Milagre De Ano Novo

14 The Hero, Your Sidekick And a New Friend


Notas iniciais
Mil desculpas de novo por demorar milenios pra atualizar isso aqui.

Alfred sempre foi meio hiperativo e odiava ficar parado. Então, também não combinava muito com férias para descansar. Precisava de algo pra fazer enquanto Francis e Arthur trabalhavam e, ainda no começo de novembro, já tinha zerado todos os jogos interessantes que tinha em casa. Precisava de algo para fazer, urgente, ou acabaria olhando para o teto o dia inteiro. E um grande herói não pode passar seu precioso tempo olhando para o teto.

Agora, descobrir o que heróis fazem enquanto seus super vilões estavam ocupados (?) seria uma tarefa um pouco complicada. Mas nada que Alfred Freedom Jones, o herói dos heróis, não pudesse fazer. Deitou no chão, estranhamente quieto e pensativo. Precisava de algo para fazer de segunda a sexta, por umas 5 horas, enquanto Mad estudava, Arthur trabalhava e Francis se trancava em casa para escrever algo.

Pensou em arrumar um curso para fazer assim como Madeleine. Falando na francesa, o curso dela não duraria apenas uma semana? O que fazia ali ainda?

- Mad, Mad... O que você está aprontando?

Pronto, o foco dos pensamentos de Alfred já tinha se desviado para Madeleine. Chegava a ser impressionante a falta de concentração do estadunidense. Ele levantou, andando de um lado para o outro. Será que ela iria pregar uma peça nos dois mais velhos como fazia quando era pequena? Não, se não Alfred saberia. Talvez quisesse fiscalizar o “namoro”, ele ainda não tinha certeza se podia chamar assim ou não, do irmão.

E, no meio de milhões de ideias, Alfred não pensou em simplesmente perguntar para a amiga. Obvio, seria muito complicado falar “Mad, seu curso não durava apenas uma semana?”.

Ele também não pensou que Madeleine simplesmente não tivesse nenhum motivo especial para continuar em Londres, só gostasse de morar perto do irmão novamente. O que, de fato, era a mais pura verdade.

Depois de pensar em todas as conspirações intergalácticas possíveis que manteriam Madeleine na Inglaterra, Alfred lembrou que devia estar pensando em algo que pudesse ocupar seu tempo. Como por uma inspiração divina, resolveu olhar pela janela, justo no momento em que uma freirinha levava os órfãos do orfanato da rua de trás para passear. Talvez realmente houvesse um dedinho dos céus ali, pois nosso herói descobriu exatamente o que ia fazer em seu tempo vago. Tem coisa mais heroica do que ajudar criancinhas e proteger o futuro da nação?

No dia seguinte foi correndo ao orfanato e se inscreveu como voluntário. Era perfeito, adorava brincar com as crianças. Talvez Arthur tivesse certo e a idade mental dele fosse a mesma dos pequenos, mas isso não era importante para o estadunidense.

X-X-X

Agora, já no começo de dezembro, Alfred não conseguiu imaginar como passou tanto tempo sem trabalhar no orfanato e principalmente, longe dos irmãos Evans.

Sean e Elliot Evans eram incríveis, simplesmente incríveis, na opinião de Alfred. Elliot tinha 17 e Sean seis anos, mas os dois não podiam ser mais unidos. O mais velho fazia tudo para proteger o irmão menor, mesmo não tendo muito tempo, já que estudava e trabalhava em busca de independência para sair do orfanato junto com o irmão.

Já o pequeno era tão fofo e inocente, que era impossível não ama-lo. Mas o que Alfred mais gostava no garotinho era seu gosto. Sean amava super heróis e tinha adotado o estadunidense como o seu preferido, acima até do Homem Aranha, cuja fantasia mal saia do corpo do menino.

Basicamente todos os dias, da hora em que Alfred acordava até o anoitecer, quando todas as crianças do orfanato tinham que voltar para “casa”, eles estavam juntos. Alfred era Batman e Sean Robin. O herói e o ajudante, inseparáveis. Mas a amizade dos dois preocupava alguns. Afinal, Alfred iria embora assim que começasse o ano.

Agora, era domingo e o estadunidense acordava animado. Já estava com saudade da família, mesmo tendo os visto há uma semana. Enquanto terminava de se arrumar e pensava em comprar, ou melhor, pedir para Madeleine fazer um doce francês para sua madrasta, seu celular tocou. Estranhou ao ver o número do orfanato brilhar no visor. Será que tinha acontecido algo?

- Alô?

- Hero?

- Sean? O que aconteceu? Por que você está chorando?

- Hero, Hero, o Elli sumiu! Os meninos maus tramaram alguma coisa tenho certeza! Eles são super vilões! Faz alguma coisa Hero... Não me deixa aqui sozinho com eles...

Alfred não estava entendendo nada. Como assim Elliot tinha sumido e deixado Sean sozinho com os garotos que sempre batem nele?

- Pequeno, fica calmo, vou ai ver o que aconteceu. Fica longe dos meninos maus.

- Tudo bem... Vem logo Hero...

E foi isso que o estadunidense fez. Saiu correndo o mais rápido que pode para descobrir o que estava acontecendo, tão concentrado que acertou de primeira o caminho para o orfanato. Ao chegar lá, encontrou Sean sentado em cima de uma árvore, sem a máscara de Homem Aranha e com o resto da fantasia com vários rasgos. Podia ver muitos aranhões e manchas roxas pelo corpo do menino.

- Sean?!

- Hero! Hero Alfred, você veio mesmo! – ele desceu correndo, logo pulando no colo do amigo.

- Claro que sim, o que aconteceu com você?

- Os meninos maus... Eles falaram que heróis não existem, que você só ta brincando comigo enquanto não tem nada pra fazer e depois vai embora, mas é mentira, não é Alfred? Você é um herói... Meu herói...

Alfred não pode deixar de sentir-se um pouco culpado. Ele devia ter protegido seu amigo, um herói faria isso. Mas a culpa de Alfred ia alem de complexos heroicos. Na verdade, ele mal pensava no que um herói deveria ou não fazer naquele momento, só pensava que Sean tinha apanhado por sua causa e que talvez aqueles meninos estivessem certos. O que ele faria quando janeiro chegasse?

- S-sim Sean... Claro que é mentira, eu te amo e heróis existem sim.Não vou te deixar sozinho. — Ele parecia falar mais para si mesmo do que para o mais novo – Não acredite neles. Vamos procurar o Elli, sim? Ou melhor, vamos cuidar desses machucados primeiro. Sim, sim, isso... Arthur, Arthur deve saber o que fazer. Vamos falar com o Arthur, cuidar desses machucados e procurar o Elli.

E ele começou a andar, estranhamente abalado com as palavras do garoto. Nunca ninguém tinha dito um “meu herói” com tanta confiança pra ele. Sentia um peso gigantesco sobre suas costas. Sean confiava nele, e sabia que Elliot fazia o mesmo, só que sem os ideais infantis de heroísmo. Pela primeira vez na vida era tratado como adulto, ou melhor, tinha que ser adulto. Estava realmente perdido.

Em uns 10 minutos, batia na porta do foguete ainda com Sean no colo. Sentiu algo estranho no ar, mas resolveu ignorar. Possivelmente era só mais uma das briguinhas de Arthur e Francis, nada importante. Foi o inglês que abriu a porta, com cara de poucos amigos.

- Alfred, não é uma boa hora.

- Me ajuda...

Arthur queria xinga-lo e manda-lo embora, mas só voltou para dentro, deixando a porta aberta para que Alfred fosse atrás. Na sala, Francis estava sentado no sofá, com os olhos fixos no chão. O estadunidense começou a perceber que dessa vez não era só mais uma briguinha sem importância e quase perguntou o que tinha acontecido, mas foi calado por um olhar assassino vindo dos olhos verdes ingleses.

- Sobe.

Alfred abaixou a cabeça e subiu como quem simplesmente diz amém para tudo que o outro disser. Conhecia bem o humor de Arthur e naquele momento o melhor a fazer era concordar com tudo que ele dissesse. Esperou no quarto por uns 5 minutos no quarto até que o inglês entrasse e sentasse na sua frente.

- O que quer?

- Arthur, você...

- O que você quer Alfred?!

- Você sabe fazer curativo, não sabe? O Sean ta machucado...

Arthur levantou e saiu, voltando depois com alguns remédios, uma vasilha com água e um pano. Bateu com a mão de leve na cama, chamando o menino para sair do colo de Alfred e sentar ali.

- Senta aqui Menino Aranha.

Sean não se mexeu para levantar, ao contrario, abraçou Alfred com força, encolhendo-se no colo dele. Estava com medo de Arthur, muito medo.

- Não precisa ficar com medo dele Sean. O Arthur é legal.

- Sim Menino Aranha, eu não vou machucar você. Só estou de mau humor hoje, mas não é nada com você, tá bom? É culpa daquele sapo lá de baixo, vem senta aqui.

Ainda um pouco inseguro Sean fez o que lhe era pedido. Se seu herói dizia que aquele homem com cara de quem vai esquarteja-lo era legal, tinha que concordar. Os heróis sabem das coisas.

Arthur ajoelhou-se na frente do mais novo, começando a limpar alguns dos machucados mais aparentes devagar com o pano molhado. O quarto ficou em silencio completo enquanto Arthur se concentrava em cuidar do menino. Alfred não pode deixar de se perguntar se precisava consultar novamente o oftalmologista ou se Arthur realmente estava chorando enquanto mantinha a cabeça baixa.

Depois de meia hora Arthur terminava de colocar o último curativo no pequeno. Levantou-se ainda sem tirar os olhos do chão. Quando a voz dele foi ouvida de novo, Alfred teve certeza que as lagrimas que vira no rosto do amigo não eram uma ilusão.

- Vou arrumar uma roupa pra você, Menino Aranha. Não tem como você usar essa fantasia rasgada.

E ele saiu novamente, deixando os dois ali olhando para as paisagens de Londres que enfeitavam o quarto. Nesse momento Alfred estava realmente preocupado com Arthur, alem do tom de choro tinha ouvido na voz dele dor e tristeza. Era uma voz de quem admite a derrota e alem disso acha-se burro por acreditar que podia vencer. Sabia que o inglês tivera depressão quando mais novo e ouvi-lo daquele jeito não era nada bom.

- Hero, o que aconteceu com aquele moço? Ele tava chorando...

- Não sei Sean, não sei. Mas ele não vai contar agora. Depois que acharmos o Elli eu volto aqui para descobrir o que ouve. Ou melhor, quando eu voltar amanha, por que eu ainda pretendo ir para casa hoje. Ele e o Francis já devem ter se entendido até lá.

Arthur voltou com umas roupas antigas suas que tinham ficado perdidas na casa do francês e deu para o menino vestir. Era uma blusa vermelha de mangas compridas e uma calça jeans que ficaram um pouco grandes, mas nada que não pudesse ser resolvido com algumas dobras.

Os três desceram, encontrando Francis deitado no chão com o rosto escondido em baixo de algumas almofadas. Alfred tentou ignora-lo, mas não conseguiu deixar de murmurar um “Francis...” para si mesmo. O que será que aquele francês tinha feito dessa vez? Desistiu de tentar descobrir por si mesmo e simplesmente saiu carregando Sean.

- Vamos achar seu irmão rápido. Ainda tenho um longo caminha para Nova Iorque hoje.

X-X-X

4 horas. Esse foi o tempo que Alfred e Sean passaram rodando pelas ruas de Londres até achar algum sinal de Elliot e a cada segundo os dois se desesperavam mais.

Na primeira hora as coisas ainda estavam bem. Alfred distraia o amigo com milhares de histórias de super heróis que conhecia para que ele não ficasse muito preocupado com o irmão. Possivelmente Elliot só tinha saído depois do trabalho e esqueceu-se de avisar.

Na segunda, Alfred já estava começando a se irritar. Mataria aquele moleque por fazê-lo andar tanto. Ele não tinha nenhum direito de deixar o irmão sozinho e atrapalhar a sua viagem. Queria ir para casa! Matt estava se esperando, eles e o pai iam num jogo dos Yankees. Possivelmente já chegaria em cima da hora se não saísse logo.

3 horas e a irritação já estava virando desespero. Começou a perguntar para as pessoas se tinham visto um menino de 17 anos, com cabelo preto e olhos castanhos. Ele não parou para pensar quantas pessoas teriam aquela discrição em uma cidade grande como Londres.

Quase na desesperança total, Alfred sentou num banco de praça, puxando Sean para o seu lado. Precisava pensar, algum super vilão deve ter sequestrado seu amigo. Agora, onde ele podia ter escondido Elliot?

- Quem será que roubou meu irmão Hero?

Ser chamado de herói deu novas forças a Alfred. Ele não poderia ser derrotado por uns vilões inúteis. Era o herói afinal!

- Não sei, mas não podemos deixar esses vilões ganharem! Temos que achar o Elliot.

Levantando e fazendo uma pose heroica onde a bandeira dos EUA quase pode ser vista no fundo.

- Vamos meu ajudante, temos que salvar seu irmão das garras do mal!

E saiu correndo, sendo seguido pelo seu animado ajudante. Por sorte, ajuda do destino ou simplesmente por que eles teriam que achar Elliot algum dia, enquanto passavam na frente de um hospital viram o garoto de cabelos negros saindo com a perna engessada.

- Elli!

- Oi... O que vocês fazem aqui?

- Estávamos te procurando oras! Você não devia ter deixado o Sean sozinho! O que aconteceu?

- Desculpa... Quando eu tava guardando umas coisas na loja eu cai, tive que vir no hospital por que tava doendo muito...

- Podia ter ligado.

- Meu celular quebrou... E minha perna também. Vamos Alfred, não banque o adulto agora, eu to machucado, dá um desconto... Não foi de propósito...

Alfred fez bico como faria uma criança de cinco anos. Então não tinha nenhum super vilão? Nenhum sequestro? Nenhuma trama global para derrota-lo? Que coisa mais sem graça...

- Mas você ta bem, né irmão?

- To sim Se, desculpa te preocupar. Vamos voltar antes que reclamem, já está anoitecendo.

Aquele “já está anoitecendo” trouxe Alfred para uma triste realidade: tinha perdido o jogo e não chegaria mais em casa no domingo. Não veria o pai, a madrasta ou o irmão essa semana. Deveria estar comemorando a vitoria dos Yankees (sim, mesmo sem ver o jogo ele tinha certeza que seu time do coração tinha ganhado) em uma festa com toda a enorme torcida, não estar numa rua fria do outro lado do mundo.

- Alfred? Você viajou agora em? Vai voltar com a gente?

- Queria ter viajado, isso sim. Não, vou ficar por aqui mais um tempo, comprar um lanche.

- Hambúrgueres e Coca-Cola...

- Claro!

Elliot riu, segurando a mão do irmão e andando para longe, ouvindo as mil e uma historias de como Sean e Alfred, a melhor dupla de super heróis existentes, tinham lutado contra mil e um vilões para resgata-lo.

Alfred riu, tentando se lembra de quando eles tinham escapado de uma explosão nuclear, mas resolveu deixar o garoto usar sua imaginação, desde que ele não se esquecesse de mencionar como ele foi heroico salvando todas as pessoas do ônibus que ia cair de um penhasco. Se você descobrir onde tem um penhasco no meio de uma cidade grande me avise, pois pode ser lá que o cérebro daqueles dois vive.

O estadunidense pegou seu celular, ligando rápido pro pai.

- Alfred? Filho, onde você está!

- Desculpa pai, tive uns imprevistos aqui e não pude ir. Semana que vem fazemos outra coisa, prometo. Tenho que desligar rápido se não a conta da muito cara, mas não se preocupe tá? Eu to bem.

- Tudo bem meu garoto, até.

O herói desligou e entrou no McDonald mais próximo e começou a esperar na imensa fila que sempre está presente naquele lugar nos finais de semana. Estava realmente entediado, pensando em qual seria a sua próxima lista de coisas a fazer, quando uma voz alegre vinda do lado de fora chamou sua atenção.

- Al!

Do lado de fora, Madeleine acenava animadamente e entrava correndo, arrastando um garoto que parecia ter a idade de Alfred atrás de si. O estadunidense não conseguiu reparar na amiga, só em seu acompanhante, afinal, não é todo dia que se vê alguém com cabelos azuis até o meio das costas. Se tivesse reparado, talvez veria os olhos dela brilhando de um jeito no mínimo suspeito.

- Mad? O que faz aqui? E quem é ele?

- Estava fazendo uma caridade, mas agora arrumei alguém para fazê-la para mim. Ele é um colega meu, Camel, que a partir desse momento é seu vizinho. Estava levando-o para seu prédio, mas você pode fazer isso por mim, não pode? Merci!

Alfred nem teve tempo de entender as palavras da garota que ela já saia correndo novamente, rindo sabe-se lá por que. Ele só suspirou e olhou para quem tinha sido deixado com ele. O outro garoto parecia estar tão perdido quanto. Mas a cara de confuso que ficava cômica em Alfred combinava perfeitamente com o jeito aparentemente inocente e delicado do outro.

- Er... Você entendeu algo?

- Não... Na verdade, estou completamente perdido há muito tempo já.

- Madeleine é assim mesmo... Hey... Seu cabelo é azul...

- E o seu é loiro, já que estamos comentando o obvio.

- Como o seu cabelo é azul?

- Do mesmo jeito que o seu é loiro, eu acho.

- Pessoas nascem loiras, mas não nascem com cabelo azul. A não ser que sejam mutantes.

- Pode ser que nasçam, ou talvez eu seja um mutante mesmo. Seja lá o que isso for.

Alfred ia continuar seu debate sobre cores capilares, mas resolveu deixar esse assunto para outra hora. Não importa como, o cabelo do outro era realmente legal. “E muito bonito”, pensou Alfred, que estranhou, mas teve que admitir que era verdade.

-Então, quem é você?

- Camel... Eu acho.

- Você acha?- ele gargalhou- Como alguém pode não saber quem é?

- Do mesmo jeito que você sabe quem você é, oras!

O de cabelos azuis corou e cruzou os braços, virando o rosto para o lado, emburrado e Alfred não pode deixar de reparar como aquilo era fofo. Pera ai, fofo? Heróis não acham caras de cabelo azul fofos.

- Tudo bem senhor que acha que é Camel... Que nome estranho em?

- É, eu sei, não fui eu que escolhi. E você, já que sabe exatamente quem você é, poderia me dizer o seu nome. Vai que ele é estranho também.

- Eu sou Alfred Freedom Jones, o Grande Herói!

Camel inclinou a cabeça para o lado de leve. Será que só ele estava vendo a bandeira dos Estados Unidos tremulando atrás da pose que o outro fazia? Deveria estar mais louco do que pensava...

- Muito prazer Herói.

Alfred sorriu de orelha a orelha. Devia ter caprichado na pose dessa vez, o outro tinha mesmo acreditado que ele era um herói! A inocência que transbordava dos olhos que eram como o mar em um dia de sol do outro era mais uma prova de como ele era heroico por natureza. Realmente adorou aquilo. Gargalhou novamente.

- Isso mesmo, me chame de herói! E eu vou arrumar um apelido para você, não gostei do seu nome. Sem ofensas.

- Não ofende. Então... O que você ta fazendo aqui?

- Esperando para comprar um hambúrguer, obvio.

- E... O que é isso?

O queixo de Alfred quase chegou até o chão. Como alguém podia perguntar com tanta inocência e naturalidade o que era um hambúrguer? O ser de estranhos cabelos azuis deveria ser de outro planeta, só pode!

- Como?

- O que é essa coisa que você quer comprar?

- Você não sabe o que é um hambúrguer?!

- Não...

- Isso é um crime! Quantos anos você tem?

- Não sei ao certo... 18 ou 19 talvez.

- E onde você esteve nos últimos 18 ou 19 anos de sua vida para não saber o que é um hambúrguer?!

- Num hospital.

- Você deve ser um ET, só pode. Tem cabelo azul, não sabe o nome, a idade... Pera ai, como?

- Você perguntou onde eu estive nos últimos 18 anos, não é? Eu não sei se tem tanto tempo assim, mas eu estava lá desde que consigo me lembrar...

Alfred parou. Por isso que a pele dele era tão branca e ele parecia tão frágil. Por isso que ele não sabia direito as coisas sobre ele mesmo...

- Você não precisa fazer essa cara, está me fazendo sentir mal...

- Desculpa, só não esperava algo assim.

- Eu também não deveria ter falado, né? Eu que tenho que pedir desculpa.Não estou acostumado com essas coisas de... sei lá, ser quase uma pessoa normal. Mas me conta mais, como é esse tal de hambúrguer que é um crime eu não conhecer?

Alfred sorriu e começou a falar incansavelmente sobre como hambúrgueres eram deliciosos. Só parou de falar sobre o lanche uns 10 minutos depois, quando um vento, vindo da porta que abria para a entrada de mais um cliente, bagunçou o cabelo azul do garoto a sua frente e deixou que sua nuca aparecesse.

- Você tem uma tatuagem!

- Ah, essa marca... Não sei se é uma tatuagem mesmo, acho que não é. Mas tem em vários lugares além daí.

- Sério? Que misterioso! Mostra pra mim as outras depois?

- Não acho que seja boa ideia...

- Por que não?- Alfred gargalhou, achando graça do tom vermelho que assumiu o rosto do seu novo amigo. – Tudo bem, mas me deixa ver essa então, fiquei curioso.

Camel corou mais, puxando o cabelo para frente e deixando o outro olhar com atenção a marca no seu pescoço.

Alfred sorriu, conhecia aquilo! Era uma das coisas da língua de Kiku, um “Kanji” ou algo parecido. E já tinha visto aquele em uma das roupas do japonês e também lembrava que já tinha perguntado o significado. Passou o dedo na marca, sentindo Camel tremer de leve, tentando lembrar o que ela queria dizer. Talvez o de cabelos azuis tivesse razão, aquilo não parecia uma tatuagem, era quase como um sinal de nascença.

- Poder.

- Como?

- É isso que essa marca significa. “Poder”. Eu tenho um amigo japonês, ele me contou há um tempo.

- Poder... Que legal!

- Sim, muito! Hey garoto, acabei de mudar seu nome estranho. Agora seu nome é “Power”. Melhor que Camel.

- Tudo bem, pode me chamar como quiser.

- Então seu nome é Power.

- Meu nome é Power... Gostei.

- Que bom.

- Olha, chegou a sua vez. Compre seus maravilhosos hambúrgueres logo, estou cansado de ficar em pé nessa fila.

- Quer um pra você também?

- Não posso comer.

Mais um momento de choque vindo do estadunidense. Camel, ou melhor, Power a partir de agora, não conseguiu deixar de rir.

- Como? Você tem que comer algo.

- Não, passo mal se comer alguma coisa.

- E como você sobrevive?!

- Soro. Anda, você ta atrasando a fila, conversamos sentados depois.

- Você vai ter que me contar sua vida inteira depois dessa Power.

Alfred sorriu e fez seu pedido. O maior hambúrguer que tinha, junto com a maior batata e o maior copo de coca-cola, que deveria ter uns 2 litros. Power ficou impressionado, realmente impressionado. Tudo bem que seu estomago basicamente era um órgão inexistente, mas o de Alfred não podia ser tão grande assim.

Os dois foram com a bandeja para o estacionamento da lanchonete, já que mesa vazia em McDonald em plena “hora do rush” num domingo, onde todo mundo resolve lanchar ao mesmo tempo, é mais difícil do que carona no treno do Papai Noel. Sentaram no chão, improvisando um banco como mesa e arrumando-se da melhor maneira possível. (N/A: Fazer isso é algo realmente estranho e divertido, experiência própria. As pessoas fazem cada cara engraçada!).

- Então, comece a falar enquanto eu aproveito a melhor refeição do mundo.

- Você vai mesmo conseguir comer isso tudo?

- Não mude de assunto. Por que seu cabelo é azul?

- Sinceramente, não faço ideia. Mas talvez tenha algo de “mutante” mesmo, como você disse.

- Como assim?

- Pelo que eu consegui entender até hoje, nasci com uns problemas genéticos, por isso fiquei tanto tempo no hospital. Pode ser por isso que meu cabelo é azul.

- Quer me contar mais sobre isso? Esses tais problemas?

- Não acho que seja boa ideia. Você pode ficar assustado. E também, nem eu sei ao certo o que acontece comigo.

- uhn... De onde você veio? É de Londres mesmo?

- Não faço ideia. Nenhuma mesmo.

- E seus pais?

- Não tenho, ou eles não se importam comigo. Nunca vi, pelo menos.

- Você ficou todo esse tempo sozinho?

- Não exatamente... Na verdade, acho que sim e não ao mesmo tempo. Posso pular essa pergunta?

- Pode, vamos para uma mais fácil. Como você conheceu a Mad?

- O filho do meu médico é da mesma turma num curso de desenho que ela faz lá em Paris. Ela foi lá no hospital falar com ele e me achou.

- E também resolveu te fazer de brinquedo, né?

- É o que parece. Mas ela me ajudou muito, não tenho nada que reclamar. Posso fazer uma pergunta agora?

- Pode tentar. Talvez eu responda.

-Eu sou tão estranho assim?

- Como?

- Tem umas pessoas que não param de me olhar desde que estávamos na fila. E um menino puxou meu cabelo, rindo de mim.

Alfred terminou de comer, sabe-se lá como ele consegue não morrer engasgado comendo tão rápido, e levantou sorrindo de leve. Era um sorriso discreto e, porque não, carinhoso, não muito comum no estadunidense escandaloso.

- Você é diferente Power. Não um diferente ruim, feio ou estranho como você ta pensando, mas um diferente que me deixa muito curioso, um diferente bonito. Vem, você é meu novo vizinho, não é mesmo? Temos que descobri o caminho para casa ainda, por que eu não faço ideia de onde estamos.

X-X-X

- Alfred, seu senso de direção é horrível.

- Ah para, não é tão ruim assim.

- Eu que nunca tinha andado na rua antes estava menos perdido que você!

- Para de ser exagerado. Só demoramos umas duas horas.

- Estávamos a dois quarteirões daqui, no final das contas. E rodamos metade da cidade andando quase. Minhas pernas doem...

- Fresco.

- Não, é sério, tá doendo mesmo. Não estou acostumado a andar tanto.

Alfred olhou, tentando identificar se ele estava mesmo sentindo dor ou se era simples frescura. Power estava apoiado no portão do prédio, respirando meio ofegante e com as sobrancelhas franzidas. Dava pra ver que a tal dor nos pés era real, mas ele não parecia triste.

- É, percebe-se. Mas como eu sou o herói, não vou deixar você subir sei lá quantos andares de escada com os pés doendo. Não se acostume não, é só hoje! Anda, segura aqui.

Depois de abrir o portão o estadunidense simplesmente puxou Power para suas costas, rindo ao ouvir o som de espanto que saiu da boca dele. Como era divertido ver as reações de alguém que não estava acostumado a viver.

- Veja pelo lado bom Power, agora eu descobri que tem um McDonald pertinho daqui! Posso ir lá todo dia.

- Isso não vai fazer muito bem para a sua saúde...

- Que fofinho o jeito que você fala.

- Como?

- Nada não. Qual é o numero do seu apartamento?

- 302.

- Ah, no terceiro andar. Você tem que conhecer o cara do 303, ele é muito maneiro, deve ser a pessoa mais incrível do prédio. Ele é um herói, que nem eu. E a casa dele é linda também.

- Que bom que tem alguém legal no meu andar. E eu já conheço você no prédio, não vou ficar mais sozinho.

- Sim, você acordou minha curiosidade de herói, agora vai ter que me aturar e nunca mais vai ficar sozinho.

- Isso vai ser realmente ótimo. Odeio ficar sozinho.

- Traumas?

- Bastante.

Alfred riu, era bom conversar com Power. E, como diz o clichê dos clichês, eles se entendiam bem, como se conhecessem há muito tempo. Eles chegaram ao terceiro andar e o estadunidense colocou o amigo no chão na frente da porta do apartamento302. Depois sorriu, tirando uma chave do bolso e abrindo a porta do lado, que tinha um numero 303 com as cores da bandeira dos EUA em cima, entrando e saindo de novo.

- Muito prazer, sou Alfred, o dono do 303. Então você é meu novo vizinho?

Power não conseguiu evitar cair na gargalhada. O sorriso de Alfred era tão descarado e cara de pau que ter outra reação era quase impossível. O estadunidense adorou ver o outro rindo e resolveu continuar com a brincadeira.

- O que deu em você, estranho? Não te ensinaram a cumprimentar os vizinhos? Vamos, qual é o seu nome?

- Ai... Sou Power.

- Power? Que nome estranho.

- Me disseram que é melhor que Camel.

- A pessoa que te disse isso tem razão. Deve ser alguém realmente maravilhoso e muito inteligente.

- É, é um “Grande Herói”.

Agora foi a vez de Alfred gargalhar. Estava se divertindo mesmo com aquelas coisas tão simples. Talvez não tivesse sido tão ruim assim não ter ido para Nova Iorque.

- Eu sei, sou mesmo. O herói dos heróis, o maior, mais forte e mais corajoso de todos!

Depois de exclamar isso o mais alto que pode, o tom de voz dele diminuiu e tornando-se meio misterioso, quase um sussurro.

- E poderoso. Agora eu sou poderoso, não é Power?

Talvez estivesse andando demais com Francis e Madeleine, pois seu sorriso era quase maldoso. Mas logo voltou a idiotice costumeira de sempre e continuou a falar, sem esperar a resposta do outro a pergunta que poderia ter milhões de sentidos.

- Vamos ver um filme? Sua casa não tem moveis ainda, tem?

- Não, não tem. Ainda não arrumei nada, tenho que trabalhar.

- Mad deve comprar alguns pra você. Aquela ali joga dinheiro pela janela até. Então vem, vamos ver um filme. Muitos filmes! Vou te apresentar todos os heróis mais legais.

Antes que Power pudesse pensar em responder ele já era arrastado para perto de uma teve gigante enquanto Alfred dizia “J.A.R.V.I.S, ligue a teve” e fechava a porta. Nada aconteceu, mas Alfred pareceu sentir alguma satisfação em dizer aquelas palavras, então o outro não disse nada.

O celular do estadunidense apitou, avisando uma nova mensagem.

“ De: Mad

Espero que aproveite o presente que eu arrumei pra você. Cuide dele direitinho Al, é um gatinho azul que precisa de muito carinho e atenção. Muito, muito carinho mesmo. =^-^=”

O estadunidense riu e decidiu ignorar as más intenções de Madeleine ao deixar Power consigo. Mas não conseguiu evitar a comparação com um gatinho quando viu o outro esparramado em seu sofá. Realmente combinava.

Em uma noite Alfred tinha transmitido parte de seus “conhecimentos heroicos” para Power. Os dois passaram todo tempo lendo quadrinhos, vendo desenhos e filmes de super heróis. Enquanto o sol nascia e o ultimo filme do Batman acabava, Alfred avisava ao orfanato que não poderia ir para lá naquele dia.

- Estou morrendo de sono... Gostou dos filmes?

- Gostei sim, mas não entendi muito bem o fim desse, estou muito cansado.

- Eu também. Podemos dormir por aqui mesmo né? O sofá é grande e confortável...

O de cabelos azuis já fechava os olhos murmurando um “boa noite” e sendo seguido logo pelo loiro, que completou com um “bons sonhos”. Realmente ali estava bem confortável e os dois dormiram em questão de segundos

Notas finais
Aqui é a minha parte de escrever as desculpas, não é mesmo? não quero enchr o ouvido de vocês com isso e estou com sono demais para tal
Não gostei desse capitulo, não consegui escrever as coisas como queria. E meu computador também não ajuda, ele sumiu com esse capiulo que estava bonitinho e perfeitinho antes, eu passei milenios tentando achar e quando fui escrever de novo saiu uma mer@, mas se eu não postasse agora não postava nunca mais.
eu adoraria dizer quenão vou demorar mais, mas não gosto de mentir, e sei que não vou conseguiur postar tão cedo. culpem meus professores.falando nisso, alguem ai está disponivel para me dar aulas de fisica? se eu tirar nota baixa na prova ai que não tem capitulo mesmo e vocês vão ter que ir no meu interro...
ah, erros de portugues, são 2:40 da manha e eu acordei cedo, portanto devem ter coisas bem grotescas ai, tipo "kaza" e muitas, muitas letras faltando, eu sempre faço iss. depois eu dou/tento dar revisada.
bejos que eu necessito dormir nesse momento ou vou desmaiar sobre o teclado.