Milésima Canção de Amor
19 Admirável Mundo Novo
Notas iniciais
Estranho. A única coisa capaz de descrever aquele primeiro dia de ano letivo era estranho. Estranho andar por aqueles corredores sem o alvoroço provocado por Rachel Berry, o tom debochado de Santana Lopez ecoar pelas salas, o jeito extrovertido de Kurt Hummel alfinetar os desconhecidos, as besteiras cometidas e ditas por Finn Hudson, os passos mirabolantes oriundos da mente de Mike Chang e, principalmente, por não avistar mais o sorriso de Quinn Fabray. Estranho. Ele para no meio do corredor e visualiza outra estudante remexendo no armário dela. Estranho demais para se acostumar. Estranho demais para agir como se estivesse tudo bem. A mão de Mercedes pousa em seu ombro e coloca um sorriso fraco em seu rosto. Era estranho para os outros e isso não parecia ser de muita serventia.
Os dois adentram a sala e o ambiente não inspira nada de empolgante. Blaine escutava desanimado à conversa de Artie, Tina, Sugar e Rory, enquanto Adam, Puck e Sam contavam piadas inuteis no fundo da sala. O brasileiro joga o caderno sobre a carteira e se acomoda sobre a mesa como o restante dos amigos à espera da professora. As coisas são estranhas, especialmente, durante o primeiro ensaio oficial do ano. Por mais que Mercedes e Tina assumam como vocalistas femininas, Blaine e Artie sejam talentosos e Brittany continue sensacional como dançarina, nada é tão entusiasmante. Daniel é esforçado, mas, não tem criatividade para bolar coreografias como Mike Chang e a apatia de integrantes potenciais como Puck, Sam e Adam preocupa o maestro. Will Schuester reconhecia a falta que sexteto provocava em seus estudantes e em si mesmo.
_ E ai, galera do Willian Mckinley! Jacob Ben Israel está de volta com uma espiadinha exclusiva com as novas celebridades de Lima, o New Directions! – grita para câmera o adolescente metido a repórter de fofoca – Artie Abrams, fontes me contaram que você tem sido visto sentando na mesa das líderes de torcida! – o foco passa para o cadeirante.
_ Normalmente, eu estou sentado...E sim, eu posso dizer que é ótimo ser popular! Campeões nacionais, baby! – comemora o aspirante a diretor de cinema.
_ Continuamos com o casal mais quente do momento Samcedes. Sam Evans, de mendigo para celebridade local. Como você está se sentindo? – o loiro encara a namorada e dá de ombros ignorando a pergunta ridícula. – Algo a declarar, Mercedes?
_ É ótimo sermos valorizados pelos corredores. Já estava na hora! – comenta a black diva recebedo um olhar de censura do loiro.
_ Ok... Nova proxima entrevistada é Tina Cohen-Chang. É verdade que você rompeu com Mike Chang dias depois de sua partida para Nova Iorque?
_ NÃO! Mike é meu namorado e estamos lidando muito bem com a distancia. – rebate a asiática fugindo de mais comentários indiscretos.
_ Agora, uma conversa exclusiva com os bad boys do Glee Club. Puckerman, o antigo baderneiro que pode ser lembrado apenas como o perdedor que repetiu no último ano.
_ Perdedor? Yeah, mas, ainda posso te jogar na primeira lixeira que aparecer, otário. – ameaça Puck escorado nos armário e rindo do pavor do incompetente blogueiro.
_ É, claro... Bom e quanto a você, garoto brasileiro. Dizem que Quinn Fabray te chutou antes de sair de Lima e que o treinador Taylor tirou a sua braçadeira no atletismo.
_ O quão desesperado por uma surra você ta, cara?
_ Parece que alguém não sabe lidar com a verdade! – o brasileiro esbarra propositalmente no fofoqueiro, que decide infernizar a passagem de Harmony e Rory – Harmony, o que você sente com a marca de trinta mil visitas do seu video no Youtube?
A última imagem que a filmadora registra é soco que Adam acerta em cheio no judeu ao escutar a ofensa. A garota solta um breve “obrigado” e esconde o rosto no peito do namorado Aulas transcorrem em meio a algazarra tradicional da volta das férias e a única surpresa é constatar a pequena fila para as audições do Glee Club. Os veteranos se acomodam nas cadeiras da platéia e Will Schuester separa os candidatos entre o grupo principal e os calouros. Aos poucos, a rotina se sobrepõe a sensação de nostalgia e todos encontram o caminho para algo. Harmony é fundamental para a retomada da concentração nos ensaios, Rory surpreende ao se tornar mais confiante e assumir a liderança. Era algo natural, refletia Mercedes. Um ciclo e o ciclo dos integrantes originais do New Directions estava com os dias contados. Os almoços voltam a ter a barulheira de antes e os novos componentes se mostram incrivelmente dedicados.
Nathan Scott abandona a caracteristica timidez e consegue convencer com passos de hip hop e a respectiva namorada Haley James é ovacionada num solo de arrepiar, a ajudante da asiática no jornal Nellie Veitenheimer deixa de lado a tendência a invisibilidade e se revela um talento no palco, a caloura da equipe de atletismo Aylin Bayramoglu é unanimidade ao arrebentar em uma canção de Adele, o quarterback reserva Blake Jenner consegue um desempenho satisfatório como solista e ninguem se dá conta do garoto que passa a tarde escorado na porta do auditório apenas assistindo as audiênções pela incapacidade que julga lhe tornar inferior aos demais. Charlie Lubeck possuía terríveis problemas aos 16 anos, incluindo hiperatividade e um grau leve de autismo. Novamente transferido de escola, ele queria veemente girar sua vida de cabeça para baixa, porém se sentia receoso para tanto. Por isso, temeu o palco. Temeu o palco, mas, não pode abandonar o recinto depois de ser completamente encantado pela performance da quarta garota. Aylin Bayramoglu, ele jamais esqueceria esse nome. Alguém que também não sairia tão facilmente das vistas de certo brasileiro.
Aylin. Então era esse o nome da garota que herdara o armário há três metros do seu, o armário antigamente ocupado por Quinn Fabray. A coincidência rende a descoberta mais chocante daquele segundo dia de aula. O forasteiro chegara adiantado para a palestra com o diretor e observou a novata escondendo algo no armário e olhando para todos os lados com enorme pavor de ser flagrada. Era obvio. Aylin tentava esconder a sua religiosidade por um motivo muito simples: preconceito. Ao conceber o racicionio, ele guardou seu material, saudou a nova colega de coral e correu para a estranha reunião. Puck lhe alcança no meio do caminho e não acrescenta nenhuma informação nova. Por que diabos numa sala de aula? E quem eram aquelas pessoas?
_ O que os dois bad boys do pedaço fazem aqui? Achei que tinham se graduado.
_ Lauren Zizes? Baby, quanto tempo! – o judeu tenta abraçar a ex-namorada – Nós perdemos o semestre, que merda, não é?
_ Nem me fale! Abandonei a escola para entrar em uma liga de luta livre e não deu tão certo... Resolvi garantir o meu diploma e agarrar uma bolsa de estudos. Então, Ligeirinho, o que o seu padrinho quer com a gente?
_ O que? Will convocou essa reunião?
Will e Emma adentram ao recinto com fisionomias nada amistosas. O descontentamento nada tinha haver com o grupo de onze estudantes ali reunidos, muito pelo contrário. Pela primeira vez, os “formandos de inverno” alcançaram um número tão expressivo e Figgins continuaria a tratá-los com indiferença. A única oferta da escola era uma modesta cerimonia de colação de grau sem direito a beca ou qualquer formalidade. Apenas a entrega de diploma. Nenhum baile, sequer uma confraternização. Pior. O diretor se mostrava tão ocupado que repassara inteiramente a responsabilidade da turma ao coordenador de ensino médio, Willian Schuester e a conselheira Emma Pillsbury. Cientes da ingrata situação, os alunos se unem e elencam que a prioridade era conquistar boa média e alguma grana para uma festa de fim de ano.
_ Nòs poderíamos conseguir patrocionadores. Um comerciante bancou as passagens do Glee Club para Nova Iorque e o pai da Sugar doou novos instrumentos. Talvez, possamos arranjar patrocionadores para a festa, o que acham? – a proposta do enconrequeiro causa boa impressão em todos.
Imeditamente, Daniel sugere o nome do melhor amigo para representante dos alunos, o que é aceito por unanimidade. Outra indicação aprovada instantaneamente é Emma como orientadora da classe. Aquela turma de onze adolescentes tinha um diferencial, além do rótulo de atrasados e perdedores. Era mais do que isso. Tinha iniciativa, ousadia e a presença dos dois caras mais obstinos do New Directions, que nas mãos de Emma Pillsbury só tendiam a se superar.
Os dois encrenqueiros escutavam a fatídica carreira de Lauren Zizes nos ringues na caminhada para o intervalo do almoço ao repararem na confusão que tomava conta dos corredores. O trajeto estava bloqueado por uma orda de alunos, que riam de algo encabeçado pela nova co-capitã das lideres de torcida, Kitty. O trio abre espaço na multidão e encaram o armário arrombado e os pertences de alguém espalhados pelo chão. Dentre os objetos, um véu e um grosso livro é chutado por vários atletas novatos e o bad boy reconhece a nova integrante do coral, sendo repetidamente arremessada contra os armários por duas cheerios, enquanto era ofendida veemente pela líder.
_ O que você vai fazer, muçulmana? – a palavra é dita com rispidez – Eu deveria ligar para o FBI e denunciar essa conspiração! Você ia tentar o que? Acabar com a escola em um atentado? Ia jogar uma bomba em todos nós? – outros rostos conhecidos se juntam ao tumulto e Lauren Zizes toma a dianteira.
_ Que diabos você acha que ta fazendo, magricela? Eu poderia aturar o reinado de Santana Lopez e mesmo que você pareça, está longe de ser Quinn Fabray. Eu mando nestes corredores, entendeu vadiazinha? – a lutadora impõe sua soberania.
Kitty dá um passo para trás e suas comparsas se afastam. Adam e Sam se aproximam dos amigos e não se intimidam ao avistar as raspadinhas nas mãos dos jogadores de hóquei. Mercedes e Tina chegam ao centro do problema e se colocam ao lado de Aylin, que chora copiosamente. Haley, Nathan, Nellie e Blake assistem atordoados ao espetáculo de terror com Charlie Lubeck rangendo os dentes de raiva há apenas três metros, mas, praticamente invisível no mar de adolescentes. Puck ri debochado, dá uma passada e solta a piada que detonaria a ira da aspirante a líder de torcida.
_ Sabe o que falta para você chegar perto dos mitos Santana Lopes e Quinn Fabray? Dormir comigo. Me ligue, gata. – o bad boy esbarra propositalmente no jogador a sua frente e toma o rumo da lanchonete.
_ Você não vai tomar isso, não é? É, eu imaginei. – ironiza o hippie ao apanhar a raspadinha da mão de um atleta e seguir o primo.
_ Você é do Glee Club, certo? – Aylin acena positivamente a indagação de Zizes – Ótimo, qualquer problema que tiver, me avise. Voltei para colocar essa escola nos eixos. – a lutadora manda o “povo circular” e ordena que os primos lhe esperem.
_ Sinto muito por isso... – o carioca coça a cabeça revoltado – Não sei se tenho mais raiva dessa garota ou da mania de lhe compararem com a Quinn.
_ Quinn era uma vadia como cheerio, mas, nunca foi preconceituosa com ninguém. – esclarece Tina.
_ Achei que tivéssemos nos livrados dos valentões... Às vezes, eu chego a pensar que Azimio e Karofsty não eram tão ruins assim. – palpita Sam recebendo uma cotovelada de Mercedes. Não era hora para resgatar velhos problemas.
Harmony e Mercedes se apressam em levar Aylin para recompor e os demais se direcionam para o horário de almoço. Minutos depois, a namorada do irlandês retorma ao convívio dos colegas e lamenta pela decisão da garota em passar o intervalo sozinha. O assunto descorre para algo mais sossegado e Mercedes comenta o novo emprego de Kurt na Vogue e os detalhes do apartamento que dividia com Rachel. Temeroso para que a localização saísse de Nova Iorque para Columbus, o carioca inventa qualquer desculpa e se afasta. A intenção era aproveitar as horas de folga para confirmar seus horários de plantão no fim de semana, afinal, ele e Sam se alternariam para cobrir os turnos de Puck nos próximos dias. Rose Puckerman teria alta e o filho gostaria de estar a disposição. Ao alcançar a saida da biblioteca, a via mais utilizada para quem pretendia matar aula, ele avista a menina turca aparentemente almoçando na escadaria.
_ Você deveria ter escolhido um lugar mais tranqüilo se queria ficar sozinha. – o tom conhecido não desespera a garota que se limita em encará-lo.
_ Entro e saio da escola todos os dias por aqui e nunca encontrei ninguém.
_ É que costumamos usar entre esses dois períodos. Essa é a melhor saida para quem quer fugir da escola... Yeah, eu fazia tanto isso que acabei perdendo o semestre. – a confissão quase coloca um sorriso no rosto dela – Você quer ficar sozinha?
_ Não...Só estava pensando... Isso pode parecer loucura, ainda mais porque estamos no coral e você é o capitão da equipe de atletismo... Mas, você tem olhado para mim? – o rosto de Aylin se torna totalmente vermelho e o atleta explode em risadas.
_ Hum... Não é tanta loucura, mas, não era contigo...Era com o armario... Uau! Eu ouvi e isso pareceu louco...- ela sorri de leve – O seu armário era da minha namorada... Digo... Da garota que eu costumava namorar.
_ Você costumava namorar? Definitivamente, soa como um problema.
_ Quinn Fabray. Eu costumava namorar Quinn Fabray. Nós nunca tivemos aquela conversa, sabe? A conversa que você tem quando a sua namorada vai para a faculdade na capital e você fica preso no ensino médio. – o rapaz recosta a cabeça na parede.
_ Deve ser difícil... E vocês deram um tempo? – a menina senta-se mais perto do atleta.
_ Não sei... Honestamente, acho que nós rompemos e eu tinha medo de admitir, de dizer isso em voz alta. É, nós terminamos. – ele coloca um sorriso triste no rosto.
_ Sinto muito por isso... E nem não tão louco... É mesmo um ótimo armário... – a brincadeira rende a primeira gargalhada feminina depois da confusão.
_ É, a garota também não é nada mal, sabia? E não estou falando apenas da Quinn. – ela agradece a gentileza – Tenho que resolver algumas coisas. Acho que te vejo no treino!
Aylin confirma com um gesto de cabeça e se despede do brasileiro com um mero aceno. A sua intenção estava mais do que definida. Guardar seu material, apanhar o necessário para a pratica esportiva e se esconder na biblioteca pelo restante das aulas. Não havia razão alguma para adiantar o confronto com os estudantes. Muito estranho. Os corredores estavam desertos, afinal estava no horário de almoço, contudo, havia um rapaz, sentado em frente ao seu armário, balançando a cabeça ao ritmo de uma música que deveria ser oriunda dos fones em seus ouvidos. Moreno, cabelo levemente encaracolado, alto e totalmente alienado do mundo. Ao puxar pela memória, ela lembra de fazer algumas matérias em comum. O que ele poderia querer? A garota se aproxima e fita o armário. Um cadeado e nada mais de seu estava jogado ao chão. Algo muito esquisito estava acontecendo ali.
_ Ei...O que você ta fazendo aqui? Por acaso, está me esperando? – o rapaz tira os fones, guarda o celular no bolso e se levanta. É, ele também era bem alto.
_ Na verdade, sim... Eu notei que aqueles idiotas arrebentaram o trinque do seu armário e bom, achei que precisava trancá-lo de alguma forma... Você quer a chave, não é? – ela gesticula positivamente – Pode ficar. Agora, é sua. – ele sorri timidamente e leva uma das mãos a parte de trás do pescoço. O garoto era extremamente tímido.
_ Eu agradeço, mas, deve servir para guardar alguma coisa sua, certo? Um cadeado não é o tipo de coisa que a gente usa nas aulas. – a fala dela arranca um riso nervoso.
_ Era da minha bicicleta, mas, alguém me faria um favor se roubasse aquela velharia.
_ Isso foi tão gentil... Muito, muito obrigada... E todas as minhas coisas estão organizadas, imaginei que perderia metade das minhas anotações. Você fez isso? – a turca jamais esperaria algo tão adorável após tamanha humilhação.
_ Sim, as meninas do clube do coral também ajudaram... Acho que eram Sugar e Brittany?! New Directions, não é? – ela confirma o palpite – Vocês devem ser bem unidos. Bom, eu tenho que correr... Não quero pegar os restos na cantina.
_ Espera... Você ficou me esperando desde aquela hora? – ela se surpreede.
_ É, seria estúpido te deixar sem as suas coisas. – o rapaz sorri e lhe deixa com vontade de corresponder. Charlie Lubeck joga a mochila nas costas, se vira e desaparece rapidamente do seu campo de visão. Charlie Lubeck, lembrava-se do nome na chamada da aula de história. Ela pensa no tempo que ele perdeu sentado diante do seu armário. Relembra a defesa escancarada dos garotos do coral e aprecia a preocupação honesta das amigas com seu bem estar. De repente, ela tinha mais motivos para continuar do que para abandonar a Escola Secundaria Willian Mckinley. Muito mais se considerar as novidades que presencia no treino de atletismo. Enquanto Aylin é abraçada constantemente pelo carioca e elogiada pelo bom desempenho na corrida com obstáculos, Kitty tinha ouvido aos gritos da furiosa Sue Silvester, era rebaixada a base da pirâmide e teria que cumprir detenção por duas semanas.
Na manhã de sexta-feira, o cadeado seguia intacto, o mesmo não poderia ser dito sobre o armário, que estampava a ofensa “terrorista” pichada em letras garrafais. A garota respirou fundo, pegou o livro de química e rumou para a sala de aula. No terceiro período foi obrigada a gargalhar ao constatar que todos os armários do pessoal do Glee Club estavam marcados com alguma palavra bizarra e que o diretor Figgins conduzia Daniel, Puck e Sam para a detenção. Eles acenam e as manchas de tinta nas mãos e nas roupas evidenciam a autoria da manobra de apoio e a mudança da pintura para trechos da música que interpretou na audição: Rolling in the deep. Ao se encaminhar para o ensaio, Aylin descobre a última marca “gleek” no encaninho de Charlie.
_ Gostei da sua arte, Lubeck.
_ Eu vi o pessoal do clube do coral pintando e decidi participar. A causa valia a pena. – ele sorri timidamente.
_ Eu vou algum dia conversar contigo sem precisar agradecer? – inesperadamente, ela beija a bochecha dele, que cora de imediato – Alguma chance de te encontrar no coral?
_ Não sei, eu vi os testes... A sua voz é lindíssima, todos são bem talentosos... Eu não sei... – ele leva a mão para a parte de trás do pescoço e suspira indeciso.
_ Você vai adorar...A causa vale a pena, eu prometo.
I don't give a damn 'bout my reputation
You're living in the past it's a new generation
A girl can do what she wants to do and that's
What I'm gonna do
An' I don't give a damn ' bout my bad reputation
Ele concorda e o abraço lhe deixa ainda mais sem jeito. Aylin já havia descoberto que Charlie Lubeck era adorável. Duas horas depois, o coral se reúne para dar as boas-vindas ao mais novo integrante e saudar o retorno em grande estilo de Lauren Zizes, que havia restaurado o relacionamento aberto com o maior encrenqueiro do pedaço. Falando nos bad boys, o trio só conseguiu escapar do castigo no meio da atividade. As advertências se transformam em aviões de papel e roubam a atenção do discurso do maestro a respeito do número da semana, liderado por Aylin. A lutadora sugere Bad Reputation e recebe os aplausos do maestro. A primeira performance depois da perda dos seis integrantes renovou a empolgação do professor de espanhol, que finalmente enxergou uma possibilidade real de se manter no topo nacional dos clubes musicais. A potencia vocal de Aylin é impressionante, os passos de Brittany são rapidamente repetidos por Nathan, Haley e Blake, já Charlie demonstra um timbre revolucionário. Com algum tempo de trabalho, ele poderia se tornar o grande cantor do grupo, superando mesmo Blaine, que herdara a posição de estrela deixada por Rachel Berry.
I don't give a damn 'bout my bad reputation
You're living in the past
It's a new generation
An' I only feel good
Perto das dez da noite, o brasileiro se despede dos padrinhos, liga o carro e dirige para o escritório da Empresa de Segurança Chang para cumprir o horário do melhor amigo outra vez. Trabalhar até as quatro da manhã era péssimo, porém, a causa valia a pena. Rose estava se restalecendo da cirurgia e receberia alta pela manhã. Sam chegaria no meio da madrugada para substitui-lo. A dupla desejava a recuperação rápida a mãe do companheiro, entretanto, ainda mais fortemente gostariam de virar a noite com funções mais de acordo com seus dezoito anos. Se Lima era conhecida nacionalmente pelo marasmo durante o dia, imagine o tédio no período noturno. Após uma hora de plantão, Daniel já tinha perdido as contas de quantas vezes havia atualizado a página do Facebook sem achar nada interessante. Nada até aquela janela surgir em seu monitor. Quinn Fabray. Desde a festa de despedida há três semanas não existiu contato entre o quase casal. Era o que estava prestes a mudar ao ter aceitado o convite para uma videoconferência com Quinn Fabray.
_ O que uma universitária faz em casa na sexta-feira? – ele ri ao revê-la pela webcam.
_ Sentindo saudades? E você, trabalhando no turno da noite?
_ Eu e Sam estamos cobrindo os plantões do Puck, para que ele possa cuidar da mãe.
_ Isso é bem legal... – o sorriso dela ainda mexia demais com ele – Então, como estão as coisas? Soube que as audições para o Glee Club foram ótimas.
O relógio no canto da tela do computador marcava 23h07min, quando a videoconferência foi iniciada entre Lima e Columbus. As risadas ecoaram pelo dormitorio da Universidade Estadual de Ohio e a madrugada jamais foi tão divertida na empresa de vigilância. A conversa rolou de forma tão natural que as semanas de silêncio foram consideradas uma estupidez sem precedentes. Quinn relatou que almoça diariamente com Finn e divide seu quarto com uma aluna de Moda com uma vontade inacreditável de badalar. Brooke Davis também tinha origem em cidades do interior e queria ganhar o mundo com seu talento para desenhar roupas, contanto que antes pudesse beber e conquistar metade do planeta. Na mesma noite, a estudante teria praticamente implorado que fossem a uma festa de apresentação de uma fraternidade. A loira recusou e confessou que estava em excelente companhia, mesmo que de forma virtual. O carioca, por sua vez, narrou os episódios na escola, a conturbada semana e a volta surpreendente de Lauren Zizes. Pouco antes da troca de plantão, a porta do dormitorio foi escancarada e uma jovem atraente, de cabelos desgranhados e mortalmente embrigada surgiu no campo de visão do rapaz. A festa estava uma droga, são as primeiras palavras que ele compreende de alguém que deveria ser Brooke Davis, natural de alguma cidadezinha da Carolina do Sul, próxima de Charleston.
_ Você acabou dividindo seu quarto em Columbus com uma garota de Charleston? Isso só pode ser algum tipo de piada do universo ou algo assim. – debocha o rapaz.
_ É muita coincidência, não é? Como se eu precisasse de algo tão louco para lembrar de você. Faço isso o tempo todo. – ela confessa arrancando um sorriso dele.
_ É bom, porque basicamente para qualquer lugar que eu olho tem algo da gente. – ela retribuiu com um fofo – Uau... São quase quatro horas! Preciso desligar para terminar o relatório e esperar pelo Sam... E quais seus planos para o sábado a noite?
_ Você está mesmo me chamando para um encontro, estrangeiro? – ela sorri.
_ Se você chama uma conversa pelo skype de encontro, sim, eu estou.
_ Então, você já sabe o meu plano para o sábado a noite. Te espero pelas dez da noite?
Ele concorda com o horário e se despede com um simples boa noite. O loiro chega bocejando e reclamando de sono pelo péssimo horário. O imigrante repassa as instuções mais pontuais e se despede logo para cair na própria cama. No sábado, o primeiro ato é parar na casa do comparsa para visitar Rose Puckerman e se alegra com a boa melhora. O judeu alerta que a maioria dos gleeks estava combinando de se encontrar a noite no Breadstix, opção rejeitada por ambos. Emma faz a gentileza de preparar um lanche para o afilhado antes da saida para o emprego. O rapaz realiza as eventuais rondas, agiliza o relatório deixado pelo funcionário anterior e entra no site de relacionamentos. Os minutos transcorrem e ao notar que a disponibilidade de Quinn não mudaria para on-line conforme o acertado, ele apanha o celular e disca o número rapidamente.
_ Celular da Quinn. Brooke falando. – o timbre da voz desconcerta o rapaz.
_ Ei, Brooke...Tudo certo? Nós conversamos ontem pela webcam. É o Daniel, de Lima.
_ Ah, eu lembro vagamente de você, gato, espero não ter dito muitas idiotices.
_ Não, foi até engraçado... Então, você acha que eu poderia conversar com a Quinn?
_ Olha, gatinho...Ela está terminando de se arrumar, nós estamos atrasadas para a Festa de Recepção aos Calouros, mas, posso chama-la se quiser.
_ Não, deixa para lá... Eu ligo outro dia... Bom, se divirtam!
Ele desliga, joga o celular na mesa e se larga na cadeira frustrado. É obvio que ela tinha esquecido, obvio que teriam outras prioridades, obvio que não faziam mais parte do mesmo mundo. A loira termina de se aprontar e nota a colega de quarto mexendo em seu aparelho de telefone. Brooke elogia a beleza do ex-namorado e cita a ligação. Quinn leva a mão a própria testa pelo torpe esquecimento e cogita cancelar a ida para a comemoração. A alternativa é descartada sumariamente pelo animo exorbitante da estudante de moda e a loira, ainda relutante, acaba sendo arrastada para o centro de confraternização da Ohio State. Logo, reconhece o semblante descontente de Finn cercado por outros jogadores do time de futebol americano e troca algumas palavras com companheiros de faculdade. O grandalhão sorri, acena e se aproxima. Outra briga com Rachel. Afinal, ninguém nunca havia dito que manter um relacionamento a distância era fácil, a aflição era que jamais imaginaram que seria tão complicado.
“A noite está horrível. Podemos te fazer companhia?”. A mensagem de Mercedes arranca um sorriso do seu homem. Até parece que Mercedes precisaria pedir permissão para algo. Por volta das duas da manhã, Mercedes, Sam e Tina surgiram na rua deserta e descobriram com alguma insistência o motivo para a retidão do brasileiro. A negra ressaltou que perdera as contas de quantas vezes suas ligações não foram atentidas por Rachel, Kurt e Quinn. O mundo fora de Lima deveria ser exageramente interessante. O loiro se acomodou no sofá e pediu para que fosse despertado no momento da troca de vigilância. A namorada sentou ao lado e ofereceu o colo ao adorado branquelo. Foi Tina quem apontou para o sono arrebatador de Samcedes. A asiática puxa uma cadeira à direita do funcionário e começa um verdadeiro interrogatório sobre o sistema de alarme.
_ Se eu não te conhecesse, juraria que você ta planejando um roubo em Lima! – brinca o brasileiro – Me conta, porque a noite estava tão horrível para vocês se esconderem aqui?
_ Não estava “horrivel’, eu diria esquisita. Não tem a menor graça nos reunirmos sem os “bad boys”. Sam estava preocupado em perder algum aviso seu, Blaine e Brittany só reclamavam de estarem com saudades...E os calouros não estavam muito a vontade.
_ Eu sou um cara mal agora? – ela estapeia o braço dele – Essa loucura de horários deve acabar logo. Prometo que estaremos na próxima noitada...Agora, eu não acredito que só Santana e Kurt façam falta.
_ Não, eu sinto falta do Mike o tempo todo. Cada música que eu canto só consigo imaginar nos passos que ele inventaria... E isso que aconteceu com a Quinn, dói, não é? Na primeira semana em Nova Iorque, Mike nunca ficou on-line e mal atendia aos meus telefonemas... E eu posso te adiantar que não melhorou muito com o passar do tempo.
_ Que merda. Então, qual o seu segredo? Nunca te escutei reclamar da distância... Bom, não que seja possível escutar alguém depois que o Blaine começa a choramingar.
_ Não tem segredo nenhum... Eu só entendi. Existe um mundo inteiro lá fora e eu deveria culpar o Mike por viver o seu sonho?
_ Uau... Isso ta soando como um rompimento, mas, vocês estão juntos ainda, não é?
_ Yeah, porque eu entendi que termos sonhos diferentes não significa que não vamos ficar juntos. Sabe, eu quis mesmo terminar... Na terceira semana, estava cheia de falar com a caixa postal dele... Mas, quando ele me retornou... Contou que tinha aprendido um novo passo e que poderia ser útil para o New Directios nas Seletivas. Você entende? Ele está cuidando das suas coisas, mas, eu ainda faço parte da sua vida. Isso me bastou.
_ Faz sentido, só acho que não funciona para Quinnel. – ele sorri fracamente ao utilizar o apelido – Eu to um passo atrás, sabe? Depois de tudo que a Quinn passou seria injusto impedir que tivesse essas experiências. Eu também tenho que encontrar algum caminho ou um jeito de realizar o meu sonho. – a asiática escora a cabeça no ombro dele.
_ É exatamente a mesma coisa, você só não percebeu ainda... Certas pessoas são destinadas a ficar juntas...E eu apostaria que vamos todos nós sair muito bem. – ele sorri satisfeito – Ei Dan, eu poderia fazer mais vezes? Pedir um abraço quando eu sentir saudades?
_ Fala sério, Tina, eu vou estar por perto sempre que você quiser.
Fale com o autor