ROMANCES MENSAIS

LIVRO VI — MILAGRES DE JUNHO

CAPÍTULO XXVI — FORÇA

Como isso aconteceu? Como a bruxa conseguiu sequestrar o Tony se ele estava em horário de aula? - Questiona Damon, indignado do outro lado da linha.

Observo mais dois furgões da CIA estacionarem de frente a Ransburg YMCA Preschool. Diversos agentes descem do veículo com o carro ainda em movimento, sendo orientados por tia Tasha. A mulher exibia toda a sua autoridade, evidenciando que a operação era de extrema importância. Felicity estava no celular ao meu lado e conversava com Mal, contando o ocorrido. Ela havia parado de chorar e agora, além da preocupação, exibia a mesma fúria que mostrou em nosso acampamento ao descobrir o que Laurel havia feito.

— Eu não sei. Estão tentando acessar as câmeras de segurança da escola para saber como ela conseguiu entrar, mas até agora não temos informações. Os agentes da tia Tasha estão procurando pelo perímetro para descobrir pistas de onde ela poderia ter ido com Tony. — Conto, frustrado.

Os velhos já sabem que o bisneto deles foi sequestrado? — Pergunta meu melhor amigo, soando esperançoso. Ele sabia que meus avós seriam os primeiros a agirem.

— Sim. Estão desesperados, tentando entrar em contato com tio Clint. Você sabe, a tia Tasha é uma agente espetacular, mas...

Mas ela não é um gênio com um QI de mais de 200. — Completa Damon, sabendo o que se passava em minha mente. — Eu sei. Ninguém consegue superar o tio Clint. Ele provavelmente conseguiria descobrir o paradeiro de Tony apenas em uma conversa de segundos com a desgraçada da Laurel.

— Sim. E é exatamente por isso que estão tentando contatá-lo, mas acho que até agora não conseguiram. Meus pais saíram do hospital como uns loucos e estão atrás dele também. Thea foi atrás de alguma informação com o Roy. — Respondo e ele suspira.

Eu vou voltar o mais rápido possível para Hawkins, mas me mantenha informado. Eu vou tentar falar com o tio Clint também. Se eu souber de alguma coisa, eu te ligo. — Fala meu melhor amigo, parecendo tenso.

— Obrigado. Boa sorte na sua busca. — Desejo e ele agradece, encerrando a ligação.

— Alguma notícia? — Questiona Felicity, aproximando-se de mim com o celular contra o peito. Encaramos tia Tasha, que parecia conversar com alguém em seu celular de maneira intensa.

— Parece que não. — Respondo, angustiado. Essa falta de informações me deixava inquieto e não poder fazer nada me trazia o sentimento amargo de inutilidade. Felicity suspira e morde o lábio inferior, tão tensa quanto eu. — Nós vamos encontrá-lo. Tia Tasha é muito boa.

— Eu sei. — Concorda a loira com os olhos escuros de preocupação e medo. — Ainda assim, nosso filho está na mão de uma psicopata que deseja destruir nossas vidas. Eu tento não pensar o pior, mas a cada minuto que passa, mais chances de encontrarmos Tony vivo diminui. Minha mente insiste em me fazer lembrar sobre o destino do seu tio mais velho e de meu pesadelo. Eu... eu não sei... se alguma coisa acontecer com o meu menino, eu nunca...

— Não vai acontecer nada com ele. — Afirmo, trazendo o corpo de Felicity de encontro ao meu. Aperto-a intensamente, procurando transmitir algum tipo de conforto e segurança a ela. A verdade é que eu também estava apavorado. A culpa se misturando ao terror faziam meu coração falhar as batidas em desespero e insegurança.

Felicity respira fundo algumas vezes, procurando se acalmar. Ainda assim, suas mãos estavam frias e tremiam, enquanto apertava o tecido de minha camisa. Deixo um beijo no topo de sua cabeça e no mesmo instante meu celular começa a tocar. Esperançosos de que pudesse ser Laurel mais uma vez, afasto-me de Felicity e atendo a ligação sem nem mesmo prestar atenção no nome e foto brilhando na tela do meu celular.

— Alô. — Atendo, vendo Felicity fazer sinal para tia Tasha, assim como ela havia nos orientado, caso houvesse alguma ligação em meu celular.

Por que raios você não atende a droga do seu celular? — Grita Tommy irritado do outro lado da linha. — Droga, Oliver!

Tommy? Por que você está me...

Escuta. Você não tem muito tempo. Laurel está com o seu filho indo para a casa ao lado do rio White que pertence a minha família da minha mãe. — Interrompe o rapaz, surpreendendo-me.

— Como você sabe disso? — Questiono e as duas mulheres a minha frente me encaram curiosas.

Ela me acabou de me procurar com Tony. Disse que iria se livrar dele. Ela está completamente fora de controle. Tentei convencê-la de que isso é loucura, mas ela estava determinada, dizendo que se eu não a ajudasse, ela encontraria alguém o fizesse, assim como fez quando o sequestrou. — Explica Tommy e isso me faz ficar ainda mais apreensivo. — Eu fiquei com medo que ela fizesse alguma coisa, então a convenci a irmos para essa casa mais isolada na minha família e que eu tenho a chave para pensar no que iremos fazer. Não foi fácil, mas agora ela está me seguindo com o carro dela para lá. Eu não sei se vou conseguir segurá-la por mais tempo.

Onde vocês estão? — Pergunto e faço sinal para que tia Tasha prestasse atenção na localização que eu passaria.

No cruzamento da rua Feur com Sioux Falls. Estou seguindo pelo trajeto mais longo para a casa da minha família, enquanto ela me segue.

Cruzamento rua Feir com a Siouz Falls. — Repito, tentando me manter calmo. A vontade que eu tinha era de pegar o meu carro e ir agora mesmo atrás deles.

— Atenção! Sigam agora mesmo para o cruzamento rua Feir com a Siouz Falls. Repetindo. Sigam imediatamente para o cruzamento rua Feir com a Siouz Falls. — Tia Tasha passa as coordenadas pelo rádio comunicador da polícia que tinha em suas mãos. Ela então me encara. — Qual o carro?

— Em qual carro vocês estão, Tommy? — Pergunto, colocado a chamada no viva-voz para que tia Tasha escutasse. — Eu preciso passar as informações para a tia Tasha.

Eu estou em um Yaris Sedã preto de placa GHT 4899. A Laurel está em um Jetta prata, mas eu não consigo ver a placa. Acabamos de entrar na avenida Michigan. Estou a apenas dez minutos da casa na 865 Linden Ave. Vocês precisam se apressar. Ela está com uma arma. — Relata Tommy, apreensivo.

Avenida Michigan. Jetta prata seguindo um Yaris Sedã preto placa GHT 4899. A condutora do Jetta está armada. Repetindo. Avenida Michigan. Jetta prata seguindo um Yaris Sedã preto placa GHT 4899. A condutora do Jetta está armada. — Mais uma vez, tia Tasha repassa as informações.

Positivo. Equipe doze próxima ao local. Veículos localizados. — Responde um dos homens de tia Tasha pelo rádio comunicador. — Permissão para abordar os veículos.

Permissão negada. Permaneçam seguindo os veículos e repassando as informações. Há uma criança sendo mantida como refém no Jetta prata. — Orienta tia Tasha, fazendo sinal para que a seguíssemos até o seu carro. — Eles estão indo para a 865 Linden Ave

Entendido. — Concorda o homem, finalizando a conversa.

— Tommy, nós estamos a caminho. Uma equipe de tia Tasha está seguindo vocês. Vá para a casa da sua família. — Aviso meu amigo, que suspira, aliviado.

Tudo bem. Não demorem. — Pede Tommy, apreensivo.

— Tommy, obrigado. — Agradeço antes de encerrar a ligação. Ele permanece em silêncio, provavelmente assimilando meu agradecimento. — Você está salvando a vida do meu filho.

Eu não estou fazendo nada além do que qualquer outra pessoa em meu lugar faria. — Responde com sinceridade.

Eu sei que você é apaixonado pela Laurel, então não deve estar sendo fácil trair a confiança dela. — Digo, entrando no carro de tia Tasha, que imediatamente liga o carro e acelera em direção ao endereço informado por Tommy.

— Eu amo a Laurel, mas eu não sou um monstro, Oliver. Posso não ter sido a favor de você assumir a paternidade do garoto no início, mas isso não significa que eu quero que ele morra. Eu só não queria que a Laurel se machucasse. Só que dessa vez ela foi longe demais. Eu não posso permitir que ela acabe com a vida de uma criança apenas para conseguir te machucar. — Explica Tommy, suspirando.

— Ainda assim. O que... — Seguro firme no banco do carro, quando tia Tasha faz uma curva perigosa. — O que você está fazendo é muito importante para mim. Obrigado. De verdade.

Me agradeça quando seu filho estiver a salvo. — Responde Tommy com um tom de voz esperançoso. — Agora eu preciso desligar. Estou me aproximando da casa.

Tudo bem. Boa sorte. — Digo e ele suspira, ansioso.

Para vocês também. — Deseja Tommy, encerrando a ligação.

— E então? — Questiona Felicity, apertando a porta do carro para evitar que fosse jogada para o lado em mais um movimento perigoso de tia Tasha no trânsito.

— Eles estão chegando na casa da família do Tommy. — Conto e arfo ao ver que tia Tasha ultrapassaria o sinal vermelho bem no momento em que um caminhão vinha em nossa direção, buzinando. — Caminhão! Caminhão!

— Acelera, Naty! — Incentiva Felicity, apertando o cinto de segurança. Milagrosamente, conseguimos escapar de um acidente com o caminhão.

— Nós estamos chegando. — Avisa, tia Tasha, encarando a pista.

Respiro fundo, sentindo meu coração bater forte em meu peito. Felicity pega em minha mão e a aperta, parecendo procurar apoio. A notícia de que havíamos localizado Laurel e que Tony continuava vivo apareceu como uma luz no fim do túnel. Estávamos mais confiantes de que impediríamos a louca da minha ex-namorada, ainda que eu também estivesse em alerta.

Eu conheço Tommy desde que éramos crianças e mesmo depois de tudo o que aconteceu, eu sinto que ele estava sendo sincero. No entanto, eu não sei o que esperar de Laurel. Ela me mostrou diversas vezes que não possui escrúpulo algum e que é capaz de fazer qualquer loucura apenas para atingir seus objetivos.

Agente Romanoff na escuta? — Questiona o agente que seguia Tommy e Laurel pelo radio comunicador.

— Positivo, agente Stryker. — Responde a ruiva, pegando seu rádio. — Algum nova informação?

Os veículos acabaram de chegar na casa indicada. — Avisa o homem e Felicity e eu nos encaramos, preocupados. — Como devemos prosseguir?

— Permaneçam em vigilância. Analisem o perímetro e garantam que Laurel Lance fuja. — Orienta a agente com seriedade. — Nós estamos a caminho. Qualquer novidade, eu quero ser a primeira a ser informada.

Positivo. — Concorda o agente do outro lado da linha, encerrando a transmissão.

Como tia Tasha alertou, não demoramos a chegar na casa que frequentei muito quando criança. Os carros de Tommy e Laurel estavam estacionados em frente a casa da família de Rebecca Merlyn e não demora muito para que tia Tasha estacione ao lado deles. Mais adiante, três pessoas descem de um Cobalt preto com armas em mãos e coletes a prova de bala. Em seguida, mais três carros dos agentes da CIA surgem e vários agentes descem dos veículos, prontos para atirarem em Laurel.

Tia Tasha faz sinais para seus agentes e logo todos assumem suas posições para entrarem com cautela na casa que estava de portas abertas. Felicity e eu vamos logo atrás, ansiando por ver nosso filho.

— Vocês esperem aqui fora. — Pede tia Tasha, encarando-nos com seriedade assim que alcançamos a porta de entrada da casa.

— Não mesmo! Eu vou junto. É a vida do meu filho que está em perigo. Não vou esperar aqui fora, enquanto não faço ideia do que acontece lá dentro. — Nega Felicity, determinada.

— Felicity, por favor...

— Não, Naty. Eu não vou ficar aqui. — Insiste Felicity, com os olhos brilhando com seriedade. Ela não mudaria de ideia.

— Por favor, tia Tasha. Você sabe que somos capazes de nos defender. — Argumento e ela bufa, frustrada.

— Não contra armas, Oliver! — Responde tia Tasha, contrariada.

— Vamos. — Fala Felicity, entrando na residência. Tia Tasha bufa mais uma vez e segue a loira. Eu vou logo atrás, atento a qualquer aparição de Laurel.

— Homem ferido! Acionem uma equipe médica imediatamente. — Ouço o grito de um dos agentes que vinha da sala de estar.

— Tommy! — Arfo, encarado Felicity e tia Tasha. Corremos apreensivos para o local de onde veio o grito. Como eu imaginava, a pessoa que o agente havia citado era mesmo Tommy. Ele estava estirado no chão e sangrava intensamente. Noto então que ele havia levado um tiro em seu peito. Corro até seu corpo, desesperado. — Tommy!

— Nos...fundos. — Sussurra o rapaz com dificuldade, enquanto seu ferimento era pressionado pelo agente da CIA. — Eles... nos... fundos.

— Tony e Laurel estão nos fundos? — Pergunto, apertando a mão de meu amigo e ele assente, concordando.

— Senhor, não se esforce, por favor. — Orienta o agente, tentando estocar o sangramento.

— Vá! — Insiste Tommy, quase sem voz, enquanto aperta minha mão em apoio.

— Tudo bem! — Concordo, preocupado. — Sobreviva ou eu juro que te mato!

Ele força um sorriso e assente, respirando com dificuldade. Aperto mais uma vez a mão de Tommy, antes de me levantar e correr para os fundos da casa com Felicity e tia Tasha, assim como meu amigo havia orientado. Meu coração parecia estar correndo uma maratona e o medo do que poderia acontecer me alarma.

Ao longe, vejo a silhueta de Laurel próxima ao rio que passava próximo da casa. Apressamos nossa corrida, temendo pelas ações de minha ex-namorada. Tia Tasha saca sua arma e parece pronta para atirar, mas para no mesmo instante ao notar a presença de Tony.

— Por favor, Laurel! Não faça isso! — Grita Felicity, quando alcançamos a mulher que estava ao lado das margens do rio White.

Nesse momento, vejo que Tony estava com a cabeça sob a mira da arma de Laurel, que o apertava sem qualquer delicadeza. A criança chorava intensamente. Seus braços estavam amarrados para trás e havia uma mordaça em sua boca, impedindo que ele dissesse qualquer coisa. Arfo e me aproximo com cautela.

— É tarde demais! — Fala Laurel, transtornada. Seus olhos estavam arregalados, enquanto sua testa suava abundantemente.

— Já chega, Laurel. Se entregue! — Digo e ela ri, amargurada.

— Nunca! — Tony se remexe, tentando se soltar de Laurel, mas recebe um forte empurrão em sua cabeça com a arma. Meu coração dispara e um nó se forma em minha garganta. Tony chora pela dor e, instintivamente, aproximo-me, mas ela Laurel balança a cabeça negando e se afasta com Tony para trás. — Não se aproximem!

— Isso não vale a pena, Laurel. Você sabe disso. — Tia Tasha começa a negociar com um tom suave. — Nós podemos...

— Não! Eu já cansei disso! Digam adeus a essa aberração que destruiu a minha vida. — Grita Laurel, furiosa.

— Não! — Grita Felicity, aproximando-se, desesperada.

No instante em que Laurel iria destravar a arma para atirar em Tony, o garoto pisa no pé mulher, que urra de dor e o solta por instinto. Felicity não perde a chance e se joga sobre Laurel, fazendo com que a arma que ela segurava fosse lançada longe. Corro até Tony, que havia caído no chão, observando minha noiva desferir socos violentos contra o rosto de minha ex-namorada, enquanto gritava insultos e ameaças de morte. Laurel nem mesmo conseguia se mexer diante da força sobre-humana de Felicity.

— Esperem! — Grita tia Tasha, fazendo sinal para que os agentes da CIA parassem assim que eles se aproximam das mulheres, parecendo querer interferir na brigar de Felicity e Laurel. A ruiva sorria discretamente com um brilho de orgulho em seus olhos. — Não interfiram!

Desamarro as cordas que prendiam seus delicados braços e retiro a mordaça da boca de Tony. Chorando alto, visivelmente assustado, o garoto me abraça apertado, escondendo o rosto em meu peito. Respiro aliviado ao sentir as batidas fortes de seu coração e o calor de seu pequeno corpo contra o meu. Tony estava vivo.

— Está tudo bem agora. O papai e a mamãe estão aqui. Ninguém mais vai te machucar. — Garanto a Tony, acariciando sua cabeça. — Desculpa ter demorado tanto para chegar.

Tony não faz nada além de chorar e se apertar contra mim. Pego-o no colo e observo Laurel ser massacrada pelos golpes brutais de Felicity. Ela conseguia jogar a advogada de um lado para o outro com tanta facilidade, que era como se Laurel tivesse o mesmo peso que o de um papel. A loira não tinha piedade alguma.

Ela derruba Laurel no piso grosso com algumas britas que havia nas bordas rio White e arrasta o rosto de minha ex-namorada com os olhos em chamas. Laurel grita, tentando se soltar, mas a força dela não era nada se comparada a fúria de Felicity. O desespero da mulher é tão grande, que Tony até mesmo para de chorar para olhar o que estava acontecendo.

— Agente Romanoff, nós não deveríamos parar a srta. Smoak? — Questiona um dos agentes de tia Tasha, assim que eu me coloco ao lado dela.

— Nós não conseguimos entrar na casa. — Responde tia Tasha, dando um meio sorriso, enquanto assistia a luta.

— Como? — Pergunta o homem, confuso.

— Nós não conseguimos entrar na casa. Por isso, quando chegamos, Laurel Lance já havia apanhado de Felicity. Entendeu? — Indaga tia Tasha, encarando o agente com um olhar intimidador. O homem engole em seco e assente, afastando-se.

Felicity bate a cabeça de Laurel diversas vezes contra o chão, até que a mulher para de reagir. Ela então se afasta e sem se importar com mais nada, Felicity corre até nós e nos abraça com todas suas forças. Sorrio e respiro aliviado. Tudo finalmente acabou. Nossa família finalmente está livre das ameaças de Laurel.