Midnight Virus

3 Only Human


Notas iniciais
Estou muito feliz com os primeiros leitores da fic! Obrigada

O cabelo louro trançado caía graciosamente sobre as costas de Jaime, enquanto ela cozinhava espaguete. Seu estéreo tocava uma música alta e ela cantava sem se preocupar em ser ouvida. Hazel já havia dormido, e agora ela só acordaria quando o sol dissesse que sim.

– Jaime? – a voz da sua tia Lys soou, um pouco antes do som de uma porta se fechando. Jaime correu para abaixar o som.

– Sim, tia? – a loura forçou um sorriso, virando apenas um pouco o rosto.

– Sua irmã já está em casa? – a velha falava alto, por ter a audição já precária, danificada.

– Sim, tia.

– Onde ela estava?

Jaime engoliu em seco. Sua tia não sabia o que ela e Hazel eram de verdade. A pobre coitada não aguentaria.

– Tinha saído com uns amigos. Mas ela já está em casa.

A velha bufou.

– Não faz nada em casa, só fica saindo, menina mais que inútil, igualzinha ao pai. E você? Arrume tudo quando terminar. – ela estalou as vértebras, e seu rosto se contraiu numa careta dolorida. – Vou deitar um pouco. Minhas costas estão me matando.

Quando a velha desapareceu depois das escadas, Jaime lhe estendeu o dedo do meio com vontade. Não sabia mais o porque de morar com ela. Hazel já era maior, e Jaime faria dezoito anos em quatro semanas. As duas poderiam muito facilmente se mudar, manter as contas com trabalhos de meio período e a faculdade integral.

Ela serviu-se generosamente com espaguete. Foi para os fundos da casa de fazenda, se sentando nos degraus da varanda. Era um terreno enorme, mas pouco explorado. Sua tia tinha apenas algumas galinhas, duas vacas raquíticas e o cachorro fugiu há três anos.

Jaime viajava em pensamentos. Por viver a sete quilômetros da cidade, as luzes de Torrington não chegavam até lá. E o céu que via era deslumbrante. Todas as galáxias, vias, estrelas e a lua, branca e cheia.

Em cinco minutos, seu macarrão já havia acabado, e o frio começava a afetá-la. Entrou, trancou as portas, e limpou o que havia sujado. O relógio chique que sua tia mantinha na sala dizia que pouco passava das onze horas. E, ao lado dele, os quadros e fotos em família. Tinha uma onde estava ela, Hazel, sua mãe e seu pai. Sua mãe era linda, com cabelos louros como os seus, só que seus cabelos eram muito cacheados e cheios. Seus olhos eram castanhos, rodeados por rugas de riso. Hazel devia ter dez anos quando a foto foi tirada. Usava marias-chiquinhas e tinha cara de emburrada. Provavelmente por causa do vestido vermelho que sua mãe lhe fizera usar para tirar a foto. Já Jaime, tinha os cabelos curtos demais para prendê-los na época. Tinha seus quatro anos, e se agarrava na barra da saia de sua mãe, assustada. E parte da foto onde estava seu pai havia cortada. Só conseguia ver a roupa que usava, mais nada. Não sabia como era seu rosto, seu cabelo, com o que se parecia.

Ao lado dessa, uma mais recente. Havia sido no aniversário de vinte anos de Hazel. O cabelo dela estava ainda maior do que estava hoje, graciosamente ondulado e negro como a noite. O de Jaime já era liso por natureza, e na época ela usava uma franjinha e o cabelo Chanel. Olhando assim, elas não tinham absolutamente nada em comum, não sabia como eram irmãs. Apenas os olhos. Estes eram iguais. Azuis elétricos, como o de mais ninguém. Só elas tinham esse luxo.

Sua cabeça começava a pesar. Estava cansada e teria coisas para fazer amanhã já pela manhã.

Foi para seu quarto e trancou a porta. Nem sequer trocou suas roupas. Deitou a cama e lá tudo se tornou escuro.

❉

– Jaime, acorde. – a voz de Hazel não entrou completamente em sua mente adormecida. Levou um tempo para que Jaime se desse conta que de fato estava dormindo. Ou melhor, acordando.

– Humm... – ela tentou responder, mas tudo o que conseguiu foi um gemido embargado. Estava cansada, e seus sentidos voltavam em ondas desiguais.

– Levante logo. Tenho que te deixar na faculdade e resolver outras coisas. – Jaime abriu uma fresta entre os olhos o bastante apenas para que não voltasse a dormir. Hazel estava desembaraçando os cabelos com os dedos, olhando pela janela. – Ou prefere carona no Chevette fedido a cachorro da velha? A escolha é sua.

Jaime fez um impulso e acabou caindo da cama num estrondo. Hazel riu, enquanto a irmã estava tonta no chão.

– Tô acordada – ela repetiu algumas vezes.

– Cinco minutos, loirinha. – Hazel saiu do quarto, e Jaime correu para se arrumar. Tomou o banho mais rápido da sua vida, e escolheu as primeiras peças de roupa que apareciam no seu campo de visão. Calçou os tênis e correu para fora da casa.

Hazel falava no celular encostada em sua picape GM cinza. O carro era velho, com alguns arranhões e um amassado pequeno no fundo. Mas enquanto funcionasse, estava de bom tamanho. Quando encontrou a irmã parada na porta, desligou o aparelho e guardou no bolso.

– Pronta?

– Pronta.

Elas entraram no carro e Hazel dirigiu até a cidade. Não era muito grande nem com muito trânsito, mas era incrível como tudo parecia afastado.

– Jaime, preciso falar com você. – quando a picape parou na sinaleira, ela começou a falar, e não esperou pela resposta da irmã para prosseguir. – Vamos encontrar com o pai amanhã.

Jaime engasgou.

– Espera, espera, espera! Vamos? Eu não vou encontrar com ninguém, muito menos ele!

– Eu não estava perguntando. – curta e grossa.

– Hazel, não pode me obrigar...

– Quer viver a vida toda renegando o que você é? – o tom cresceu e Jaime estremeceu em seu assento. Olhou para frente, evitando qualquer contato. Sabia que fedia medo. – Você não é humana. Eu não sou humana. Nosso pai também não. Pare de fingir que vamos um dia ser normais, porque não vamos!

– Que merda, Hazel! – por algum motivo, lágrimas começavam a nascer nos cantos dos olhos. Jaime se livrou delas, irritada. – Não posso abandonar tudo assim, sabia? Tenho uma vida aqui!

– E terá uma lá também! Mas do jeito certo. Eu preciso de um tutor. Não posso me controlar direito! Agora mesmo? Ah, quero arrancar sua cabeça fora! – Hazel pisou no acelerador, um instante antes da sinaleira abrir. – E logo será com você também! Não quero me mudar pra lá, quero aprender o que eles já sabem. Não vai levar muito tempo.

Houve um minuto de silêncio.

– Vai vir comigo, Jaime? – sua voz havia baixado o tom em níveis. Jaime sentia o cheiro, ela não exauria mais aquele odor odioso e irado. Acalmava-se em etapas.

– Vou, Hazel.

Ela sorriu, e a abraçou.

– Fico feliz, irmã. Quando chegar da faculdade, arrume suas coisas. Sairemos antes do amanhecer.

Notas finais
Não está muito grande, mas na correria, foi o que eu consegui! No próximo capítulo as coisas começam pra valer!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.