Eu não vou desistir. Ainda que eu não tenha experiência alguma ou que eu não seja tão responsável quanto deveria, como todos estão fazendo questão de apontar, eu vou melhorar, Felicity. Infelizmente não existe um manual explicando como ser pai, mas eu posso aprender. Eu quero aprender. Quero estar presente na vida do Tony. Quero acompanhar suas conquistas, suas decepções e cada momento especial de sua vida. — Respondo e dessa vez sou eu quem pega nas mãos de Felicity, fazendo com que ela me encarasse. Sorrio e a encaro nos olhos, tentando mostrar que eu estava falando sério. — Eu escolhi ser o pai daquele garotinho de sorriso fácil e personalidade amorosa. Então, não diga meu filho. Ele é nosso filho.

— O que você disse, Oliver? — Arregalo os olhos ao reconhecer o grito furioso que ecoa pelo corredor, chamando a atenção de todos que passavam pelo local. Viro-me para a mulher e me afasto de Felicity. — Você escolheu ser pai de quem?

— Laurel... — Sussurro, sentindo o cansaço cair em cima de mim só por ser alvo do olhar ameaçador. — Por favor, não faça escândalos. Vamos conversar...

— Não fazer escândalos? — Ela ri com escárnio. A mulher de cabelos castanhos ondulados, olhos esverdeados, vestida em roupas formais e salto alto quinze se aproxima batendo os pés como uma criança mimada. — Eu sou a sua noiva! Eu exijo e tenho o direito de saber de quem você está escolhendo ser pai.

— Você é minha namorada ou ex-namorada. — Corrijo, sem saber ao certo como identificar a nossa relação depois da nossa última briga. — De qualquer forma, depois nós conversamos. Agora eu tenho assuntos mais importantes para resolver.

Eu conhecia Laurel há muito tempo para saber que não adiantava nada explicar algo para ela quando está furiosa como nesse momento. Isso só a faria distorcer as minhas palavras e tornar o escândalo ainda maior.

— Nós não vamos conversar depois. Eu quero respostas agora, Oliver, e eu não vou sair daqui até você me explicar quem é essa vadia e que história é essa de "nosso filho". — Grita, apontando o dedo na direção de Felicity, que a encara surpresa.

— Vadia? — Repete a médica, rindo ironicamente. — Era só o que me faltava.

— Mais respeito, Laurel. Essa é a Dra. Felicity. Uma renomada pediatra e uma das aprendizes do meu pai. Eu não vou aceitar que você a ofenda. — Repreende Laurel com o tom de voz firme, fazendo-a se encolher. Pego em seu braço e tento levá-la para algum lugar onde tivesse menos gente para que conseguíssemos conversar, mas ela me empurra e encara Felicity possessa. Eu via a hora de Laurel ir para cima da médica. — Vamos conversar em outro lugar, por favor.

— Eu não quero conversar em outro lugar. Para de me enrolar! Eu quero respostas, Oliver! — O tom elevado de Laurel começa a me irritar. — Fala! Quem é essa vadia?!

— Ela é a mãe do meu filho. Agora para de gritar. Vamos conversar em um lugar mais reservado e eu explico tudo. — Digo e logo me arrependo pela forma como eu havia falado. Isso só iria piorar a situação.

— Como é que é? — Grita Laurel de maneira estridente. Seu rosto fica vermelho e ela não demora a ir na direção de Felicity, com os olhos fervendo, quase como uma assassina. — Você me traiu com essa vadia! Eu vou matar você!

— Eu não disse isso! — Respondo, entrando na frente de Laurel, impedido-a de alcançar Felicity, que também parecia prestes a perder a paciência.

— A você teve um filho com ela, mas não me traiu? — Questiona Laurel possessa. Eu nem podia culpar a mulher. Para alguém que não sabia da história, isso realmente soava ridículo. Ela me bate diversas vezes, descontando toda a sua raiva. — Você acha mesmo que eu vou cair nessa história? Ah, eu vou destruir essa piranha e...

— O que está acontecendo aqui? — A voz grossa e intimidante de meu pai ecoa pelo corredor, chamando nossa atenção. — Vocês estão em um hospital! O que pensam que estão fazendo com toda essa gritaria?

— Pai...

— Sr. Queen, essa vadia... — Laurel tenta se explicar, apontando para Felicity, debatendo-se contra mim, tentando se soltar.

— Mais respeito com a Dra. Felicity, Laurel. — Meu pai a interrompe, fazendo-a se encolher. — Eu entendo que esteja com raiva, mas esse não é o local para conversar. Venham comigo. Você logo entenderá o que aconteceu.