Milagre
1 Salada de Frutas
Sentados embaixo da sombra de uma grande árvore, um rapaz e uma garota, ambos de 15 anos. Ele, um garoto alto e forte, loiro, queimado de sol, vestia uma jaqueta jeans, calças jeans rasgadas aos joelhos e regata, usava um beanie que deixava só a parte da frente da franja a mostra. Ela, uma garota de cabelos negros, pele café com leite, traços indianos, repousava na grama ao lado do rapaz, encostados ao grosso tronco de árvore. A cabeça dela deitada no ombro do rapaz, ambos comparavam o tamanho das mãos, claro que ele venceria nisso.
— Eu não sei mais como fazer, Anne. – Suspirou Chris, Anne baixou a mão e olhou para ele.
— Declare-se para ele, mais uma vez, eu sei que ele gosta de você... Daquele jeito, é muito perceptível. – Respondeu, compreensiva. – Sei que ele tem medo do que as pessoas possam pensar de vocês, talvez até de prejudicar a sua carreira esportiva e que tem uma mãe religiosa que talvez possa não ser tolerante... Mas vocês... Tipo... Já procuraram perguntar a ela o que ela pensa disso?
Chris balançou a cabeça negativamente e suspirou novamente, encostou a nuca na árvore enquanto sentiu a brisa lhe acariciar. Alguns metros adiante, a rua do subúrbio em que moravam, quase nenhum movimento, seja automóveis ou pessoas.
— Alex têm medo. – Chris disse lentamente.
— Então você poderia perguntar, tudo pode se resolver num bom diálogo. É só ter, sabe... ? – Ela gesticulou com ambas as mãos sobre a cabeça. – Ter a mente aberta, pedir pra abrir a mente, coisa assim, somos humanos, não leões num coliseu.
— Sem chance! Vai que de repente a mulher realmente é homofóbica! – Chris exclamou e olhou para Anne. – Aí é que ferrou de vez.
Anne suspirou e respondeu:
— Chris, você nunca vai saber o que pode acontecer. Passa uns anos, poderia ter acontecido algo... Ou não, você nunca vai saber senão tentar. Você é meu melhor amigo, quero que tudo dê certo pra você. – E deu um suave beijo na bochecha dele. – Independente de qual fruta gostar.
— Ah, eu gosto de todas. – Ele sorriu, brincalhão e mordeu de leve a testa dela que fez ambos darem gostosas risadas e depois voltar a aproveitar a brisa naquele calor que fazia. – Você precisa conhecer ele direito, quase nunca se viram, né?
— É verdade, mas eu confio em suas palavras quanto a ele então sei que ele é uma pessoa... “da horinha”. – Ela diz fazendo aspas com os dedos e riu.
Ficaram mais alguns momentos ali conversando sobre coisas aleatórias até dar certa hora e ambos foram para casa. Chris levou Anne para casa e depois foi para sua própria.
Quando abriu a porta de sua casa se deparou com sua mãe deitada no sofá com uma garrafa de bebida alcoólica na mão e dormindo que chegava a roncar.
— Ah, mãe... – Murmurou Chris pesarosamente, desvencilhando-se dela, pegou da garrafa de sua mão, agachou-se e beijou a testa dela, ao se levantar, o Sr. Brown estava lá, seu padastro.
O Sr. Brown, vulgo Henry Brown mas que haviam se acostumado a chamá-lo pelo seu sobrenome, sorriu para o jovem.
— E aí, filho, tudo bem com Anne? – Ele disse calorosamente mas tendo o cuidado para não acordar sua esposa que soltou outro ronco.
Chris balançou a cabeça positivamente e foi para a cozinha, onde o Sr. Brown seguiu-o, assim Chris encostou-se ao balcão e olhou para o homem muito alto de bigode cheio.
— Pai... O que você acharia se... Se... Hm... Eu gostasse tanto de mulher quanto de homem? – Chris disse, desviando o olhar e segurando o outro braço com sua mão.
O Sr. Brown ficou em silêncio por um momento e respondeu-o:
— Não vejo problema se você gosta tanto de doce quanto de salgado, então pra mim... Faça a salada de frutas que quiser.– Ele pousou as pesadas mãos nos ombros do rapaz. – Só quero que seja feliz, mas tem que se cuidar, sabe... Preservativos, não fazer essas coisas assim levianamente.
Chris olhou para ele e não se surpreendeu tanto, o homem era tão compreensivo que tinha quase certeza de que aceitaria que seu filho, mesmo não biológico, tivesse outra sexualidade. Ele sorriu de uma forma meio torta, ficou um tanto emocionado.
— E também acredito que sua mãe deveria saber, vou deixar para que você conte isso pra ela. Tenho certeza que ela também não vai ligar pra isso. – O homem continuou.
— Hm, sim... Assim que possível... Quando, de preferência, não estiver sob influência alcoólica. – Chris olhou para o braço estendido pra fora do sofá que o portal da cozinha dava visão.
— De acordo. – O Sr. Brown assentiu e olhou também a garrafa vazia deslizar para fora da mão dela, ela acordar no instante, se levantar, olhar pra tudo e todos e depois voltar a dormir. Chris suspirou.
— Eu já vou pra cama, eu acho, não to com muita fome pra jantar. – Chris disse e foi para seu quarto onde jogou-se na cadeira em frente a seu computador para surfar na internet e conversar com uma certa pessoinha mas que estava offline no momento. Talvez jogar alguma coisa no computador ou no PlayStation 2? Não... Sua cabeça tinha mil coisas agora no momento. Tirou sua jaqueta jeans, sapatos e meias e se jogou em sua cama. Pousou as mãos em sua nuca e ficou olhando para cima, imerso em pensamentos e como seria se “tudo desse certo”, tanto que tais pensamentos até o fizeram sorrir, esperançoso. Acabou adormecendo, para acordar de madrugada com fome e ir assaltar a geladeira no meio da noite.
Escuro, tudo muito escuro, foi devagar para não acordar seus pais, meteu com o dedinho na quina do balcão que o fez quase soltar uma palavra nada legal.
— Uuuuuuh, salsicha de óculos ao molho shoyu. – Foi o que encontrou em sua cabeça pra não xingar do nada e foi baixinho ainda.
Fez um sanduíche de queijo e presunto e voltou para seu quarto, onde recebeu uma mensagem em seu celular:
ALEX: Boa noite, seu nerd.
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