Migraine

1 e mergulhou no próprio reflexo


Notas iniciais
Chegou a florzinha do Nyah!, eu mesma!!! ♥ Essa é uma das mil histórias que comecei nas férias, mas só vim terminar agora! ♥ Acreditem em mim quando digo que a temporada de one shots da Queen Vee não acabou, porque meu Drive tá lotado de viadagem!!!! Cheguei aqui com um angstzinho na moral, pra mudar os ares de fofura que vocês têm encontrado!!!! ♥ Espero que gostem!! Obrigada por lerem! ✿ e n j o y ✿

“Às vezes a morte parece melhor

que a enxaqueca na minha cabeça”

— Twenty One Pilots

O som da centrífuga da máquina de lavar fazia a cabeça de Narciso doer.

Honestamente? O ruído constante do ponteiro de segundos do relógio também fazia. Bem como as vozes que vinham da rua, o som do vendedor de picolé chamando atenção para seu produto e as rodas dos carros arrastando no asfalto periodicamente. Todo o conjunto da obra da orquestra sinfônica cotidiana fazia sua enxaqueca enlouquecer.

O ventilador, repousado sobre uma cadeira, girava. O dia era tão quente que o rapaz se via quase derretendo, jogado sobre o sofá velho da sala. Apesar de desejar fechar as janelas só pra não ter que ouvir mais barulho nenhum, sabia que o calor ficaria insuportável.

Além de que ele tinha plena consciência de que os ruídos não vinham só de fora. Nem de dentro da casa, também! Narciso sabia que, mesmo que se isolasse de tudo, o barulho ainda existiria dentro da sua cabeça.

O braço esquerdo repousava sobre os olhos, tentando afastar a claridade. Sempre que erguia as pálpebras pesadas, tinha uma visão turva, e sentia dor atrás dos olhos. Ou talvez, no fundo, ele estivesse apenas tentando se distanciar do que o lembrasse de que ainda estava ali, naquela casa.

A centrífuga havia parado, terminando o ciclo do eletrodoméstico, mas sua cabeça ainda doía. Aquilo só comprovava aquele pensamento do qual ele vinha fugindo, então ele desejou poder se dopar de aspirinas.

Infelizmente”, ele pensou ao segurar a cartela de comprimidos na frente do rosto, “ tenho mais duas”. Com um suspiro pesaroso, o rapaz largou a aspirina no chão e se virou de frente ao estofado do sofá, encolhendo-se como criança. Talvez conseguisse dormir. Talvez conseguisse fugir da dor e dos próprios pensamentos.

Entretanto, assim que fechou os olhos, Narciso sentiu náuseas. Talvez fosse a doença… Mas ele tinha certeza que não era essa a resposta. Tinha a ver com o primeiro pensamento que lhe veio à mente quando suas pálpebras descansaram.

Prendendo a respiração por uns segundos, tentou mergulhar no pensamento, e se afogar. Com os pulmões cheios de delírios e suspiros, ele submergiu no reflexo de sua alma.

...

Naquele momento, se perguntou qual foi a última vez que ele sentiu seu coração bater tão rápido. Conseguia ouvir o som das pulsações rápidas em seus ouvidos, e suava frio. As mãos, trêmulas, esmagavam os dedos nas palmas suadas, e suas pernas pareciam ter desaprendido a manter seu corpo firme no chão.

Queria vomitar. Queria gritar. Queria botar tudo pra fora, seja lá o que fosse “tudo”.

Foi naquele momento que sentiu sua enxaqueca voltar. Além dos pulsos acelerados do peito, ele sentiu a cabeça latejando. A dor crescia, pulsava, intensa, dos dois lados da cabeça, e ele não sabia mais se era doença ou estresse.

Então, seu olhar encontrou o de mais alguém. Por uma fração de segundo, sentiu o peso de um olhar curioso e confuso, talvez até preocupado. Se fosse de um desconhecido, não se importaria, honestamente. Mas… Não era. Era seu amigo. Ali, em pé a alguns metros, de mãos dadas com uma garota que Narciso nem reparou no rosto.

Sentiu as náuseas ficarem mais intensas. Desviou o olhar do rosto do rapaz, ignorou a existência da menina. Fechou os olhos, respirando fundo, e sentiu como se os pulmões estivessem cheios de água e ele fosse sufocar.

Sem querer desabar no chão no meio da praça principal do centro da cidade, ele virou de costas e correu pra longe, se batendo nos ombros das pessoas. Só conseguia ouvir a respiração trêmula e o som da pulsação ecoando em seus ouvidos.

Talvez, quem sabe, tivesse imaginado a voz de seu amigo gritando seu nome…?

...Na primeira esquina, apoiou a mão num poste e vomitou.

Quando as lembranças do ocorrido de uma semana atrás se misturaram com seus sonhos, Narciso se viu mergulhado em um pesadelo. Acordou repentinamente, erguendo o tronco do sofá, com uma exclamação assustada e o corpo suando frio.

A sala não estava mais banhada pelo sol quente, mas o ventilador continuava girando tranquilamente. As ruas lá fora não estavam mais tão movimentadas como antes, e ele só ouvia o farfalhar discreto das folhas que, finalmente, eram beijadas por uma brisa gentil. Então, era o crepúsculo.

Ainda ofegava, buscando encher os peitos de ar. As mãos afastavam os cabelos do rosto ainda úmido de suor, e os olhos corriam pelo cômodo escuro, minimamente iluminado pelos feixes de luz de um céu púrpura, indo ao azul escuro. Seu estômago ainda revirava como em seu pesadelo — talvez pelo estresse, talvez pela fome.

Esfregou o rosto molhado, tentando retornar para a realidade. Quantas horas haviam se passado? Os olhos cansados se focaram nas hélices do ventilador, girando sem parar. Era daquele jeito que se sentia.

Por um momento, recuou as pernas, puxando-as na direção do corpo e abraçando-as. Ficou ali, quieto, encolhido como uma criança com medo. Tentou regular a respiração, inspirando e expirando profundamente, tal qual sua terapeuta havia orientado. Desassociou do mundo, desligando a cabeça por dois longos minutos.

Talvez tivesse conseguido ficar ali mais algum tempo, se um som não tivesse tirado sua atenção. Uma notificação de seu celular, largado no chão. Tentou lutar contra o impulso, mas perdeu: se inclinou e pegou o aparelho, lendo a tela de bloqueio.

42 mensagens de 3 conversas”.

Aquilo não fez seu estômago revirar menos.

Respirou fundo novamente. Estava fugindo.Tentava correr pra longe, mas parecia mais correr em círculos. Nunca iria conseguir escapar de si mesmo, nem dos próprios pensamentos. Até porque, aparentemente, nem dormindo ele tinha algum descanso.

Arriscou, e inseriu o padrão de segurança no celular. No mesmo momento em que abriu o aplicativo, achou que fosse vomitar em cima do sofá. Três conversas. A mais antiga mensagem vinha de um grupo do Clube do Livro que frequentava. Ignorou. Não era essa conversa que lhe preocupava.

As duas mensagens mais recentes vinham de seus maiores medos, e foram elas que deixaram Narciso nauseado o suficiente para desejar ainda estar dormindo. Sentindo os ouvidos zumbindo e o corpo frio, encarou a tela.

Mãe. Sua mãe era o segundo contato mais recente.

Narciso, cadê você? Você tá bem?

Eu já te liguei várias vezes durante a semana. Por que não tá atendendo?

Mordeu o lábio enquanto lia as mensagens, e se perguntou se era algum crime desejar não ter uma mãe que o amava tanto. Aquele era um dos (não raros) momentos em que ele só desejava sumir e ser esquecido.

Saiu da conversa o mais rápido possível. Talvez ela se sentisse menos pior depois que visse que ele tinha visualizado? — Era uma mentira que contava para si mesmo para se fazer sentir melhor ao negligenciar a existência das pessoas que se importavam com ele. Não sabia lidar com aquilo. Não naquela hora.

Infelizmente, ver a mensagem que sobrou não o fez sentir melhor. Tinha certeza que o monstro que imaginava para representar sua enxaqueca estava saciado. Visualizava uma criatura enorme, feita de metal enferrujado, que é cega. Ela não enxergava, mas ela senia o cheiro de medo, insegurança, tensão… E corria até lá, destruindo tudo, faminta.

Sabia que estava alimentando aquele monstro, porque sentia a cabeça ficando zonza.

Espremeu as pálpebras no escuro do quarto, olhando para aquele contato. Já sabia. Sabia que veria ele ali, porque ele sempre fora aquele tipo de pessoa. Aquele tipo que lembra de você quando vê algo que você gosta na rua, que lembra do cheiro do seu perfume, e o tipo que manda mensagem perguntando se você está bem.

Às vezes queria que ele não fosse esse tipo de pessoa, o que também deveria ser algum tipo de crime federal grave.

Leu o seu nome várias vezes antes de clicar na mensagem. Sabia o que ia ver, e sabia que ia doer. Podia ouvir o rosnar do Monstro da Enxaqueca, e seu estalar metálico ao se aproximar. Seria devorado no exato instante que abrisse aquela conversa.

Cara, você tá bem? Sua mãe ligou, ela tá preocupada!

O que foi aquilo na sexta?
Narciso, você nem tá visualizando mais! O que foi??

Se não me responder, vou achar que você morreu.

Narciso?????

Cada mensagem que lia era um soco na boca do estômago, e um indício de que sua cabeça não ia parar de latejar tão cedo. Foi exatamente por isso que tinha decidido dormir horas atrás, e por isso que preferia lutar contra a barulheira da rua do que passar o domingo sendo produtivo. Não sabia lidar com aquelas mensagens.

Não sabia lidar com David.

Notou o amigo digitando no chat, o que foi só mais um incentivo para que apagasse a tela do celular e o largasse no chão, de onde nunca deveria ter saído. Mais uma vez, se viu abraçando as próprias pernas e dissociando de tudo que estava acontecendo.

O som da centrífuga seria mais harmonioso de se ouvir do que os gritos em sua mente, e foi por isso que Narciso deitou outra vez. Não se importava de dormir por 17 horas seguidas, se isso significasse fugir de si mesmo, e ignorar a própria enxaqueca.

Narciso, eu te disse que a gente ia continuar só amigo…
É por isso que você tá tão mal?

Achei que você entendesse.

Preferia as náuseas, as dores atrás dos olhos, a cabeça dolorida.

Foi só um beijo.”

A morte.

Fez como o Narciso mitológico, e mergulhou no próprio reflexo outra vez.

A vida fazia a sua cabeça doer.

Notas finais
Essa vai pra a galera que tem enxaqueca ou dores de cabeça constantes!!!! :'0 Essas situações de estresse são uma bosta mesmo. Fiquei até com pena do bichinho Narciso. COMENTE O QUE ACHOU, EU VOU AMAR LER! E pode meter textão que eu amo!!! ✿ beijocas purpurinadas, Queen Vee~ ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!